Montagem com o Pe. Fábio de Melo no palco segurando o pássaro (logo) do Twitter em uma das mãos.

Como o Twitter fomenta o ódio e instiga o que há de pior em nós


12/8/19 às 12h29

Nem os representantes divinos no plano terreno serão poupados no Twitter. Na quinta-feira (8), o padre cantor e tuiteiro de carteirinha Fábio de Melo abriu a rede social para reclamar da saída de presos condenados por filicídio no Dia dos Pais. Foi execrado. No dia seguinte, ele anunciou sua saída do Twitter. Em sua última mensagem lá, o padre disse:

Agradeço muito o carinho que sempre recebi aqui. Eu me divertia muito com vocês. Obrigado pelos amigos que fiz. Rezem por mim. 🙏

Há tempos o Twitter deixou de ser uma rede social ágil e divertida para se transformar em muitas coisas ao mesmo tempo que, somadas, criam um ambiente extremamente inóspito. Uns poderiam dizer que ele apenas reflete a natureza humana e que, com mais gente usando o serviço e a polarização crescente em lugares como o Brasil, essa transformação é consequência, não causa. Mas sabemos, pelo menos aqui no Manual do Usuário, que a tecnologia jamais é neutra. Se atribuir ao Twitter todos os males contemporâneos é um exagero, a César o que é de César: casos como o de Fábio de Melo e outros tantos mais graves de gente menos famosa evidenciam os estragos que decisões tomadas pela direção do Twitter podem causar a qualquer usuário do serviço.

Da interface caótica às ferramentas limitadas para conter abusos, passando pela aplicação sem critérios das regras da própria plataforma, ferve ali um caldo grosso que periga inviabilizar o debate público e, no fim, dar razão a quem grita mais alto.

Uma unanimidade

Em meados de julho de 2019, o Twitter virou a chave do seu novo visual da versão web para computadores. Ele estava em testes havia alguns meses e podia ser acessado opcionalmente. Tornou-se obrigatório. Na prática, o que a rede social fez foi unificar a fundação dos seus apps: a mesma versão acessada pelo celular é a que aparece agora nos computadores dos usuários e ela também serve de base para alguns aplicativos móveis.


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Nos dias que se seguiram à obrigatoriedade do novo visual do Twitter, reclamações na timeline foram incessantes e praticamente unânimes. O desagrado causado pelo novo Twitter, com suas fontes e elementos enormes e desproporcionais, baixíssima densidade de informações na tela e bugs diversos, parece ter sido generalizado.

Isso não é novo. Do Orkut ao novo Twitter de 2019, passando por múltiplas iterações do Facebook, mudanças visuais e funcionais em aplicativos que usamos todos os dias sempre inflamaram os ânimos dos usuários. O pensamento condescendente (e o que costuma ocorrer) nos diz para ter paciência, porque a gente acaba se acostumando. De fato nos acostumamos, mas isso não significa que o novo seja de fato melhor que o antigo. Na maioria dos casos não há escolha e a julgar pelo histórico e interesses das empresas que controlam essas plataformas, há motivos de sobra para suspeitar da benevolência por trás de mudanças drásticas.

Usar os aplicativos oficiais do Twitter é um tormento. Mesmo antes da interface mais recente, eles já despertavam um ódio inexplicável e nos estimulavam a agir de tal modo que de outra forma, sem essa influência, provavelmente não agiríamos. Eu me transformo em uma pessoa pior quando uso os apps oficiais do Twitter por alguns dias seguidos. O fenômeno é quase palpável de tão visível. Depois, com o devido distanciamento, sinto-me mal novamente, desta vez remoendo as coisas que escrevi e as respostas que dei ali dentro.

É um sem fim de números, de anúncios apelativos, de ruído de gente que não sigo e de quem não tenho interesse em saber absolutamente nada aparecendo na tela para disputar a minha já fragilizada atenção naquele ambiente. Um dilema particular que enfrento é deparar-me com tweets do Felipe Neto toda vez que acesso o Twitter por um app oficial. Toda. Vez. Eu não sei o que fiz ao Twitter para merecer isso, mas se o objetivo deles é me castigar por qualquer malfeito, colocar esses tweets não solicitados diante dos meus olhos assim que abro o site ou app é extremamente efetivo. É uma versão leve — mas nem por isso agradável — do que imagino seja o purgatório.

Print do Twitter mostrando um tweet do Felipe Neto.
Livrai-me deste mal, padre. Imagem: Twitter/Reprodução.

