Esconder o número de curtidas no Instagram não vai resolver o problema


23/4/19 às 11h19

Jane Wong, uma programadora independente, descobriu que o Instagram testou em algum período recente esconder o número de curtidas (“likes”) das fotos e vídeos publicados na rede social. Só teria acesso a esse número o usuário que publicou o conteúdo. A mensagem que aparece no app diz que o Instagram quer, com isso, que “os seguidores foquem no que você compartilha, não em quantas curtidas seus posts ganham”. Estaria o Instagram/Facebook preocupado com a pressão que os usuários dizem sentir cada vez mais forte?

É provável que sim, mas não pelos motivos corretos. De qualquer maneira, um porta-voz do Instagram disse ao site The Verge que “não estamos testando isso no momento, mas estamos sempre pensando em maneiras de reduzir a pressão no Instagram”.

Atualização (17 de julho, às 10h10): Contrariando o que foi dito pelo porta-voz acima, os testes continuaram e, nesta data (17/7), começaram a valer para o Brasil.

O Instagram, como a maioria das redes sociais comerciais, é pautado por métricas porque, em última instância, elas servem como um imperfeito, mas útil sinalizador de popularidade e isso, na economia da atenção que a rede representa, é uma moeda que pode ser convertida em dólares. Diz-se que é preciso “seguir o dinheiro” para entender determinadas ações à primeira vista estranhas. No Instagram, é mais fácil seguir os números de curtidas e de seguidores — geralmente há um pote de ouro no final do caminho.

O problema é que esse monte de números exerce uma pressão brutal também nos usuários não famosos e/ou mais vulneráveis, que estão ali para se exibirem aos amigos ou manter contato com familiares. As métricas do Instagram afetam a todos, sem discriminação.

As fotos de lugares paradisíacos, restaurantes caros e festas exclusivas cuidadosamente enquadradas, escolhidas e editadas que costumam ser realçadas pelo algoritmo têm nos números de curtidas e de seguidores um validador quantificável. O algoritmo molda a experiência e gera a sensação de que as vidas dos nossos amigos vistas pelas lentes do aplicativo são muito mais legais que a nossa. E se a experiência empírica não for suficiente, hoje já temos respaldo técnico ao desconforto que as redes sociais em geral, o Instagram entre as principais, nos causam, como este estudo da Sociedade Real para Saúde Pública do Reino Unido que, em 2017, concluiu que o uso do Instagram resulta em altos níveis de ansiedade, depressão, bullying e FOMO (“fear of missing out”).

Prints de telas do Instagram com o contador de curtidas ausente.
Telas do teste do Instagram para esconder o número de curtidas. Imagem: @wongmjane/Twitter.

Números que manipulam

Você já reparou em quantos números povoam as interfaces das redes sociais? Abra o site do Facebook no notebook, onde há mais espaço, e conte quantos aparecem logo de cara. Ou veja esta imagem com todos os números destacados:

Print do Facebook com os números marcados em vermelho.
Dezenas de números na interface do Facebook. Imagem: Benjamin Grosser/Computational Culture.

Esta imagem compõe um estudo publicado pelo artista Benjamin Grosser em 2014. Com base em uma extensão que ele desenvolveu chamada Facebook Demetricator, Grosser analisou o que nos impele a dar tanta importância aos números nas interfaces do Facebook e quais os efeitos deles no nosso comportamento.

A extensão remove por completo todos os números da interface do Facebook. (Existem versões também para o Twitter e o Instagram.)

Prints da área de comentários do Facebook com um antes e depois da extensão de Grosser.
Antes e depois. Imagem: Benjamin Grosser.

Grosser traça um paralelo entre o capitalismo e a nossa necessidade de valorização pessoal, e como esse último acaba englobado pelas dinâmicas do sistema econômico vigente que, como se sabe, depende de um crescimento constante para se manter. Ao submetermos uma necessidade humana básica às regras do capitalismo, tornamo-nos escravos de números:

Nossa necessidade de valor pessoal é altamente dependente dessas interações sociais, já que tanto o relacionamento quanto a auto-estima são necessariamente mensurados em relação aos outros. Se esta necessidade humana essencial só pode ser satisfeita dentro dos limites do capitalismo, então é lógico que estamos sujeitos a um desejo profundamente enraizado de mais: um estado de ser onde mais troca, mais valor ou mais negócios é mais digno de valorização pessoal. Em outras palavras, nosso desejo de valor desenvolvido evolutivamente é uma necessidade intrínseca, que traduz, através da “atmosfera difusa” do realismo capitalista, em um desejo por mais.

