A Reuters publicou (e a Folha de S.Paulo reproduziu) uma matéria sobre a suposta hiper-valorização de uma shitcoin inspirada no meme do sapo Pepe, popular entre extremistas digitais.

Parece-me um desserviço divulgar sob esse ângulo um negócio que parece, tem cheiro e forma de esquema de pump-and-dump — como se fossem ativos dignos de nota, falando em “valor de mercado” e volatilidade de um negócio sem legitimidade alguma. “Salta 7.000% desde o lançamento”, diz o título.

É aquele caso de uma piada que dá a volta e no fim a piada é quem compra esse tipo de coisa:

O site da Pepe diz que foi lançado “para o povo” sem “nenhuma equipe formal ou roteiro” e é “completamente inútil e apenas para fins de entretenimento”.

Com certeza. Confia e vai. Via Folha de S.Paulo.

A Câmara deve votar nesta terça (9) a urgência do projeto de lei 2370/2019, da deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), que trata da remuneração de empresas jornalísticas pelas empresas de tecnologia.

O tema era parte do PL 2630/2020, o PL das fake news, e um grave ponto de discordância entre os deputados. O “fatiamento” do tema foi acordado entre as lideranças da Casa e contou com o aval do relator do PL das fake news, Orlando Silva (PCdoB-SP).

Enquanto isso, nos Estados Unidos o Google fechou um acordo em que pagará US$ 100 milhões com o New York Times, maior jornal do país (e provavelmente do mundo), em um contrato de três anos.

O episódio serviu de combustível para críticas no Brasil. No Twitter, Orlando disse:

Curiosa a postura do Google. Nos EUA, faz acordo e paga para usar conteúdo jornalístico alheio. No Brasil, isso vira “censura” e vai destruir a internet livre. Acham que somos uma república de bananas! Regulação também é questão de soberania. PL 2630 SIM!

Achei o cutucão estranho. A natureza do acordo entre Google e NYT é puramente comercial, não tenha relação com regulação estatal — o que está se tentando no Brasil.

O Google, aliás, no passado fez acordos do tipo com publicações brasileiras, como Estadão e Folha de S.Paulo, ainda que com cifras muito menores.

Via O Globo, Reuters, @orlandosilva/Twitter.

Denúncias fajutas de manipulação algorítmica no Twitter e Google não ajudam na luta pela regulação das big techs

A boa crítica exige um conhecimento razoável do objeto que se quer criticar, sob o risco do crítico passar vergonha, gerar ruído e/ou tumultuar o debate.

Nos últimos dias, com o ambiente acirrado devido ao debate em torno do PL 2630/20, o PL das fake news, testemunhamos alguns deslizes meio… complicados.

No dia 1º de maio, Daniela Lima, jornalista da CNN, mostrou ao vivo que não conseguia publicar no Twitter uma mensagem favorável ao PL das fake news.

Naquele dia, o Twitter sofreu uma pane global, evento recorrente desde que Elon Musk demitiu 75% dos funcionários. A pane provavelmente explica a dificuldade que Daniela teve em postar a mensagem.

Ainda não fosse o caso, é preciso cautela antes de fazer esse tipo de acusação, gravíssima. Uma análise do contexto ajuda: o Twitter mal tem representação no Brasil e Musk não havia manifestado qualquer interesse — ou mesmo conhecimento — pelo debate do PL das fake news.

Print do Google mostrando a sugestão (“Você quis dizer”) de “lula corrupção” para uma pesquisa por “lula coroação”.
Print: @felipeneto/Twitter.
Dias depois, em 5 de maio, foi a vez do influenciador Felipe Neto ir às redes denunciar o Google por sugerir, em pesquisas por “lula coroação”, o termo “lula corrupção”. A mesma pesquisa por “bolsonaro coroação” era corrigida para “bolsonaro coração”.

O termo “coroação” estava em alta devido à coroação de Charles III, um evento anacrônico (e brega) ocorrido no Reino Unido no último sábado (6) e que contou com a presença de Lula.

Poderia ser parte da campanha ardilosa do Google contra o PL das fake news? Eh… acho que não.

Felipe afirma em sua postagem que “se trata de um erro algorítmico”, mas não é um erro; é como o algoritmo funciona. Muita gente já pesquisou por “lula corrupção”, o que desengatilha a sugestão do buscador para termos minimamente próximos daquele, como “coroação”. Para Bolsonaro, o “coração” provavelmente vem daquela pataquada de trazer o coração de Dom Pedro II de Portugal para servir de cabo eleitoral na sua fracassada campanha à reeleição.

A denúncia fajuta repercutiu em muitos jornais. Até o relator do PL das fake news, deputado Orlando Silva (PCdoB-SP), retuitou Felipe em tom indignado.

Em resposta, e mesmo sem culpa, o Google removeu as duas sugestões, de Lula e Bolsonaro.

