Guia Prático #171: Mudanças no streaming de vídeo fortalecem a pirataria

Montagem com os logos de Amazon Prime, HBO Go, Netflix e Disney+.

No início da década, a Netflix despontou com uma oferta tentadora: muitos filmes e séries, todos em um só lugar, a um preço bastante acessível. O sucesso da empresa fez com que, anos depois, outras investissem na mesma fórmula, como a Amazon. Agora, os próprios estúdios e distribuidoras, como Disney e Warner, também se preparam para entrar no streaming, cortando intermediários e aumentando a fragmentação.

Ter que assinar alguns planos de streaming acaba com as vantagens originais da Netflix — o baixo custo e a conveniência de ter tudo no mesmo lugar ao alcance de um clique. Essa mudança na dinâmica do mercado pode ter um efeito colateral danoso às próprias empresas do entretenimento: o retorno da pirataria. É sobre isso que eu (Rodrigo Ghedin), Naiady Piva e a convidada especial Andressa Soilo, doutoranda em Antropologia Social pela UFRGS, debatemos no programa desta semana.

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20 comentários

  1. Vou falar especificamente da indústria musical. Teve um tempo em que a indústria da música fazia vistas grossas para a pirataria. Um exemplo: quando os carros começaram a vir com toca fitas. As fitas cassetes virgens eram vendidas que nem água nos grandes magazines e nas lojas de disco (na época vinil). Quem acredita que vc gravava os seus próprios discos pra ouvir no carro? As pessoas pediam a parentes e amigos para gravarem os discos que eles tinham. Os aparelhos de som já vinham geralmente com dois gravadores de k7, isso quer dizer que a pessoa podia gravar de fita pra fita, o que representava a pirataria da pirataria. Isso é ou não fomentar a pirataria? Depois vieram os CDs e com isso os gravadores de CDs, mas novamente ninguém discutiu pirataria. Daí para a Internet e o p2p foi um pulo.
    Hoje eu ainda uso p2p (soulseek) para baixar discos raros que só foram lançados em vinil e que alguma alma caridosa ripou para arquivo digital. Acreditem, tem muito disco (muito mais do que se imagina) que não foi lançado digitalmente. Enfim, ainda existe uma comunidade forte para compartilhar esse tipo de arquivo (discos raros, outtakes e arquivos lossless) e o soulseek é o caminho mais indicado pra essas raridades, mesmo pq é uma comunidade muito forte na gringa. A minha conclusão é que a pirataria nunca vai acabar e a indústria tem a sua participaço no início da ideia de compartilhamento.

    1. Ao contrário, o combate a pirataria SEMPRE existiu. Sugiro assistir por exemplo o canal do Techmoan no Youtube, pois há histórias com fatos retirados de revistas de época sobre o combate a pirataria.

      Por exemplo, uma curiosidade é que o combate a pirataria impediu o crescimento de tecnologias como fitas cassetes digitais.

      1. Deveria ter uma ação aqui e ali de combate a pirataria, mas nunca de uma forma global como foi no fim dos anos 90 e começo dos 2000. Uma boa dica de leitura seria o livro “como a música ficou grátis (o fim de uma indústria, a virada do século e o paciente zero da pirataria)”. O autor é o Stephen Witt. Eu não entendi esse lance que vc falou de fita cassete digital. Seria uma coisa híbrida? Se o cassete já é analógico, como seria essa fita cassete digital?

  2. Foi feita uma comparação dos serviços com a TV a cabo. Mas pra mim o principal ponto foi deixado de fora, que é a faciliade de se assinar só o que precisa. Na tv a cabo se vc queria ver uma serie especifica tinha q assinar o pacote tal com um adicional de tal por 12 meses pelo menos. No streaming vc pode assinar só o que vc quer e não tem fidelização!

    Outro contraponto, é que foi tudo colocado na conta da ganancia das empresas. Sim, elas querem ganhar dinheiro, e muito. Mas olha o tanto de conteúdo a mais que foi produzido por conta da ganancia do Netflix. Olha como tem até conteudo nacional sendo distribuido pelo mundo todo. Acho bem legal essa parte. E as empresas precisam lucrar e ter uma certa independencia para fazer ese conteúdo. A produção visual, diferente da musica, precisa ter a reprodução bem remunerada. Um artista musical, gasta relativamente pouco pra produzir um album e ganha dinheiro fazendo shows. Atores, produtores, roteiristas, animadores, e etc, não tem esta opção.

