Homem faz uma pseudo-distro Linux exclusivista em vez de terapia

Eu evito dar palco para gente esquisita (no mau sentido) aqui no Manual. Abro a exceção para linkar um post de julho do DHH, dinamarquês sócio da 37Signals (do Basecamp), criador do Omarchy e de um blog cheio de ideia errada sobre imigrantes e pessoas não brancas.

Ele materializou o meme do “homens fazem [ação estúpida e/ou difícil] em vez de terapia”. Literalmente. Este homem fez uma pseudo-distro Linux exclusivista em vez de terapia. E se orgulha disso! Tá lá no blog dele:

Estudos mostraram que o exercício, por exemplo, é um tratamento mais eficaz do que a terapia (e produtos farmacêuticos!) para lidar com tais episódios [depressivos]. Mas estou mais interessado no papel que a construção de competências pode ter em afastar os demônios.

E, em parte, por causa deste meme.

Já falei disso antes, mas continuo voltando ao fato de que a ordem é ao contrário. Que se engajar em uma busca educacional no Linux, em história ou no reparo de motocicletas é, na verdade, uma alternativa incrivelmente eficaz à terapia!

Parabéns pela descoberta, DHH, continue assim. Claramente está funcionando.

DHH voltou aos holofotes por ter levantado US$ 12 milhões de outros figurões da tecnologia para uma fundação meio suspeita criada em torno do Omarchy, o que gerou reações negativas de funcionários e clientes das empresas envolvidas, como a 1Password.

A única mudança que funcionou: me bani das mídias sociais — e meus filhos nunca estiveram tão felizes 
theguardian.com

Lendo mais um dos infinitos artigos e colunas de opinião de gente que descobre que é bom não passar o dia com o celular enfiado no rosto, aprendi uma ~técnica interessante. Quando a Anna Mathur está com seus filhos e precisa fazer algo no celular, ela “anuncia” a ação:

Um hábito que ajudou [a conter o vício] foi anunciar em voz alta o uso do meu celular. Quando o pego na frente das crianças, digo: “Estou apenas adicionando bananas à lista de compras.” Isso me mantém na linha, porque uma vez dito, eu faço aquela coisa e deixo o celular de lado. O que diz aos meus filhos que não estou “desaparecendo”, como costumava fazer.

Acho que vale também para situações envolvendo apenas adultos.

Este cara usou o Claude para plagiar um aplicativo sem querer

Terry Godier, que fez fama em uns cantos da web no começo do ano com um ensaio sobre RSS e seu posterior aplicativo para iOS, o Currents, lançou outro chamado Dark Hours, esse na web mesmo, após a Apple supostamente tê-lo rejeitado por conter elementos da astrologia, o que as políticas da App Store vetam e Godier, a princípio, negou que fosse o caso.

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Uso legal do ChatGPT Work que ouvi ontem à noite: Conecte as agendas da sua família e explique o que seus filhos gostam. Toda manhã ao levá-los à escola, faça-o [ChatGPT] criar um podcast que aborde o jogo de futebol de um filho naquela tarde, o próximo aniversário de outro, algumas notícias etc.

Homem branco, com cabelo escuro e curto, com olheiras.Sam Altman
Co-fundador e CEO da OpenAI

Essa vai para o rol das grandes ideias dos caras de IA. Como alguém respondeu no X, “E se você apenas conversasse com seus filhos?”

A recusa que virou vitrine

Ilustração de camisas de times coloridas estendidas em um varal.

por Cíntia Vitorino

Em algum momento entre 2023 e 2024, ficou comum ver alguém saindo para um bar, uma festa ou um show usando a camisa de um time de futebol que nem existe mais. Não é fantasia, não é dia de jogo, não tem ninguém torcendo. Antes, vestir a camisa de um time era gesto de torcida, reservado para o dia da partida. Hoje ela circula solta desse contexto, usada num bar, numa festa ou num show sem relação nenhuma com o time em campo. A camisa deixou de ser símbolo de torcida e passou a ser peça de moda, equivalente a uma jaqueta ou uma calça de alfaiataria.

Um vídeo específico marcou essa virada nas redes, sem tê-la criado sozinho. Uma jovem no TikTok filmou o próprio look, todo produzido, ao lado do namorado de camisa de futebol, e comentou o contraste como se fosse motivo de vergonha para ele. O vídeo não inaugurou a tendência, mas expôs ela em plena disputa: viralizou na direção contrária à que a autora esperava, e homens e mulheres passaram a postar fotos com blusas de time, afirmando o objeto como peça de estilo. O episódio ajudou a consolidar publicamente algo que já vinha se formando nas ruas e nas redes havia meses, batizado de blokecore, estilo nascido no Reino Unido que mistura roupa esportiva com streetwear.

