Tela com o Disney+ no centro rodeada por ícones de outros serviços de streaming.

Com a fragmentação do streaming, pirataria volta a ganhar força


15/4/19 às 10h20

Nota do editor: A Andressa, que já participou de um Guia Prático, pesquisou em seu doutorado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) a relação entre a fragmentação das plataformas de streaming de vídeo e a volta da pirataria desse tipo de conteúdo. O texto abaixo é um excerto da sua tese, com uma leve edição para tornar a leitura mais fluída no formato blog. A tese ainda não foi publicada; quando estiver disponível, atualizarei esta nota com o link para download.


Ao final da primeira década dos anos 2000, especialmente entre os anos de 2007 e 2008, o mercado dos serviços de streaming audiovisual (com a proposta principal de vender conteúdo ao público), assim como os demais atores interessados em suas dinâmicas e impactos (principalmente nas dimensões tecnológica, legal e comercial), produziam (e experienciavam) uma certa atmosfera marcada pela esperança de um combate eficaz ao universo da “pirataria”1 digital.

A popularidade dessas plataformas fez com que, rapidamente, atores como jornalistas, pesquisadores acadêmicos e cibernautas em geral, produzissem hipóteses sobre um futuro digital em que a “pirataria” restaria, se não coibida, significativamente reduzida. Regozijou-se, com o streaming, as disputas entre a legalidade e a ilegalidade de oferta e de consumo de entretenimento digital em uma atualização contextual que prenunciava o declínio e, às vezes, a morte da “pirataria”.

É possível encontrar dezenas de estudos relacionando a suposta queda do acesso a filmes, séries e documentários em meios “piratas” com a ascensão dos serviços de streaming, assim como manifestações profissionais e pessoais da mídia, e de demais cibernautas, se baseando em tais pesquisas para mobilizarem, em manchetes e títulos de demais formatos de expressão, gramáticas relativas a relações beligerantes que acionam noções de salvação (da indústria do entretenimento audiovisual) e de fim/morte (da “pirataria”) — TechCrunch (2009), Slate (2011), Forbes (2013), Olhar Digital (2015), The Guardian (2017) e Financial Times (2017).

Ao longo de minhas pesquisas junto aos agenciamentos e processos de coprodução entre “pirataria” digital e a indústria do entretenimento audiovisual, percebi tal esperança ceder espaço, novamente, às regenerações (por vezes obstinadas) da “pirataria” enquanto eleição pertinente, adequada e justa a ser consumida pelo público. No site Reddit, especialmente no subreddit r/Piracy, realizei pesquisa semi-estruturada junto a 162 interlocutores de 22 países2 para compreender o consumo “pirata” de vídeos na era do streaming — era que destaca o relativo baixo custo do acesso, sua praticidade e conveniência. Um dos principais motivos se devia à pluralização das plataformas streaming que, na opinião dos interlocutores, descentralizava o conteúdo, tornando-o mais caro e mais complexo em sua busca, além de (re)-promover a antiga ideia de que a indústria do entretenimento é gananciosa.

Segmentadas, as plataformas de streaming de vídeo apresentam produções originais somente disponíveis pelos próprios serviços, além de disponibilizatem catálogos diferentes (uns dos outros) e limitados. Tais características sugerem que se o público deseja assistir o que quiser de modo prático e barato, ou ele deve querer consumir somente o que um serviço oferece, ou deve assinar mais de um serviço. Assinar mais de uma plataforma significa, no entanto, sobreposições de custos e a instauração de uma confusão no momento de procurar o que se quer assistir — o conteúdo estaria nesta ou naquela plataforma? —, desestabilizando, assim, as principais vantagens que o serviço de streaming trouxe ao público: a praticidade/facilidade de uso e o baixo custo.

É importante destacar que tais serviços não são disponibilizados de modo simultâneo em todas as regiões. Ainda assim, em muitos países — geralmente aqueles conhecidos por seus melhores índices de desenvolvimento —, a presença de três, quatro até mesmo cinco serviços distintos confunde e aborrece o público. O contexto da pluralidade das plataformas de vídeo foi percebido pelos interlocutores que tive contato como fortemente retrógrado aos (percebidos) empenhos da indústria em situar/manter o consumidor no universo do acesso legalizado ao entretenimento. Muitos interlocutores interpretaram a proliferação de serviços de streaming como um movimento pouco sábio e ganancioso por parte do mercado formal.

