Bloco de notas #6

Notas curtas e curiosidades do mundo da tecnologia que publicaria no Twitter se o Twitter fosse uma rede legal. (Não é.)

***

Nos Estados Unidos, o Google foi condenado a pagar uma multa de US$ 170 milhões [New York Times, em inglês] por abusos praticados no YouTube. O serviço de vídeos coletou dados pessoais de menores de 13 anos sem o consentimento dos pais e os usou para veicular anúncios segmentados.

Mais importante que a multa, o YouTube se comprometeu a implementar mudanças significativas que começam a valer no início de 2020 [YouTube, em inglês]: cessar a coleta de dados pessoais de vídeos destinados ao público infantil, independentemente de quem os assista; desativar comentários e notificações em canais infantis; e cessar a veiculação de anúncios personalizados com base em dados pessoais em vídeos infantis (anúncios continuarão sendo exibidos com base em outros critérios [@manualusuariobr/Twitter, em português], porém). A definição do que é um vídeo infantil ficará a cargo dos donos dos canais, mas o YouTube empregará uma inteligência artificial para, em paralelo, classificar vídeos infantis automaticamente como tais.

→ A multa é a maior já aplicada nos EUA a uma empresa por infringir a COPPA (abreviação em inglês para Lei de Proteção da Privacidade Online de Crianças). O recorde anterior, da rede social TikTok em 2018 [CNN, em inglês], era de US$ 5,7 milhões.

→ Em 2018, a Alphabet, holding do Google, faturou US$ 136 bilhões e teve lucro operacional de US$ 26,3 bilhões [Alphabet, em inglês]. A multa aplicada representa 0,12% e 0,65% desses valores, respectivamente.

→ Em outra frente problemática, o YouTube anunciou ter removido 100 mil vídeos e 17 mil canais com conteúdo de ódio entre abril e junho deste ano. Especialistas criticaram [Wired, em inglês] a falta de contexto dos números anunciados e alegam que o YouTube continua a fazer vista grossa aos canais mais populares que seguem espalhando ódio impunemente na plataforma.

***

Nesta semana, tivemos dois novos apoiadores da campanha de financiamento do blog: Mariana Ruggeri e Renan Barbosa. Obrigado!

Conto com a generosidade de leitores dispostos a pagar uma pequena mensalidade para continuar no ar. Você pode contribuir acessando a campanha do Manual no Catarse. A grana está curta e/ou tem outras prioridades? Compartilhe posts como este e indique o blog a quem você acha que gostaria de conhecê-lo. Tudo isso ajuda!

***

O navegador Brave acusou o Google de usar um esquema de páginas fantasmas para identificar e monitorar usuários nos 8,4 milhões de sites que usam seu sistema de publicidade programática. Os dados coletados irregularmente podem ser combinados a outras bases de dados, o que permitiria auferir informações sensíveis dos usuários como localização, religião, inclinação política, orientação sexual e o histórico de navegação. No comunicado à imprensa [Brave, em inglês], o Brave (um concorrente direto do Chrome do Google, vale dizer) diz que “este parece ser o maior vazamento de dados pessoais já registrado”. Se confirmado, o Google estaria violando diretamente o Regulamento Geral sobre Proteção de Dados (GDPR) — legislação europeia de proteção de dados pessoais. O caso já foi encaminhado e está sendo analisado por autoridades do bloco continental.

→ O Firefox 69, lançado esta semana, ativa para todos os usuários [Mozilla Blog, em inglês] a proteção reforçada contra o uso de cookies cruzados — incluindo os que o Google usa para perfilar usuários para fins de publicidade. Desde junho, esta configuração era padrão apenas para novas instalações do Firefox; agora, passa a ser ativada para todos.

***

O Facebook reformulou suas configurações de reconhecimento facial [Facebook, em inglês]. Agora, há um único controle binário (ligado ou desligado) que permite que a rede social reconheça o usuário pelo rosto e use essa informação para diversos fins, de coibir a criação de contas falsas aos alertas de que fotos suas não etiquetadas foram enviadas à plataforma.

