Aplicativos no iPhone de lojas alternativas à App Store: Análise empírica e algumas reflexões

Regulação é uma maravilha e quem acha que não está maluco. Na última quinta (18), a Apple abriu o iOS no Brasil para lojas de aplicativos alternativas (ou de terceiros), acabando com o monopólio da sua App Store no país.

Bondade da Apple? Não. Foi pressão institucional que resultou em um acordo com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE). O Brasil junta-se à União Europeia e ao Japão no restrito grupo de países onde lojas alternativas são permitidas no sistema do iPhone.

Não entrarei em detalhes técnicos nem financeiros do arranjo oferecido pela Apple — que prevê a cobrança de taxas mesmo de apps distribuídos por fora da App Store, o que a princípio me soa contraditório ao “espírito da lei”. Em vez disso, quero focar na experiência em si e no que se pode obter fora do jardim murado da Apple.

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O processo para adicionar lojas alternativas no iOS é um pouco complicado. Inicia-se no site delas. Por ora, apenas uma está disponível no Brasil, a AltStore PAL.

Alerta do iOS no site da AltStore PAL.
Nova opção aparece nos Ajustes
Tela de configurações de lojas alternativas no iOS.
Último alerta para a instalação de loja alternativa no iOS.

Ao clicar no botão para adicionar a loja, o iOS exibe um alerta de que é necessário permitir a instalação da mesma. Clique no botão Ajustes para ser levado às configurações. Lá, permita a instalação da loja ou, se preferir, selecione a opção Permitir Sempre, que faz o que o rótulo diz.

Nessa mesma tela, que pode ser acessada em Ajustes, Apps, Instalação de Apps, há outras configurações relacionadas ao gerenciamento e comportamento das lojas de terceiros.

Ao voltar ao site da loja (AltStore PAL, nesse exemplo), uma mensagem em tela cheia do iOS perguntará se você quer mesmo instalar a loja de aplicativos. Clique em Permitir, autentique-se com Face/Touch ID e pronto, a nova loja já está disponível.

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A grande vantagem das lojas alternativas é poder rodar aplicativos que a Apple proíbe na App Store. (Obviamente, essa não é a única razão de existir dessas lojas. Há outros motivos para quererem distância da Apple.)

A AltStore PAL surgiu para distribuir um desses “proibidos”: o Delta, um emulador de video games antigos.

Mais uma vez provando que a concorrência nos beneficia, tão logo a Apple abriu o iOS para lojas de terceiros na União Europeia, a empresa mudou as regras da sua App Store para permitir aplicativos de emulação de outros sistemas, liberando a distribuição do Delta. Presume-se que tal mudança, naquele momento, foi uma jogada da Apple para evitar que os usuários descobrissem as lojas alternativas.

O Delta é apenas um dos aplicativos da AltStore PAL. Por padrão, no momento em que escrevo isto, estão disponíveis também:

  • Clip, um gerenciador da área de transferência.
  • Delta Camera, que permite usar a antiga Game Boy Camera no iPhone.
  • CSAM Store Checker, que analisa se uma loja de aplicativos distribui material de abuso sexual infantil. (É uma óbvia cutucada na Apple, que permite apps como o X, notório roteador de imagens de abuso sexual.)

O mais legal, porém, é a possibilidade de conectar “fontes” à AltStore PAL. É mais ou menos a lógica dos repositórios de gerenciadores de pacotes Linux, como o apt, e da F-Droid, uma loja de aplicativos FOSS para Android.

Algumas fontes são listadas em um site à parte da AltStore (que é um servidor do Mastodon), e é ali que as diferenças para a App Store se tornam mais evidentes.

Quer baixar arquivos por torrent no iOS? Tem aplicativos para isso. Quer o Stremio completo? Tem também. (A versão da App Store é bastante limitada.) Pornografia? Pela primeira vez, é possível baixar apps do tipo no iOS sem depender do desbloqueio do sistema. Fortnite? Idem. (A Epic Games, dona do jogo, também tem uma loja própria para iOS que será disponibilizada em breve no Brasil.)

Não são aplicativos que têm apelo a todos, mas que finalmente estão disponíveis para quem quiser.

Ícone do aplicativo Customize Search Engine.Eu rodei por todas as fontes listadas pela AltStore e encontrei apenas um aplicativo que quis instalar no ato: o Customize Search Engine, do desenvolvedor japonês Cizzuk. (Curiosamente, um app que também está disponível na App Store. Pode acontecer!)

Ele permite definir qualquer buscador como padrão no Safari. Finalmente pude colocar o nosso SearXNG como padrão! E ainda tem atalhos para outros buscadores, num esquema parecido com os !bangs do DuckDuckGo.

A AltStore PAL em si, a loja propriamente dita, não diverge muito da App Store ou de qualquer outra loja de aplicativos para celulares. Ainda não inventaram uma maneira melhor de exibir aplicativos instaláveis, então usa-se o que já é conhecido e sabido que funciona.

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Há riscos? Sim, claro. A variedade de lojas implica em variedade de termos de uso, critérios de elegibilidade para aplicativos e outras variáveis que podem não estar alinhadas às que alguém acostumado à App Store espera. A expansão de meios de pagamento para além do da própria Apple também pode ser explorada por atores maliciosos, além de aumentar a complexidade no gerenciamento de compras e assinaturas.

Por outro lado, não é como se a App Store fosse um paraíso livre de fraudes e sem falhas em seu histórico. E, de qualquer modo, as lojas alternativas são opcionais e desativadas por padrão.

Esse último detalhe não impede alguém determinado de instalar eventuais aplicativos suspeitos no próprio celular. É assim que aplicativos adulterados, de bets irregulares e outros tipos de golpes são instalados: com orientações claras dos golpistas, acompanhamento em tempo real e um senso de urgência que leva a vítima a ignorar eventuais alertas do sistema.

O Google, que sempre permitiu lojas de terceiros e até a instalação direta de aplicativos no Android, propôs o bloqueio da instalação de apps não identificados por métodos alternativos. Ele começa a valer em alguns países — Brasil entre eles — em setembro deste ano.

Apesar das críticas, o procedimento para remover o bloqueio proposto pelo Google me pareceu bastante razoável. Ele leva 24 horas para ser realizado e ataca os principais artifícios empregados por golpistas para ludibriar as vítimas: a assistência do golpista em tempo real (por ligação ou compartilhamento de tela) e a urgência. Precisa ser feito apenas uma vez e dá a opção de liberação ser temporária (7 dias) ou permanente.

Muitos comparam os celulares a computadores, que sempre foram abertos à instalação de aplicativos de qualquer fonte, para cobrar a Apple e o Google por uma maior abertura do iOS e Android. É preciso considerar, porém, que os celulares são mais populares do que o computador jamais foi e que a amplitude de perfis que usam celular é muito maior — do hacker experiente a senhorzinhos e senhorinhas que tiveram seu primeiro e único contato com a internet pelo dispositivo. Diante de um novo cenário de risco, faz-se necessário buscar por novas soluções.

Apesar disso, é vantagem termos mais lojas disponíveis, com meios de pagamento externos aos da Apple e do Google. Esse avanço ajuda a reequilibrar, ainda que pouco, a queda de braço entre a agência das pessoas sobre seus próprios dispositivos e o poder exagerado que as empresas resguardam para si.

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