Por que apago meus tweets antigos

Vários passarinhos do Twitter, alguns semi-transparentes passando a ideia de que foram excluídos.

Nota do editor: Desde que comecei a apagar meus tweets, o assunto tem chamado a atenção de alguns amigos e colegas. Foi tema de um podcast aqui e, embora a minha motivação não seja exatamente igual à do Rob, que assina o texto abaixo, compartilho de vários dos seus argumentos. Em nota relacionada, a ferramenta que usei para apagar todos os meus tweets, o Cardigan, deixará de funcionar a partir de 1º de agosto devido a mudanças na API do Twitter. Achei a ocasião oportuna para publicar este relato.

Comecei a apagar meus tweets antigos. Isso é algo que tenho a intenção de fazer por algum tempo, não por qualquer razão em particular, mas por um senso geral de higiene digital — parece uma boa ideia desmantelar arquivos de materiais pessoais que estão abertos ao escrutínio de algoritmos de aprendizado de máquina e outros adversários. É impossível saber quais conclusões a nosso respeito podem ser derivadas de algum processamento agregado do que na época pareciam ser piadas aleatórias, trocas casuais e links compartilhados.

As pessoas costumavam colocar avisos de isenção de responsabilidade em suas bios no Twitter — “Retweet não é endosso” —, mas o processamento de inteligência artificial certamente não liga para o que você “quis dizer” ao compartilhar um link mesmo que você consiga lembrar o que era. Um futuro empregador ou credor (sem falar em um futuro inimigo) provavelmente não se importará com o fato de seu conteúdo antigo de redes sociais ter sido analisado fora do contexto de alguma forma que você jamais previu. Para eles, esse pode ser o argumento principal, o truque que revela os segredos que qualquer um sob consideração por qualquer coisa sempre se presume estar escondido na sociedade de baixa confiança que a vigilância onipresente nos ensina que vivenciamos.

Neste artigo, Zeynep Tufekci culpa o clima de fraude generalizada da internet pela facilitação de uma cultura de baixa confiança, mas é preciso levar em consideração não apenas a vigilância que torna obsoleta a ideia de “bondade dos estranhos” — veja este fio —, mas também a imposição de classificações e medições em todos os lugares e os novos tipos de dados que podem ser usados ​​como formas de contornar as pessoas que confiam. Por que confiar quando as empresas de tecnologia prometem que você pode verificar? Não importa que os sistemas de verificação das redes sociais também sejam fraudulentos.

A exclusão de tweets no Twitter não é tão simples quanto poderia ser — ela requer uma série de cliques em uma série de menus suspensos e popups, exigindo muitos movimentos do mouse e toques e cliques. Isso é evidentemente intencional: a razão pela qual é prudente excluir postagens antigas é a mesma pela qual as plataformas de redes sociais de arquivamento tornam isso difícil. Suas postagens são dados valiosos para elas. É de se pensar se a “exclusão” realmente faz alguma coisa além de remover seu conteúdo da visão do público — é provável que ele já esteja absorvido em várias agregações internas e análises de dados de usuário. Permanecer ou não disponível após a exclusão do processamento futuro da empresa parece algo impossível de se saber.

As plataformas não dão a você uma opção para avaliar quais dados elas mantêm ou corrigem. Novamente, a suposição é que o que você escolhe que as pessoas saibam é uma mentira ou no máximo um quadro incompleto, enquanto que as inferências das empresas sobre você, obtidas através da vigilância e análise, são “verdadeiras” e mais valiosas para os profissionais de marketing e outras partes interessadas que querem usar essas informações para reforçar a ideia de que você é um objeto manipulável, e não que você tenha desejos autônomos que eles esperam conhecer. Se você quer saber a verdade sobre alguém, a suposição é que você tem que observá-lo através de um espelho falso.

Tenho certeza de que há aplicativos de terceiros que poderiam ser usados ​​para excluir tweets antigos em massa, mas isso provavelmente exigiria confiar em uma entidade ainda mais sombria com os dados que você está aparentemente tentando proteger ou eliminar. De qualquer forma, eu fiz a escolha um tanto penitencial de apagar tweets à mão, um de cada vez — exclusão artesanal — passando mentalmente do começo, mês a mês, no arquivo que o Twitter permite que os usuários baixem. Você pode abrir uma lista de seus tweets de um determinado mês em uma página HTML, cada um com links ativos para abri-los na web para que você possa excluí-los. Caso contrário, você terá que rolar a página a partir dos tweets mais recentes para chegar aos antigos, um processo que é conturbado de modo que é virtualmente impossível obter mais do que algumas centenas de tweets do passado.

Quando comecei a exclusão, esperava que fosse uma tarefa entediante, mas emocionalmente inerte, um pouco como pôr em ordem alfabética a minha coleção de discos ou algo assim. Tinha a ideia de que meu perfil no Twitter era um porão cheio de ideias antigas, muitas das quais podem estar desatualizadas e talvez um pouco emboloradas, mas que ainda serviriam para mim como lembranças nostálgicas de todas as coisas interessantes sobre as quais estive pensando ao longo dos anos. Isso se mostrou uma suposição totalmente absurda. Em vez de pensamentos e acessos interessantes, encontro muita autopromoção, exibicionismo, esforços desajeitados para impressionar as pessoas, tentativas de entrar em conversas às quais não pertencia e muitas opiniões desgarradas que seriam melhor se as tivesse mantido somente para mim em qualquer circunstância. É como se eu não tivesse nenhum conceito de “pista” para permanecer em linha reta. Eu quero acreditar que essa era apenas a atmosfera geral do ambiente na época — que todos apenas soltavam reações sem pensar muito de qualquer coisa que nos estivesse distraindo —, mas certamente não é o caso. É mais o caso de que sempre há uma certa porcentagem de pessoas fazendo isso e uma certa porcentagem que já partiu para outra.

