Como chegamos até aqui?

Homem branco, em um palco, com cabe√ßas desfocadas em primeiro plano. Ao fundo, um painel enorme com os dizeres ‚ÄúPython Brasil 2022‚ÄĚ em letras coloridas.

Nota do editor: Este √© um Tecnocracia diferente, gravado ao vivo pelo Guilherme Felitti durante a Python Brasil, evento que rolou em Manaus (AM) no √ļltimo s√°bado (22). O texto abaixo foi levemente adaptado para facilitar a leitura. Se preferir, veja no YouTube e acompanhe os slides.

Quando me convidaram [a palestrar na Python Brasil], fiquei muito honrado e pensando por que que me chamaram. N√£o foi exatamente pela minha capacidade de programar em Python. Tem seis anos que programo ‚ÄĒ eu era jornalista e fiz uma mudan√ßa de carreira.

Meu n√≠vel t√©cnico √© muito melhor do que era, mas tem algumas coisas do Python que ainda n√£o consigo entender, como decoradores. Aquilo para mim um grande mist√©rio. O ponto principal √© eu n√£o estou aqui para falar de quest√Ķes t√©cnicas, mas para ‚Äúdesanimar‚ÄĚ voc√™s um pouco. Quero conversar sobre as consequ√™ncias da tecnologia, porque falar das consequ√™ncias da tecnologia √© falar tamb√©m do trabalho de voc√™s e como ele est√° impactando a sociedade.

Começo dizendo que nenhuma tecnologia é isenta, nenhuma tecnologia age no vácuo. A partir do momento que ela sai da mente humana, ela sempre é adaptada e impacta outros seres humanos. De uma maneira um pouco menos etérea, isso significa que as tecnologias, quando são introduzidas na sociedade, têm consequências que quase ninguém é capaz de antever.

Vamos dar um exemplo: esse sujeito que voc√™s est√£o vendo √© o Henry Ford. Quando Ford abriu sua terceira empresa em 1903, a Ford Motors, o carro n√£o era novidade. O grande lance √© que ele introduziu algo chamado a ‚Äúlinha de produ√ß√£o‚ÄĚ, em que voc√™ consegue produzir em escala. Quando voc√™ produz em escala, o pre√ßo cai e quando o pre√ßo cai, outras pessoas al√©m dos ricos conseguem comprar um carro.

Se voc√™ tem mais gente com carros, isso tem um impacto na maneira como a sociedade se distribui. Antes da populariza√ß√£o dos carros, para se movimentar voc√™ tinha seus p√©s e o lombo de animais. Pensava-se em fazer cidades pequenas para que as pessoas conseguissem andar de um lado para o outro. Se voc√™ vai √† Europa, por exemplo, todo o centro √© uma massa concentrada de pr√©dios e casas. Quando o carro aparece, no come√ßo do s√©culo passado, ele tira essa necessidade de morar perto das linhas f√©rreas ‚ÄĒ basicamente, abre-se a possibilidade de as pessoas morarem mais longe.

Quando Henry Ford criou a linha de produ√ß√£o, o impacto que n√£o se esperava era a cria√ß√£o dos sub√ļrbios, essa entidade norte-americana que designa bairros mais afastados que n√£o t√™m absolutamente nada a n√£o ser casas. Para qualquer coisa voc√™ precisa pegar o carro. A urbaniza√ß√£o norte-americana p√≥s-II Guerra Mundial, tal qual a brasileira, √© muito voltada a este modelo, enquanto a urbaniza√ß√£o na Europa, pr√©-II Guerra Mundial, aconteceu quando ainda n√£o existiam carros baratos.

Na tecnologia pessoal isso n√£o √© diferente. Vimos a introdu√ß√£o de uma s√©rie de tecnologias que tiveram consequ√™ncias esperadas, mas tamb√©m outras consequ√™ncias que inesperadas. As grandes empresas de tecnologia resolverem v√°rios daqueles problemas muito chatos que a gente tinha, mas introduziram alguns problemas terr√≠veis: tem comunidade neonazista usando o Facebook ganhar dinheiro, o caso do entregador do Rappi que morreu durante uma entrega e o Rappi meio que deu de ombros, a Amazon que teve que se desculpar porque tinha mentido que seus motoristas n√£o precisavam urinar em garrafas porque n√£o tinham descanso para ir ao banheiro e a Uber sugerindo, de maneira super casual, que podia financiar uma campanha de difama√ß√£o contra uma jornalista. Querendo ou n√£o, a gente vive no ambiente moldado por essas empresas. As consequ√™ncias das decis√Ķes delas nas nossas vidas funcionam tanto para o bem como para o mal.

