Napster e o legado (legalizado) da “pirataria”

Logo do Napster (gatinho) com um tapa-olho de pirata.

Em 2019, o Napster, serviço pioneiro de compartilhamento peer-to-peer (P2P) de músicas “piratas”, completa 20 anos. Há duas décadas, milhões de pessoas com acesso à internet vivenciaram uma das mais empolgantes experiências no que concerne ao consumo da música: o download gratuito de quaisquer canções na rede. Para além da gratuidade, quem realizava os downloads estava livre para adquirir apenas as músicas que lhe interessava — desprendendo-se, muitas vezes, de faixas desconhecidas que compunham o álbum de um artista — e contava com a comodidade de obtê-las em casa, sem ter que se deslocar fisicamente até uma loja de CDs.

Mais do que facilitar a vida daqueles que tinham acesso a computadores e à internet ao final da década de 1990, o Napster localizou a música no campo digital, introduzindo (de modo mais categórico) sensos de justiça sobre o consumo ou mesmo inspirando o formato de negócio que muitos anos depois seria adotado por empresas como o Spotify. É sobre tais legados que este texto trata.

Em 1999, Shawn Fanning, à época um adolescente, queria acessar músicas online de modo mais fácil que aqueles que tinha à disposição na internet. Decidiu então que viabilizaria um recurso que facilitasse o acesso às músicas no formato MP3, já que naquele período os sites de downloads não ofereciam variedade musical e eram demasiado lentos em decorrência da centralidade, em que somente um servidor alimentava as solicitações de downloads dos usuários, sobrecarregando-se com frequência.

A disponibilização de downloads gratuitos de músicas não era uma novidade, mas os programas online que ofereciam áudio digital não eram considerados eficientes e exigiam dos usuários conhecimentos técnicos pouco difundidos. Foi nesse cenário que o Napster despontou com a tecnologia peer-to-peer (P2P)1, detalhe que tornou o serviço um dos mais notáveis do tipo nos anos que se seguiram.

Como explica Castro (2001), a programação do Napster basicamente realizava a leitura de arquivos em MP3, um formato de áudio com elevada compressão (leia-se: tamanho reduzido) em um disco rígido e publicava a lista destes arquivos em um servidor da rede. Quando alguém procurava por alguma música, o buscador do site explorava a requisição nos computadores das pessoas que se encontravam online, mostrando opções de máquinas que continham as músicas e que eram possíveis de serem compartilhadas naquele momento. Assim, quem utilizava o Napster, automaticamente gerava uma lista das músicas que continha em seu computador associada a um banco de dados que podia ser vasculhado por outra pessoa.

Capa da revista Time com Shawn Fanning.
Shawn Fanning na capa da revista Time. Imagem: Time/Divulgação.

Em pouco tempo ativo, o programa alcançou a marca de aproximadamente 14 mil músicas baixadas por minuto; uma estimativa de 75 milhões de usuários registrados (RAYBURN, 2001); e expansão diária de cerca de 25% de sua base de usuários (COHEN, 2000). Na época, o termo mais procurado nos sites de busca era “mp3” — as pessoas não buscavam detalhes técnicos acerca do formato de áudio, mas sim por músicas codificadas nele e passíveis de serem baixadas (WITT, 2015). A ascensão meteórica do Napster o colocou no Guinness Book, o livro dos recordes, como o empreendimento com crescimento mais rápido de todos os tempos (BRUENGER, 2016), e Fanning estampou a capa da Time, uma das revistas de maior circulação do mundo, que considerou seu aplicativo uma das “maiores aplicações da internet já criadas, juntamente com o e-mail e as mensagens instantâneas” (THE OBSERVER, 2013).

Popular, o programa despertou a atenção não apenas de usuários ávidos por acessar suas músicas favoritas de modo gratuito, mas também a de artistas e estúdios que perceberam no Napster uma ameaça.

Não demorou muito para que o Napster fosse levado à Justiça. Um dos processos mais polêmicos movidos contra o programa foi o proposto pela Associação Americana da Indústria de Gravação (RIAA, na sigla em inglês) que, em 7 de dezembro de 1999, acusou-o de violar direitos autorais. A RIAA acreditava que no novo cenário digital, que contava com a tecnologia P2P e a qualidade do formato MP3, a venda de CDs estava sendo prejudicada, atribuindo ao Napster responsabilidade subsidiária pelas cópias realizadas diariamente por seus usuários e requerendo ao tribunal de São Francisco/EUA a retirada do ar e o encerramento de suas atividades.