→ Mais um vazamento enorme do Facebook: um banco de dados com IDs e telefones de 419 milhões de usuários da rede social foi encontrado, sem proteção, por um pesquisador [TechCrunch, em inglês].

***

O que saiu de legal no Manual:

***

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu esta semana que ações movidas por motoristas de aplicativos contra as empresas são de natureza civil [Conjur, em português], e não da Justiça do Trabalho, por entender que inexiste relação trabalhista no caso. O ministro Moura Ribeiro, relator do caso, explicou que “Os motoristas de aplicativo não mantêm relação hierárquica com a empresa Uber porque seus serviços são prestados de forma eventual, sem horários pré-estabelecidos, e não recebem salário fixo, o que descaracteriza o vínculo empregatício entre as partes.”

***

A influência da economia baseada em apps vai muito além das telinhas dos nossos celulares. Ela afeta até a arquitetura urbana [Uol Tab, em português]. Dos armários da Amazon nas ruas e, no Brasil, do iFood em prédios, aos espaços para carros de apps como Uber e até o projeto das lojas de rua, é difícil encontrar coisa do mundo físico que passe incólume pela revolução digital.

→ Pode-se dizer que o Foursquare fez o caminho contrário, digitalizando o mundo físico com precisão capaz de rivalizar com as soluções de Google e Facebook. Uma década após se lançar ancorado em um sistema de gamificação que por anos foi paradigma para outros apps, hoje a empresa fatura alto [New York Magazine, em inglês] comercializando para outras empresas a montanha de dados e a expertise para extrai-los mesmo quando as pessoas sequer têm seu app instalado no celular.

***

Um presidente-executivo do Reino Unido foi enganado por fraudadores. Eles se passaram pelo seu chefe da matriz alemã com a ajuda de um software comercial que altera a voz com base em algoritmos. Atendendo a um pedido do chefe falso, ele transferiu US$ 243 mil [Wall Street Journal, em inglês] para uma suposta subsidiária húngara. De lá, o dinheiro foi transferido para o México e desapareceu. O golpe, ocorrido em março, é talvez o primeiro de falsidade ideológica por voz alterada eletronicamente.

→ Da voz para os vídeos. No início da semana, um app chamado Zao viralizou na China. Com alguns toques e apenas uma foto, ele gera vídeos “deep fake” [The Guardian, em inglês] e substitui o rosto de atores famosos em cenas de filmes pelo do usuário. Veja um exemplo [Twitter]; é impressionante.

***

O Android 10 foi oficialmente lançado na terça (3). Embora, até o momento, apenas os celulares Pixel (do próprio Google), o Essential Phone e o Redmi K20 Pro [9to5Google, em inglês] tenham recebido a atualização, é o Android que a maioria dos lançamentos de 2020 trará. Em vídeo [Invidious, em inglês], em texto [Google, em inglês] e no belo site oficial.

***

Após adiamentos constrangedores causados por falhas básicas de projeto, o Galaxy Fold, primeiro celular com tela dobrável do mundo, será lançado na Coreia do Sul nesta sexta (6) [Reuters, em inglês]. Custando cerca de R$ 8 mil (em conversão direta), será um negócio para poucos.

→ O Galaxy Fold deve chegar a outros “mercados selecionados”, como Estados Unidos, Cingapura e alguns países europeus, ainda em setembro. A Samsung aproveitou a IFA para levar a versão final do aparelho, já com os reforços em sua dobra e melhorias na tela, e mostrá-la à imprensa [The Verge, em inglês].

→ Sem o mesmo glamour e com menos recursos, outro celular finalmente lançado foi o Light Phone 2 [The Verge, em inglês]. A nova versão do celular continua intencionalmente limitada, mas faz um pouquinho mais de coisas que a anterior, como enviar mensagens, gerenciar contatos e compartilhar a conexão com outros dispositivos. Mas, por US$ 350 (cerca de R$ 1.400) e um design diferente, menos inspirado que os dos primeiros vídeos promocionais, é uma compra difícil de se justificar racionalmente.

***

Se ainda havia dúvidas, a última reportagem da Vaza Jato [The Intercept, em português] confirma que o vazamento se deu na conta do procurador Deltan Dallagnol: é revelado que ele enviava mensagens e áudios a si mesmo, usando o Telegram como uma espécie de diário. Cantei esta bola [Manual do Usuário] no dia em que a primeira reportagem da série foi publicada, em junho.