E aí, vale a pergunta: como chegamos até aqui? Se a gente vive nesse ambiente das grandes empresas de tecnologia, vamos entender isso quebrando o debate em duas partes. A primeira é a responsabilidade do Estado.

Homem branco, de óculos de grau, cabelo e barba escuros e curtos, vestindo uma blusa preta e falando ao microfone.
Evgeny Morozov.

Esse sujeito se chama Evgeny Morozov e √© um fil√≥sofo bielorrusso. Em 2011, ele publicou um livro chamado The net desilusion em que criticava um conceito que chamou de ‚Äúcyber utopianism‚ÄĚ: a incapacidade de ver o lado negativo e aquela cren√ßa quase religiosa de que a internet vai vir s√≥ para salvar, s√≥ trazer coisa boa para nossa vida.

Ele era uma voz dissonante. Vamos relembrar: em 2011 est√°vamos vendo a ascens√£o dos monop√≥lios de hoje. Essa ascens√£o sempre vinha com aquele el√£ de import√Ęncia, o discurso de que essas empresas s√≥ v√£o nos dar coisas muito melhores do que j√° temos ‚ÄĒ e ainda de gra√ßa! Por isso, Morozov tomou muita paulada e muita pedrada.

Uma das principais cr√≠ticas do Morozov √© sobre o papel do Estado na internet. Este √© o print de uma apresenta√ß√£o excelente que ele fez no TED mostrando como os presidentes norte-americanos sempre gostaram de enaltecer a internet como um ve√≠culo da democracia pelo mundo. Reagan, Bill Clinton e George Bush repetiram o argumento e Morozov faz uma brincadeira ‚Äúconfundindo‚ÄĚ o Bush com o John Lennon por causa dessa frase dita pelo ex-presidente em 1999:

‚ÄúImagine se a internet entrasse na China e como a liberdade se espalharia.‚ÄĚ

Essa vis√£o tecno-ut√≥pica defendia que, se voc√™ colocar internet em algum lugar, √© quest√£o de tempo at√© que governos autorit√°rios e fascistas sejam depostos. Basicamente, bastaria instalar roteadores, colocar conex√Ķes, por celulares na m√£o de todo mundo e dar um tempo para que governos autorit√°rios ru√≠ssem. Esse seria o poder da internet. Existiam, inclusive, pessoas que defendiam que a internet acabaria com os governos, numa vis√£o anarquista. Se voc√™ tivesse a capacidade de se articular com todo mundo usando o celular, voc√™ conseguiria (na teoria) fazer aquela media√ß√£o entre as pessoas que formam uma sociedade de uma maneira meio autom√°tica.

Nada disso deu certo. Morozov tomou muita porrada, mas ele tinha muita razão. O que a gente viu acontecer foi exatamente o contrário: os governos se adaptaram à internet.

Quero trazer três exemplos de como os governos se adaptaram para enterrar a ideia de que a internet é realmente o grande veículo da democracia no mundo.

O primeiro √© a China com seu modelo de capitalismo de Estado: voc√™ fecha a polpuda economia chinesa, com seu mercado consumidor de 1,4 bilh√£o de pessoas, apenas para empresas locais que operam sob as r√≠gidas regras do governo. Ao ter acesso exclusivo, sua empresa √© protegida das grandes multinacionais, principalmente as norte-americanas e as europeias. S√≥ que se voc√™ pisar fora da linha, o governo vai descer o martelo em voc√™. A gente consegue ver isso claramente com o Alibaba no √ļltimo ano: Jack Ma, o fundador, resolveu desafiar o governo num monte de coisa e recebeu sua puni√ß√£o. Ele sumiu durante um tempo, a empresa dele tomou uma s√©rie de san√ß√Ķes e, ainda que continue sendo uma das maiores de com√©rcio eletr√īnico do mundo, existem novas dificuldades impostas pelo pr√≥prio governo, o famoso ‚Äúfogo amigo‚ÄĚ.

