Se os usuários reparam em seu software, você já perdeu

por David Gerard

Ninguém *quer* um computador. Querem o que ele faz. Não a máquina irritante. Incluem-se aí os celulares.

Acabei de comprar um celular novo, um Fairphone 5. É um bom aparelho — e a Fairphone ainda vende ele com o fork Android sem Google, o e/OS.

Mas deixei esse celular com o Android 15 do Google — porque preciso de aplicativos comerciais específicos, da Play Store, rodando num sistema padrão, para fazer as minhas coisas.

Poderia fuçar em um sistema alternativo e dar um jeitinho para a Play Store funcionar. Ou poderia não fazer isso.

Estou acostumado a fuçar: uso Linux desde 2005. Sacia o meu vício por controle. Antes disso eu usava FreeBSD.

Tenho um app do Windows que preciso (Kindle Previewer) que não funciona no Wine no Linux. Rodo numa máquina virtual com Windows 10. Quando preciso, ligo ela e pronto.

Você tem um computador porque tem um trabalho a fazer. Então busca um software que faça esse trabalho. E precisa rodar esse software numa máquina, que terá uma plataforma de sistema operacional.

Nem o computador nem a plataforma devem chamar atenção. Se chamam, seu trabalho trava.

Se você está criando uma plataforma e alguém repara nela, você já perdeu.

Plataformas precisam ser transparentes. Todas começam assim; aí aparece um marqueteiro querendo incrementar seu currículo, faz a plataforma gritar “OLHE PARA MIM” e acham que virou a estrela do show.

O Windows tem um trabalho: rodar trinta anos das suas coisas velhas. Agora o Windows 11 fica no seu caminho querendo ser seu amigo.

O Linux sempre tropeçou no fato de que as pessoas precisam notá-lo para usá-lo. Evangelistas do Linux não entendem que as pessoas, visceralmente, não querem reparar no sistema operacional.

Mas o Windows e o Macintosh, especialmente com esses visuais tipo “Liquid Glass”, seguiram a rota do OLHE PARA MIM.

O Linux vem ganhando novos usuários porque é menos incômodo que o Windows 11, mesmo para rodar softwares do Windows. Os novos usuários descobrem que ele apenas funciona agora. E não tenta te vender IA. Nem ser seu amigo.

Até o Android 15 do Google tem delírios de estrelato. Não: eu quero que o botão de ligar seja botão de ligar, não que chame o Gemini. Que coisa.

IA se enfiando na sua frente te faz travar. Por isso é um fracasso.

Foi isso o que aconteceu com o Firefox. Começou em 2002 como Phoenix, um projeto de navegador como tela em branco. A Mozilla Suite era a versão de código aberto do Netscape 6, um projeto da AOL, inchado de recursos da AOL, totalmente OLHE PARA MIM. O diferencial do Phoenix era: ele abre e tem a web. Se você quisesse extras, instalava plugins.

O Google Chrome começou igual — tela em branco, só navegação! Depois foi decaindo para OLHE PARA MIM. O Internet Explorer explodiu em 1997 com o simples IE4, e o Netscape Navigator inchou com OLHE PARA MIM. Depois o IE e o Edge seguiram a mesma deterioração.

Agora o Firefox está adicionando IA para chamar atenção. Essa é uma estratégia perdedora para perdedores. Óbvia para quem realmente usa um navegador — parece que não para os executivos C-level da Mozilla. Os usuários pedem explicitamente: um navegador que a gente use sem que reparemos nele!

Se alguém percebe o seu navegador, você já perdeu.

IA generativa não tem propósito, então ela precisa se destacar e exige que o usuário encontre um caso de uso — porque ela não tem um. Aí os caça-currículo que acham que “OLHE PARA MIM” é sucesso não entendem por que os usuários a odeiam tanto.

A Microsoft apresenta a sua maravilhosa nova plataforma de IA Copilot e todos os usuários respondem: consertem os bugs e saia da minha frente.

Softwares baseados em chatbots de IA simplesmente não funcionam direito. Isso é o primeiro motivo para você travar e reparar neles. Se não fossem chatbots mentirosos incorrigíveis, teríamos um sistema usável para início de conversa.

Se você está adicionando aquele ícone de brilho com “agora com IA!” ao seu software, você está em modo fracasso orientado por trimestre. Está implorando para um concorrente lançar a versão enxuta.

Se o seu código é aberto, não tem desculpa para esse tipo de comportamento. Pare. Peça ajuda.

Computadores são péssimos e irritantes. Falo isso como profissional. Tenho trabalho para fazer. Se eu notar o computador, ele me decepcionou.

Se uma empresa ou projeto entrou na decadência do OLHE PARA MIM, ele não volta mais. Comece a criar o substituto “tela em branco” que se encaixe em seu lugar. Eles merecem isso. E, aliás, mande dinheiro para o projeto do navegador Servo.

Nota do editor: David cobre as insanidades do mercado de IA (são muitas) no ótimo Pivot to AI. Neste post, que ele gentilmente permitiu que fosse traduzido e publicado aqui, faz um panorama da tendência irritante de softwares que enfiam IA goela abaixo, mesmo sob protestos dos usuários mais assíduos. O original, em inglês, foi publicado no dia 10/1.

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2 comentários

  1. Sistema operacional, navegador, software parece coisa de velhos. Os mais novos simplesmente querem que funcione para determinado fim, estão se lixando pra especificações ou o que está rodando por trás. Vida dos mais novos se resume ao navegador.

  2. Como profissional da área, é um grande desafio explicar para os stakeholders que o bom design é justamente o que não é percebido, o que não deixa pontos de atrito.