As cortes estadunidenses acataram os argumentos da RIAA e a criação de Fanning foi desativada. Apesar de ter durado pouco tempo em sua forma original, cerca de um ano e meio, o Napster pode ser considerado um marco no que concerne às disputas existentes nas relações entre propriedade intelectual e inovações tecnológicas, assim como um marco na reconfiguração de estratégias comerciais e de percepções sobre a indústria do entretenimento.

Encerrado em seu formato “pirata”, as ideias de Fanning seduziram empresários e o meio digital legalizado. O programa intercambiou espaços, à primeira vista, antagônicos junto a investidores e executivos da indústria do entretenimento. Logo após ser forçado a liquidar seus ativos remanescentes, a companhia de software de música Roxio ofereceu US$ 5,3 milhões pela compra do portfólio e da marca do programa de Fanning, dando início ao que a Roxio chamou de Napster 2.0 em um modelo legalizado e pago de reprodução de músicas que tentava replicar a funcionalidade do Napster original.

A investida deu pouco retorno à Roxio e, após ter passado pela empresa de eletrônicos Best Buy, a Rhapsody, uma empresa de músicas online, adquiriu o Napster e o transformou em uma plataforma legalizada de streaming de músicas que está no ar até hoje com um acervo de mais de 60 milhões de músicas. No Brasil, a plataforma é parceira da Vivo e do portal Terra.

Telas do Napster para iOS.
Imagens: Napster/App Store.

Quanto a Shawn Fanning, hoje ele é um empresário de negócios digitais. Fanning até chegou a desenvolver projetos como o Snocap, uma plataforma que auxiliava no licenciamento e na administração de direitos digitais e intelectuais sobre gravações musicais2. Irônico, não?

Tecnologias, emoções e a reconfiguração do mercado

Os usos da “pirataria” digital desencadeiam sensibilidades múltiplas entre os que passam a refletir sobre suas práticas e efeitos. Moralidades, medo, sensos de justiça, reprovação, aprovação, indignação, empatia são algumas das emoções que a “pirataria” desperta em um debate sobre sua atuação. Não foi diferente com o Napster. Além das repercussões legais, o programa desencadeou admiração e novas percepções sobre o mercado da música.

Tendo cadastrados milhões de usuários, seu fim não foi recebido passivamente por quem rapidamente se acostumou a baixar músicas de graça na internet. Em protesto às decisões judiciais que encerraram o Napster, usuários, programadores e simpatizantes realizaram manifestações sociais em defesa do compartilhamento gratuito de arquivos.

Os debates online também se manifestaram na direção do que seria “justo”, problematizando a questão de os usuários estarem praticando crimes ao compartilharem músicas protegidas por direitos autorais, o que acabava demonstrando uma antipatia desse público frente à indústria fonográfica. Como diz Mason (2008), a relação que o Napster estabeleceu com a indústria fonográfica parece ter possibilitado e oferecido aos seus usuários a sensação de redistribuição de poder no que concerne ao mercado da música.

Inspirados pela trajetória do Napster, diversos outros programas de compartilhamento foram criados — como Gnutella, Kazaa, Soulseek, entre outros —, ampliando a oferta do entretenimento “pirata” aos vídeos, e incluindo entidades que buscavam defender os interesses dos estúdios estadunidenses, como a Associação Norte-americana de Cinema (MPAA, na sigla em inglês), na disputa contra a atividade de tais programas.

A esta altura a batalha da indústria parecia insensata ao público, pois outras tecnologias de compartilhamento ainda se encontravam acessíveis e, na opinião dos internautas, dificilmente poderiam ser todas interrompidas.

Print do Napster no Windows.
Assim era o Napster. Imagem: Imgur.

Neste momento, a ubiquidade da “pirataria” digital é reforçada e, há duas décadas, provoca estúdios de cinema, gravadoras e artistas a se reinventarem comercialmente, seja em suas estratégias de venda, seja em seus planos de combate à “pirataria”, ou mesmo em seus modos de habitar/ocupar/experienciar recursos “piratas” e as normas de propriedade intelectual.

Ao entretenimento convencional foi imposto um novo cenário que destacava sua inconveniência e inadequação de estratégias: a compra e o aluguel de mídias físicas, como CDs e DVDs, não mais satisfaziam o público e, consequentemente, nem as expectativas da indústria em termos de lucro, submetendo-a a repensar suas técnicas de venda e atração junto a seus potenciais consumidores.