A mudança do layout do Twitter foi embasada em razões técnicas, mas parece também atingir alguns objetivos importantes aos negócios, como o de colocar mais slots de anúncios em contato com o usuário. Pode ser só impressão, mas parece que as quantidades de anúncios exibidos e locais possíveis de inseri-los aumentaram na nova interface à custa do conforto do usuário. E ela consolida a timeline algorítmica, que volta a ser exibida mesmo quando o usuário opta por vê-la em ordem cronológica.

“Comecei a notar como quando eu acessava o Twitter pela manhã, eu ficava mais explosivo, mais agressivo, mais propenso a ser grosseiro com as pessoas. Reclamão mesmo”, relembra Luciano Ribeiro, 32 anos, de São Paulo (SP). Ele trabalha em uma publicação online, o que faz do Twitter parte da sua rotina profissional. “Há um caráter imediato, uma ansiedade que surge quando você vai vendo as respostas e vai reagindo cada vez mais rápido pra não perder o timing das coisas”, explica. “E tudo se intensifica, ao meu ver, quando me engajo mais e mais em motivos de revolta (que não faltam atualmente, vamos convir). A rede também parece estimular esse comportamento, só me alimentando com aquilo que me deixa indignado”.

No caso de Ribeiro, os efeitos nefastos do Twitter se somaram a uma crise de burnout/depressão. Afastar-se o ajudou: “Não sei se há uma relação direta, mas de fato, depois que reduzi meu consumo de Twitter após esse evento, meu estado mental melhorou bastante”.

O estudante de jornalismo Tynan Barcelos, 22 anos, de Campo Bom (RS), também percebe mudanças drásticas de humor desengatilhadas pelo Twitter: “Diversas vezes tu está com um humor ‘A’, entra no Twitter, dá uma rolada na timeline, e sai com um humor ‘Z’. É um desequilíbrio muito assustador”.

Ataques coordenados

Simplesmente usar o Twitter é capaz de gerar grande desconforto, mas algo pior pode ocorrer ali dentro: tornar-se alvo de ataques de grupos coordenados ou de hordas agressivas difusas. Se o desconforto interno já é ruim, receber uma enxurrada de xingamentos, hostilidades e até ameaças, além do óbvio medo de que algumas dessas sejam cumpridas, azeda o clima a ponto de motivar abandonos da plataforma, como o do padre Fábio de Melo.

Há estudos que apontam que as redes sociais nos deixam mais deprimidos e afloram sentimentos extremos, como a raiva e a indignação, que por sua vez “engajam” melhor na internet. Na terminologia das redes sociais, “engajar” significa instigar os usuários a executarem alguma ação na plataforma. A mera atribuição de sucesso ao agir denota um descompasso com a comunicação — o consumo passivo é tido como ruim e indesejado. Não basta ler, assistir ou ouvir, ou seja, informar-se; é preciso que as pessoas cliquem, curtam, respondam, retuítem, pois só assim a roda continua a girar. Como as redes sociais são plataformas que não produzem conteúdo, é preciso que alguém faça o trabalho de abastecê-la, preferivelmente de graça. E como os conteúdos extremistas repercutem mais, as redes recompensam melhor quem se joga nos absurdos e com isso fecha o ciclo vicioso que faz do Twitter, do Facebook, do Instagram — dê o nome que quiser — ambientes radioativos capazes de estragar o dia de alguém que os acesse.

Não é à toa que nos últimos anos o Twitter virou a ferramenta de comunicação favorita de políticos populistas, teóricos da conspiração e neonazistas, além de ter virado um dos vetores ideais para perseguições, doxxing, bullying e linchamentos virtuais de toda sorte. Tudo isso é sintomático.

As redes sociais, o Twitter em especial, são facilmente “armorizadas”, ou seja, transformadas em armas por grupos de interesse. Isso gera situações como o ataque coordenado por temas banais e a ascensão de hashtags absurdas que emplacam nos trending topics com a participação de robôs ou pequenos grupos coordenados. Com a ênfase que os trending topics têm nas interfaces dos apps oficiais, a lógica deles se subverte e o que deveria refletir a realidade passa a moldá-la. Há tanta coisa que o Twitter poderia fazer no combate a esse problema, como identificar perfis automatizados/robôs. Nada é feito, porém, se tiver como resultado diminuição no “engajamento” e, consequentemente, no faturamento.

Casos como o do padre Fábio de Melo chamam a atenção pela notoriedade do afetado, mas sobram histórias de gente menos famosa vítimas de ataques em massa no Twitter.

