Um dia ruim para a Netflix

Cena de Stranger Things 3 em que os heróis da série estão abatidos no shopping olhando para uma nova ameaça.

A Netflix começou digitalizando as vídeo locadoras. Não os filmes em si, mas o espaço físico mesmo. Os clientes alugavam filmes em DVDs e a empresa os distribuía via Correios. Mas foi só quando alguém lá dentro teve a sacada de que poderia ir além e remover o último elemento físico do negócio, o disco de DVD, que ela deslanchou. Afinal, a digitalização total era uma ótima ideia, tão boa que surpreende que estúdios fornecedores de conteúdo e donos das plataformas onde a Netflix roda tenham demorado tanto para copiá-la.

Nesta terça (10), a Apple deu data e precificou o Apple TV+, seu serviço de streaming com produções originais assinadas e estreladas por figurões de Hollywood. Chega no dia 1º de novembro e custará apenas R$ 9,90 no Brasil, ou menos de 1/3 do que custa a assinatura padrão da Netflix aqui. Na compra de qualquer Mac, iPhone, iPad, iPod touch ou Apple TV, o consumidor leva um ano de Apple TV+ grátis.

Não bastasse o direto previsível da Apple, outro golpe inesperado atingiu a operação brasileira da Netflix. Sem alarde, no meio da madrugada a Amazon lançou o Amazon Prime no país, sua assinatura que dá direito a uma série de vantagens como frete grátis em compras feitas na loja virtual, ofertas exclusivas de produtos, livros e revistas digitas, Twitch Premium e acesso aos streaming de música e vídeo da marca, o Prime Video. Custa R$ 9,90 por mês, menos do que a Amazon cobrava até então apenas pelo streaming de vídeo, o que torna inócuo assiná-lo isoladamente — tanto que quem quiser fazê-lo a partir de agora só conseguirá através da assinatura do Amazon Prime. Ah, e se pagar o ano adiantado, há um desconto de 25%, o que derruba o custo mensal para R$ 7,41.

Somadas, as ofertas da Apple e da Amazon custam praticamente metade do plano padrão da Netflix (R$ 17,31 contra R$ 32,90). Ah, adicione também o YouTube Premium, que passará a exibir seus originais de graça (com anúncios) a partir de 24 de setembro.

Nos Estados Unidos — e, em 2020, no Brasil também — ainda teremos o Disney+. Lá fora, custará US$ 6,99 por mês e terá uma opção de pacote composto por assinaturas do Hulu e da ESPN+ por um preço similar ao da Netflix. E ainda tem o HBO Max. E o Globoplay. E o YouTube Premium. E o Mubi. E… você entendeu.


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O diferencial da Netflix, para o bem e para o mal, é que ela é uma empresa de streaming. Suas grandes rivais do setor de tecnologia, não. Apple, Amazon e Google usam o streaming para alavancar outros negócios e trancar consumidores em seus ecossistemas. Eventualmente, lucram. E mesmo que não alcancem o azul ao final do trimestre, ainda assim estará tudo bem, pois outras áreas poderão compensar o zero a zero ou até prejuízos marginais com o streaming.

Durante muito tempo, os interesses da Netflix estiveram sintonizados aos dos parceiros do cinema e da tecnologia, um alinhamento quase cósmico que validou o modelo e fez o negócio prosperar. A Netflix comprava direitos de filmes e séries antigas dos estúdios e canais de TV, em geral velharias que não rendiam mais nada significativo, e espalhava seu software em qualquer coisa com uma tela, dividindo a receita das assinaturas com Apple e Google. A relação com esses parceiros mudou na medida em que a oferta da Netflix se tornou mais e mais tentadora e os olhos dos então parceiros cresceram para cima dela. Com o tempo essas relações mudaram; hoje, estão mais para uma intrincada guerra fria digital.

Entre outros efeitos, ficou mais caro segurar os campeões de audiência na plataforma. E em alguns casos, nem um caminhão de dinheiro é capaz de convencer os estúdios a abrirem mão das suas joias da coroa. Friends, o segundo programa mais assistido na Netflix nos Estados Unidos em 2018, teve uma sobrevida no serviço em 2019 graças a um pagamento de US$ 100 milhões. Para 2020 não teve acordo: ele sairá do catálogo da Netflix para fazer parte do HBO Max, o novo streaming da Warner, que detém os direitos da série. Em 2021, a Netflix também perderá o seu campeão de audiência, The Office, para o streaming da NBCUniversal. (No Brasil, The Office é transmitido no Prime Video da Amazon.)