A relação da indústria com a “pirataria” culminou em esforços daquela em concentrar, novamente, o público no universo legalizado do entretenimento.

Ciclos de readaptações

Importa destacar que em meio a discursos fundamentados na ameaça da “pirataria” à indústria, os compartilhadores digitais não foram os primeiros obstáculos a surgirem no caminho de gravadoras e estúdios. Longe disso. Há mais de um século a criatividade sociotécnica intimida e inquieta aqueles que gerenciam o monopólio e o controle da distribuição e do acesso de produções.

Historicamente, novas tecnologias acompanhadas de mentes férteis atravessam e surpreendem o campo da reprodutibilidade técnica remodelando-o constantemente. Novos modos de acessar, usar, reconfigurar e reproduzir produções sonoras e audiovisuais permearam e ameaçaram o “status quo” de grandes mercados por muito tempo. Em um contexto de mudanças profundas, presságios sobre o fim da indústria enquanto força lucrativa mostravam-se consistentes. Contudo, antes de sucumbir, as corporações tentaram se adaptar às mudanças: aprenderam a coexistir e a incorporar os aspectos atraentes de seu nêmesis.

Nos primeiros anos do século XX, nos Estados Unidos, a editora musical White-Smith moveu ação judicial contra um fabricante de “rolos de piano” (White-Smith Publishing Co. v. Apollo Co.). Os “rolos de piano” compreendiam rolos de papel perfurados que permitiam ao piano tocar automaticamente as músicas programadas nos furos. Essas originalidades, na perspectiva da editora, equivaleria à cópia de partitura e, em contrapartida, prejudicaria o comércio de vendedores de tal material, assim como o faturamento dos compositores, que eram pagos a partir dos direitos autorais das partituras (JONES, 2010)3. O mercado dos pianos mecânicos passa bem.

Na década de 1920, logo após o advento do rádio, a indústria fonográfica sofreu uma queda em seus rendimentos, atribuindo-a à novidade radiofônica. As gravadoras passaram a elaborar contratos para seus principais artistas proibindo-os de trabalhar para as rádios, além de exigirem destes o pagamento de taxas pela performance pública de canções (LIEBOWITZ, 2004). As rádios e os acordos com as gravadoras fizeram as pazes anos depois.

Nas décadas de 1950 e 1960, a televisão despontou como meio de entretenimento doméstico. Foi, a princípio, amplamente rejeitada por estúdios de cinema, muito em razão dos indícios de queda nos rendimentos de bilheteria. A indústria até chegava a ameaçava seus atores caso eles participassem de programas de TV (LEV, 2003). Contudo, com o tempo e a persistente coexistência, as produtoras passaram a perceber a televisão como instrumento útil, capaz de gerar receita sobre filmes antigos que, apesar da demanda, não eram mais exibidos no formato tradicional, nas salas de cinema.

Na década de 1980, a indústria fonográfica se opôs à fita cassete e à possibilidade de seus usuários gravarem músicas em casa. A British Phonographic Industry (BPI) passa, então, a criar um dos slogans de campanhas anti-pirataria mais famosos: “Home Taping is Killing Music” (em português, “a gravação caseira está matando a música”). O slogan compunha somente uma das manifestações apelativas da indústria fonográfica, que descrevia a fita cassete como uma ameaça à criatividade e aos criadores4, assim como a percebiam como uma tecnologia parasitária, não servindo a nada senão para gravar músicas protegidas por direitos autorais (DREW, 2013). Pouco tempo depois, um amplo comércio de fitas cassete foi desencadeado.

Como aponta Kernfeld (2011), ao surtirem pouco efeito, os esforços jurídicos e morais desempenhados pelos interessados na proteção dos direitos de autor são sucedidos por práticas de incorporação das novas tecnologias, ou de partes de seu repertório sociotécnico, fazendo com o que antes fora uma ameaça, integre os arranjos considerados legítimos. Vide o próprio Napster que, mais do que pavimentar o mercado de streaming, atualmente visto como uma tábua de salvação para os lucros da indústria fonográfica, foi totalmente absorvido por ela — da marca a seu criador.