O segundo modelo √© os Estados Unidos. Depois do 11 de setembro, o governo norte-americano aprovou uma base regulat√≥ria apoiada pelos dois partidos que levou √† forma√ß√£o do monitoramento dentro da NSA. A gente s√≥ sabe disso por causa do Edward Snowden. Al√©m de pegar os dados diretamente dos servidores das grandes empresas tecnologia, a NSA trabalha ativamente para enfraquecer protocolos de criptografia. √ďtimo para o controle, p√©ssimo para o cidad√£o e sua privacidade.

O √ļltimo modelo √© o russo. A R√ļssia tamb√©m tem o seu capitalismo de Estado e os controles de monitoramento digital de cidad√£o, mas o que se destaca, principalmente na √ļltima d√©cada, s√£o as opera√ß√Ķes a partir de Moscou que aproveitam o descaso das redes sociais para interferir em democracias alheias usando campanhas coordenadas. J√° existem evid√™ncias de que houve intromiss√£o de for√ßas russas no Facebook durante as elei√ß√Ķes que levaram Donald Trump √† Casa Branca.

Então, aquela ideia de que a internet seria o veículo da democracia implode. Cada um do seu jeito, governos pelo mundo entenderam como utilizar as redes em benefício próprio.

A gente falou do Estado. Hora de falar da iniciativa privada. Ela entendeu que se consegue fazer muito dinheiro coletando os dados das pessoas e mediando intera√ß√Ķes online. Para explicar melhor, quero voltar 15, 16 anos no passado para um fen√īmeno chamado Web 2.0.

Naquela √©poca, um pesquisador chamado Tim O’Reilly, dono da editora O’Reilly, deu o nome de Web 2.0 para essa nova onda de servi√ßos onde a gente publicava nossos dados pessoais. Em vez de ser uma coisa mais reativa, formada por sites est√°ticos, a Web 2.0 te dava a capacidade de publicar seus pr√≥prios conte√ļdos. Na √©poca, bombaram servi√ßos como Delicious (para guardar links), Foursquare (para marcar onde voc√™ estava), Blogger (para criar blogs), Flickr (para publicar fotos) e dois outros que viraram os principais servi√ßos da Web 2.0: Facebook e YouTube.

Quando os serviços deram certo, as empresas por trás deles perceberam que, para ganhar dinheiro, teriam que apelar para um modelo de negócios bastante antigo: a publicidade.

Publicidade n√£o √© uma coisa nova. Na verdade, ela nasce no s√©culo XIX, quando um sujeito chamado Benjamin Day lan√ßou um jornal em Nova York que custava ‚Öô dos rivais. Com pautas focadas em not√≠cias cotidianas e crimes, o The Sun era o primeiro jornal voltado √†s massas. Para fechar a conta no fim do m√™s, Benjamin percebeu que conseguiria ir aos neg√≥cios do bairro ‚ÄĒ a vendinha, o a√ßougue e o mercadinho ‚ÄĒ e falar: ‚ÄúOlha, eu tenho uma circula√ß√£o que √© enorme e eu consigo colocar aqui um an√ļncio seu se pagar uma grana.‚ÄĚ Assim, em 1833 nasceu o modelo de neg√≥cios que a big tech usaria mais de um s√©culo depois e cujas consequ√™ncias estamos sofrendo. Essa hist√≥ria est√° muito bem contada num livro chamado Imp√©rios da comunica√ß√£o, do Tim Wu.

Como funciona publicidade? Quanto mais dados voc√™ tem do p√ļblico, mais preciso voc√™ consegue ser na sua campanha. Com a m√≠dia anal√≥gica, como o jornal do Benjamin, voc√™ n√£o √© capaz de fazer uma grande segmenta√ß√£o: vai o mesmo an√ļncio para todo mundo. Mas a partir do momento que voc√™ coleta um monte de dados das redes sociais, √© poss√≠vel oferecer recortes demogr√°ficos que s√£o muito espec√≠ficos. Quer atingir gente que tem interesse em Python, est√° em Manaus e passou pelo Centro de Conven√ß√Ķes? Voc√™ n√£o conseguia fazer isso na TV, mas aqui, no Facebook e YouTube, consegue.

Os anunciantes gostaram e as plataformas entenderam que seria vantajoso ter cada vez mais dados sobre os usu√°rios para oferecer aos anunciantes recortes cada vez mais espec√≠ficos. A√≠ nasce o capitalismo de vigil√Ęncia, explicado em outro livro excelente da Shoshana Zuboff, professora aposentada da Harvard Business School.