    Imagina uma Netflix monopolizando o mercado de filmes e séries, terrível não? Sinceramente acho bem saudavel a competição, e acho que vai mudar muito ainda. Pode acontececer algo semelhante ao mercado de musica, onde inicialmente tinha varios players e depois de algum tempo foi concentrando, naqueles que tinham algum diferencial.

    Um ultimo comentário, é com relação a publicidade. Interessante como essas plataformas não recorreram a ela ainda. Talvez por isso consigam ter um foco muito maior no cliente. Essa independencia também me parece bem interessante e um grande diferencial.

    1. A ganância gerou a fragmentação e essa fragmentação vai levar de volta à pirataria. Isso não é algo imutável, pode ser que uma ou outra consiga ser um ponto de distribuição de conteúdo diverso, mas o que temos hoje indica que não vai ser assim.

      A Netflix nunca teve nem perto de monopólio de conteúdo, ela tinha um monopólio de distribuição que ainda dependia de negociação com diversos estúdios. A saída dela quando a fragmentação começou a ocorrer foi iniciar uma produção massiva de conteúdo próprio para competir. Tem coisas boas mas, a imensa maioria, tal qual a TV “normal”, é uma porcaria de baixo orçamento.

      E a Netflix já testou publicidade em alguns locais. Acho que isso vai ser a regra. Quando a TV a cabo chegou por aqui ela não tinha spot comercial no meio da programação, porém, com a popularização e a fragmentação dos serviços os preços baixaram bastante e as emissoras/operadoras começaram a interpor comerciais nos programas.

      O modelo de streaming está evoluindo de maneira muito parecida com a TV a cabo (que inicialmente não tinha fidelidade também, isso foi mais um efeito colateral da fragmentação de serviços).

  3. Tem uma coisa que é mais louca.

    No caso da Disney, ela parece que segmentar a seu conteúdo dentro dela mesma.

    O Disney+ tem cara de ser um serviço que virá com foco na família como um todo, Marvel, Mickey, Star Wars. O conteúdos mais adultos, com temáticas mais maduras parecem que ficarão direcionadas no Hulu, serviço que ela adquiriu junto a Fox. Não sei se estou correto quanto a origem dessa aquisição, mas a segmentação parece ocorrer mesmo.

    1. A Disney já tinha participação no Hulu. Com a aquisição da 21th Century Fox, ela terá participação majoritária. (A terceira parte é da Comcast, que disputou até o último momento a 21th Century Fox.)

      Faz sentido esse raciocínio, embora eu ache que a Disney não vá vender o Disney+ como algo segmentado. As franquias que ela tem ali são bem amplas. O que fica fora é coisa de nicho, que, sim, provavelmente acabará no Hulu.

  4. Tem uma coisa interessante que não vi ser levantada. Eu não preciso assinar esses serviços continuamente.

    Ou seja, eu posso trocar o serviço que estou assinando, mensalmente até, em função do meu interesse ou do hype que está acontecendo.

    Eu posso assinar o HBO Go quando vier a última temporada do GoT e enquanto isso ficar no Globo Play (acho que é esse) e ver o Conto de Aia. Acaba a temporada eu cancelo, ou fico we achar algo interessante. E aí ficar com assinaturas contínuas para produtos mais gerais, como um Play Kids se eu tenho filhos.

    Essa liberdade, mesmo que de um trabalho para cancelar e assinar, não existe na TV por assinatura tradicional e esquecemos dessa questão de sob demanda um cenário macro.

    Fica uma questão aí para a conversa.

    1. Estava no nosso roteiro, mas faltou tempo para discutir essas estratégias para assistir a tudo gastando menos. Essa é uma, embora já tenha ouvido gente reclamando da via-crúcis que é cancelar o Globo Play. (A Netflix é bem tranquilo; Spotify, idem.)

      Outra ideia que tenho é recorrer aos serviços de vídeo sob demanda, de aluguel. Dependendo de quantos filmes alguém assiste ao mês, sai mais barato. No iTunes, por exemplo, lançamentos custam R$ 12 e filmes antigos se acha por até R$ 4. Considerando a mensalidade de R$ 27,90 da Netflix, dá para ver bastante coisa em um mês antes de empatar a fatura.