Assimilações e processos de coprodução de meios de distribuição de entretenimento entre indústria e novidades tecnológicas, assim como a manipulação das fronteiras entre o legal e o ilegal por esses atores, não são, assim, práticas muito originais nas dinâmicas de acesso a bens. O Napster não foi o único ator a ameaçar estúdios, gravadoras e artistas, nem será o último. O programa de Fanning, no entanto, levou a reprodutibilidade ao nível da rede, explorando um espaço até então pouco habitado pela indústria.

O que se destaca aqui é o poder de adaptação do entretenimento aos arranjos disruptivos. O Napster mobilizou um novo modo de consumo, de percepção sobre custo-benefício da música, de novos sensos de justiça e um redirecionamento da importância do artista ao consumidor. A conjectura soa familiar? Antes de atentarmos impropérios contra a “pirataria”, poderíamos contemplar nossos Spotify e Deezer e repensar os autores de tais serviços. Talvez a tecnologia de streaming a baixo custo (se comparada aos preços dos CDs e até mesmo a compra de arquivos digitais de músicas avulsas no modelo do iTunes), com biblioteca satisfatória e dotada de praticidade, seja uma extensão da dinâmica do “se não pode contra eles, junte-se a eles” intensamente experienciada pela indústria do entretenimento.

Coautorias

Neste cenário permeado por ciclos de readaptações de tecnologias e acessos, é importante destacar, como já anunciei, um dos legados atuais do Napster: as plataformas de streaming de música.

Plataformas como Spotify são estimadas pelo público devido a algumas características muito apreciadas e reclamadas pelo consumidor do final dos anos 1990: o (relativo) baixo custo; a (relativa) gratuidade (através dos modelos suportado por anúncios); a praticidade e a liberdade do usuário em consumir somente o que se quer; e maior atenção destinada aos desejos do usuário.

Para além do fim da aquisição, considerada dispendiosa de formatos de acesso ao entretenimento, as novas estratégias da indústria junto ao streaming demonstram empenho em contentar o público. Há a valorização dos desejos do consumidor, muitas vezes em detrimento dos desejos dos artistas. A aparente incorporação da noção da importância do usuário apresenta-se como um contraponto à valorização de parte das corporações, que percebe os valores econômicos e simbólicos da propriedade intelectual serem subtraídos por novas moralidades e economias de mercado.

Desse modo, é interessante perceber que novos aspectos simbólicos e novas hierarquias que reproduzem padrões “piratas” de valorização social, podem ser visualizadas na tecnologia streaming, ou seja, é possível perceber que estratégias centrais que seduzem, simultaneamente consumidores e produtores de entretenimento — atores muitas vezes em conflito — remetem a críticas e reivindicações que permearam os conflitos envolvendo os programas de compartilhamento e a indústria no final da década de 1990. A gratuidade, o baixo custo e o apelo à visibilidade do consumidor (enquanto sujeito detentor de limitado poder econômico e possuidor de desejos) remetem às demandas de parte do público “pirata” endereçadas às estratégias corporativas.

Essas questões são relevantes, pois destacam funções multifacetadas e de potencial criativo da “pirataria” (e de seu elemento gratuito) no horizonte do entretenimento e do acesso. É possível perceber que tal meio considerado ilegal não apenas estabelece relações de tensão com o mercado formal, mas também concebem relações produtivas da indústria do entretenimento como um todo.

A “pirataria” que debatemos transcende valores legais e morais. Ela participa das dinâmicas de mercado não externamente a este, mas de modo intrínseco, inspirando, emprestando meios, formatos e estratégias de negócios e consumo. E antes de localizar a “pirataria” somente no campo do ilegal e do imoral, reflita sobre a vida sociotécnica da sua plataforma streaming.

Referências

BRUENGER, David. 2016. Making Money, Making Music: History and Core Concepts. University of California Press.

CASTRO, Gisela G.S. 2001. O Caso Napster: Direitos de Propriedade Intelectual em Questão. In.: INTERCOM — Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação – Campo Grande/MS, 2001.

COHEN, Adam. 2000. Napster The Revolution. In.: CNN International. Disponível em: <http://edition.cnn.com/ALLPOLITICS/time/2000/10/02/revolution.html> Acesso em: 21, dez, 2018.

DREW, Rob. 2013. New Technologies and the Business of Music: Lessons from the 1980s Home Taping Hearings. In.: Popular Music and Society 37:3, 253-272. Disponível em: <https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/03007766.2013.764613> Acesso em: 19, out, 2018.

