Print do perfil @Twitter com o novo selo de verificação cinza/Oficial.
Imagem: @esthercrawford/Twitter.

O Twitter terá um segundo selo de verificação, disse Esther Crawford, diretora de produtos da empresa. Esse novo selo, cinza e com a palavra “Oficial” ao lado, não será vendido e herdará a função do selo original, azul: atestar a veracidade de um perfil na rede. Veja a imagem acima.

Nem todos os detentores do atual selo de verificação, que ainda não está à venda, serão elegíveis ao novo selo “Oficial”. Segundo fontes da newsletter Platformer, existem hoje cerca de 100 mil usuários do Twitter verificados/com o selo azul.

Comercializar o selo azul, a grande obsessão do novo dono do Twitter, cada vez mais parece uma estratégia para criar classes dentro da rede social. A promessa é de que os usuários pagantes tenham preferência no algoritmo, ou seja, tem maior exposição quem pode pagar. Via @esthercrawford/Twitter (em inglês).

Atualização (15h10): O Twitter chegou a distribuir o novo selo cinza “Oficial” a alguns perfis, mas Elon Musk já voltou atrás. Em resposta a uma crítica do youtuber Marques Brownlee, Musk disse que “acabou com aquilo [segundo selo]” e que “o selo azul será o grande diferenciador”.

Em mais um capítulo da longeva série “não confie em grandes empresas”, duas fontes distintas afirmam que o Revue, serviço gratuito de newsletters do Twitter, será encerrado no fim deste ano. Pior: já existem sinais de abandono do serviço, segundo relatos em redes sociais. Via Platformer (em inglês), Núcleo.

Elon Musk começou as demissões em massa no Twitter. Segundo um e-mail enviado na noite de quinta (3), os funcionários receberão um e-mail nesta sexta (4) com o assunto “Seu papel no Twitter”. Se a mensagem chegar no e-mail profissional, significa que o funcionário não foi demitido. Se for no e-mail pessoal, adeus.

Ainda não se sabe quantos serão demitidos. Os últimos rumores indicam 3,7 mil, ou cerca de 50% da força de trabalho.

Demitir milhares de pessoas numa sexta-feira e por e-mail, após dias de rumores e ameaças, criando um clima de terror dentro da empresa, diz muito da pessoa de Elon Musk. É desprezível. Via Washington Post (em inglês).

US$ 20 por mês para manter meu selo azul? Foda-se, eles é que deviam me pagar. Se isso for instituído, estou fora igual a Enron.

— Stephen King, comentando a ideia de Elon Musk de cobrar mensalidade pelo selo azul de verificação.

Musk respondeu King e propôs um valor menor, de US$ 8 por mês. Mais tarde, oficializou a ideia ruim com uns penduricalhos adicionais e, depois, fez chacota com os críticos.

O selo azul de verificação sinaliza que um perfil é de quem diz ser, e apenas isso. Não tem valor de autoridade, mas algumas pessoas (e Musk parece estar nesse grupo) o encaram assim.

Cobrar pelo selo de verificação não resolve nenhum problema do Twitter. Pelo contrário: cria um balcão para a venda de legitimidade na plataforma — e por uma mixaria.

Imagine o tanto de golpistas que não pagariam felizes US$ 8 para terem um endosso da plataforma? De propagadores de desinformação explorando essa noção torta de que o selo azul confere autoridade para bagunçar ainda mais o debate público? (Ainda mais agora, com as ferramentas de moderação do Twitter restritas.)

O sistema de verificação do Twitter é historicamente falho, mas botar um preço nele é, provavelmente, a pior “solução” em que alguém poderia pensar.

A ideia de que os poucos interessados em pagar para manter o selo azul faria alguma diferença nas contas do Twitter é ridícula. Não há escala para isso e, como Stephen King apontou, a verificação de perfis é um negócio mais vantajoso ao Twitter do que aos perfis verificados. No mínimo, é de interesse é mútuo.

Ao oficializar o plano no Twitter, Musk bradou que se trata de dar “poder ao povo”. “É a caricatura da democracia burguesa”, que tem a desprezível característica de colar uma etiqueta de preço a tudo, até à condição inerente a todos nós, que independe de dinheiro, de sermos “povo”.

A confirmação da compra do Twitter por Elon Musk causou um novo pico de cadastros no Mastodon. Desta vez, segundo Eugen Rochkon (fundador do projeto), foram 70.849 novas contas em múltiplas instâncias só no sábado (29).