No capitalismo de vigil√Ęncia, a gente como sociedade troca nossa privacidade por conveni√™ncias. Como privacidade √© um conceito muito et√©reo √© dif√≠cil voc√™ definir o que √© e convencer os outros que vale a pena mant√™-la. Quando voc√™ vai comprar uma garrafa d’√°gua, voc√™ d√° o dinheiro, pega a garrafa e leva para casa. No digital, a gente ganha em curto prazo servi√ßos gratuitos, mas as consequ√™ncias para a sociedade s√£o piores e mais lentamente percebidas, como as campanhas de enfraquecimento da democracia.

E quando esse movimento de trocar privacidade por serviços gratuitos se direciona para consequências terríveis? Essas quatro fotos deixam muito claro esses momentos: quando a big tech abre seu capital na bolsa. A gente tem o Facebook em cima, o Google do lado, o Twitter embaixo e a Amazon embaixo.

Fotos dos IPOs de Facebook, Google, Twitter e Amazon.

Quando voc√™ abre o capital, qualquer pessoa pode comprar a√ß√Ķes da sua empresa. Isso quer dizer eles viraram s√≥cios e voc√™ passa a ser obrigado a contar a ele o que est√° fazendo. Quando voc√™ √© uma empresa de capital fechado, voc√™ pode tomar as decis√Ķes que quiser e colocar como prioridade, por exemplo, a sociedade. S√≥ que quando voc√™ abre o capital, isso n√£o existe mais. O mais importante √© o acionista e acionista s√≥ gosta de empresa no qual o lucro est√° crescendo sempre. Para crescer o lucro sempre, empresas de capital aberto podem adotar de vez quando medidas que s√£o ben√©ficas para si mesmas, mas n√£o necessariamente para a sociedade.

Ap√≥s um IPO, o foco potencialmente sai de seis bilh√Ķes de pessoas e se vira para acionistas, um grupo formado majoritariamente por milhares de homens brancos na Calif√≥rnia. √Č f√°cil hoje a gente fazer vista grossa a esses excessos e crimes das empresas que levam ao enfraquecimento da democracia e ao negacionismo cient√≠fico quando a gente tem servi√ßos gratuitos que resolvem problemas antigos. A big tech nasce para permitir que olhemos fotos de amigos do col√©gio e paguemos R$ 9 para recebermos um hamb√ļrguer em casa, como mostra o cachorro do meme, mas h√° uma enormidade de consequ√™ncias terr√≠veis, personificadas pelo lobisomem, como aumento de movimentos neonazistas, campanha antici√™ncia, concentra√ß√£o de renda, precariza√ß√£o do trabalho, elei√ß√£o de autocrata e inje√ß√£o anal de oz√īnio contra COVID-19.

Como a gente deixou chegar at√© nisso? Simples: antes dessas empresas, a vida era mais dif√≠cil. Pegar t√°xi na chuva, usar mapa, ouvir m√ļsica no Walkman, usar lista telef√īnica, achar parceiro(a) no Loveline. A vida √© mais f√°cil com os servi√ßos da big tech.

Para ajudar essa aceitação pela sociedade, uma série de empresas adotou políticas que dão prejuízo, mas que aumentam a boa vontade da sociedade. A Uber é especialista nisso. Quando teve problemas de regulamentação com vereadores, deputados e senadores assim que chegou ao Brasil, a Uber levava sorvete de graça para você. Nos Estados Unidos, além de picolé, a empresa levava cachorrinhos para o usuário que estava estressado. Essas campanhas impactam a lucratividade das empresas, mas fortalecem uma percepção positiva na sociedade. Com essa percepção positiva da sociedade, é muito mais difícil questionar todos esses problemas que levantamos até aqui.

Cristaliza-se a√≠ aquela certeza quase religiosa de que a tecnologia s√≥ pode fazer o bem, criticada pelo Morozov desde 2011. Voc√™ pode fazer um exerc√≠cio: pergunte a seus amigos e familiares se essas empresas de tecnologia s√£o boas ou n√£o para a sociedade. A resposta n√£o vai surpreender ningu√©m. Nasce a Igreja do Startupeiro dos √öltimos Dias. Enaltecidos e adorados, os deuses dessa igreja s√£o os fundadores, pessoas que j√° demonstraram em alguns epis√≥dios de vida terem r√©guas morais e √©ticas baix√≠ssimas e que, convencidos que s√£o onipotentes, se convenceram que podem resolver qualquer problema do mundo. O melhor exemplo disso √© Elon Musk. O que ele fez com SpaceX e Tesla √© realmente admir√°vel, mas at√© a√≠ voc√™ achar que entende o suficiente e pode mediar os conflitos, como a guerra entre R√ļssia e Ucr√Ęnia, s√£o outros quinhentos.