No mesmo dia em que o padre anunciou sua aposentadoria como tuiteiro, a jornalista Tai Nalon se viu alvo de ataques coordenados no Twitter por conta de um piada simples, dessas que o Twitter recebia bem até alguns anos atrás. Não mais. “Influenciadores da direita encontraram o tweet, jogaram para seus seguidores sem contexto e assim começou a chuva de xingamentos”, contou ela ao Manual do Usuário. “Só me acendeu o sinal amarelo, na realidade, quando comecei a receber mensagens particulares no Instagram de homens me convidando para ‘me dar um trato'”.

Nalon diz que usar o Twitter tem sido um desgaste há pelo menos três anos, “quando alguns grupos extremistas organizados começaram a se dar conta de que, ao atuarem em bando com xingamentos e doxxing, poderiam interditar o debate nas redes”. Por conta do seu trabalho à frente do Aos Fatos, publicação de checagem de fatos parceira do Facebook no Brasil, ela e sua equipe já receberam ameaças de morte. O episódio recente da piada foi o primeiro motivado por um comentário pessoal. Nalon contou que até o momento “nenhuma ação foi tomada pelas plataformas [Twitter e Instagram]”.

A omissão do Twitter

Há uma frase clichê, dessas que infestam o LinkedIn e outros becos escuros da internet, que diz que “se você não está pagando, então você é o produto”. Ela é discutível, mas aponta para questionamentos interessantes de serem feitos sempre que uma grande empresa de capital aberto toma decisões que parecem — e, não raro, são — ruins ao usuário. Qual é o objetivo? A quem ela quer agradar?

A impressão que fica é a de que o Twitter trabalha exclusivamente para satisfazer seus clientes. Não, não eu, você, o padre e a jornalista; os anunciantes. A hipótese ganha força ao constatarmos quem paga a conta: no segundo trimestre de 2019, resultado mais recente disponível na publicação desta matéria, 86,4% da receita do Twitter veio da publicidade e a empresa lucrou pelo sexto trimestre consecutivo após anos derrapando em números irregulares e prejuízos sucessivos.

Só que a fórmula do lucro inclui ingredientes como passar pano para neonazista, fazer a egípcia para abusos explícitos e colocar as externalidades do bom desempenho financeiro na conta da saúde mental e da segurança física de uma parcela dos usuários. Não por acaso, é a mesma usada por todas as outras grandes plataformas de redes sociais bem sucedidas, do Facebook ao YouTube.

Jack Dorsey, cofundador e CEO do Twitter, é famoso por conceder entrevistas desconexas, pregar hábitos saudáveis no mínimo questionáveis e apontar problemas óbvios no produto da sua empresa — ele já manifestou, por exemplo, que acha que o botão “curtir” é um erro. Quando um caso de violação flagrante das regras envolvendo poderosos explode, porém, faz-se um contorcionismo intelectual inacreditável para justificar o injustificável e poupar o infrator de quaisquer consequências. Este padrão se repete no Brasil. Nos meses que precederam as eleições de 2018, as ameaças e ataques à equipe do Aos Fatos se intensificaram. Nalon lembra que “os ataques foram insuflados por influenciadores, e plataformas como Facebook e Twitter retaliaram alguns perfis pequenos, mas dificilmente vão atrás de quem efetivamente impulsiona os ataques”.

Dorsey vive filosofando sobre o serviço que comanda enquanto o mundo arde em chamas com o Twitter servindo de gasolina. Refletir é essencial, mas agir também.

Recentemente, alguns usuários de diversas partes do mundo mudaram seus perfis no Twitter para a Alemanha. Motivo? Leis locais que datam do pós-II Guerra Mundial e que foram atualizadas em 2017 para contemplarem redes sociais exigem que elas removam conteúdo nazista em até 24 horas sob pena de serem multadas em até € 50 milhões. Embora a legislação não elimine por completo esse tipo de conteúdo do Twitter alemão, “é bem verdade que há menos conteúdo nazista disponível aqui [na Alemanha em relação aos Estados Unidos]”, disse Jillian York, diretor geral para a liberdade de expressão da Electronic Frontier Foundation na Alemanha, à reportagem da CNBC.

Se na Alemanha é possível, por que não replicar o trabalho feito lá por força legal ao restante do mundo?

Paliativos

Apesar do potencial destrutivo do Twitter, o serviço ainda é uma boa fonte de informações em tempo real, o que configura uma situação curiosa: vista com algum distanciamento, é como se a direção do Twitter estivesse seriamente disposta a destruir o produto, ou as características que o tornam valioso em primeiro lugar.