Ainda hoje, porém, se você pesquisar por “bolsonaro machadinha”, o buscador sugerirá “bolsonaro rachadinha”. Felipe ou qualquer um do lado governista defenderia a tese de que Bolsonaro é perseguido pelo Google?

Nenhuma dessas denúncias equivocadas parece ser intencional, feitas de má-fé. Isso não as isenta de serem classificadas como incorretas, mentirosas, no mínimo carentes de comprovação, o que, em qualquer caso, é grave.

A essa altura do campeonato, são deslizes bobos, equívocos óbvios, e esse pessoal, que deveria ser letrado em internet, parece ter desligado os filtros diante de qualquer evidência, por mais frágil que seja, quando os ânimos acirraram.

O novo aplicativo de Kevin Systrom e Mike Krieger, fundadores do Instagram, se chama Artifact e é uma espécie de “TikTok de textos”.

A dupla está fascinada com recomendações por aprendizagem de máquina, e acham que há uma oportunidade de usar a tecnologia em textos.

Lembra muito o Flipboard, na real. (Alguém aí usa? O Manual tem um perfil/revista lá.) Eles prometem componentes sociais, como recomendações de artigos e comentários, mas… né, não é como se faltassem lugares para fazer essas coisas.

O Artifact ainda está fechado. Você pode deixar o telefone no site oficial e esperar por um convite. Via Platformer (em inglês).

Durante o fim de semana, pelo visto sem coisa mais importante para fazer, Elon Musk proibiu os usuários do Twitter de publicarem links para outras redes sociais e agregadores de links e continuou banindo pessoas influentes de modo arbitrário.

No domingo à noite, subiu uma enquete perguntando se deveria abdicar do cargo de CEO. O resultado da enquete, encerrada na manhã desta segunda (19), foi “Sim”. Não que fosse fazer muita diferença um novo CEO enquanto Musk for dono do negócio, mas enfim.

Fora do Twitter, acompanhando o caos, voltei a me pegar pensando em como cobrir essa história no Manual. Quando o caos vira o padrão, tudo parece urgente, só que na real… talvez não seja?

A condução alucinada de Musk aspira todo o oxigênio do ambiente e nos faz mais amargos, porque ele é um imbecil e faz questão de nos lembrar disso a todo momento — agora ainda mais, com uma plataforma de comunicação gigante nas suas mãos.

O objetivo, de Musk e do Twitter, é chamar a atenção. Acho que no longo prazo essas medidas arbitrárias cobrarão seu preço, mas, agora, elas alcançam o que Musk parece querer: a nossa atenção.

Há coisas melhores que os dramas internos, fabricados do Twitter acontecendo no mundo. Por isso, a partir de agora cobrirei o Twitter da mesma forma que cubro outras redes comandadas por extremistas, como Parler e Truth Social: sem entrar nas polêmicas internas ou nos caprichos dos seus donos, focando, em vez disso, nas implicações externas quando houver.

Seguimos.

A matéria da Folha de S.Paulo falando mal do @Choquei/Twitter é, fora evidenciar uma dor de cotovelo do jornal, um caso prático das regras que regem a indústria de conteúdo, assunto que abordei na última coluna da newsletter.

As inteligências artificiais que produzem conteúdo aceleram um movimento que já acontece há algum tempo e que tem as redes sociais como origem e propulsoras.

Nas redes, características que se pensam importantes (e que são) em outros contextos, como qualidade, confiança e responsabilidade, beiram o inútil. O que importa é a circulação e, já de cara, o Choquei larga na frente no mínimo por dois motivos:

  • É um perfil de fofocas comentando guerras e política institucional, algo inusitado e reforçado pelos “🚨 GRAVE” e outros artifícios quase caricatos, a fim de viralizar;
  • Aproveita-se do trabalho alheio (a parte chata/difícil: apuração, checagem) para focar no conteúdo em si, o que lhe confere uma agilidade que jornal (sério) algum conseguiria rivalizar.

Fora isso, a Folha poderia ter escolhido outro exemplo que não um erro próprio de apuração (!) para bater no Choquei. Na dinâmica das redes sociais, uma “correção adicionada ao texto do jornal dias depois”, citada como sinal de virtude e superioridade do jornal, talvez tenha o mesmo efeito que apagar o post sem explicações (a atitude tomada pelo Choquei). Via Folha de S.Paulo.

Não é fácil manter uma operação editorial de pé. Duas más notícias vindas de fora:

  1. O Protocol, site derivado do Politico que cobria tecnologia, fechou as portas após três anos de operação deixando 60 pessoas sem emprego.
  2. O Buzzfeed, que por algum tempo deu as cartas do setor ao surfar o algoritmo do Facebook com compilações de memes, está numa espiral decadente desde que abriu capital via SPAC em 2021. Os números são ruins: prejuízo de US$ 27 milhões no último trimestre, queda de 32% no tempo gasto na página pelos leitores e uma queda brutal no engajamento no Facebook, de 91,2%, entre 2018 e 2021 — e este ano deve ser ainda pior.