A adora√ß√£o abre caminho para a forma√ß√£o do cen√°rio atual do big tech, em que cada gigante tem mais ou menos seu monop√≥lio e usa formas sujas de se preservar, inclusive dificultando a entrada de outros rivais. S√£o atitudes √≥timas para acionistas, mas p√©ssimas para a sociedade. N√£o √† toa, o n√≠vel de concentra√ß√£o de mercado que atingimos agora √© a maior em 40 anos ‚ÄĒ o √≠ndice S&P 500, que mostra quais s√£o as maiores empresas dos Estados Unidos, est√° pr√≥ximo a 40% com tend√™ncia de subida. O que √© ainda mais preocupante √© que outros mercados que est√£o perdendo espa√ßo na √ļltima d√©cada, como servi√ßos financeiros e sa√ļde, est√£o sendo corro√≠dos pela tecnologia, pelos mesmos players que j√° lideram.

A gente n√£o deve esperar em curto prazo que isso se resolva magicamente, j√° que a big tech segue a atuar com uma esp√©cie de carta branca. A maneira como o Facebook desossou o Snapchat copiando a fun√ß√£o Stories e atingindo um p√ļblico maior que a fonte da c√≥pia em poucos dias deveria ter acendido todas as luzes de regulamenta√ß√£o dos Estados Unidos. O Facebook ficou durante um tempo querendo comprar o Snapchat e o Snapchat falou: ‚ÄúMeu amigo, vai passear‚ÄĚ. Zuckerberg simplesmente copiou a fun√ß√£o e destronou o Snapchat, que est√° bem agora, mas demorou para se recuperar.

O que nos leva a um outro ponto importante sobre o poder que a big tech tem, muito característico da maneira como a internet se organiza.

Talvez voc√™s escutem com certa frequ√™ncia que √© mas √© f√°cil na internet criar um novo Google ou Amazon para competir com o Google e a Amazon originais. √Č uma das piores falas que se repetem na tecnologia por duas raz√Ķes. A primeira √© que a nova Amazon n√£o vai bater de frente com o Walmart, como a Amazon original, mas com a pr√≥pria Amazon. Ent√£o, boa sorte com isso. O segundo ponto √© que voc√™ vai precisar de mais sorte ainda: as empresas de tecnologia cresceram tanto que passaram a controlar uma parte da infraestrutura da internet. O site The Verge fez uma reportagem excelente em que uma jornalista tentava usar a internet por uma semana sem ter nada do Google, da Amazon e do Facebook. As tr√™s empresas est√£o t√£o entranhadas na infraestrutura da internet como um todo que, se voc√™ bloquear, n√£o consegue usar servi√ßos muito populares que est√£o na AWS, no Azure ou no GCP. Ali√°s, se voc√™ quiser montar uma nova Amazon, √© muito prov√°vel que tenha que usar a infraestrutura da Amazon, da Microsoft ou do Google se quiser ter escala e uma s√©rie de benef√≠cios.

E da√≠ a gente volta para o cora√ß√£o do problema: a publicidade. A big tech, principalmente Google e Meta (Facebook), est√° dominando o bolo publicit√°rio. Mas, como acionista s√≥ gosta de resultado que est√° crescendo, √© preciso fazer algo para mant√™-lo para cima. Para Meta, Google e YouTube, quanto mais tempo voc√™ ficar com a cara colada no celular, mais a plataforma ganha pelo volume de an√ļncios exibidos. Se j√° n√£o resta tanta gente fora da internet, a solu√ß√£o √© encontrar formas de as pessoas ficarem mais tempo no seu servi√ßo. Tal qual a publicidade, a solu√ß√£o j√° existia e √© antiga: cassinos.

