BasicSync e Synctrain: bons aplicativos para levar o Syncthing aos celulares

Uma das melhores saídas para desertar dos serviços de armazenamento na nuvem das big techs — Google Drive, OneDrive, iCloud — é um software chamado Syncthing. Ele permite sincronizar diretórios/pastas entre vários dispositivos diretamente, sem armazenar os arquivos na famigerada nuvem.

Se os seus dispositivos consistirem em computadores, zero problema: o Syncthing é distribuído oficialmente para os três principais sistemas (Linux, macOS e Windows), mais alguns de nicho — FreeBSD, OpenBSD e illumos, esse último novidade para mim. No macOS e Windows, há até pacotes que incorporam configurações de inicialização junto ao sistema e ícones na bandeja. Bom demais.

Em celulares e tablets o cenário é mais complicado. O projeto Syncthing mantinha um aplicativo oficial para o Android até o final de 2024, quando o desenvolvedor líder anunciou o seu encerramento devido a uma combinação entre falta de manutenção no aplicativo e “o Google tornando a publicação [de apps] na Play Store algo entre difícil e impossível”.

Um aplicativo derivado chamado Syncthing-Fork anunciou que continuaria funcionando, apenas para alguns meses depois se meter numa confusão um tanto esquisita envolvendo dois aplicativos com o mesmo nome de dois desenvolvedores distintos. Eles se acertaram e o projeto continua recebendo atualizações, apesar do abalo na reputação.

No iOS, as coisas eram ainda piores. Só existia um aplicativo, pago e proprietário, chamado Möbius Sync. Ele funciona (cheguei a comprá-lo), mas tampouco inspira confiança e, revisitando-o agora, noto que está há um ano sem atualizações e estacionado no motor antigo do Syncthing — o projeto teve uma grande atualização (2.0) nesse intervalo.

Felizmente, novos (e bons!) aplicativos surgiram para sanar a escassez em dispositivos móveis.

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Ícone do BasicSync: círculo verde com duas setas brancas circulares.No Android, Andrew Gunnerson lançou o BasicSync em novembro de 2025. O aplicativo faz jus ao nome, como ele destaca na breve descrição no repositório do projeto:

O aplicativo é intencionalmente muito básico para que o projeto seja fácil de manter e atualizar. O BasicSync só controla quando o Syncthing é executado. A configuração real é feita através da própria interface web do Syncthing.

A parte que ele descreve com excessiva modéstia (“só controla quando o Syncthing é executado”) é feita com muito esmero. Há alertas para erros e conflitos de versões dos arquivos, controles para alterar o modo de sincronia (manual ou automática) e, o mais importante, o modo como foi construído a fim de tornar o BasicSync imune a restrições de processos em segundo plano implementadas pelo Google no Android 12 em diante, que dificulta o funcionamento de aplicativos do tipo.

O BasicSync não está na Play Store. É possível instalá-lo via F-Droid ou baixando o instalador (*.apk) direto do repositório. (Para facilitar ainda mais, adicionar o endereço ao Obtainium.) O esforço extra vale a pena.

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Ícone do Synctrain: um trenzinho simpático carregando algumas pastas alaranjadas.No iOS, temos o Sushitrain. Na App Store ele tem o nome Synctrain, porque Sushitrain não estava disponível. O nome faz referência a restaurantes japoneses onde os clientes pedem sushi por tablets e recebem-no em um trenzinho que transita entre a cozinha e as mesas. Está na App Store desde janeiro de 2025, é gratuito e o código-fonte, aberto.

Logo de cara, o Synctrain chama a atenção por parecer em casa no iOS. E não por acaso, já que o aplicativo é construído com tecnologias próprias da Apple — Swift w SwiftUI. O núcleo, responsável pela sincronia de arquivos, é escrito em Go. (Não que este parágrafo importe qualquer coisa a você; fica a título de curiosidade.)

O Synctrain tem duas características importantes que costumam estar ausentes em aplicativos baseados no Syncthing: baixar arquivos sob demanda e sincronia seletiva. Ambas existem no iCloud, por exemplo. (Imagino que em outros aplicativos de armazenamento na nuvem também.) São ótimas para quem está com pouco espaço no celular ou prefere não carregar na palma da mão todos os arquivos de um diretório no computador. O aplicativo ainda permite a sincronia automática de fotos e vídeos por fora do iCloud.

De resto, ele faz seu trabalho como era de se esperar. O que significa, no iOS, que demanda alguma atenção. A exemplo do Möbius, o Sushitrain/Synctrain também fica, às vezes, sem conseguir rodar em segundo plano. Dá para configurar notificações e, ao abri-lo, ler alertas que incluem o tempo desde a última sincronia com outros dispositivos.

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Há pouco mais de um mês, desativei a sincronia de documentos e da mesa (área de trabalho) do macOS via iCloud Drive. Passei para o Syncthing (macOS) e Synctrain (iOS) para poder sincronizar apenas os diretórios dos documentos de que eu preciso quando estou fora de casa. Não há motivo para carregar por aí, o tempo todo, extratos e documentos do imposto de renda ou os meus diários. O modelo do iCloud Drive é tudo ou nada. Com o Syncthing, consigo selecionar quais diretórios sincronizar e não estou limitado a apenas dois; qualquer um pode entrar na dança.

Se você seguir esse mesmo caminho, não se esqueça do becape! Por aqui, estou usando o rclone em conjunto com o Backblaze B2, como expliquei neste guia/tutorial de janeiro de 2022. É meio complicado para pessoas normais. Uma rotina de cópias para um pen drive ou o auxílio de um aplicativo como o Parachute (iOS) já resolveria o problema.

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4 comentários

  1. Ótima dica, Ghedin. Vou dar uma chance ao BasicSync. Continuei me arriscando com o Syncthing-Fork, por pura falta de opção.

  2. Eu gostaria de usar mais o Syncthing, mas nem tanto no sentido de sincronizar em ambas as direções… Nos meus dispositivos a coisa costuma ser unidirecional de maneira geral… Até porque o maior problema que vejo nessa situação é que às vezes quero apenas apagar no device, mas manter a cópia remota, e se ficar uma sincronização real normalmente resulta na destruição do remoto também

    1. O Syncthing permite para configurar a sincronia em uma direção só e faz versionamento de arquivos. Se essa última for configurada corretamente, é bem difícil perder seus arquivos por uma falha catastrófica. (E, de qualquer modo, sempre tem o becape, né? NÉ? 😁👀)

    2. Há uma opção “ignore delete” para pastas, mas planejavam extinguí-la, se já não o fizeram. Não sei se mudaram de ideia.

      Fora isso, dá para configurar pastas como “receive only” e “send only”, além do padrão “send & receive”.

      Ajudam?