O que eu perdi?

Você está lendo um blog pessoal com foco em tecnologia. Na prática, isso significa que não tenho o compromisso de cobrir todos os acontecimentos da área. Faço muito uso dessa ~prerrogativa.

Estive pensando em preencher eventuais lacunas com a ajuda dos leitores. Este post, que espero tornar semanal, é o resultado de tais reflexões.

O que eu perdi? Que notícias, lançamentos ou curiosidades em tecnologia que rolaram durante a semana que não apareceram no Manual, mas que você acha que deveriam ter sido publicados aqui?

Além de sugerir assuntos, vale comentá-los também — o que você trouxer e os dos outros.

A semana do Manual (6–12/9/2026)

Os destaques do blog:

Minhas participações no Órbita:

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Any human ever 
anyhumanever.com

Este site permite compor a vida de uma pessoa aleatória entre todas as 100 bilhões que já viveram neste planeta, baseado em estatísticas e fragmentos históricos de cada período. Achei legal analisar a vida de gente que viveu há séculos ou milênios e, depois, traçar o seu perfil. Em inglês.

Alunos que não usam IA vão melhor em todos os quesitos

por David Gerard

Todo ano, a OCDE avalia estudantes no mundo todo por meio do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA). Os resultados de 2025 acabaram de ser divulgados. (Relatório em *.pdf.)

No mundo inteiro, as notas caíram nos últimos dez anos. Mas o PISA incluiu uma medida sobre IA. Como vão os alunos que usam o chatbot na escola?

Acontece que quem sai na frente não usa IA. Os gráficos mostram que os alunos que usam pouco ou nada de IA deixam no chinelo os que usam:

Nesses cenários, alunos que não usam IA superam os que usam, em média, por cerca de 20 pontos — o equivalente a mais ou menos um ano escolar à frente dos colegas.

O subtítulo do resumo afirma que “a relação entre o uso de IA e o desempenho escolar é complexa”. O que isso significa é que quem evita a IA se sai muito melhor.

Os que usam IA, no máximo, empatam. Alguns vão um pouquinho melhor — mas também calha de serem mais ricos.

A introdução do relatório aponta o óbvio:

Da mesma forma que não ficamos em forma assistindo a esportes, mas praticando esportes, a aprendizagem não acontece pelo consumo de conteúdo, mas por meio de um produtivo esforço cognitivo ao se deparar com material novo.

Claro, o relatório então tenta dar razão para os dois lados:

Se fizermos isso direito, a IA vira um andaime, não uma muleta. Uma ferramenta para pensar, não um substituto do pensamento.

Mas eu diria que existe uma única abordagem responsável diante da máquina de fazer lição de casa na educação: não usar. Quem sai ganhando é quem fica para trás.

Publicado originalmente no Pivot to AI em 8/9/2026.

E se em vez de controlar cada movimento do seu personagem em um jogo, você pudesse dizer a ele o que deseja e vê-lo viver, agir e se conectar com os outros por conta própria no mundo virtual em constante mudança?

Microsoft
Project VEGA, “vibe gaming”

Traz aquele meme do filme Jurassic Park. (“Seus cientistas estavam tão preocupados se conseguiriam ou não, que não pararam para pensar se deveriam.”)

Em busca do hipotético comprador do iPhone Duo e outros celulares dobráveis

Dois iPhones Duo segurados por mãos, um fechado e outro aberto.

No final de agosto, tive a oportunidade de mexer em um Galaxy Z Fold8, o celular dobrável da Samsung em formato de passaporte. É menor do que eu esperava. Achei um tanto curioso. Meu momento com o aparelho foi breve e acho que vi o suficiente. Não é para mim.

Nesta quarta (9), a Apple estreou no segmento de celulares dobráveis com o anúncio do iPhone Duo. Lembra bastante o Galaxy Z Fold8. O maior destaque das primeiras impressões é a animação nas telas ao abrir e fechá-las. (É realmente legal.)

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myNoise 
mynoise.net

Stéphane Pigeon, engenheiro de processamento de sinais e apaixonado por sons, mantém sozinho este site. Ele corre o mundo para gravar barulhinhos diversos com a maior qualidade possível. Por quê? A resposta curta, segundo o próprio, é porque ele é doido.

Jellyfin 12

Após várias versões de testes, o Jellyfin 12 foi lançado nesta segunda (7). Esta é a aplicação para o servidor, que outros dispositivos acessam para exibir os vídeos, músicas e outras mídias digitais armazenados. Ela também conta com um cliente acessível pela web.

O versionamento mudou e esta nova tem um punhado de alterações de quebra (“breaking changes”) e cuidados pré-instalação. Super recomendável ler todo o anúncio da nova versão — está em inglês; uma tradução automática deve bastar.

Todos esses obstáculos vão desaguar em muitas correções e melhorias. Nas visíveis, destacam-se o suporte a múltiplas versões de um mesmo episódio, melhorias para livros e quadrinhos digitais e recomendações, suporte a plugins que expandem a pesquisa e o leiaute moderno como novo padrão. O registro de alterações é quilométrico.

Wire Loop 
keithcirkel.co.uk

Dos game shows mais chatos da televisão para o seu computador ou celular, no jogo Wire Loop você precisa levar o disco de um ponto a outro sem tocar no fio, o mais rápido possível. Inclui um criador de níveis.