JONES, Richard. 2010. Technology and the cultural appropriation of music. In.: International Review of Law, Computers & Technology, 23:1-2, 109-122.

KERNFELD, Barry. 2011. Pop Song Piracy: Disobedient Music Distribution Since 1929. Chicago, MI: University of Chicago Press.

LEV, Peter. 2003. The American Film Industry in the Early 1950s. In.: The Fifties —Transforming the Screen, 1950-1959. University of California Press, 2003.

LIEBOWITZ, Stan J. 2004. The Elusive Symbiosis: The Impact of Radio on the Record Industry. In.: Review of Economic Research on Copyright Issues. Disponível em: <https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=520022> Acesso em: 19, out, 2018.

MCALONE, Nathan. 2016. How piracy actually helps Hulu make a lot of great decisions. In.: Business Insider, 12 abr, 2016. Disponível em: <https://www.businessinsider.com/why-hulu-tracks-piracy-2016-4> Acesso em: 23, dez, 2018.

RAYBURN, Corey. 2001. After Napster. In.: Virginia Journal of Law and Technology. Disponível em: <http://www.vjolt.net/vol6/issue3/v6i3-a16-Rayburn.html#_edn1> Acesso em: 13, jan, 2017.

THE OBSERVER. 2013. Napster: o dia em que a música foi libertada. In.: Carta Capital.Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/internacional/napster-o-dia-em-que-amusica-foi-libertada> Acesso em: 12, jan, 2016.

WITT, Stephen Richard. 2016. How Music Got Free: A Story of Obsession and Invention. New York: Penguin Books.

Montagem do topo: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.


  1. A tecnologia P2P corresponde a um formato de rede de computadores caracterizados pela descentralização de suas funções, ou seja, são computadores que realizam simultaneamente as funções de servidores e de clientes. O termo “de igual para igual” corresponde, assim, à igualdade de função dos computadores, que não somente recebem, mas também enviam dados a outros usuários, aliviando a carga dos servidores centrais.
  2. Fanning também fez parte de projetos como: a rede social para fãs de videogame Rupture que, posteriormente, foi comprada pela Electronic Arts (EA); a rede social Path, que compartilhava fotos e mensagens em dispositivos móveis para grupos limitados de contatos; e, mais recentemente, o fornecedor de conectividade Helium Hotspot, um projeto que se utiliza da tecnologia Blockchain para descentralizar redes Wi-Fi e promover maior independência da rede frente às empresas de telecomunicação.
  3. A Suprema Corte estadunidense compreendeu, em 1908, que os rolos não eram cópias de composições musicais, mas sim partes do piano, não havendo violação de direitos autorais.
  4. De acordo com a RIAA (em tradução livre): “Não faz muitos anos que a música só podia ser transmitida em performances ao vivo; para experimentar a alegria da música, era preciso estar lá. Mas o fonógrafo de Thomas Edison mudou tudo isso. […] Mas o último salto tecnológico — o desenvolvimento de sofisticados dispositivos de gravação — ameaça minar a própria existência dos criadores que encheram as ondas de rádio e lojas de discos com música. Essa tecnologia permite que o indivíduo, em sua própria casa e com o apertar de um botão, capture a performance musical para sempre — de graça.” (DREW, 2013).

Acompanhe

Newsletter (toda sexta, grátis):

  • Mastodon
  • Telegram
  • Twitter
  • Feed RSS

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

32 comentários

  1. Um acontecimento que marca como as empresas são o mal a se combater nesse sentido (DRM): a loja de ebooks da MS vai fechar os livros vão deixar de funcionar em Julho de 2019. Isso mesmo. Os livros vão deixar de funcionar porque a loja fechou. DRM e direitos autorais são coisas diferentes, aliás, mas é essa sanha corporativista aliada a um modelo de negócios que visa acabar com a liberdade e o compartilhamento que rege a indústria – seja ela de qual meio for – e faz da pirataria a forma mais saudável de se consumir. E sim, a MS vai reembolsar as compras (o que quer dizer que se você comprou um desses ebooks em promoção, provavelmente não vai conseguir comprá-lo em outra loja).

    REF: https://twitter.com/rdonoghue/status/1144011630197522432

  2. um texto com referências! q beleza!
    e q saudades da internet dos anos 90, qdo não havia vestígios de redes sociais…
    não sei se com o passar do tempo fui ficando mais e mais careta e optando por pagar por música (e outros conteúdos digitais), mas o q parece me atormentar mais é q agora há na pirataria muitas armadilhas: vc está baixando algo imaginando q é uma coisa e… surpresa: um vírus te espera.