Grosser chama a atenção às escolhas que o Facebook faz de quais métricas exibir:

O Facebook é o maior site que depende tão pesadamente de métricas que contabilizam interações sociais. Isso muito provavelmente ocorre porque, como empresa, a sobrevivência do Facebook depende da sua habilidade em vender anúncios segmentados e esses alvos são criados a partir das métricas que eles coletam.

Você não sabe em quantos anúncios clicou em um dia, nem qual o nível de eficiência daquela caixa “Pessoas que você talvez conheça” ou quantas pessoas veem seus posts na timeline. O Facebook sabe, mas prefere não divulgar esses dados porque eles poderiam ter um efeito contrário aos interesses do Facebook empresa. “Eu diria que o principal critério do Facebook para a tomada de tais decisões é se uma métrica em particular aumentará ou diminuirá a participação do usuário”, diz o artista pesquisador.


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O efeito disso na coletividade, seguindo o raciocínio de Grosser, é o que ele batizou de “grafonóptico”, em alusão ao panóptico do filósofo inglês Jeremy Bentham. O panóptico é um sistema de controle em formato de estrutura arquitetônica em que uma pessoa consegue vigiar de maneira eficiente muitos vigiados. Para isso, a estrutura tem um formato circular, com os vigiados em celas totalmente expostas (sem privacidade) na borda, e o vigilante no meio, com vista panorâmica para todos os vigiados, mas sem que esses consigam saber se estão sendo diretamente observados ou não. Embora impossível para um vigia observar a todos ao mesmo tempo, a incerteza nos vigiados de estarem sendo observados ou não naquele instante dá toda a vantagem ao vigia solitário. Vive-se, nesse sistema, em um estado constante de alerta e estresse. Não é preciso passar por isso para imaginar que não deve ser um negócio divertido.

No “grafonóptico” de Grosser, a ideia de “muitos vigiam muitos” (um “omnóptico”) é potencializada pelas métricas públicas de redes sociais como o Facebook. (O nome advém do “grafo social”, a maneira como o Facebook chama o perfil e as relações de um usuário específico dentro da rede.) Voltando a Grosser:

O grafonóptico é uma forma de auditoria auto-induzida dentro de redes sociais como o Facebook, onde muitos vigiam as métricas de muitos, onde o grafo social combina com o “omnióptico” para criar o potencial de ser auditado o tempo todo. (…) No entanto, o grafo não está simplesmente facilitando a vigilância social, porque a visão que todos têm de todos os demais é sempre acompanhada pelas métricas sociais de cada usuário. Dadas as relações entre essas métricas e o prestígio, a estima e as várias formas de capital que descrevi anteriormente, esse potencial do grafo manifesta-se como uma necessidade internalizada de se destacar em termos numéricos — exceder em quaisquer áreas facilmente visíveis e, mais importante, mensuradas por outros (por exemplo, “curtidas”, total de amigos e todas as outras apresentações métricas de si no Facebook).

Grosser argumenta que até a maneira como a representação da passagem do tempo é exibida na rede social afeta o nosso comportamento. “Publicado há 26 segundos” ou “cerca de uma hora atrás” induz a sentimentos de urgência e de prevalência do novo. Em outras palavras: esteja sempre publicando mais coisas e não se ausente por muito tempo, sob o risco de perder coisas muito importantes.

Para o artista, as métricas do Facebook são usadas para promover competição, manipulação, reação e homogeneização a fim de aumentar o engajamento do usuário. Nada muito nobre ou que nós, cientes desse intento, imagino que estaríamos dispostos a nos submetermos.

No fim do artigo, Grosser diz que o uso do Facebook Demetricator, ou seja, a remoção dos números da interface do Facebook retira muito dessa pressão do usuário. “Em muitos casos, (…) o Demetricator liberou seus usuários dos padrões de interação impostos pelas métricas do Facebook. Mas, talvez mais importante, o Demetricator também serviu para revelar a existência desses padrões em primeiro lugar. Ao remover os números, os usuários começam a ver o que as métricas querem”. Em outras palavras, você é literalmente manipulado pelo Facebook enquanto usa seus produtos.