O Projeto Asahi, que tem por missão viabilizar distribuições Linux em computadores pós-2020 da Apple, anunciou no domingo (6) o suporte à família de chips M3. Ainda há limitações importantes, como a falta de aceleração 3D e a incapacidade de fazer o sistema dormir, mas funciona. Devido a elas, o suporte fica oculto atrás do “modo especialista”.

LibreOffice bate recorde de downloads após declarar não ter recursos de IA

O LibreOffice 26.8, lançado em 26/8, tornou-se a atualização mais popular do software, uma alternativa livre ao Microsoft Office disponível há quase duas décadas. Em uma semana, o instalador foi baixado mais de 1 milhão de vezes — sem contar as atualizações via repositórios de distribuições Linux.

Alguém poderia dizer que as melhorias no sistema de escrita e na tipografia são uma sensação entre ONGs, órgãos governamentais e escritórios que usam o LibreOffice. Coloco as minhas fichas em um “não recurso”, porém: a declaração de que o LibreOffice não traz recursos de inteligência artificial generativa devido à (falta de) privacidade da tecnologia.

Um dia depois de celebrar o recorde de downloads e a ampla repercussão, a The Document Foundation (TDF), que gere o software, detalhou o posicionamento em um post intitulado “Sim, não ter IA é um recurso agora”.

O texto, assinado por Italo Vignoli, diz que a TDF “não rejeita a inteligência artificial de pronto”, mas que a tecnologia ainda não atende a uma lista exaustiva de princípios para ser incluída como padrão. Os tais princípios são:

  • Execução controlada pelo usuário.
  • Nenhum conteúdo pode deixar o computador sem autorização.
  • Sem telemetria de qualquer natureza.
  • Sem dependência de um único fornecedor.
  • Sem comprometimentos ao formato [de arquivos].
  • Totalmente opcional.

Por ora, a TDF recomenda plugins da comunidade para integrar IA ao LibreOffice.

O posicionamento distinto da TDF “não tem quase qualquer relação com a tecnologia”, prossegue o texto antes de cutucar rivais que pularam de cabeça na IA. Para a fundação, a IA “justifica aumento de preços e intensifica a manutenção de todos os documentos dentro da própria infraestrutura” da empresa, que depende da venda de assinaturas.

O detalhamento da The Document Foundation pode decepcionar quem entendeu a declaração no lançamento do LibreOffice 26.8 como um manifesto anti-IA.

Quaisquer que sejam os motivos, o caso do LibreOffice 26.8 responde a uma dúvida que eu e outros temos desde 2023: se todo o mercado agora oferece IA embutida em softwares de toda sorte, será que não há espaço para alternativas *sem* IA se destacarem? Aparentemente, sim.

Após consultar seus advogados, “zedeus”, criador e mantenedor do Nitter, anunciou que o projeto será retomado e as instâncias voltarão a operar em breve. Dentro de uma semana, mais detalhes serão compartilhados.

O Nitter é um “front-end” (interface) alternativa para o X. Em 25/8, o projeto recebeu uma notificação extrajudicial do X e, no mesmo dia, anunciou o encerramento das atividades. Que bom que essa decisão foi revertida. Vai, Nitter!

A semana do Manual (30/8–5/9/2026)

OpenAI: GPT-6 é totalmente uma Inteligência Artificial Geral, caras

por David Gerard

A OpenAI anunciou a mais nova e levemente atualização de seus modelos de chatbot, o GPT-6 Astra.

Trata-se de uma tímida atualização do GPT-5. Quase chamaram de GPT-5.7, mas a Anthropic tem feito um bom marketing do seu novo modelo Fable como um “hacker de bolso”, então a OpenAI precisava fazer barulho.

Ah, e o GPT-6 Astra atingiu a inteligência artificial geral! Aparentemente.

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Novo Audacity 4 parece bom demais

O aguardado Audacity 4.0.0 finalmente foi lançado. A nova grande versão do editor de áudio parece boa demais: uma atualização que moderniza a interface e a experiência de uso, traz novos recursos úteis e tudo isso sem desrespeitar o legado do software.

Digo “parece muito boa” porque ainda não testei, só vi o site (lindão) e o vídeo de apresentação. E gostei do que vi!

As mudanças em ferramentas básicas diminuem o engessamento na edição que existia até o Audacity 3.X. Ações comuns, como arrastar trechos de áudio antes ou depois de outros trechos, a ferramenta “gain envelope” e a novíssimas ferramenta de divisão (“split tool”) economizarão muitas horas na vida de quem trabalha com áudio no Audacity.

A interface ficou bonitona, algo inédito na história do Audacity. O novo padrão é escuro, alinhado à categoria de softwares de edição multimídia, mas os tradicionalistas têm um tema baseado no do Audacity 3.X como alternativa. Ícones bonitos, apresentação de filtros redesenhada e pré-definições de leiaute (“workspaces”) completam o pacote.

Debaixo do capô, o Audacity 4.0.0 migra para o framework Qt 6, o que ajuda na modernização da interface e deixa o software mais “em casa” em sistemas operacionais modernos. A retrocompatibilidade com projetos do antigo Audacity está garantida. É difícil encontrar pontos negativos nesta atualização. Espero manter essa opinião após passar um tempo mexendo nela.

O Audacity 4.0.0 continua livre e de código aberto (licença GPLv3) e disponível para Linux (AppImages para x86 e ARM), macOS (Apple Silicon e Intel) e Windows (x86 e ARM). Baixe-o aqui.