A bem da verdade, a Netflix já vem se preparando para este cataclisma. Há anos o investimento em produções próprias e exclusivas tem crescido. Em 2019, estima-se que serão gastos US$ 15 bilhões só nisso, praticamente o mesmo valor do faturamento de 2018 (US$ 15,8 bilhões). Como se nota, é uma estratégia extremamente custosa; mesmo a Netflix sendo grande como é, talvez não tenha cacife para sustentá-la a longo prazo.

Cada empresa tem uma justificativa própria para se lançar no mundo do streaming. Na outra ponta, a do consumidor, nenhuma delas importa. A balcanização do streaming audiovisual poderá custar caro para todas elas lá na frente na forma do retorno da pirataria. Não foi para sustentar salários de executivos e produções próprias que tanta gente se rendeu ao streaming; foi o preço baixo e a comodidade oferecidos pela Netflix que fizeram o streaming ser o que é hoje. Se um desses dois fatores sai de cena, de repente um Popcorn Time da vida ou os filmes baixados via torrent voltam a ficar interessantes.

Atualização (11h10): A versão original do texto informava incorretamente que a compra de um Apple TV não dava direito à assinatura de um ano gratuita do Apple TV+.

Foto do topo: Netflix/Divulgação.

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20 comentários

  1. Sempre enxerguei as plataformas de streaming como um upgrade do modelo de TV por assinatura. Em ambos os modelos, paga-se por conteúdo, muitas vezes, exclusivo. Mas, no streaming, tem-se a liberdade de escolher o horário.

    O pacote de TV vem com um monte de canais inclusos que você não quer e não assiste. E tem alguns canais em que você acompanha apenas um único programa ou série.

    Com essa infinidade de streamings surgindo, para acompanhar suas séries favoritas, torna-se necessário assinar mais de um serviço (pois em cada um tem uma série que você gosta, por exemplo). Dessa forma, mais uma vez, tudo acaba ficando muito parecido com os canais da TV paga.

    Já que os streamings são “canais”, o próximo passo será lançar o “pacote de TV” que vem com todos esses canais. Então, acredito que o futuro mais provável seja o surgimento de agregadores de conteúdo, em que, com uma única mensalidade, teremos várias plataformas de streaming disponíveis.

    De certa forma, um ensaio sobre isso já está sendo feito. Operadoras de telefone estão oferecendo assinaturas de streaming em seu plano de dados e algumas TVs por assinatura oferecem a versão streaming de seus canais.

  2. Eu gosto muito do universo televisivo e sou audiência fácil até mesmo para artigos como este, que é uma leitura bem didática e atualizada do cenário. Acredito em segmentação. Dias atras a Tom’s Guide e a PCMag publicaram comparativos entre os serviços mais populares classificando um “Best for” muito cru.

  3. A gente vê muito o cenário “classe média sofre”, e ignora que há uma parte da população tão acostumada com a pirataria que comentários assim são irrelevantes.

    Imagino que a disputa por um espaço no mercado de streaming vai ser um laboratório para dar a certeza se o melhor é cada distribuidora ter sua forma de distribuição ou se o “método Netflix” (uma base monopolizada distribuidora, outras produzindo / co-produzindo) é o mais justo.

    O importante é fazer dinheiro. Mas em tempos de crise se avizinhando…

    1. Minha vivência me mostra que a periferia já achou dois meios de se manter consumindo entretenimento. No Streaming é uma assinatura da Netflix dividida em 4/5 pessoas (assim como Spotify). Na TV é um plano Top com 4/5 pontos adicionais instalados em diversas casas. Internet idem, é normal esticar cabos por 2/3 casas para repartir um conexão FTTH de 100M entre vizinhos/parentes.

      As barracas de DVD pirata ainda vendem, mas muito pouco, mesmo em zonas pobres – eu tenho um ex-colega de EM que vende isso num camelódromo em Gravataí e ele me falou que as vendas de mídia física ainda dão uma grana, mas, a maioria da galera nem tem mais o aparelho de DVD em casa (que é mais uma despesa, sendo que PC/telefone quase todo mundo tem, pelo menos um desses, em casa). O que ainda movimenta o mercado de mídia física é jogo de console pirata (principalmente PS2/PS3) nesses camelódromos. A primeira coisa que a maioria das pessoas nas periferias faz quando compra um desses consoles é desbloquear. Hoje em dia eles vendem pendrives e HD’s externos com coletâneas de jogos por até R$300 (o que, dividido entre vários amigos fica barato).

      Streaming parece bastante inserido no imaginário das pessoas, mesmo nas classes C/D, mas ainda é bastante distante por várias questões além do preço, mas, principalmente, pela necessidade de um cartão crédito. A realidade do Brasil nas periferias é de gente “desbancarizada” e sem crédito que compra as suas coisas via carnê em lojas mais populares. Por isso, até, que a Netflix reina no Brasil, se não me engano é a única que não precisa de cartão de crédito para assinar, pode-se assinar via meios “alternativos”.