    1. Pegar vírus baixando algo é bem anos 90 mesmo. Hoje em dia com trackers conhecidos e sistemas de reputação é bem difícil isso acontecer. E mais ainda se você usar trackers privados.

      Mesmo comunidades como as que temos no Reddit/4Chan os subs e pols de Torrent tem uma certa reputação entre os membros (mesmo Anons). Tudo bem que agora o Reddit não linka mais conteúdo direto, mas, durante muito tempo foi o maior centro de compartilhamento de links.

      Para quem quer se informar sobre a cena Torrent/Pirata sempre tem o TorrentFreak.

      1. hum… vc baixa um programa X e quem garante q isso q vc está baixando não tem nada q possa te prejudicar de algum modo? vídeo e música ok, mas programas… há muitos arquivos ali e eu já não tenho como arriscar.

        1. É bem difícil você pegar um vírus/malware assim, as chances são muito maiores de se pegar algo via site, por exemplo, com um JS malicioso ou qualquer outro script do tipo.

          Para evitar, como eu disse, normalmente a comunidade tem sistemas de reputação no compartilhamento. É salutar não baixar um arquivo que venha de alguém sem caveira nenhuma no Pirate Bay, por exemplo. Em trackers privados esse tipo e verificação é feito pela moderação antes do torrent ir pro ar.

  3. Não consegui exatamente pegar a época do napster, que eu me lembre. Dado que eu vivia mais em lan houses com conexões discadas ou fracas, música acabava no segundo plano.

    Peguei a época seguinte – Kazaa, eMule e similares. A sensação que tive foi a mesma que Marcus: descobri um universo musical mais cômodo para mim. Na época, transformando mp3 em CDs para escutar em discmans…

  4. O surgimento do Napster foi um dos momentos mais importantes da história da internet.

    Eu já baixava algumas faixas MP3 de sites, mas eram sempre as mesmas, só músicas famosas e chatas.

    A primeira vez que eu abri o Napster, e fiz uma busca pelos meus artistas favoritos, foi um momento de grande emoção. Ele retornava inúmeras músicas que me interessavam, muito mais do que eu poderia baixar com uma conexão discada.

    Lembro bem do que pensei na época: “agora abriu a porteira. Não tem mais como coibir a pirataria”.

    Dito e feito.

  5. Com certeza, uma das maiores capacidade (e talentos) da indústria capitalista do entretenimento é, exatamente, conseguir sequestrar qualquer tecnologia ou meio de distribuição novo e que rompa com o modelo “sedimentado” em prol da sua narrativa de “justiça” (ignorando que a justiça, o poder judiciário e os entes destes são, na sua imensa maioria, aristocratas de uma elite cultura e econômica que tem seus anseios e interesses alinhados com os poderosos burocratas e tecnocratas da indústria) e, posteriormente, transformando esse modelo em um modelo lucrativo para elas.

    O streaming é a morte da sua capacidade de transmitir coleções e a transformação de tudo em serviços aliada à dependência de uma infraestrutura de redes que depende, quase sempre, de empresas acordadas com as gravadoras é uma faceta desse sequestro da liberdade individual das pessoas de terem posse de suas obras de arte. Você não tem mais posse de nada, não pode mais transmitir nada aos seus filhos, netos ou parentes. Tudo é um serviço encapsulado por DRM – isso desde o iTunes – que jamais poderá ser passado adiante ou mesmo compartilhado. A ideia de compartilhamento é apenas dentro de uma rede fechada (Apple Music, Spotify, Deezer ou qualquer outro serviço) e para usuários devidamente cadastrados.

    Pirataria é resistência.

    1. Acho que já comentei por estas bandas, mas vendo as histórias contadas pelo Mat do Techmoan, a pirataria sempre foi combatida, mas também vencendo a guerra inclusive pela própria indústria, graças a estas mudanças.

      Do Cassete ao CD, a mudança musical acabou sempre de alguma forma dando algum poder para as pessoas para se apossarem da informação.

