Limitando não apenas o tempo de tela, mas o espaço de tela  outraspalavras.net

Laura J. Martin (traduzida por Antonio Martins) faz uma reflexão da internet, quase sempre tida como um “não-lugar”, como uma tecnologia que afeta o espaço físico e os nossos corpos (original em inglês):

A conectividade constante acostumou nossos corpos à postura defensiva de rolar a tela, ao movimento involuntário da mão abrindo-se em direção a uma notificação, à onipresença da vibração. O problema não é apenas quanto tempo passamos online. É como nos movemos nos espaços que construímos para a vida online e que tipo de liberdades perdemos.

Se a rede acompanha o corpo pela casa, que espaços podemos construir para permitir que o corpo fique sozinho? O que significaria limitar não apenas o tempo de tela, mas o espaço ocupado pelas telas?

[…]

O problema, começo a pensar, não é apenas usarmos nossos celulares no banheiro. É imaginarmos que socializar, produzir conhecimento, fazer política e ser criativo possa ser feito fora do espaço físico. Cometemos o mesmo erro com a IA generativa que cometemos com a internet, quando a tratamos como um lugar nenhum em vez de um lugar. Deixamos de reconhecer que o virtual opera dentro — e não além — do mundo espacial e material.

Tenho pensado muito nesse assunto, acredito que por influência do pessoal do Tecnosfera, do curso de Geografia da UFPR, de quem me aproximei em 2025.

Nos últimos meses, implementei alguns experimentos na tentativa de expor essa materialidade oculta da internet. Lembro-me de dois:

  • Deixar o celular offline o tempo todo e só ligá-lo quando preciso fazer alguma coisa, invertendo o padrão de conectividade.
  • Dentro de casa, deixar o celular em um cômodo específico, ligado à tomada pelo cabo. Se preciso dele, desloco-me a esse lugar e faço o uso ali. Como eram os telefones fixos de antigamente.

Alguma outra ideia?

Obrigado pela dica, Bruno!

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11 comentários

  1. O texto tem pontos interessantes, e é muito bem escrito. Gostei em especial dessa parte:

    O computador doméstico [nos anos 90] forçou a internet a se relacionar com a mesa de jantar, a linha telefônica, o fato comum da convivência.

    O smartphone faz o oposto. Ele leva o “outro lugar” para o banheiro, a biblioteca, o encontro, a cama. O lar, que antes definia o fim do expediente, agora o estende.

    Agora, há uma série de furos que, na minha opinião, comprometem a mensagem como um todo:

    A inteligência desencarnada não nos parecerá inteligência.

    O ser humano se apaixona à distância desde que inventaram cartas. A ausência de um corpo não nos impede de conectar intelectual e emocionalmente a entidades, e nisso o filme Her (que ela cita no texto, inclusive) acertou maravilhosamente bem. Aliás, nos emocionamos vendo filmes (e ouvindo histórias fictícias de todos os tipos) justamente porque não é necessário um corpo para nos conectarmos.

    A última versão do ChatGPT para conversa por áudio em tempo real, lançada há poucos dias, por exemplo, é absolutamente incrível, algo quase futurístico. Após alguns minutos conversando, já dá pra perceber como é fácil se apegar, mesmo que sejamos ferrenhos críticos de todo o isolamento social provocado por essas tecnologias.

    Isso aqui também foi uma mancada:

    A visão de Altman colide com verdades fundamentais sobre como as pessoas vivem. Nós nos importamos com os lugares porque os habitamos.

    Ora, nós vivemos em lugares físicos e podemos usar tecnologias ‘etéreas’ pra nos ajudar a melhorar esses espaços, além de nossa saúde e bem-estar. Não é de hoje que isso acontece, inclusive.

    O Altman é um fanfarrão e quer fazer bilhões a qualquer custo, mas a tecnologia que ele (entre outros) desenvolve está mudando o mundo (também) para melhor.

    E outro tropeço aqui:

    imaginam […] que se simplesmente alimentarmos a máquina com texto suficiente, conhecimento humano suficiente, ela compreenderá o mundo de uma maneira que nós jamais conseguiremos.

    Isso não é nem mais projeção; já está acontecendo, e tem tempo. Não apenas com LLMs (no campo da matemática, por exemplo), como também com outras abordagens de IA, como o reinforcement learning, que, entre outras coisas, resolveu o protein folding, além de vencer os campeões de xadrez e go. Os exemplos são vastos.

    Logo depois a autora questiona pra que esse esforço todo desenvolvendo IA, e por que não usar esse esforço para, em vez disso, conversarmos uns com os outros. Essa é uma colocação que prefiro acreditar ser simplesmente ingênua (pelo tom do texto) do que de má fé. Essa pessoa estando num bar, conversando com os amigos, renderia um ótimo papo, sem dúvida, mas uma comunicadora com esse alcance…

    E esse costuma ser o problema com os jornalistas. Podem escrever muito bem, mas muito frequentemente carecem de conhecimento da área que pretendem abordar (como é o caso do David Gerard, estranhamente citado aqui no MdU com frequência), causando mais danos do que esclarecendo a população.

    1. São opiniões distintas, fulalas, ambas válidas. Seu comentário tem, na minha opinião, alguns tropeços:

      O Altman é um fanfarrão e quer fazer bilhões a qualquer custo, mas a tecnologia que ele (entre outros) desenvolve está mudando o mundo (também) para melhor.

      Carece de fontes.

      Isso não é nem mais projeção; já está acontecendo, e tem tempo. Não apenas com LLMs (no campo da matemática, por exemplo), como também com outras abordagens de IA, como o reinforcement learning, que, entre outras coisas, resolveu o protein folding, além de vencer os campeões de xadrez e go. Os exemplos são vastos.