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A poltrona de rolagem [de feeds] 
newcartographies.com

Digo logo de cara que tenho minha cota de textos desse assunto publicados aqui, o que não invalida a observação (em inglês) do Nicholas Carr em sua newsletter:

Odeio ser cínico, mas acho que a principal razão para a proliferação desses tipos de artigos [sobre usar menos o celular] é que eles são iscas algorítmicas. São sintomas da doença que prometem curar. Estamos viciados em ler sobre nosso vício em celulares. Se os materiais têm um valor terapêutico, provavelmente é menos em ajudar as pessoas a ganhar controle sobre a mídia do que em renovar uma fantasia tranquilizadora de tal controle.

O que nos leva a situações engraçadas, como dois viciados crônicos em celulares dando dicas de como usar menos o celular (podcast, em inglês).

Tenho a impressão de que o conteúdo criado como oferenda ao deus algoritmo se manifesta em qualquer assunto popular, mesmo que de nicho. Fisgam quem está à toa na internet, em seus múltiplos feeds com recomendações algorítmicas que exploram ao máximo qualquer manifestação mínima de interesse em dado tema.

Outro assunto, um subjacente, são os “PKMs”, ou gerenciamento de conhecimento pessoal, com seus métodos de organização desnecessariamente complexos e aquele gráfico legal de conexões gerado pelo Obsidian. A promessa é que ao organizar suas ideias em texto e conectá-las todas, você terá o super poder de jamais esquecer das coisas.

O desfecho para quem consegue sair desses ciclos intermináveis de conteúdo é o mesmo: para que tudo isso, afinal? (em inglês).

Limitando não apenas o tempo de tela, mas o espaço de tela 
outraspalavras.net

Laura J. Martin (traduzida por Antonio Martins) faz uma reflexão da internet, quase sempre tida como um “não-lugar”, como uma tecnologia que afeta o espaço físico e os nossos corpos (original em inglês):

A conectividade constante acostumou nossos corpos à postura defensiva de rolar a tela, ao movimento involuntário da mão abrindo-se em direção a uma notificação, à onipresença da vibração. O problema não é apenas quanto tempo passamos online. É como nos movemos nos espaços que construímos para a vida online e que tipo de liberdades perdemos.

Se a rede acompanha o corpo pela casa, que espaços podemos construir para permitir que o corpo fique sozinho? O que significaria limitar não apenas o tempo de tela, mas o espaço ocupado pelas telas?

[…]

O problema, começo a pensar, não é apenas usarmos nossos celulares no banheiro. É imaginarmos que socializar, produzir conhecimento, fazer política e ser criativo possa ser feito fora do espaço físico. Cometemos o mesmo erro com a IA generativa que cometemos com a internet, quando a tratamos como um lugar nenhum em vez de um lugar. Deixamos de reconhecer que o virtual opera dentro — e não além — do mundo espacial e material.

Tenho pensado muito nesse assunto, acredito que por influência do pessoal do Tecnosfera, do curso de Geografia da UFPR, de quem me aproximei em 2025.

Nos últimos meses, implementei alguns experimentos na tentativa de expor essa materialidade oculta da internet. Lembro-me de dois:

  • Deixar o celular offline o tempo todo e só ligá-lo quando preciso fazer alguma coisa, invertendo o padrão de conectividade.
  • Dentro de casa, deixar o celular em um cômodo específico, ligado à tomada pelo cabo. Se preciso dele, desloco-me a esse lugar e faço o uso ali. Como eram os telefones fixos de antigamente.

Alguma outra ideia?

Obrigado pela dica, Bruno!

Um viciado em telas no divã

Foto em close de uma tela, mostrando os pontos luminosos RGB.

Alguns meses atrás, em uma sessão da terapia, comentei a hipótese de ser viciado em telas. A psicóloga perguntou o que eu faço quando não estou olhando para elas. Consegui elencar poucos itens — todos simplórios, alguns patéticos, como “lavar louça”.

Ela disse que é comum que viciados, ao reconhecerem o vício, se vejam em um vazio existencial. Acho que não há margem para dúvidas em reconhecer “lavar louça” como sinal de um enorme vazio, não?

Dei-me conta desse problema ao ler estes três parágrafos publicados pelo Dave Rupert, que tomo a liberdade de traduzir:

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Para que serve o Mastodon? 
connectedplaces.online

O fediverso, em especial o Mastodon, ainda hoje sofre com a pecha de “complicado”. O seu grande diferencial, o sistema de instâncias federadas, é também seu calcanhar de Aquiles.

Há alguns anos, passei a recomendar o ingresso no fediverso/Mastodon via instância dos desenvolvedores, a mastodon.social, e o foco na linha do tempo pessoal. É mais simples de explicar e — imagino — de entender, mas algo se perde nesse caminho mais fácil.

Eu não tinha me ligado nisso até ler este texto do Laurens Hof no blog Connected Places. Ele faz uma distinção muito sagaz da experiência no fediverso, entre a camada da instância e a da federação, e argumenta que a maioria das pessoas vive na camada da federação (linha do tempo):

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Redes sociais afetam adultos também

Existe ainda alguma dúvida de que redes sociais são prejudiciais para crianças e adolescentes? O ano de 2026 encaminha-se para o fim dessa fábula.

A Austrália já baniu o acesso de menores de 16 anos às plataformas sociais.