A big tech passou a contratar uma galera que j√° tinha trabalhado com m√°quinas de slots para encher divis√Ķes focadas no que a Luciana Gimenez chamaria de ‚Äúbehaviorismo‚ÄĚ. O behaviorismo parte da premissa de que o comportamento humano √© melhor entendido e fun√ß√£o de incentivos e recompensas. Por meio de milh√Ķes de testes A/B, as plataformas v√£o entendendo quais s√£o os algoritmos, os bot√Ķes, as anima√ß√Ķes, a escolha de conte√ļdo que mais te mant√©m entretido e v√£o replicando essas altera√ß√Ķes para todos. Basicamente, somos ratinhos presos dentro de uma jaula ganhando comidinha quando fazemos algo ‚Äúcorreto‚ÄĚ ‚ÄĒ aquela dose de dopamina funciona como os peda√ßos de carne.

Outra forma de voc√™ manter as pessoas coladas ao celular √© apostar em conte√ļdos divisivos, que provocam uma rea√ß√£o primal, seja ela asco, raiva ou a vontade de arrancar os pr√≥prios cabelos. Professor da Universidade de Nova York, o Jay Van Bavel conduziu um estudo e percebeu que quando voc√™ usa palavras mais agressivas para se comunicar, a chance de voc√™ ter um engajamento √© 40% maior. Se voc√™ fala que gosta de pudim, o post vai ter duas curtidas. Se voc√™ fala que pudim n√£o apenas √© a melhor comida do mundo, mas que quem n√£o gosta deve ir pro inferno, √© prov√°vel que voc√™ tenha mais curtidas. Quem gosta vai se identificar e os instintos de tribalismo se manifestar√£o, enquanto quem n√£o gosta vai antagonizar e responder do mesmo jeito. Rea√ß√£o primal.

Não à toa existem dois políticos recentes que não são exatamente conhecidos pelo comedimento e pelas frases científicas. Mais que isso: é pelas redes sociais premiarem a hipérbole que estamos vendo a ascensão de uma série de influenciadores que falam os piores absurdos e continuam nessas redes para fazer todo mundo arrancar os cabelos de raiva.

Pouco a pouco, raiva por raiva, normalização de absurdo por normalização de absurdo, vamos nos afastando da civilidade.

Esse modelo da publicidade movida pelo cassino dentro do nosso bolso, da comunicação voltada à explosividade, da relação rompida pelos temas e abordagens divisivas faz com que a gente abandone um pouco a civilização e comece a se encaminhar à barbárie.

E o que a plataforma fazem para combater isso? Nada. Na verdade, parece existir at√© incentivos. Ao buscar manter os usu√°rios por mais tempo na plataforma, Facebook e YouTube passaram a recomendar conte√ļdos sobre terra plana, anti-vacina, mil√≠cias digitais e afins.

Reportagem do jornal Los Angeles Times em 2020 mostrou que o Facebook fez um estudo dos anos antes e concluiu que em 66% das vezes que um usu√°rio entrou em grupo extremista foram por recomenda√ß√£o do pr√≥prio Facebook. N√£o √© que a pessoa entrou na plataforma e foi procurar um grupo de neonazismo: o Facebook levou ela at√© l√°. √Č inacredit√°vel que isso tenha acontecido porque o Facebook diretamente ajuda a vitaminar esses movimentos. O Facebook funciona como uma esp√©cie de RH de neonazistas.

Uma série de outros movimentos criminosos floresceram dentro dessas plataformas porque as próprias plataformas não estão nem aí. Uma informação que sempre me deixa com raiva é a seguinte: a Klu Klux Klan (KKK) é um movimento terrorista que há mais de um século espanca, mata e pendura os corpos de negros em árvores. Durante 14 anos, as plataformas digitais acharam que era ok dar espaço para um filho da puta, o principal líder da KKK. Durante mais de uma década, YouTube, Facebook e Instagram permitiram que ele usasse a maior máquina de comunicação da história da humanidade para espalhar sua ideologia criminosa.

Mas calma: √© ainda pior. Tudo isso acontece com as pr√≥prias plataformas sabendo das consequ√™ncias e dando de ombros. A not√≠cia mais importante de 2021 em tecnologia foi essa mulher, Frances Haugen, ex-funcion√°ria do Facebook, ter vazado um monte de dados provando que o Facebook sabe de tudo isso e, ainda assim, cagou. Por tr√°s das campanhas de rela√ß√Ķes p√ļblicas que tentavam tirar a responsabilidade, elas mesmas sabiam que seus produtos tinham e continuam a ter consequ√™ncias terr√≠veis para a sociedade.

Gráfico da taxa de suicídios entre jovens de 15 a 19 anos, divididos por sexo.
Variação de suicídios entre jovens de 15 a 19 anos, divididos por sexo. Gráfico: CDC/Reprodução.

