Outra semana no Linux

Às vezes sou picado pelo bichinho do software livre. Acompanho há décadas a indústria da tecnologia de consumo e, mergulhado nesse universo, é difícil não se desiludir com seus monopólios, práticas questionáveis e abusos normalizados. Embora o desprezo pelas big techs esteja mais popular, estamos longe de mudanças práticas universais porque… convenhamos, essas custam caro. Tente convencer alguém a trocar o WhatsApp pelo Signal, por exemplo.

No final de julho, a minha febre de software livre atingiu temperaturas perigosas. Vi-me, mais uma vez, instalando uma distribuição Linux com o intuito de me livrar do macOS, o primeiro passo para sair do jardim murado que é o ecossistema da Apple; achava estar à porta de uma utopia digital, mais ou menos como aquele sonho do homem moderno de largar tudo e viver no mato, do que a natureza dá.

Adianto que, tal qual das outras duas vezes, o sistema do pinguim não durou muito. Alguns dias, para ser exato. Apesar do fim precoce, foi bom enquanto durou e a experiência deixou ensinamentos valiosos.

***

Meu notebook, um MacBook Air com chip M1, da própria Apple, é muito bom, mas peculiar. Ao contrário dos da AMD e Intel, esse chip não é amigável a sistemas operacionais de terceiros. Só é possível instalar outro graças à dedicação de uma galera insana que desvendou o código fechado do chip da Apple com engenharia reversa — o projeto Asahi. Fato é que funciona, com ressalvas.

A distribuição de referência do Asahi Linux é o Fedora. Há alguns meses, descobri que uma equipe do Debian, batizada Debian Bananas Team, adaptou os pacotes do Asahi para o projeto. Fui de Debian Testing com o ambiente gráfico Plasma 6.6, do KDE.

Foto do terminal do macOS, rodando o script que instala o Debian em Macs com chips da Apple.
Foto em vez de print porque vai que dá errado, né?

A instalação é diferente da de computadores convencionais, de outras marcas, com chips AMD ou Intel. Em vez de preparar um pen drive, é preciso rodar um script dentro do macOS. Ele faz alguma mágica para tornar o computador apto ao Linux, redimensionar a memória de armazenamento e, por fim, instalar o sistema alternativo e defini-lo como padrão.

É um pouco intimidador, em especial a parte em que o script pede para reiniciar a máquina segurando o botão de ligar para entrar no seletor do sistema operacional. Aparentemente acontece algo ruim se esse passo não for executado à perfeição. De resto, o script é muito bem escrito e senti segurança durante o processo. Correu tudo bem e, no fim, a tela de login do Debian/Plasma se revelou a mim em toda a sua glória.

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Você se lembra daquele papo da Apple de que seus computadores com 8 GB de RAM (memória temporária) equivaliam a 16 GB de outros computadores? Detesto ser o mensageiro de más notícias, mas parece que é verdade.

Em mais de quatro anos usando este notebook no macOS, com seus parcos 8 GB de RAM, não me recordo de um aplicativo ter travado por falta de memória, mesmo em sessões exigentes, com mil aplicativos abertos ou editando vídeos.

Já nos poucos dias em que estive a bordo do Debian, a situação era recorrente, acontecia algumas vezes por dia, muito acima do ideal, que é zero.

Popup do Plasma avisando que fechou o LibreWolf por falta de memória.
Toda hora isso!!

Era abrir do LibreWolf (navegador, um derivado do Firefox) e o Thunderbird (e-mail e agenda) ao mesmo tempo que um dos dois travava. Justiça seja feita, ambos são devoradores de RAM em qualquer sistema operacional. Quando os usei no macOS, porém, nunca travaram.

Dado que memória está custando dois rins no momento (obrigado, IA), é imprescindível fazer mais com menos, e o macOS faz coisas impossíveis com o que tenho aqui.

Comentei esse episódio com o pessoal no grupo do Manual e soube que era necessário aumentar a partição swap (de troca). Acho que conseguiria fazer isso, apesar do receio de transformar o notebook em um peso de papel. Revendo os prints que tirei para ilustrar este relato, percebi em um deles que o sistema estava sem swap. Limitação do Linux em chips Apple? Algum equívoco no script de instalação (não me lembro disso nele)? Burrice do BIOS (bicho ignorante operando o sistema, euzinha)? Sei lá, só sei que isso explica muita coisa. Lição aprendida e peço desculpas pelo erro crasso no experimento.

Print do fastfetch mostrando a configuração do Debian no MacBook Air (M1).
Ops, falha minha.

De qualquer modo, o sufoco com os 8 GB de RAM foi a gota d’água, mas não o único motivo que me fez regressar ao macOS. Outros golpes duros que me desnortearam: o sensor de digitais que não funciona e — o pior — a incompatibilidade com o monitor externo, ligado por uma dock USB-C/Thunderbolt.