Gráfico de tweets do Rob ao longo dos anos.
Gráfico: Twitter/Reprodução.

Do gráfico do meu uso do Twitter por volume de tweets que acompanha meu arquivo baixado, posso ver que minha fase mais assídua correspondia diretamente ao período no qual eu estava em um trabalho de escritório e era forçado a me sentar na frente de um computador o dia inteiro, houvesse trabalho a fazer ou não. Consigo ler facilmente muita solidão naquelas mensagens agora e me sinto envergonhado com o quão óbvio deve ter sido para outras pessoas na época. Não que seja vergonhoso sentir-se solitário, embora as “tecnologias sociais” certamente tentem transmitir essa ideologia. É mais que me entristece ter achado que ser opinativo e vagamente engraçado ajudaria. Ao ler aqueles tweets agora, imagino alguém fazendo um stand-up não ensaiado em uma sala onde as mesmas duas ou três pessoas batem palmas educadamente de vez em quando.

Se nada mais, isso é uma forte motivação para fazer uma exclusão assistida em massa dos tweets. Eliminei cerca de 3 mil tweets até agora e espero apagar todos os publicados antes de 2015 em algumas semanas. Foi por ali que mudei de emprego e parei de escrever no Twitter por uma necessidade de me sentir conectado a alguma coisa, a qualquer coisa. Eu parei de escrever no Twitter por longos períodos e quando eu ia twittar, geralmente era no estilo mais contemporâneo do “fio” (ou “thread”), que é basicamente um ensaio comprimido e não um apelo por conexão. Não sinto mais que preciso narrar a leitura de todo o meu dia para o site como se ele fosse um ouvinte substituto.

Ainda assim, toda a experiência foi profundamente deprimente, de uma maneira quase existencial. Eu tinha uma vaga ideia de que havia algo de útil naqueles velhos tweets, alguma evidência de uma pessoa que eu queria ser e que, até certo ponto, consegui me tornar. Como nunca olhei para os tweets e, na verdade, para todos os efeitos não conseguia olhar para eles de dentro do próprio Twitter, tive a agradável sensação de que eles constituíam um legado extremamente secundário, uma crônica das “intervenções” que tentei fazer “no discurso”, mesmo quando eu estava trabalhando em um serviço que exigia muito pouco da minha capacidade de pensar. Mas, lendo-as enquanto as elimino do registro público, vejo que não havia nada ali, nada que pudesse me redimir agora todo o tempo que passei na plataforma no passado. É mais uma ilustração do tempo que desperdicei sem nunca tentar escrever algo que pudesse ter a remota chance de ser realmente útil.

Isso não deveria ter me surpreendido. O objetivo das plataformas sociais é nos imergir no imediatismo, dilatar nosso senso de atenção e relevância fragmentando-o e dispersando-o em um milhão de distrações. Ninguém na rede social está falando para o futuro. Na melhor das hipóteses, estamos falando para as futuras máquinas que processarão quaisquer coisas que dissermos de modo a nos condenar a repeti-las eternamente.

Publicado originalmente na revista Real Life em 28 de junho de 2019.

Montagem do topo: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

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10 comentários

  1. Li o post, vi a minha linha do tempo do Facebook, de 2011 até hoje, e fiz a mesma coisa.
    Fora alguns memes, tirinhas e links de coisas úteis da faculdade, todo o resto do conteúdo foi apagado. Ou pelo menos acho que foi, não dá pra saber quantas vezes o facebook analisou esses posts.
    O próximo passo é excluir os comentários dos posts de outras pessoas.

    Mas às vezes, tenho vontade de excluir a conta logo.

  2. Twitter tá pegando muita gente de surpresa. Teve um caso de uma menina que falava muita merda no passado e que depois jogaram isso contra ela. Pode acontecer com qualquer um.

  3. Não consigo ter o desprendimento *ainda* de vasculhar meus tweets antigos e dar uma geral por lá. Tem muita coisa ali das quais sinto vergonha (99% delas certamente envolvendo paixões adolescentes ou conversas fúteis de fandom), mas acho que justamente por isso não consigo ainda ter coragem de me deparar com esse conteúdo todo.

    Olhando sob a perspectiva da análise de dados e da privacidade, é bem óbvio que seria importante limitar ao mínimo necessário esse registro… mas ao mesmo tempo, me pergunto se não é uma forma de eliminar registros históricos que de alguma forma deveriam ser resguardados.

    1. O Twitter oferece o download do histórico. É bem feito, muito mais fácil de navegar do que pelo site “real”: os tweets são divididos por mês e tem uma busca interna. O único problema é que ele não baixa todas as imagens. Este script complementa o backup (usei ele e funciona bem).

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