O Facebook sabe que meninas que usam demais o Instagram relatam problemas de autoestima. Um estudo interno com adolescentes dos Estados Unidos e no Reino Unido descobriu que mais de 40% dos usuários do Instagram com um sentimento de não serem atraentes o suficiente disseram que esse sentimento começou dentro do Instagram.

Toda rede social pede aten√ß√£o, mas j√° falei: o Instagram √© a pior de todas. Se voc√™ tem filhos, filhas ou irm√£s no Instagram, saiba que o que o aplicativo faz com a autoimagem de jovens √© terr√≠vel. √Č sempre bom lembrar que correla√ß√£o n√£o √© sin√īnimo de causalidade, ent√£o vamos ter cuidado ao analisar o gr√°fico acima. Na √ļltima d√©cada h√° um not√°vel aumento nos suic√≠dios de jovens nos Estados Unidos, principalmente entre as meninas. Historicamente, a taxa de suic√≠dio entre homens √© sempre maior do que entre mulheres, mas a de mulheres cresce mais. N√£o d√° para cravar que a rede social est√° fazendo isso sozinha, mas a gente tamb√©m n√£o consegue ignorar que as redes sociais s√£o uma parte consider√°vel nesse caldo de mis√©ria, que existe um efeito delas nos resultados.

Gr√°fico mostrando o aumento nas admiss√Ķes em hospitais de meninas por auto-mutila√ß√£o n√£o-fatal.
Aumento nas admiss√Ķes em hospitais norte-americanos de meninas de 10 a 19 anos por auto-mutila√ß√£o n√£o fatal. Gr√°fico: @JonHaidt/Twitter.

Este outro gr√°fico mostra as admiss√Ķes em hospitais para automutila√ß√£o n√£o fatal. Notem a linha azul claro, de meninas entre 10 a 14 anos. De novo, n√£o d√° para ignorar que as redes sociais desempenham um papel. O quanto? Mais estudos s√©rios ser√£o necess√°rios para cravar.

Gravura de luditas tentando quebrar uma m√°quina.

Finalmente, vamos esclarecer alguns pontos. Ningu√©m aqui √© ludista. Voc√™ deve se lembrar da escola: quando come√ßou a Revolu√ß√£o Industrial, houve um movimento chamado ludismo em que uns sujeitos, tal qual o vov√ī Simpsons gritando para nuvem, achava que acabaria com a maquiniza√ß√£o se entrasse nas f√°bricas e destru√≠sse os equipamentos. O l√≠der era chamado Ned Ludd, logo o movimento se chamou ludismo. Resolveu algo? Nada: os caras foram presos, as m√°quinas foram substitu√≠das e a gente ta√≠m com os frutos da Revolu√ß√£o Industrial at√© hoje, h√° mais de um s√©culo.

Ningu√©m aqui est√° falando que a tecnologia √© ruim e que a gente deveria voltar √† √©poca do t√°xi na chuva, do mapa de papel, do Walkman e da Loveline. A nossa vida √© muito melhor com a tecnologia. √Č ineg√°vel. S√≥ que existem problemas ser√≠ssimos para a sociedade decorrentes da falta de regulamenta√ß√£o. Por causa daquela boa vontade da sociedade, as empresas de tecnologia conseguiram uma carta branca para fazer o que quiseram sem muita resist√™ncia. Agora a gente j√° come√ßou a ver uma quantidade gigantesca de ind√≠cios dos problemas s√©rios que a big tech introduziu na sociedade a resolver alguns antigos.

Qual √© a solu√ß√£o? Regulamenta√ß√£o. Como? Existe gente que sabe mais e ganha mais do que eu para pensar e operacionalizar esses ajustes ‚ÄĒ Tim Wu, agora trabalhando no governo Biden, √© um deles.

Voltemos ao come√ßo para duas quest√Ķes.

Meme de um cachorro e um lobisomem, com o cachorro representando o uso normal de redes sociais e o lobo, as consequências nefastas e imprevistas.

Primeiro: nenhuma tecnologia funciona tecnologia no vácuo. Ela sempre vai sair das nossas cabeças para ter impactos que a gente não espera.