É um número pequeno perto dos mais de 200 milhões de usuários que acessam o Twitter todo dia, mas significativo. O Mastodon, ao contrário do Twitter, é um projeto de código aberto e descentralizado — nosso arquivo tem bons materiais que explicam essas diferenças e o modo de funcionamento do Mastodon.

O pico de atenção causou alguns distúrbios na operação. Rochkon, que comanda a mastodon.social, maior instância do mundo, teve que incrementar a infraestrutura dela para aguentar a demanda. Ele se disse exausto e reclamou (algo que, diz, raramente faz) do tanto de trabalho que tem em troca de uma remuneração baixa para os padrões do setor, de ~US$ 36 mil por ano. Via @Gargron@mastodon.social (2) (3) (em inglês).

O Manual está no Mastodon também. Siga o perfil em @manualdousuario@masto.donte.com.br.

John Gruber, blogueiro norte-americano especializado em Apple, escreveu na quinta (27) que estava “mais otimista com o futuro do Twitter do que jamais esteve em anos” após Elon Musk divulgar uma carta aberta aos anunciantes da plataforma que assumiria como sua no dia seguinte.

Esse sentimento de esperança numa boa gestão de Musk à frente do Twitter tem encontrado eco em outros espaços, ainda que seja, por ora, um incompreensível. Lembra muito as reações pós-vitória de Jair Bolsonaro em 2018: de que, apesar dos fartos indícios apontando para o caos, o então novo presidente poderia fazer um bom governo. (Não fez, muito longe disso.)

Em seu primeiro dia à frente do Twitter, Musk demitiu executivos. Entre eles, Vijaya Gadde, chefe de segurança, confiança e políticas, alguém que, apesar dos problemas de moderação do Twitter, seria de grande ajuda para reformar as regras da plataforma dada sua experiência no assunto.

No dia seguinte, sábado (29), Musk sugeriu uma teoria da conspiração em resposta a um post da ex-secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, que manifestou solidariedade ante a notícia do espancamento que Paul Pelosi, marido da congressistas Nancy Pelosi, sofrera na véspera.

O dono do Twitter espalha desinformação para seus 110 milhões de seguidores. O que poderia dar errado? (Ele apagou o post, sem dar explicações, no dia seguinte.)

Outra ideia controversa que circula é a de condicionar o selo de verificado ao pagamento de US$ 19,99 por mês. Musk não confirmou a notícia, limitou-se a dizer que o processo de verificação está sendo reformulado, mas a informação não surgiu do nada — veio de fontes internas no Twitter vazadas à imprensa.

Nesse ritmo, o Twitter será dominado por golpistas de criptomoedas e celebridades com o selinho azul, uma ferramenta de autenticidade deturpada para sinalizar autoridade por quem pode pagar, como se não houvesse pessoas de relevância pobres. É uma ideia obviamente ruim.

Os primeiros atos de Musk no Twitter são desanimadores. A tendência é piorar. Via The Verge, The Independent (ambos em inglês).

Agora é oficial: Elon Musk é o novo dono do Twitter. Nesta quinta (27), ele visitou o escritório do Twitter, demitiu Parag Agrawal, CEO da empresa, e outros executivos do alto escalão (segundo o Washington Post), e iniciou alguns processos burocráticos inerentes ao negócio, como a retirada do Twitter da Bolsa de Nova York e a dissolução do conselho administrativo.

Musk assumirá o cargo de CEO interinamente, de acordo com o New York Times e o TechCrunch.

Antes, também na quinta, Musk publicou uma carta aberta aos anunciantes do Twitter em seu perfil. Com um tom mais comedido, afirmou que, apesar das suas promessas anteriores de “liberdade de expressão absoluta”, não espera que o Twitter vire uma terra sem lei.

O Twitter sob a direção de Musk é uma incógnita. Se por um lado a saída do mercado de capitais diminui pressões externas, por outro as ideias e visão de mundo de Musk são… esquisitas, para dizer o mínimo. (Dia desses ele estava planejando uma solução para o conflito na Ucrânia como se fosse uma briga de crianças da quinta série. O ego desse homem deve ser infinito.)

Considerando que o Twitter já não vinha bem das pernas desde… sempre?, é esperar para ver. Mas espere usando o colete salva-vidas. São grandes as chances de estarmos em um barco afundando. Via Washington Post, New York Times, TechCrunch (todos em inglês).