Você pode ler o estudo completo neste link (em inglês).

O que quer o Instagram?

Dito tudo isso, a mera sugestão de que o Instagram estaria repensando a exibição do número de curtidas na sua interface pode dar um nó na cabeça. Estaria o Facebook começando um longo e doloroso processo de redenção?

Óbvio que não.

Não é de agora que o Facebook aceita algumas críticas e, mais que isso, as abraça e tenta corrigir os erros apontados por conta própria e, não por acaso, de maneira incompleta. Isso vale para outras gigantes, como Apple e Google, e outras indústrias além da de tecnologia.

Em 2017, por exemplo, um engenheiro norte-americano criou um movimento chamado Time Well Spent, ou “tempo bem gasto”, para conscientizar as pessoas das táticas nefastas (“dark patterns”) que as empresas de tecnologia empregam em seus produtos a fim de torná-los viciantes. Um artigo desse cara, chamado Tristan Harris, em que ele apresenta algumas dessas táticas pode ser lido em português aqui no Manual. Em um Tecnocracia recente, o Guilherme Felitti jogou luz sobre esse problema também.

O Time Well Spent foi co-optado pelas gigantes da tecnologia. Até o nome do movimento foi parar na boca de Mark Zuckerberg, co-fundador e CEO do Facebook, que se disse preocupado com o que as pessoas estavam fazendo dentro da sua rede. Google e Apple lançaram painéis em seus sistemas móveis para que os usuários soubessem com a precisão de minutos o tempo que desperdiçam em trivialidades como o Instagram e jogos caça-níqueis quase criminosos como Clash of Titans e Candy Crush. Em outro momento, Zuckerberg disse a acionistas, orgulhoso, que mudanças feitas no algoritmo do Facebook tiveram como consequência uma redução de 50 milhões de horas de uso da rede social por dia. Parece um número enorme, mas se diluirmos ele entre todos os mais de dois bilhões de usuários da rede social, dá pouco mais de dois minutos a menos por dia. Definitivamente, nada que vá mudar a sua vida.

Essa cooptação é uma tentativa de esvaziar as críticas e de tomar o controle do debate que, se levado a fundo, pode ter consequências indigestas aos negócios, como regulação estatal ou revolta dos usuários. Nathan Proctor, diretor da campanha Right to Repair que cobra de fabricantes produtos mais fáceis de serem consertados por conta própria, depara-se com o mesmo problema. Em um artigo de opinião na Wired, ele explicou essa estratégia das empresas:

Eles [as empresas] tomam a sua linguagem e a sua mensagem para sustentar algo que é talvez 10% do que você pediu (às vezes não é nada do que você pediu). Eles lançam essa solução capenga com estardalhaço. Eles te cooptam porque você ganhou uma parte crítica da campanha — trazer o problema à atenção do público.

(…) Na medida em que as fabricantes cooptam essa mensagem sem nos dar a verdadeira liberdade para consertarmos [os nossos produtos], isso sinaliza que eles se deram conta de que estamos certos.

Ceder verdadeiramente à crítica significaria reformar por completo um modelo de negócio que, em primeiro lugar, é a causa do problema. Isso jamais acontecerá enquanto o Facebook for o que é e gerar receita da maneira que gera. Não é absurdo ponderar se não se trata de um caso perdido.

Por tudo isso, mesmo que o Instagram estivesse disposto a esconder o número de curtidas no Instagram, este seria um passo capenga para rebater uma crítica absolutamente válida, e só. O Instagram está interessado no bem-estar dos usuários até o ponto em que eles não sintam repulsa do aplicativo ou percebam que esse negócio faz mais mal do que bem, algo que vem conseguindo fazer excepcionalmente bem a despeito de pertencer à mesma empresa que faz a rede social Facebook, a essa altura já encarada por muitos como radioativa.

Paliativos como esconder o número de curtidas ou gerar relatórios de uso ajudam? Sim, mas eles devem ser encarados como o que são, ou seja, concessões feitas para aliviar a pressão dos críticos com benefícios colaterais. Não são soluções.

Em suma, o que quero dizer é que o Facebook não vai curá-lo do vício no Facebook e Instagram.

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