Eu uso o teclado e o trackpad do notebook e, vez ou outra, a tela dele também. À minha mesa, substituo a tela embutida pelo monitor externo, mais espaçoso e na altura dos olhos. Não estou mais na idade de abdicar da boa postura; as consequências são quase imediatas e dolorosas. Acreditei nos primeiros dias, ainda inebriado por estar vivendo o ~sonho do Linux próprio, que poderia levar uma vida na telinha do notebook, com o pescoço dobrado. Mudei de ideia dois dias e um torcicolo depois.

***

O sistema em si, o Debian Testing, funciona bem. LibreWolf e Thunderbird têm seus problemas (de interface, de padronização; principalmente o Thunderbird), mas dão conta do recado. Outros aplicativos que uso no dia a dia, como editor de texto simples (KWrite), gerenciador de senhas (KeePassXC) e visualizador de imagens para edições básicas (Gwenview), achei ótimos. Já os conhecia de outros carnavais e continuam tão bons quanto me lembrava. Tudo que uso em linha de comando no terminal do macOS está disponível no Linux.

Print da área de trabalho do Plasma 6.6, com o LibreWolf exibindo a capa do Manual do Usuário.
É até bonito!

Ao contrário da última tentativa, não fiz a insanidade de começar com o Debian “pelado” (instalação mínima) e ir instalando os pacotes um a um. Fui com o pacote padrão que, não sei se isso vale para tudo ou é algo do Debian para computadores da Apple, veio bem enxuto, com poucos aplicativos pré-instalados.

Mesmo a arquitetura diferente (arm64), incompatível com aplicativos compilados para a dominante (amd64), não chegou a ser problema. O único contratempo que notei foi com o Thunderbird, que não tinha a versão normal disponível para arm64 nos repositórios do Debian nem no Flathub, um popular repositório de aplicativos em um formato agnóstico, que funciona em qualquer distribuição Linux. Tive que me contentar com a ESR, de suporte estendido, que só recebe novidades uma vez por ano.

O poder do notebook fez uma diferença notável em comparação à tentativa anterior de usar Linux no dia a dia, conduzida em um computadorzinho fraco que, depois, virou meu servidor doméstico. (Ironicamente, rodando um Debian 12 “headless” e dando conta do recado com folga.) A rolagem das janelas, por exemplo, que no computador fraco era irregular, funcionou suave. O trackpad da Apple, tido como o melhor da indústria, também funciona bem, embora alguns comportamentos sejam melhores no macOS. O clique sem apertá-lo nem sempre funciona no Plasma; se você fizer um “micro-movimento” e mover o mouse durante a execução do clique, o sistema reconhece o movimento e o clique falha. O macOS prevê e corrige esse equívoco. Parece bobagem, mas acontece muito e a somatória de ocorrências que frustra.

O KDE Connect supriu parte dos recursos de Continuidade que a famosa integração entre os dispositivos Apple entrega. Com o iPhone, ele é bastante limitado e só funciona com o aplicativo aberto no celular. É recomendável usá-lo com um celular Android, o que seria demais para mim. (Não o Android, mas mudar dois sistemas ao mesmo tempo.)

Print de uma janela do Dolphin, aberta no diretório do usuário, com uma instância do terminal no rodapé.
Por que ninguém pensou nisto antes?

Um recurso do Dolphin (gerenciador de arquivos) muito maneiro é abrir o terminal no diretório exibido no rodapé da janela. Basta apertar a tecla F4. Quando voltei ao macOS, procurei por algo similar. Existe um atalho no teclado configurável que faz quase isso: ele abre uma janela do terminal no diretório/pasta que está selecionado no Finder, não no que está aberto. É diferente o bastante para ser meio inútil. Talvez exista um atalho ou Apple Script para fazer do jeito do Dolphin.

Uma velha contenda que tenho com outros sistemas que não o macOS manifestou-se outra vez: os atalhos no teclado. A experiência adquirida na semana anterior a bordo do Linux me salvou de uma agonia desmedida, a de não conseguir digitar reticências (…) nem travessões (—). Bastou ativar a tecla de Composição. Pena que ainda não consigo fazer as aspas bonitinhas com ela. Não sei se sou eu ou o KDE Plasma.

Gastei um bom tempo no editor de atalhos das configurações do Plasma, adequando-os às minhas manias, tentando não alterar muitos deles. Estava disposto a aprender — ou a familiarizar-me com — o “jeito Linux” de usar computadores. E com bastante paciência, o que acho que faltou nas outras tentativas.

Era esperado (e de fato foi) que eu ficasse mais lento para fazer as coisas que faço na minha rotina. Fui do jeito lento mesmo, dando voltas enormes que no macOS, para mim, faço sem pensar, esperançoso de que o tempo e a prática me dariam a desenvoltura que exibo no macOS. Não deu tempo, mas tudo bem.