      Economia colaborativa e compartilhamento sempre foram o que mantiveram o acesso vivo nas comunidades e periferias do país. Só deram um nome novo quando isso virou moda no pessoal do centro.

  4. E ainda tem os Streaming de Esportes (Dazn, EI+ e Premiere), de Anime (Crunchyroll e Funimation) e Dorama (Viki e Opções). Além dos streaming vinculados a TV Paga (Sky, Claro Vídeo, NOW e Globosat Play).

    Haja plataforma e haja dinheiro.

    A pirataria agradece.

    Uso Netflix, Prime Vídeo e o conteúdo gratuito de Crunchyroll e Viki.

  5. Tá na hora da Netflix se vender pra alguma empresa, ou entrar em outro ramo, o mais rápido possível. Duvido que Stranger Things segure as pessoas por muito mais tempo. Ainda mais com a quarta temporada sendo, muito provavelmente, a última.

    1. Quando você detêm algo que é referência, se vender seria se render a algo que denuncia que tu não tem condições de aperfeiçoar, e aí perder “o filho gerado” fica tarde demais.

      Stranger Things não é o único carro chefe. Há produções menores relevantes. E mesmo assim a empresa pode tentar se reinventar, desde por exemplo voltar a vender ou locar dvds e BDs (por quê não, sendo que há uma parcela relevante de pessoas que ainda usam este meio), servir como base de consultoria para outras empresas de streaming ou até mesmo locar suas tecnologias de streaming para terceiros.

      1. A Netflix ainda trabalha com discos físicos e a representatividade deles no balanço da empresa é pífia. No segundo trimestre deste ano — último dado disponível —‚ o aluguel de discos gerou US$ 76 milhões. Já o streaming, US$ 4,8 bilhões.

          1. Pra mim também, acabei de ir a CEF tirar R$168 do FGTS por conta da minha rescisão.

            Mas pra Netflix é troco de pinga, nem devem considerar mais isso como uma alternativa viável no curto prazo.

  6. Eu assino quatro serviços diferentes para assistir tudo que me interessa hoje. Já é uma despesa que concorre com a tv a cabo em termos de peso no orçamento. Isso é trágico, diante do que se desenhava antes.

  7. Acredito que a grande vantagem da Netflix frente aos concorrentes no Brasil ainda seja a sua popularidade.
    Diante da campanha de marketing agressiva que a empresa fez quando chegou ao país (me lembro dos comerciais em horário nobre da Globo, por exemplo) somado à então ausência de concorrentes e ao preço atrativo, a empresa conquistou o posto de “sinônimo de streaming” no Brasil.
    Porém, essa é uma vantagem relativa, já que esse posto não é intocável. Pelo contrário, o Globoplay está comendo pelas beiradas — nada como ter por trás o maior conglomerado de mídia do país — e nada impede que a política de preços agressivos da Amazon incomode a Netflix.

    1. A Netflix conseguiu popularizar esse serviço. Vejo todo mundo utilizando, independentemente da renda, nem que seja partilhado entre 5 pessoas.
      E concordo com você, eles já são populares e dificilmente perderão o trono. O serviço da apple deve ganhar um certo espaço entre os usuários da marca.
      Mas pra mim o que mais traz expectativa é o da disney (a mulher está louca pra assinar por conta do conteúdo).

  8. Qual ou quantos dos players vão usar a opção de operar no prejuízo com a intenção de ver o(s) concorrente(s) quebrarem? Enquanto isso torrents voltando a fervilhar.

  9. Já vi muita gente comentando que seria “simples” assinar e cancelar os serviços de acordo com os lançamentos e séries que vocês quiser assistir.

    Porém, duvido que a maioria dos usuários esteja disposta a realizar esses malabarismos ou pagar todos os serviços juntos…

    Como o artigo diz, muita gente voltará para a famosa locadora do torrent.

  10. Na verdade, acho essa história um pouco ruim, para todos os consumidores.

    Antes, o torrent reinava.
    Então, o NETFLIX apareceu e praticamente agregava quase tudo que se tinha para assistir de todas as empresas. Era uma assinatura, para quase tudo.

    Depois que cada uma começou a achar que pode ‘ganhar mais’ criando o próprio serviço, o que vai acontecer é que a maioria vai assinar um serviço e voltar a usar o torrent para outros.

    É a tipica coisa de empresa que se preocupa mais com o lucro que poderia ter, do que com o prejuízo que vai sofrer tendo seu produto pirateado.

    É triste.

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