      1. Na verdade, a grande mudança pra posse das pessoas foi o K7 e o CD. Antes disso era bem complicado copiar as músicas. Com o K7 isso mudou muito. Com o CD e os gravadores se tornando acessíveis, isso sim virou um grande negócio. CD’s com coletâneas eram vendidos via jornal aqui em POA e depois de comprados circulavam livremente pelos amigos. Na época (2001/2002) eu tinha inacreditáveis 4GB de músicas em MP3 (pra quem tinha um HD de 20GB era MUITO). Depois que eu comprei meu gravador a coisa virou bastante, ripava todos os CD’s que eu sempre quis (na época eu ainda alugava CD na locadora, junto com fitar de N64) mas nunca tive dinheiro pra comprar (acho que, no total, eu tenho menos de 40 CD’s comprados). Esse foi o ápice da posse do material que, em uma sociedade livre co capital especulativo em tudo, deveria ser a regra.

        A Apple viu isso e criou o iTunes, uma loja que tinha um DRM pesado, cobrava 99 centavos de dólar por música e não permitira, por exemplo, compartilhar a sua biblioteca com outras pessoas (na época teve um texto clássico do Bruce Willis sobre isso). Aqui começamos a perder de fato a posse dos arquivos. A Apple é quem tinha os arquivos e nos cedia o uso deles. Era um serviço, via de regra. Esse modelo de negócios deu muito certo (o iPod era, inicialmente, um player para tocar músicas compradas assim) e motivou uma série de clones e, posteriormente, o modelo do streaming. Com o advento da internet rápida e das conexões constantes o streaming começou a ser bastante atrativo para as pessoas e virou, hoje em dia, a regra do comércio.

        Percebe como, a cada passo que a indústria fonográfica dá nós perdemos cada vez mais a posse da obra e adquirimos um “direito de uso pessoal” dela? Esse é o modelo mais capitalista (o streaming) que temos até hoje. Comoditização da música, preços baixos e pulverização do mercado de autoria. E a ideia é cada vez mais aprofundar esse cenário (vide mídias digitais de jogos, por exemplo).

        A principio parece interessante para todos, consumidores e produtores, mas e daqui 30 anos? Como vamos recuperar os materiais advindos única e exclusivamente de streaming (tirando aqueles arquivos ripados e pirateados)?

        1. A se pensar que material de streaming nada mais é que uma versão final replicada de um arquivo.

          Teoricamente, ripar um streaming é quase que copiar um “original”. Note o aspas.

          Material original aqui pode ser o material que deu origem ao arquivo que depois é replicado. Então de alguma forma em streaming ou ripado, é e sempre será uma cópia do original. Seja música ou vídeo. (Claro, ignorando o fato de que um arquivo sofre compactação e perda de dados a cada conversão, caso a pessoa ripe ao invés de copiar).

          De qualquer forma, é notório também que esse é um dilema das mídias: não existe uma cópia base do arquivo principal ou do arquivo base de replicação em alguns casos, sujeitando a perda de qualquer material relacionado a uma mídia disposta em um único local, a ser extinto. Acho que foi o caso do MySpace, não?

        2. Fui prolixo, perdão.

          Imagine uma fita master usada de uma música tocada em rádios FM. Ele é teoricamente o material original.

          Se gravo esta música em uma fita cassete, podemos dizer que fizemos uma cópia a partir do original. Se perder a master, a cópia foi feita.

          Ignoremos aqui o fato de que uma rádio FM não é uma forma perfeita de transmitir um material.

          Se o rádio pega fogo, perdeu-se a master que estava lá.

          1. Isso.

            Agora pensando um pouco, é cíclico. Pegando sua frase: Como vamos recuperar os materiais advindos única e exclusivamente de streaming (tirando aqueles arquivos ripados e pirateados)?.

            Agora a gente aplica nesta questão da TV Brasileira. SBT é um dos canais com muito do acervo montado na “pirataria”.

            Quando falei do MySpace, é um caso da perda de arquivos, que depois foi recuperado justamente por “pirataria”.