      1. Bom lembrar que no inicio a TV a cabo não tinha fidelidade também. Esses contratos se iniciaram com a fragmentação de operadoras de TV que ofereciam serviços/canais parecidos e precisavam manter o consumidor por um tempo específico para ter um bom ROI.

        Me lembro de ter um vizinho que assinava a NET e pagava a mensalidade de acordo com o que queria ver. Quando iniciavam os mid-seasons ele cancelava (naquela época você comprava o aparelho e a antena inicialmente, então não precisava vir retirar aparelho) e quando voltavam as full-seasons ele voltava a pagar. Na prática ele pagava por uns 6/7 meses por ano a NET.

  5. Um comentário que eu fiz no Tecnoblog:

    E agora a Disney vai lançar um serviço de vídeo sob demanda (aka streaming) o que vai colocar *mais um* serviço no mercado.

    As empresas são malucas e sempre acreditam que podem impor soluções que ninguém pediu. O que temos hoje – um enfraquecimento da pirataria pela facilidade de se conseguir conteúdo barato e em qualquer lugar – se deve ao modelo de negócios da Netflix de centralizar boa parte do conteúdo que as pessoas assistem. Com essa fragmentação quem vai levar a melhor vai ser a baía pirata (ainda bem, sempre torço por eles).

    Lógico que ainda tempos vantagens nos planos de streaming (escolher o que e quando assistir é uma vantagem tremenda, assim como poder assinar um mês um e no outro mês outro, de acordo com os lançamentos/eventos esportivos) mas, grosso modo, a fragmentação é um problema pra qualquer um.

    Se você for assinar o que temos disponível hoje em termos de serviços de streaming (sem música e sem anime) vai dar nisso:

    HBO GO – R$34,90
    Netflix – R$27,90
    Prime Video – R$14,90
    ESPN+ – R$12,90
    EI+ – R$19,90
    Fox Premium – R$14,90
    Telecine Play – R$37,90
    ======================
    Total – R$163,30

    Num segundo cenário com a Disney+ vindo pelo mesmo preço do HBO GO:

    HBO GO – R$34,90
    Netflix – R$27,90
    Disney+ – R$34,90
    Prime Video – R$14,90
    ESPN+ – R$12,90
    EI+ – R$19,90
    Fox Premium – R$14,90
    Telecine Play – R$37,90
    ======================
    Total – R$198,20

    E num último cenário com Spotify + Crunchyroll:

    HBO GO – R$34,90
    Netflix – R$27,90
    Disney+ – R$34,90
    Prime Video – R$14,90
    ESPN+ – R$12,90
    EI+ – R$19,90
    Fox Premium – R$14,90
    Crunchyroll – 25,00
    Spotify – 16,90
    Telecine Play – R$37,90
    ======================
    Total – R$240,10

    Claro, estou colocando uma infinidade de possibilidades de conteúdo (com música inclusa) que não se tem na TV a cabo, mas, por outro lado, é um conteúdo bem mais caro, disperso e que precisa ter aplicativos em uma SmarTV ou mesmo um aparelho como Apple TV (a quarta geração, 4K, de R$1299) ou um ChromeCast (R$349, e eu nem sei quais aplicativos tem nele).

    No momento atual, um pacote de TV básico + serviço de streaming supre mais a necessidade do apenas o streaming. E eu pensei que esse era o fim da TV a cabo.

    [E minhas somas podem estar erradas, é chato de se lembrar de todos os serviços que temos hoje, tive que voltar umas quatro vezes pra arrumar/atualizar os valores]

    ~~

    Sabe o que tudo isso significa? Que a pirataria vai voltar a dominar o mercado até que surja um serviço que seja agregador de todos os serviços de streaming. Uma TV a cabo na internet. E eu acho ótimo que a pirataria volte ao centro da distribuição porque, ao que parece, as empresas não conseguem entender a dinâmica e as necessidades das pessoas e tentam enfiar soluções capengas com problemas sérios e com preços absurdos.

    1. Seu comentário tem tudo a ver com o que discutimos no podcast, Paulo! Pacotes de streaming de acordo com o nosso desejo (o consumidor elegendo o conteúdo de seu pacote), seria uma saída para a retomada do “controle” da localização do público (também) no âmbito legal. Me pergunto quais as desvantagens desse rearranjo de coesão pra indústria.