No Brasil, o chamado ECA Digital, com uma série de novas obrigações para sites e aplicativos a fim de mitigar os perigos da internet a que menores estão sujeitos, está prestes a entrar em vigor — com algumas aberrações perigosas, como a “verificação de idade”.

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Trend da IA

Vi-me em um experimento curioso por puro acaso: observar as reações das pessoas avessas à inteligência artificial — meio que todo mundo que usa Bluesky e/ou Mastodon — à “trend da IA”.

O acaso decorre de eu estar alheio ao Instagram. Faz umas três semanas que não abro o app, usando aquele arranjo do bloqueio direto no DNS. Tenho frequentado apenas Bluesky e Mastodon.

A primeira dificuldade foi entender a qual “trend da IA” estavam se referindo. Descobri que é uma de caricaturas, ou da pessoa pedir uma imagem de si mesma em seu trabalho. Ou as duas coisas, não sei.

O mais curioso foi o contato limitado às reclamações. Não vi sequer uma imagem gerada por IA dessa “trend” nos locais que frequento. Desse ponto de vista, a situação toda se parece com uma esquizofrenia coletiva.

Suponho que as pessoas vejam a “trend da IA” no Instagram, no TikTok e no Status do WhatsApp. Do meu lado, tanto faz. Somos seres curiosos e a visão que uma inteligência artificial tem de nós mesmos atiça a curiosidade. Entendo a motivação e acho ela válida.

A divulgação das imagens é mais difícil de entender se fechamos a análise nisso, mas ampliada, como parte de uma questão mais profunda — a da publicização sem limites da vida privada em plataformas ditas sociais —, é como funcionamos no momento. Já as reclamações ruidosas em becos digitais onde as pessoas que geram e curtem essas imagens *não* estão… sei não. Evitável, talvez?

Minha companheira pediu uma caricatura minha à IA, antes de eu saber que era uma “trend”. Saiu algo estereotipado, com erros tangenciais. Não curti, não.

O paradoxo da segurança 
densediscovery.com

Viver, em 2026, consiste em guerrear com outras pessoas em múltiplas frentes, o que se normalizou chamar de “competição”. Vale para tudo e sempre gera um efeito paradoxal: o acirramento da nossa guerra privada do dia a dia piora a vida de todo o mundo.

Na última edição da newsletter australiana Dense Discovery, Kai chamou a atenção ao livro Trapped: Life under security capitalism and how to escape it (algo como “Preso: A vida sob o capitalismo de segurança e como escapar dele”), de Setha Low e Mark Maguire.

Os autores argumentam que a “segurança se transformou de um direito inalienável em uma commodity acumulada por quem pode pagar”, estimulada por uma indústria que não para de inventar tranqueiras e softwares cada vez mais invasivos sob uma promessa que jamais é cumprida. Esse mercado macabro não gera mais segurança; gera medo:

Quanto mais você securiza sua vida, mais essas cercas, portões e guardas deixam sua vida pautada pelo medo em vez te deixar com menos medo. E assim, à medida que o medo cresce, você quer mais segurança, compra mais dispositivos, apoia todos os tipos de iniciativas de policiamento.

O paradoxo aparece quando se tira a cabeça do próprio umbigo. O aparato, ilusório em essência, no fim deixa o mundo pior para todos:

“[Isso cria] uma profecia auto-realizável de pessoas com medo querendo mais segurança e o estado e a iniciativa privado produzindo-a, apenas para tornar o mundo mais temeroso para alguns e desprotegido para outros.

Penso nisso sempre que passo por muros com cercas elétricas e arames farpados, condomínios residenciais de alto padrão, câmeras de segurança, policiamento ostensivo. O que significa que tenho pensado muito, e cada vez mais, no assunto.

O dia seguinte do experimento de viver sem WhatsApp

Neste podcast, eu comento dois ou três links selecionados da curadoria diária que faço no Manual do Usuário. Recomendo que você dê uma olhada no arquivo de links para descobrir mais links. É bem legal!

Viver sem WhatsApp, 0:32

É possível viver sem WhatsApp no Brasil?

Apple Creator Studio, 5:16

Apple Creator Studio.

KDE para criadores.

25 anos da Wikipédia, 10:38

25 anos da Wikipédia.

Os novos parceiros comerciais da Wikimedia Enterprise.

O site da Wikipédia é bom. O aplicativo para celulares é melhor.

É possível viver sem WhatsApp no Brasil?

Vamos direto ao assunto: viver sem Instagram, Facebook e Threads (risos) é fácil. Os únicos contratempos que me ocorrem são a privação dos rolos no marketplace do Facebook e o apagão de informações de restaurantes, cafés e clínicas que insistem em reduzir a presença no digital ao Instagram. Inconveniente, mas contornável.

No Brasil, o “chefão” de quem decide se livrar da Meta é o WhatsApp. E como não seria? Algumas pesquisas de hábitos no celular apontam que até 99,1% dos brasileiros maiores de 16 anos usam o app de mensagens. Por aqui, ele é onipresente; o meio de comunicação padrão de muita gente e empresas.

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