Como chegamos até aqui?

por Guilherme Felitti

Nota do editor: Este é um Tecnocracia diferente, gravado ao vivo pelo Guilherme Felitti durante a Python Brasil, evento que rolou em Manaus (AM) no último sábado (22). O texto abaixo foi levemente adaptado para facilitar a leitura. Se preferir, veja no YouTube e acompanhe os slides.

Quando me convidaram [a palestrar na Python Brasil], fiquei muito honrado e pensando por que que me chamaram. Não foi exatamente pela minha capacidade de programar em Python. Tem seis anos que programo — eu era jornalista e fiz uma mudança de carreira.

Meu nível técnico é muito melhor do que era, mas tem algumas coisas do Python que ainda não consigo entender, como decoradores. Aquilo para mim um grande mistério. O ponto principal é eu não estou aqui para falar de questões técnicas, mas para “desanimar” vocês um pouco. Quero conversar sobre as consequências da tecnologia, porque falar das consequências da tecnologia é falar também do trabalho de vocês e como ele está impactando a sociedade.

Começo dizendo que nenhuma tecnologia é isenta, nenhuma tecnologia age no vácuo. A partir do momento que ela sai da mente humana, ela sempre é adaptada e impacta outros seres humanos. De uma maneira um pouco menos etérea, isso significa que as tecnologias, quando são introduzidas na sociedade, têm consequências que quase ninguém é capaz de antever.

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Elon Musk deu um tempo na tentativa de acabar com a guerra da Ucrânia postando enquetes no Twitter para resolver outra briga feia: a sua com o Twitter, empresa que, em abril, ele quis comprar por US$ 44 bilhões para, logo depois, desistir e se ver como parte de uma disputa judicial em que tinha tudo para perder.

De acordo com a agência de notícias Bloomberg, o bilionário sul-africano enviou uma carta ao Twitter propondo honrar a compra da empresa pelo preço original, de US$ 54,20 por ação.

As informações ainda são escassas, mas o mercado reagiu prontamente: logo após a divulgação da notícia pela Bloomberg, os papéis do Twitter na Bolsa de Nova York dispararam. Via Bloomberg (em inglês).

Como acompanhar perfis no Twitter sem ter que criar uma conta no Twitter

Mesmo quem não tem conta no Twitter às vezes precisa ou gostaria de acompanhar perfis públicos lá. E embora o Twitter esteja dificultando cada vez mais essa prática, exigindo login até para mostrar perfis públicos, ainda existem algumas alternativas para fazer isso sem ter que baixar o aplicativo oficial e criar uma conta no Twitter.

Atualização (30/6/2023): Uma atualização do Twitter passou a bloquear acessos a perfis e posts da rede sem login. Com isso, todas as dicas abaixo ficam inutilizadas.

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O Twitter anunciou nesta quinta (1º) que iniciou os testes públicos da edição de posts, um recurso absolutamente banal na internet nos últimos 20 anos e que, por motivo inexplicável, demorou esse tanto a chegar e será restrito a usuários pagantes da plataforma.

Em outra frente, nesta semana o site The Verge revelou o plano frustrado do Twitter em rentabilizar o conteúdo pornográfico que rola solto ali.

A ideia de fazer dinheiro desse jeito não foi para frente porque o Twitter é incapaz de detectar e combater pornografia infantil em sua rede. Não é somente pelo puritanismo mais tacanho norte-americano que as plataformas digitais têm tolerância zero com pornografia; é, também e em grande parte, porque é muito difícil distinguir o que é conteúdo legítimo, consentido e tudo mais, de abusos dos mais diversos e terríveis.

Esses dois eventos, acho eu, apontam o quanto a direção do Twitter está perdida, e muito antes do furacão Elon Musk bagunçar ainda mais as coisas com sua grandíssima piada de mau gosto de US$ 44 bilhões.

Há uma semana (25/8), o co-fundador e ex-CEO Jack Dorsey disse que seu maior arrependimento foi ter transformado o Twitter em uma empresa, em vez de um protocolo. Via @Twitter/Twitter, TechCrunchThe Verge, @jack/Twitter (2),

Não é à toa que primeiro o Instagram, agora o Twitter, estão investindo em recursos que aumentam a privacidade e limitam o alcance potencial do conteúdo postado.

A “Roda do Twitter”, talvez o pior nome dos muitos ruins que o Twitter já inventou, foi lançada nesta terça (30) para todos, no Android, iOS e web. Nela é possível selecionar até 150 perfis para verem e responderem posts privados.