→ Os procuradores da força-tarefa da Lava Jato tinham uma fé inabalável na segurança do Telegram [El País, em português]. “Este é um canal muito seguro, eu diria. Aqui no Brasil, nós compartilhamos entre nós algumas informações sensíveis, tudo baseado na confiança mútua”, disse o procurador Carlos Fernando Lima em uma conversa em 2015.

A última versão do Telegram [Telegram, em inglês] permite agendar o envio de mensagens em grupos, canais e conversas. Para quem manda mensagens para si mesmo, como Deltan, dá para agendar lembretes também. Além disso, o app ganhou temas personalizados sincronizados na nuvem e uma nova opção de privacidade que impede que pessoas que adicionem seu número em suas agendas vejam que você usa/está no Telegram.

***

Apps:

  • A Microsoft ressuscitou os PowerToys [Github, em inglês]. Eles existiam desde o Windows 95 como aplicativos complementares para o sistema. Os dois da nova safra, feita para o Windows 10, facilitam a organização de janelas (FancyZones) e permitem invocar uma camada sobreposta à tela com indicadores visuais de atalhos do teclado (Windows key shortcut guide). Outros devem aparecer em breve.
  • A Apple liberou, em caráter beta, a versão web do Apple Music.
  • O Loop Habit Tracker é um app de registro de hábitos para Android. Gratuito e de código aberto. Para iOS, tem o Habit.

***

Se você curtiu este Bloco de notas, assine gratuitamente a newsletter do blog para recebê-la semana que vem, gratuitamente, direto no seu e-mail:


O Manual do Usuário é um blog independente que confia na generosidade dos leitores que podem colaborar para manter-se no ar. Saiba mais →

Acompanhe

  • Telegram
  • Twitter
  • Newsletter
  • Feed RSS

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

5 comentários

  1. Sobre o aplicativo Zao e o golpe usando sintetizador de voz baseado em algoritmos de deep learning, muitas pessoas falaram há menos de 2 anos que esse tipo de coisa iria demorar para chegar da maneira que chegou agora, simples de fazer. Estavam errados, via de regra já.
    Me lembrou aquela cena de Terminator: Salvation, onde é a primeira vez que um dos atores principais fala com a skynet, e ela muda de voz e imagem para que ele consiga entender ou assimilar melhor o que está acontecendo. O que era filme agora está aí, não demorando para melhorar e se tornar mainstream, o que, acredito, vai ser uma falha de segurança a nível global. Qualquer um pode ser você, a qualquer momento, e isso para destruir a vida e alguém é 2 toques. São os boatos versão 2.0

  2. Quanto essa situação do You Tube, acompanho um ou outro canal de jogos (nada de Fortnite, Minecraft e outras coisas pop, sou mais da onda retrogamer) e vi em um que a nova postura do YT pode acabar com muitos canais gamers, já que não terão propaganda (monetização). Mesmo se eles falarem de jogos diversos (um jogo do Mario, por exemplo, gera interesse em crianças e também para jovens e adultos).

    Não que eu me preocupe tanto com isso (mas claro, alguns fazem disso o ganha-pão), mas é interessante notar como o YT tenta arrumar um problema causado por eles mesmos, sem se preocupar por aqueles que ajudam a própria plataforma.

  3. Duas notas:

    – Além dos Pixels, o Essential Phone e um modelo da Redmi receberam o Android 10 no mesmo dia;
    – Essa alteração dos números de telefone no Telegram foi feita devido a acontecimentos em Hong Kong. Os protestos estavam sendo organizados pelo app em grupos públicos, e autoridades estavam abusando de uma tática que envolvia adicionar telefones aleatórios e vendo quais pessoas estavam nos grupos. Sabendo o número, fica fácil pra eles repreender as pessoas. É legal ver que eles conseguiram mudar rápido o funcionamento pra proteger essas pessoas. Sonho com o dia onde ele será independente de telefone.

Do NOT follow this link or you will be banned from the site!