Agora vem o meu cavalo de pau: quem ajuda a levar essas tecnologias para o mundo real são vocês e isso não é uma acusação. Quem toma a decisão são os chefes de cima, mas quem as executa são programadores e programadoras talentosos como vocês. Quando é o seu código que vai para produção, é bom cogitar o impacto que ele tem no mundo. Qual banquete o nosso suor banca. Quais as consequências do nosso trabalho. A vida é foda, eu sei. Todo mundo tem que pagar boleto, mas vale a pena ter no radar, ao cogitar uma possível mudança de carreira, que seus códigos não estejam suscitando consequências negativas na sociedade. Existe uma chance de que as consequências do seu trabalho sejam perversas. Porque a gente pode até achar que está trabalhando para o cachorro, mas se analisar o suficiente, você pode se descobrir trabalhando para o lobisomem.

Foto do topo: Python Brasil/Flickr.

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2 coment√°rios

  1. Ou√ßo o Tecnocracia h√° alguns anos e realmente essa palestra meio que sintetizou v√°rias das discuss√Ķes trazidas nesse per√≠odo. A palestra traz uma excelente linha de argumenta√ß√£o contra o ufanismo digital que tomou conta de muitas pessoas, que aceitam de uma forma acr√≠tica a atua√ß√£o dessas empresas. √Č importante ter em mente que o progresso tecnol√≥gico n√£o √© um caminho √ļnico e linear, e sim uma infinidade de caminhos poss√≠veis. No capitalismo, os donos do poder econ√īmico escolhe dentre esses infinitos caminhos aquele que mais lhe favorece. Todos os demais n√£o t√™m voz nessa escolha.

    Por outro lado, Guilherme Felitti s√≥ tem elogios para o livro The Age of Surveillance Capitalism, da Shoshana Zuboff. Eu tenho esse livro aqui. Ele tem o m√©rito de ter trazido √† tona essa discuss√£o do capitalismo de vigil√Ęncia e √© muito popular. Por outro lado, o livro tem quase 700 p√°ginas para dizer algo que poderia ser dito em muito menos. Al√©m disso, Zuboff trata a quest√£o como se o capitalismo de vigil√Ęncia fosse algo √ļnico do mundo tecnol√≥gico, diferente de outras pr√°ticas abusivas no mundo corporativo. Como se o capitalismo de vigil√Ęncia como se fosse uma forma nova e perversa de capitalismo, diferente de tudo o que veio antes. Sendo que a concentra√ß√£o de poder em poucas empresas e as pr√°ticas suas anticompetitivas s√£o a causa do problema, n√£o a sua consequ√™ncia. E isso j√° ocorreu antes em diversos outros setores, como telecomunica√ß√Ķes, minera√ß√£o, etc. Para Zuboff, o problema com o capitalismo de vigil√Ęncia est√° na vigil√Ęncia, n√£o no capitalismo.

    Quem destrinchou bem esse assunto foi o escritor Cory Doctorow em seu livro que √© uma resposta ao livro de Zuboff: How to Destroy Surveillance Capitalism. O livro busca apontar para solu√ß√Ķes simples, mas n√£o f√°ceis, passando pela legisla√ß√£o antitruste mas tamb√©m regula√ß√£o que obrigue as grandes empresas a permitir a interoperabilidade de novos concorrentes com os servi√ßos atuais da plataforma. Seria uma discuss√£o longa demais para esse coment√°rio, ent√£o vou deixar o link para o conte√ļdo que pode ser lido na √≠ntegra no Medium:

    https://onezero.medium.com/how-to-destroy-surveillance-capitalism-8135e6744d59

    Outra quest√£o que me incomodou nessa palestra foi a refer√™ncia ao Ludismo como se fosse um movimento irracional e anti-tecnol√≥gico em sua ess√™ncia. N√£o o culpo, eu tamb√©m j√° pensei assim, pois essa √© uma ideia muito difundida no senso comum. Mas os luditas hist√≥ricos n√£o se revoltaram contra o progresso tecnol√≥gico, e sim pela maneira como os patr√Ķes usavam a tecnologia para explor√°-los. Isto √©, destruir as m√°quinas era uma t√°tica, n√£o o objetivo final. Quem conta essa hist√≥ria de uma forma muito interessante √© tamb√©m o Cory Doctorow, em outro artigo seu, que ainda mostra a rela√ß√£o do Ludismo com a literatura de fic√ß√£o cient√≠fica. Segue o link e recomendo a leitura, para quem entende ingl√™s:

    https://onezero.medium.com/science-fiction-is-a-luddite-literature-56ed9cfc5470