Pouco sábio porque desestabiliza as vantagens e a decorrente popularidade do streaming, introduzindo elementos de oposição às características gerais de tais plataformas: se uma das mais influentes publicidades a favor do streaming se dava em razão de sua praticidade, a variedade de serviços instaura a complexidade; e o baixo custo, outra importante publicidade a favor das plataformas, é relativizado com o novo contexto. No primeiro caso o assinante ou a assinante perdem a conveniência de possuir todo o conteúdo em um só serviço e de conhecer somente a funcionalidade de uma plataforma, tendo que explorar outros catálogos em distintas interfaces com diferentes operacionalidades. Conforme interlocutores, tal experiência pode ser confusa, já que geralmente se esquecem em qual plataforma determinado filme se encontra e até mesmo se cansam de procurar o que queriam assistir. No segundo caso o assinante ou a assinante, se não se satisfazer com o catálogo de um serviço (reclamação bastante frequente), pode assinar outros serviços tornando o valor pago pelas plataformas dispendioso, chegando, por vezes, a valor muito próximo dos custos da TV a cabo.

Apesar de muitos relatos consternados sobre a multiplicidade de plataformas oferecidas no mercado atualmente, quantidade considerável de interlocutores se mostraram assinantes de mais de um serviço. Por vezes, tais interlocutores relatavam assinar três ou quatro plataformas devido, principalmente, às suas especialidades, como o streaming de esportes da ESPN, ou em razão de conteúdos isolados e de alta popularidade, como o HBO Go e a transmissão da popular série Game of Thrones.

Também me foram relatadas escolhas de plataformas a partir de seus catálogos infantis que mais atendessem às predileções dos pais e dos filhos(as)/sobrinhos(as). Outro aspecto relevante de ser exaltado é a incerteza de que os conteúdos que motivaram a assinatura do público restem disponíveis nas plataformas por tempo considerado razoável.

A comparação da diversidade de plataformas com a experiência da TV a cabo foi uma constante entre os relatos e demais comunicações que visualizei no ciberespaço. A comparação, de caráter negativo, é indicativa de um retorno do mercado do entretenimento a modelos que não contentavam grande parcela do público consumidor. Explico: o serviço de streaming se tornou popular, dentre outras razões, por mostrar-se como uma alternativa vantajosa à TV por assinatura, muito em razão desta desagradar devido a seus altos custos — frequentemente cobrados por canais raramente ou nunca assistidos —, dos comerciais que apresenta e da impossibilidade de o consumidor assistir, de modo geral, o conteúdo desejado no momento que quiser3. Neste contexto, o streaming passa não mais a ser uma alternativa efetiva aos modelos tradicionais de distribuição de conteúdo, mas um serviço semelhante à TV a cabo em termos de equivalência de conteúdo, satisfação, e, possivelmente, preço.

Deste modo é possível pensar os vários serviços de vídeo que surgiram nos últimos anos como transformadores da proposta e da experiência inicial do streaming, aparando e relativizando suas vantagens, além de situá-la no mesmo terreno de modelos de negócio a que parecia superar em termos de apreciação do público — como a TV a cabo, a compra de filmes e até mesmo a “pirataria”.

É interessante perceber que a multiplicidade de tais serviços os impopulariza ao mesmo passo que atraem, como uma finalização/preenchimento, a “pirataria”. Os interlocutores entrevistados, como mencionei, assinam, em sua maioria, um ou mais serviços. Contudo, frente à fragmentação dos conteúdos em variadas plataformas, a “pirataria” se torna um serviço eficiente na busca pelos filmes não disponíveis. Não somente um serviço alternativo, mas um serviço simbiótico. Desse modo, pode-se dizer que a pluralidade em questão “trai” a si mesma em seus objetivos no mercado produzindo consumidores que (re)passam a mobilizar gramáticas associadas à ganância e ao retrocesso da indústria.


Publicado originalmente no Academia.edu em 11 de outubro de 2018.

Montagem do topo: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

  1. N.E.: A autora usa pirataria entre aspas porque “é um termo pejorativo utilizado para ser associado à desapropriação, utilizado principalmente pelos que dominam direitos autorais”, diz ela. “É uma eleição minha no entanto; hoje vários grupos se auto identificam como piratas, mas quis ter esse cuidado”.
  2. Os países são: França, Estados Unidos, Brasil, Rússia, Reino Unido, Austrália, Itália, Bulgária, Turquia, Marrocos, Filipinas, Alemanha, Índia, Canadá, Lituânia, Zimbábue, NovaZelândia, Espanha, Portugal, Holanda, Croácia e Suécia.
  3. É interessante salientar que a TV por assinatura, na primeira década dos anos 2000, foium meio de acesso relacionado à qualidade da programação no Brasil, como mostrouLaura Graziela Gomes (GOMES, 2007).

Assine o Manual do Usuário

Ao acessar este blog, você não é rastreado ou monitorado por empresas como Google, Facebook e outras de publicidade digital. A sua privacidade é preservada. O Manual do Usuário tenta viabilizar-se por métodos alternativos e éticos. O principal é o financiamento coletivo. Colabore — custa a partir de R$ 9 por mês:

Assine no Catarse