***

Antes de me sentar para escrever este relato, reli os dois anteriores e me surpreendi ao notar que concluí ambos com mensagens similares. Em dezembro de 2012 (!), após uma semana no Ubuntu 12.10, escrevi:

Daria para viver com o Ubuntu? Sim. Muita gente consegue, aliás, embora a maioria dos que entrevistei trabalhe com informática e, portanto, talvez não se enquadre no perfil do “usuário leigo”, o escopo desse experimento — com exceção da parte do XAMPP, todas as demais atividades que fiz foram bem… convencionais. Há dificuldades, algumas ainda casca grossa que te levarão a pesquisas tediosas no Google e comandos ininteligíveis no terminal, mas a situação já é bem melhor que algum tempo atrás.

E na mais recente, em janeiro de 2024 com o Debian 12:

Sim, daria para usar Linux no computador como único sistema operacional sem (muito) perrengue. Algumas tarefas são mais intuitivas e/ou funcionam melhor aqui, outras não, mas boa parte dos desconfortos e estranhezas desta semana decorreram do computador fraco que usei ou da minha falta de familiaridade com o sistema.

Sim, daria para viver com Linux no computador. Para mim, porém, essa vida continua sendo uma utopia, um desejo irracional pautado na emoção, porque para o meu perfil de uso, nível de conhecimento e familiaridade, o macOS é mais negócio — com ou sem Liquid Glass, uma mudança que causou um desgosto enorme por aqui.

O futuro segue sendo uma incógnita. Ou não.

***

Para abrir espaço ao Debian, tive que formatar o macOS e deixá-lo com o mínimo de espaço recomendado pelo Bananas Team. Preparei-me bastante, num nível quase paranoico, a fim de preservar meus arquivos e configurações. Correu tudo bem. Esta talvez tenha sido a maior lição que levo comigo: a de que, na prática, é fácil pisar fora do jardim murado da Apple, que existe uma porta de saída, mesmo que lá fora não seja tão agradável.

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7 comentários

  1. Não tem por que você usar Linux no Mac por enquanto…. Quem sabe quando o suporte ao hardware for encerrado, assim pode dar uma sobrevida ao aparelho transformando em outra ferramenta. Mas por enquanto não, relaxa um pouco.

    1. Ah sim, não foi por necessidade ou insatisfação com o macOS, longe disso. É que vi que era possível, aí bateu o comichão e só sosseguei depois de tentar, hehehe.

  2. Uma pena essa situação da memória RAM vs Swap ter sido uma pedra no caminho. Eu caí nisso com o Linux Mint em um notebook Dell – mas que sigo usando.

    Arrisco pensar que isso está mais relacionado ao fluxo de instalação (e decisões de quem o fornece) do que ao usuário.

    No caso do Mint descobri que, se não me engano, ao criar partições manualmente (aonde eu queria ter “/home” separado) ao invés de deixar o sistema decidir e fazer tudo do jeito dele, ele opta por nem criar um Swap, assumindo que sou eu quem o faria.

    Acontece que Swap é essencial no mundo atual se há apenas 8GB de RAM. Inclusive, métodos de Swapping fazem parte da magia da gestão de memória do MacOS (entre outras coisas, claro).

    Fora do Linux não lhe será útil, mas fica a mensagem para possíveis navegantes de que criar um “Swap File” é extremamente simples e sem perigos. É feito “sob demanda”, e fixá-lo no boot é uma etapa separada. Tudo com comandos muitos simples. Hoje em dia, me parece que não há ganhos em que o Swap seja uma partição distinta (talvez mérito dos SSDs terem alta velocidade?), o que simplifica muito o processo.

    Mas seguirei pensando que, em distros e instaladores que tem a intenção de terem uso fácil, criar Swap deveria ser garantido – ao menos com 8GB de RAM.

    1. No macOS é assim também, o swap é um arquivão salvo na mesma partição dos arquivos. É realmente inexplicável que a instalação padrão da distro não o crie.

  3. Minha interpretação quanto a sua experiência é de que seu maior apego não é ao software, é ao hardware e os costumes que você adquiriu usando ele por tanto tempo, ao ponto de que você consegue superar graves decepções no software (ex: Liquid Glass) desde que eles não afetem o hardware.

  4. Pelo seu relato, o maior problema foi o MacBook. Pode ser um hardware tão mágico quanto os fãs de Apple juram que é, mas o suporte a linux dependendo de umas gambiarras parece frágil demais

    1. O chip do MacBook, eu diria. Porque o hardware é fenomenal, independentemente do sistema. É (ou era) impossível achar um equivalente de outra marca que não custasse o dobro do que paguei por esse aqui, em 2022.

      No início do ano brinquei com um ThinkPad T14. É bem decente, mas uma regressão notável a quem está acostumado com um MacBook. O equivalente, acho eu, seria a linha X1 Carbon, mas aí é caro demais.