      A lógica por trás dos LLMs e a ideia basilar do Sustkever, ex-OpenAI e quem primeiro apostou nessa abordagem, é exatamente a que a autora descreve: mais dados/conhecimento e mais poder computacional seriam o caminho para a “inteligência artificial geral”. Isso está bem documentado no Império da IA, da Karen Hao.

      1. São opiniões distintas, fulalas, ambas válidas.

        Não tem como serem ambas válidas, Ghedin, pois elas se confrontam. Eu me comprometi a refutar o texto da autora. É diferente.

        Carece de fontes.

        1. GPT 5.6 (matemática)
        Resolveu a Cycle Double Cover Conjecture, um problema matemático aberto há cerca de 50 anos (ainda aguardando validação, mas já aprovado informalmente por alguns matemáticos independentes)
        https://mlq.ai/news/openai-claims-gpt-56-sol-ultra-solved-50-year-old-math-conjecture-in-under-an-hour/

        2. Modelo de raciocínio de propósito geral da OpenAI (matemática)
        Encontrou um contraexemplo para uma conjectura proposta por Paul Erdős há quase 80 anos sobre o problema da distância unitária no plano
        https://openai.com/index/model-disproves-discrete-geometry-conjecture/

        3. ChemCrow (química)
        Descobriu um novo cromóforo e planejou sínteses químicas complexas
        https://www.nature.com/articles/s42256-024-00832-8

        4. Evo (biologia)
        Gerou proteínas e sequências genéticas inéditas com potencial de validação experimental
        https://www.nature.com/articles/s42256-024-00791-0

        5. GeneGPT (genômica)
        Gerou hipóteses biológicas testáveis a partir de dados genômicos complexos
        https://www.nature.com/articles/s41592-024-02354-y

        6. ESM3 (biologia)
        Criou proteínas funcionais simulando milhões de anos de evolução
        https://www.science.org/doi/10.1126/science.ads0018

        7. Coscientist (química)
        Planejou, executou e otimizou experimentos químicos autonomamente usando GPT-4 integrado a ferramentas laboratoriais
        https://arxiv.org/abs/2402.10957

        8. FunSearch (matemática)
        Descobriu novos algoritmos combinando LLM com busca evolutiva
        https://www.nature.com/articles/s41586-023-06924-6

        9. AI Co-Scientist (biomedicina)
        Gerou hipóteses científicas inéditas que levaram à validação experimental em diversas áreas da biomedicina
        https://research.google/pubs/ai-co-scientist/

        Isso sem contar a experiência pessoal de gente comum, como nós. Hoje temos de graça revisor de texto, tradutor, transcritor, programador, técnico digital hands-on e professor de idiomas falado e em tempo real, para citar somente alguns exemplos. As possibilidades são inúmeras, incluindo não apenas a democratização desses serviços (com demissões como efeito colateral, pois é) mas também a eliminação de certos riscos — por exemplo, podemos criar sozinhos em 1 final de semana uma aplicação que iria demorar 1 ano para ser feita (inclusive requerindo diversos profissionais especializados), e se ela não der certo, jogamos fora sem dó e partimos pra próxima.

        A lógica por trás dos LLMs e a ideia basilar do Sustkever, ex-OpenAI e quem primeiro apostou nessa abordagem, é exatamente a que a autora descreve: mais dados/conhecimento e mais poder computacional seriam o caminho para a “inteligência artificial geral”. Isso está bem documentado no Império da IA, da Karen Hao.

        Não sei se entendi a conexão que você quis fazer aí.

  2. Muito bom este texto. A questão aqui não é sobre a atenção, as horas que perdemos nos feeds de scroll infinito, é sobre nossa percepção e construção de mundo. É estarmos atentos a onde estamos.
    Acho que estes exercícios de delimitar o online, “a internet”, não são só uma questão de detox, ou de minimizar problemas com distrações. Estes exercícios nos ajudam a perceber onde estamos e como interagimos com o mundo.
    Discordo dos comentários abaixo dizendo que é uma questão de “se forçar”. É mais uma questão de perceber. E percebendo, mesmo que o hábito permaneça, agora é consciente e a escolha de se perder ou não é opcional.

    1. muito obrigado por essa recomendação de Marilena Chauí.
      É importante viver sem pensar em tudo sempre pra não entrar em paranoias, e que bom que temos alguém para olhar as coisas e as estruturas e dar um nome. Quando ela fala sobre o portal do Virtual (seja ele um smartphone, por exemplo) reduzir o espaço a um “ponto” e o tempo a um “instante”, faz pensar.

  3. Se a pessoa entende toda a problemática do assunto, imagino que seja um adulto e pode muito bem silenciar o celular, limitar notificações, e só usar o celular quando necessário. Se precisa ficar inventando mil coisas para te forçar a ser um adulto funcional que não passa todo o tempo no celular vc tem problemas maiores que o celular.

    1. Se fosse simples assim para todos, não seria um problema, né?

      (Eu nem sou de ficar muito no celular; meu problema é uma tela maior, a do computador.)

  4. Honestamente, acho que se você precisa se forçar a fazer algo (ou deixar de fazer) com essas estratégias, existe uma grande chance de que lentamente elas comecem a falhar e o hábito indesejado volte. Para que toda essa luta?

    1. Penso que valha para fragilizar o hábito e, quiçá, substituí-lo com sucesso por outro que seja melhor (na sua perspectiva).

  5. esse de deixar sempre ligado é bem interessante, fiquei me imaginando fazendo isso, teria que ficar ligando e desligando toda hora, kkk

    se tivesse uma função no android para ligar somente quando a tela está ligada, me arriscaria a testar