Via Protocol, CNN e The Verge (todos em inglês).

Uma nova ferramenta para burlar paywalls está disponível, o Leia Isso. Ele funciona e até lembra um tanto o finado Outline.

Há algumas semanas, troquei uns e-mails com o criador do Leia Isso, que prefere manter-se anônimo. “O que motivou a criação da ferramenta foi a vontade de ter um ambiente favorável à leitura”, explicou. “Sempre assinei feed [RSS] e newsletters para consumir conteúdo em razão da simplicidade na entrega do material. Pensei em levar essa experiência para leitura de artigos e notícias em geral.”

O funcionamento do Leia Isso é similar ao do Outline e 12ft Ladder, ou seja, ele recarrega a página indicada pelo usuário sem JavaScript, o que em muitos casos basta para derrubar paywalls porosos.

Por isso, o criador anônimo se diz tranquilo quanto a retaliações, “pois o robô não faz nada além de exibir o conteúdo que o próprio site divulga”. Ele lembra que publicações insatisfeitas podem bloquear o Leia Isso, o que seria “tecnicamente muito simples”. “A ideia não é infringir qualquer tipo de direito, apenas auxiliar de algum modo no aprimoramento da divulgação de informação pela internet brasileira”, defende-se.

Existem outras maneiras de burlar paywalls porosos de sites de notícias. Aqui no Manual tem um guia completo com quatro maneiras de burlá-los.

Quem lê tanta notícia?

Um jovem Caetano Veloso, em foto em preto e branco, canta em um microfone com os braços abertos. Ele veste camiseta branca e um terno quadriculado claro.

O ano era 1967 e Caetano Veloso, em “Alegria, alegria”, perguntava: quem lê tanta notícia? Eu, quase meio século depois, com frequência me pego fazendo o mesmo questionamento. Quem lê tanta notícia? Quem consome tanto conteúdo?

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Apesar da conclusão contrariar o argumento, este artigo do Tecnoblog assinado por Josué de Oliveira condena a pirataria fazendo uso de uma série de terrorismos e imprecisões legais.

“É difícil convencer as pessoas sobre os impactos negativos da pirataria”, escreve o autor. Acho eu que é mais difícil convencer dos supostos prejuízos. As estimativas de perda de receita da indústria, por exemplo, partem da premissa (equivocada) de que quem consumiu um filme ou uma música pirata compraria o original se não tivesse outra opção.

O maior problema do texto, porém, é a caracterização estreita que ele tenta fazer da pirataria — um tema delicado, complexo, cheio de nuances.

O artigo do Tecnoblog coloca no mesmo balaio a venda de DVDs piratas na rua, a venda de produtos físicos falsificados em lojas virtuais e a pirataria digital, em grande parte feita por hobbistas e consumida por pessoas comuns, sem intuito de lucro (o que configuraria o tal crime previsto no nosso Código Penal). Também nivela a produção das grandes empresas à das pequenas, como se as circunstâncias e consequências fossem as mesmas nos dois cenários.

Esse artigo replica o discurso da grande indústria, aquela que, a despeito dos bilhões de “prejuízo” causados pela pirataria, nunca deixou de lucrar. Ele toma uma posição sem assumi-la de fato. É, em resumo, um desserviço ao debate, aos consumidores e aos próprios leitores do Tecnoblog.

Do nosso arquivo:

O Ebanx, fintech de Curitiba (PR), demitiu 20%, ou 340 funcionários, nesta terça (21), segundo comunicado à imprensa. Trata-se, segundo a empresa, de “uma revisão em sua operação, reforçando o foco no que sempre foi seu ‘core business’: pagamentos internacionais”.

O corte atingiu em cheio o LABS News, iniciativa editorial do Ebanx que cobria o ecossistema de startups e negócios digitais com foco na América Latina. A publicação foi encerrada abruptamente.

Durante quase dois anos, o Manual do Usuário manteve uma frutífera parceria com o LABS News.

Uma pena o LABS News acabar assim. Acima de tudo, era uma ótima publicação.

Agradeço a confiança e a parceria ao longo desse período, em especial à Fabiane Menezes e à Carolina Pompeo. Força nesse momento, contem com a gente para o que precisarem. Via @layoffs-brasil/LinkedIn, @labs_news/Twitter.

Atualização (16h55): Acrescentada a justificativa do Ebanx para o corte e a confirmação oficial do número de funcionários dispensados.

4 maneiras de burlar paywalls de sites de jornais

Indiquei na newsletter de sábado uma boa matéria com dicas de conservação para reutilizar máscaras PFF2. Alguns leitores reclamaram que não conseguiram ler porque bateram no paywall do jornal O Globo. Ops! E aí teve o caso bizarro da Folha de S.Paulo, que deu um serviço de como doar para ajudar as vítimas das enchentes em Petrópolis (RJ), mas escondeu o texto atrás de um paywall. Oi?

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