      1. Acho que a indústria não vai fazer esse movimento num futuro próximo porque acredita que o modelo de fragmentação vai beneficiar aquele estúdio que conseguir mais “exclusivos”. Nesse ponto a Disney é a Nintendo, joga com a infância e franquias absurdamente mais conhecidas que todas as outras concorrentes (ainda mais tendo a Fox na aba) e parte de um lugar privilegiado em relação as outras.

        Acredito que a tendência vai ser um serviços que cobre, sei lá, R$100 mensais e te dê acesso a vários serviços de streaming de maneira centralizada, com um modelo de negócios parecido com o que tínhamos na TV a cabo inicialmente.

        Se isso vai dar certo ou vai evoluir eu não sei, mas meu chute é nessa direção.

  6. Interessante como o monopólio, de maneira contrária ao comum, conseguiu fornecer um serviço acessível e de qualidade (época que Netflix dominou os streams de filmes/séries). E um outro ponto muito bem abordado, foi sobre as percepções de justiça que se modificam conforme a relação entre produtores de mídia e consumidores. Muita coisa pra refletir. Parabéns pela produção!

    1. Vinícius,

      Interessante esse diálogo coprodutivo entre o legal e o ilegal, né? De certa forma a “pirataria” moldou a indústria, que acabou por incorporar muito do considerado ilegal em sua operacionalidade. Infelizmente a lógica que beneficia(va) o consumidor não se manteve em razão das dinâmicas do mercado. Mais diálogos virão!

    2. Não é necessariamente o monopólio que tornava o streaming tão atraente, mas a conveniência. A gente tem um paralelo bem próximo que mostra que é possível ter competitividade em um setor sem abdicar da variedade: o streaming musical. Desconheço alguém que assine Spotify ou Apple Music ou Deezer pelos exclusivos de cada plataforma. Geralmente, a escolha se dá por outros critérios como custo (Deezer gratuito na TIM, por exemplo), experiência (integração do Apple Music no ecossistema da Apple) ou comunidade (as playlists públicas do Spotify).

      Daria para ter um ambiente competitivo no audiovisual também, mas os estúdios estão preferindo usar suas produções de munição para abocanhar fatias maiores de receita. Ou seja, voltamos ao ponto da ganância, citado em vários momentos da conversa no podcast.

  7. Acabei de ouvir e adorei o tema. E, realmente, ficou a impressão (e o desejo) que o tema deve continuar.
    Vamos lá…
    Já assinei de tudo no mundo do streaming: Deezer, Spotify, Google Play Music, Prime Video, Netflix… e até os recentes YT Premium e YT Music.
    O que uso hoje, entre legalizado e pirata:
    – Legal: Claro Vídeo e Claro Música (que já vem inclusos no meu plano Claro Controle. Claro Vídeo está instalado somente na TV e até que quebra um galho. Claro Música está no smartphone, mas uso muito pouco pq o serviço até que é bonzinho, mas o app Android é horrível!
    Prime Vídeo; que só está instalado na TV.
    – Pirata: lista IPTV. Tenho todos os canais disponíveis no país entre todas as operadoras e mais algumas dezenas. Ainda tem filmes e séries OD. Pago 15 reais a um vizinho que me fornece. Tbm só uso na TV.
    – Legal e pirata ao mesmo tempo (risos):
    Google Play Music. Sim! Não assino, mas ele permite que o usuário suba para a nuvem do serviço até 50 mil músicas gratuitamente, sem se importar se os arquivos vieram diretamente de CD original ou MP3 baixado na internet. Sendo assim, lá tenho quase 35 mil músicas entre coisas que baixei na internet e arquivos extraídos de CDs originais que comprei ou ganhei.
    – Legal e pirata, parte 2: canal privado no Telegram que faço de nuvem particular onde guardo como backup mais de 900 álbuns zipados, tbm, entre baixados na internet e extraídos de CDs originais.
    Obs.: 2 casos curiosos que tive com séries.
    Estava acompanhado a série Covert Affairs no Claro Vídeo. Essa série tem 5 temporadas. No Claro Vídeo tem as 4 primeiras e no Prime 5ª.
    Há também uma série chamada Mozart In The Jungle. Ele tem 4 temporadas. As 3 primeiras estão no Prime (4K/HDR), e a última no Claro Vídeo, somente em HD 720p.
    Como tenho os 2 serviços, pode fechar as 2 séries.
    Desculpem o comentário longo, mas é que os podcasts do MdU me instigam, me põem pra pensar.

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