            Causo a parte: Quando namorava, muitas fotos que minha ex tinha estava em um computador, que depois tentei copiar os arquivos e no final se perdeu pois não fizemos backup extra. :|

          2. Fiz um comentário com dois Hiperlinks que provavelmente parou na moderação.

    2. Muito bem colocado Paulo, esse processo de cooptação da industria é recorrente, primeiro se ignora, depois criminaliza e na sequencia ocorre a incorporação.
      Mas colocando um outro ponto de vista, menos niilista, creio que a maioria das pessoas não quer ter a “posse das obras de arte”, o grande publico quer ter na verdade o acesso e o consumo, na minha opinião quem é entusiasta sempre vai buscar os mecanismos de se ter posse dessas obras. Eu tinha e ainda tenho um acervo considerável de filmes e músicas sendo um user ativo de torrent, eu acho que a comunidade se perpetuará assim com seu “nicho de mercado” assim como o nicho do “consumo instantâneo” se mantém, o boom inicial da base de usuários do napster, kazaa, emule, limewire e os warez se deu justamente pela falta de empresas disponibilizando o serviço de forma intuitiva e barata para o público de massa, essa base de users de p2p tende a se estabilizar na medida em que o acesso passa a ser mais difundido pelas grandes empresas. Não vejo isso sendo algo ruim, na minha visão essas empresas difundem o acesso com softwares mais intuitivos ao grande público, essas empresas são grandes prateleiras com muito marketing, e com uma base de dados temporários, já que esses players mudam constantemente ao longo do tempo, pois se eles perdem a sua capacidade de vender a sua base de usuários se perde e por consequência vai vendendo seu acervo para outros players que possuem maior capacidade de vender e difundir esse acervo.

      1. Sim, as pessoas, de fato, não querem ter a posse de nada até perderem completamente o acesso ou o terem cerceado por meio de plataformas fechadas/nichadas. A Netflix era ótima quando ela não tinha 100 concorrentes com acervo próprio, do jeito que o streaming caminha (na TV) vai virar uma TV a cabo sob demanda. A música tem uma capilaridade maior e, principalmente, uma pulverização maior no mercado, o que talvez impeça de termos uma pulverização de serviços e uma consequente demanda reprimida por conta de barreiras artificiais, mas, via de regra, o modelo de negócios das gravadoras e dos estúdios é o mesmo: cercar o acesso para poderem aplicar um preço fora da realidade da maioria das pessoas e, com o streaming, ainda se oblitera o compartilhamento físico de mídias.

        Quando todo mundo só tiver acesso via rádio ou streaming à músicas, provavelmente vai todo mundo se importar com posse de material e se voltar à pirataria romântica dos anos 80/90 (que nem era romântica, era apenas o único meio de se consumir algo).

        1. Paulo, percebi que muitas pessoas recorrem à pirataria justamente pela questão da posse. Possuir o entretenimento, em arquivos mp3, CD’s, DVD’s, vinil, K7, VHS é muito familiar ao consumidor. O streaming é algo instantaneo, fugaz, e muitas pessoas, ainda hoje, querem montar bibliotecas, guardar o conteúdo em seus dispositivos, até mesmo guardarem para utilizarem em aulas ou em empregos como dj’s, e aí recorrem à pirataria. É claro que os motivos de uso da pirataria na era do streaming são variados, mas a posse é um deles.

          1. Confesso que eu pensei que isso fosse muito mais restrito à comunidade de piratas do Reddit e mesmo de grupos de Torrent fechados como o BJ-Share. Manicômio e outros. Minha experiência, ao menos, me dizia que a pessoa “normal” adere à pirataria por questões de custo e acesso mesmo – não encontrar o conteúdo disponível para compra ou por um preço proibitivo – e, secundariamente, para poder manter o acesso sem internet (para dar aulas, como você disse, uma vez que escolas tem esse problema, por exemplo).

        2. O aspecto econômico é sim um dos maiores motivadores (até mesmo em comunidades do Reddit), mas junto a estes estão muitos outros, secundários talvez, mas importantes para a compreensão das dinamicas piratas. Por vezes a questão utilitária está muito atrelada a questões simbólicas. Nada é muito puro

          1. Claro.

            O que eu assumo aqui é baseado em evidência anedótica, mas, nesse raciocínio eu entendo que a pirataria tem, primariamente, um viés econômico. Os preços pelos materiais são, via de regra, abusivos para pessoas com poder aquisitivo baixo. Nesse nicho que entrou o streaming dando, a um preço baixo, acesso ao acervo de muitas obras populares. E a partir daí emergiram outros aspectos da pirataria, entre eles a posse e as questões de cultura e valores (de compartilhamento, de liberdade, de justiça social etc).

        1. Então se um capitalista comete um crime e for condenado, ele estará fazendo o que ele quer que seja?

          sei que tira do contexto, mas não resisti

Do NOT follow this link or you will be banned from the site!