O Twitter de Jack Dorsey

Foto levemente inclinada de homem branco, de barba escura comprida, roupa toda preta e gorro preto, gesticulando com a mão esquerda e falando a alguém à sua direita.

Jack Dorsey estava lá quando tudo começou. Um dos quatro co-fundadores do Twitter, reza a lenda que a ideia embrionária do que viria a ser o Twitter saiu da sua cabeça. De qualquer modo, coube a ele a honra de publicar o primeiro post da rede social, 15 anos atrás. “just setting up my twttr”, ou “configurando meu twttr”, ainda usando a marca esquisita, sem vogais, dos primórdios do Twitter.

Nesta segunda (29), em outro post no Twitter, Jack anunciou seu afastamento do cargo de CEO, com efeito imediato, e sua saída do conselho administrativo da empresa que criou a partir de maio de 2022, quando seu mandato vence.

A notícia coloca um ponto final em sua segunda passagem como CEO do Twitter, iniciada de modo provisório em julho de 2015. (Jack foi o primeiro CEO do Twitter, entre 2007 e o final de 2008, quando Ev Williams, outro co-fundador, hoje à frente do Medium, assumiu o cargo.) Mais que isso, encerra seu ciclo no Twitter. Ele estava lá desde o começo.

Sua segunda passagem como tomador de decisões máximo do Twitter coincidiu com um turbulento na política norte-americana, onde a empresa nasceu e está sediada: a Presidência do republicano Donald Trump, que tinha no Twitter sua plataforma preferida para fazer política — ou o que quer que ele estivesse fazendo no comando da maior potência do mundo. Em outros países, governos protoautoritários contribuíram para estressar as salvaguardas do Twitter.

O Twitter reinterpretou suas próprias regras para não banir Trump, coisa que só fez quando o mandato dele estava prestes a terminar e no calor de uma tentativa malfadada de golpe de Estados, ou seja, no momento mais fácil e oportuno. Não é absurdo pensar que o ex-presidente norte-americano tenha sido uma draga durante quatro anos. Coincidência ou não, desde a sua saída o Twitter intensificou os experimentos no produto e as tentativas de crescer sua base de usuários e diversificar fontes de receita.

Não que entre 2016 e 2020 o Twitter tenha permanecido estático. Sob a liderança de Jack, o produto mudou. Além das constantes reformulações visuais, talvez a única constante num segmento que muda a todo momento, aspectos fundacionais da rede social foram revisados nesse intervalo.

Em 2016, arrobas/perfis em respostas e mídias (fotos, vídeos) deixaram de contar contra o limite caracteres. Em 2017, o histórico limite de 140 caracteres dobrou, para 280.

Em agosto de 2019, o perfil de Jack foi hackeado usando a função de envio de mensagens por SMS. Esse era o grande apelo do Twitter, ou do “twttr”, quando lançado: postar na internet via mensagens de texto. O recurso foi suspenso e, no ano seguinte, descontinuado.

Desde o final de 2020, o Twitter apertou o passo. Lançou um plano pago, o Twitter Blue, e os Super Follows para satisfazer investidores institucionais, ávidos por mais geração de receita. Lançou o talvez mais bem sucedido clone do Clubhouse, o Twitter Spaces, com uma execução extremamente rápida. E descontinuou os Fleets, sua versão dos onipresentes stories (posts que desaparecem em 24 horas). Não dá para ganhar todas.

Jack, que hoje cultiva uma longa barba e há muito se envolve em assuntos mais… etéreos, como meditação e jejum intermitente, é uma figura curiosa. Aos 46 anos, é autodidata em programação e fez carreira e fortuna na tecnologia, mas tem alma de artista, como revela Sarah Frier no livro em que conta os bastidores do Instagram, Sem filtro.

Tornou-se CEO do Twitter pela primeira vez em 2007 — foi o primeiro presidente executivo da empresa. Deixou o cargo no ano seguinte e, ainda dentro do Twitter, em 2009 co-fundou outra empresa, a Square, voltada a pagamentos. Hoje, a Square vale o triplo do Twitter. Jack era um raro executivo à frente de duas empresas de capital aberto ao mesmo tempo.

Nos últimos anos, Jack passou a falar muito em criptomoedas e assuntos relacionados, talvez reflexo ou influência do seu trabalho na Square. Aquele primeiro post no Twitter? Ele transformou em NFT e vendeu por US$ 2,9 milhões.

Em seu e-mail de despedida, Jack disse que tomou a decisão por conta própria. Talvez, mas não sem uma forcinha de investidores institucionais, insatisfeitos com a sua liderança. Dizia-se nos bastidores que Jack gastava menos de 10% do seu tempo tocando o Twitter. Sua fama de indeciso e lento na tomada de decisões tampouco o ajudava.

Em 2019, antes da pandemia, disse que pretendia passar até seis meses do ano seguinte na África após um tour por países do continente. Para ele, “a África definirá o futuro (em especial do bitcoin!)”. Os investidores, preocupados com seus dólares e já insatisfeitos com o CEO, não gostaram muito da ideia. O coronavírus melou o plano.

Em suas falas públicas, Jack não se opunha muito a fatos incontestáveis que outros CEOs de redes sociais insistem em contestar. Ele sabe que o Twitter é um lugar que pode ser bastante tóxico e não tem respostas prontas (e vazias) a esse desafio. No e-mail derradeiro, ele criticou fundadores que se mantêm no poder, que “colocam o ego à frente das empresas”, um óbvio ataque a Mark Zuckerberg e o Facebook. Nenhuma palavra a respeito da Square, porém, que ele fundou e segue liderando há mais de uma década.

Apesar do desempenho mediano das ações do Twitter, que “andam de lado” desde o IPO, da estagnação da base de usuários e da receita, e das hordas que atacam e tornam aquele ambiente por vezes inóspito, a rede mantém usuários importantes. Líderes mundiais, celebridades, especialistas: eles estão lá.

Pode-se argumentar que alguns (ou muitos) continuem apesar do próprio Twitter, que costuma marcar gols contra, mas fato é que continuam. Talvez falte alternativa, talvez o Twitter tenha algo de diferente, talvez o toque artístico de Jack. Para Wall Street, porém, isso não é o bastante.

Jack Dorsey segue à frente da Square. Em seu lugar na cadeira de CEO do Twitter entra Parag Agrawal, CTO, com dez anos de casa, próximo de Jack, fascinado por criptomoedas e um tuiteiro discreto: em 2021, ele postou apenas 12 vezes no Twitter.

Este post saiu primeiro na newsletter do site. Cadastre-se gratuitamente para receber os próximos direto no seu e-mail.

Foto do topo: TED Conference/Flickr.

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado. Dúvidas? Consulte a documentação dos comentários.

O site recebe uma comissão quando você clica nos links abaixo antes de fazer suas compras. Você não paga nada a mais por isso.

Nossas indicações literárias »

Manual do Usuário