Para evitar linchamentos virtuais, muitos empregam a autocensura, excluindo o histórico de tweets ou se omitindo de tecer comentários quaisquer no serviço. Para Nalon, “a autocensura é a melhor [estratégia], sem dúvida, mas isso não contribui para debates que precisam ser travados em público”. Ela usa filtros de notificação, recurso que oculta comentários de contas recém-criadas ou não verificadas por e-mail ou telefone, mas afirma que a eficácia deles é limitada: “[Os filtros] não são tão eficazes quando uma horda vem te atacar, porque muitos aparecem nas respostas”, conta.

O problema não é exclusivo do Twitter: “O Instagram também não tem nenhuma ferramenta funcional que bloqueia marcações de gente desconhecida em posts”, explica.

Para quem o problema é sentir-se mal acessando o Twitter, o problema maior são os apps oficiais. Vinha usando eles para monitorar curtidas e retweets (a mudança na API limou a exibição de curtidas no Tweetbot) e para compor fios (ou “threads”, se você é dos anglicismos), algo que, justiça seja feita, é mais fácil por ali do que no Tweetbot. Só que não dá mais. De verdade — e não digo isso como hipérbole —, para mim a experiência oficial do Twitter virou um negócio insustentável. O custo é muito alto.

Em um mundo ideal, o Twitter trabalharia para melhorar o produto para o usuário. Não vivemos nesse mundo. O que nos cabe, por ora, é buscar por caminhos alternativos mais saudáveis para conseguir extrair valor do Twitter. Cabe aqui uma analogia com a mineração: é como se os tesouros do Twitter estivessem, agora e cada vez mais, encrostados em camadas mais profundas do solo, o que demanda mais trabalho, maior gasto energético e muita paciência de quem precisa ou acha válido o esforço para desenterrá-los, além de cuidado para não ser soterrado pelo chorume que escorre com cada vez mais força das paredes.

Desde 2012, o Twitter tem feito um trabalho incansável para centralizar o uso da sua plataforma nos apps oficiais a fim de exibir anúncios. Fuja desses apps. Não por causa dos anúncios, mas pela apresentação e elementos da interface que fomentam o nervosismo, a indicação e pouco fazem para combater padrões de uso danosos.

Hoje, a única maneira de acessar o Twitter sem perder a sanidade — e digo isso quase literalmente — é por apps de terceiros. Sem surpresa, este caminho tem se revelado cada vez mais difícil de seguir.

Print do Tweetbot.
Só o Tweetbot na causa. Imagem: Tweetbot/Reprodução.

Em agosto de 2018, o Twitter martelou o penúltimo prego no caixão (falta proibi-los de vez) nos apps de terceiros que replicam as funcionalidades nucleares dos oficiais: mudanças em uma API acabaram com notificações push e atualizações automáticas da timeline. Quatro apps, Talon, Tweetbot, Tweetings e Twitterrific, uniram-se para pedir uma revisão das mudanças. Foram solenemente ignorados.

Combalido e sem algumas funções a menos, o Tweetbot, minha escolha pessoal, segue funcionando para o básico. Não há contadores na tela operando como gatilhos para ansiedade e outras sensações ruins. Nele, posso colocar uma lista qualquer como timeline principal (no macOS; no iOS, não). Muito antes dos apps oficiais, já era possível deixar perfis que sigo mudos. Tudo isso com um design de bom gosto, notificações pontuais (nada de “@fulano está tuitando sobre #hashtaginútil”) e, acima de tudo, respeito por quem o usa. No Tweetbot, o Felipe Neto jamais aparece do nada na minha frente.

Se você usa Android, uma boa pedida é o Talon, que a exemplo do Tweetbot também é pago. E no computador tem o gratuito TweetDeck, do próprio Twitter. Por algum milagre, o Twitter mantém o TweetDeck atualizado e infinitamente menos odioso que os apps oficiais. Por enquanto.

E, obviamente, em casos mais extremos não resta alternativa que não sair. Como fez o padre Fábio de Melo. “Já percebi, porém, que não importa muito tomar cuidado, já que algumas pessoas serão atacadas independentemente do que dizem ou fazem”, diz Nalon, que segue no Twitter apesar de tudo. “Eu posso comentar que o tempo está nublado, que sempre vai vir uma mensagem de algum desconhecido falando que ‘é porque a extrema imprensa só serve pra criticar, sua comunista'”.

Foto do topo: Suelen Miranda/Wikimedia Commons. Montagem: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

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