Fico na dúvida se o Twitter é um ambiente propício para esse tipo de coisa. Reza o meme que ali é o local onde encontramos estranhos com quem temos afinidades. Colocar estranhos num círculo íntimo soa… estranho? Talvez a única utilidade seja impedir que posts viralizem, mas para isso já existia o perfil trancado/com cadeado. Via Twitter.

A Folha de S.Paulo contatou seis empresas responsáveis pelas maiores plataformas sociais no país: Meta (do trio Facebook, Instagram e WhatsApp), TikTok, Telegram, Twitter, Kwai e YouTube.

O jornal paulista queria saber detalhes dos preparativos para o período eleitoral. Entre outras perguntas, qual o tamanho da equipe de moderação que fala português do Brasil e investimentos feitos em pessoal na moderação e nos sistemas automatizados.

Telegram não respondeu. As demais tangenciaram e, embora tenham dado retorno, não responderam as perguntas diretamente.

Apenas o Twitter confirmou, ainda que de forma vaga, que durante as eleições dedica “mais esforços desses e de outros times, que incluem brasileiros, para monitorar as conversas”. Via Folha de S.Paulo.

TikTok e a queda das gigantes das mídias sociais

TikTok e a queda das gigantes das mídias sociais (em inglês), por Cal Newport na New Yorker:

Esta rejeição do modelo de grafo social permitiu ao TikTok burlar as barreiras de entrada que protegiam de fato as primeiras plataformas de mídias sociais, como Facebook e Twitter. Ao separar a distração das conexões sociais, o TikTok pode competir diretamente pelos usuários sem a necessidade de primeiro construir cuidadosamente uma rede subjacente, conexão por conexão. Sob qualquer ponto de vista, esta blitzkrieg de atenção tem funcionado incrivelmente bem. Estima-se que TikTok tenha um bilhão de usuários mensais ativos, número que atingiu em tempo recorde, e, de acordo com alguns relatórios o aplicativo é usado em sessões de em média 10,85 minutos, o que, se for verdade, são muito maiores do que a de qualquer outra grande rede social. Enquanto isso, a empresa-mãe do Facebook perdeu recentemente mais de US$ 230 bilhões em valor de mercado em um único dia, logo depois de anunciar que o crescimento da base de usuários havia estagnado. Analistas identificaram o TikTok como um fator importante nessa desaceleração.

Esses desenvolvimentos colocam as empresas tradicionais de redes sociais, como o Facebook, em situação de alerta. É óbvio que, se não fizerem movimentos para deter o fluxo de usuários saindo de suas plataformas para o TikTok, seus investidores se revoltarão e o valor de mercado continuará caindo. Isso explica a recente transição do Facebook para vídeos curtos e recomendações algorítmicas de conteúdos não publicados por amigos. Talvez menos óbvio, porém, é o perigo a longo prazo de se afastar do modelo centrado em conexões que tem servido tão bem à a empresa. É improvável, no momento, que um novo rival consiga construir um grafo social de tamanho ou influência comparáveis aos das plataformas legadas como o Facebook e o Twitter — é simplesmente muito difícil começar do zero quando esses serviços amadurecidos já existem. Daí resulta que, enquanto essas plataformas legadas se basearem nas suas redes subjacentes como fonte primária de valor, elas manterão uma espécie de proteção monopolista dentro da economia de atenção mais ampla. Se, em vez disso, elas se afastarem das suas fundações no grafo social para se concentrarem na otimização do engajamento momentâneo, entrarão num cenário competitivo que as coloca diretamente contra as muitas outras fontes de distracção móvel que existem hoje — não apenas o TikTok, mas também redes sociais mais personalizadas e especializadas, tais como a sensação Gen-Z BeReal, para não falar dos populares streamings de vídeos, podcasts, video games, aplicativos de auto-aperfeiçoamento e, para a demografia um pouco mais velha a que pertenço, o Wordle.

[Elon] Musk aparentemente acredita que é livre para mudar de ideia, detonar a empresa, bagunçar suas operações, destruir valor dos acionistas e sair impune.

— Advogados do Twitter.

O argumento do Twitter na Justiça nos Estados Unidos para obrigar Elon Musk a cumprir sua palavra e comprar a empresa por US$ 44 bilhões é pesada.

A empresa afirma que não há base para a alegação de Musk de que o acordo foi violado, o que lhe daria uma saída do negócio que, a essa altura, está evidente ele não quer mais. Via Reuters, Bloomberg (ambos em inglês).