A aventura de montar seu próprio servidor doméstico
Muito se fala aqui no Manual do Usuário da privacidade dos nossos dados e atividade online, e do crescente poder que as grandes corporações têm sobre os mais diversos aspectos da nossa vida digital, esta cada vez mais incorporada à vida. É clara a importância que a tecnologia tem hoje, mas junto com ela vem uma miríade de novas preocupações que vão desde a parte prática dos gastos para manter os mais diversos serviços online funcionando (ou a falta destes gastos), até o quanto os nossos dados, o nosso dinheiro e a nossa atividade estão nas mãos de empresas que já demonstraram diversas vezes que não deveríamos confiar nelas. Pensando em tudo isso, e inspirado por muitos artigos do Manual e de outras fontes, que decidi montar um servidor doméstico.
Meu nome é Lucas, sou um profissional de marketing (veja a ironia) e quero compartilhar com você a minha experiência particular nesse projeto que visa, pouco a pouco, fazer com que eu seja novamente o dono dos meus dados, meus arquivos e minha atividade online.
Meu principal incentivo para escrever ao Ghedin e propor contar esta história é compartilhar um pouco do conhecimento, do passo a passo e das dificuldades e, sobretudo, estimular outras pessoas curiosas que, como eu, não têm um conhecimento profundo sobre diversas tecnologias e gostariam de montar um projeto do tipo.
***
Há alguns anos venho gestando a ideia de ter um servidos NAS (Network Attached Storage). Li a respeito de soluções completas, como as oferecidas por Sinology, para armazenar meus arquivos e fotos localmente. A questão é que é caro implementar isso, então fui deixando para depois.
Minha motivação inicial era apenas ter um lugar para guardar tudo sem depender do armazenamento na nuvem, que foi a casa dos meus arquivos por vários anos até recentemente (Google One, no caso). Era uma motivação simples, sem questões complexas sobre privacidade ou a dependência das grandes empresas tecnológicas.
No final de 2025, resolvi voltar a esse pequeno projeto, pensando que teria alguns meses antes da renovação anual do Google para colocar tudo em ordem e, finalmente, fazer esse investimento — que, vale dizer, é algo que se paga em poucos anos, ao custo adicional de algumas horas de trabalho.
Como já tinha identificado a solução da Sinology como a mais confiável e fácil de implementar, comecei a pesquisar as alternativas. Nesse momento, surgiu a famosa pulga atrás da orelha. E se dentro de alguns anos essa solução deixar de existir, ou mudar os seus termos, ou implementar o famigerado e já desgastado modelo de SaaS (assinatura)? A resposta foi fácil de encontrar: na prática, eu estaria mudando de “cativeiro”. Daí, o próximo passo foi pesquisar, aprender, ler um montão e começar a abrir um mundo de novas possibilidades.
Comecei pelo básico: queria saber se eu poderia ter controle total do meu NAS, se o sistema que a Sinology oferece é auto-hospedado e não depende da empresa para funcionar, se era robusto o suficiente em termos de funcionalidades e segurança para, mesmo se a empresa decidisse mudar algo, eu pudesse continuar usando o sistema.
Uma coisa leva a outra, uma pergunta gera várias outras e em pouco tempo eu já estava pesquisando sistemas livres auto-hospedados, software livre de código aberto (FOSS) equivalente a diversas soluções que uso atualmente e as variadas maneiras de operacionalizar tudo isso.
Aqui cabem alguns avisos: o primeiro é que não existe a melhor solução, nada é perfeito, algumas coisas demandam adaptar-se ao que há disponível e existem milhares de formas de implementar as coisas.
O segundo é que, assim como eu me deparei com muita (muita!) informação e opções para cada caso de uso meu, cada um enfrentará o mesmo desafio de acordo com o nível de complexidade que desejar. A boa notícia é que a comunidade é extremamente ativa, existem opções para praticamente tudo o que você possa imaginar e, para um projeto de nível básico a intermediário, é possível encontrar soluções maduras, seguras e relativamente fáceis de implementar que cobrem uns 90% das necessidades básicas.
E o terceiro aviso é que, obviamente, comprar ou assinar uma solução pronta oferecida por um empresa é muito mais fácil e rápido que construir a sua própria. Para ter o seu próprio servidor doméstico, você terá que investir horas de trabalho e estudo, um trabalho que as empresa costumam fazer por você – ao custo de cobrar dinheiro e usar estratégias para manter você dentro daquele ecossistema e, com isso, muitas vezes, usar seus dados e mudar as regras do jogo.
O legal é que é totalmente possível, ainda que não seja para todo mundo. Eu sou a prova de que, se você se interessa por tecnologia, você pode conseguir resultados interessantes sem ficar completamente louco no processo.
***
Depois de todo esse estudo de viabilidade, defini o caminho a seguir baseado no que eu tinha e usava, em quais eram as melhores soluções alternativas (logo, os requisitos e melhores práticas para cada uma delas) e o hardware onde tudo isso rodaria.
Foi aqui que caí na real de que se eu não começasse a implementar as coisas, eu jamais saberia como reagir aos problemas e ficaria preso numa fase de planejamento eterna. Afinal, sempre vai ter um aplicativo novo, um processador que tem um não-sei-o-quê do clock do cache secundário dois microssegundos mais rápido, e por aí vai.
Então, comecei. Eu tinha alguns HDs velhos e também um SSD de pouca capacidade (240 GB), porém suficiente para dar os primeiros passos. Minha ideia era instalar tudo do zero nesse SSD, conectado ao meu notebook, e assim quando quisesse usá-lo, fazer testes e instalar aplicativos, poderia fazê-lo sem medo.
Inicialmente, tentei usar o Ubuntu Server, mas não fui capaz de fazer o Wi-Fi funcionar. Decidi usar Linux Mint, que ao contrário do Ubuntu Server, possui uma interface gráfica e é mais leve que o Ubuntu normal. O segundo passo foi instalar o CasaOS, que eu não sei muito bem como definir: funciona como uma camada gráfica para acessar os aplicativos e uma loja de aplicativos com soluções voltadas à auto-hospedagem, como se fosse um gerenciador de contêineres que centraliza toda a operação.
Por fim, instalei os demais aplicativos de que precisava: Immich para fotos e vídeos (substitui Google Fotos), Nextcloud para arquivos na nuvem (Google Drive), Jellyfin e aplicativos *arr (que substitui… bom, digamos que o Jellyfin serve para visualizar arquivos de mídia, e os *arr para organizá-los e encontrá-los).
Ainda era um ambiente de testes, mas serviu para aprender um monte de coisas e também para ver tudo funcionando, mesmo que aos trancos e barrancos. Foi a prova para decidir dar o próximo passo, que era comprar algo de hardware, montar tudo de maneira permanente e colocar para rodar. A parte mais difícil.
***
Depois dos testes, já sabia o que eu precisava comprar para o meu ambiente de produção (sempre quis usar essa expressão). Como disse antes, já tinha alguns HDs velhos e um SSD, que decidi usar no projeto. A lista de compras ficou assim:
- Um mini PC para servir de cérebro.
- Um HD de alta capacidade e desempenho para ser meu armazenamento principal.
- Um case para o HD.
- Um switch ethernet para ampliar o número de portas do meu roteador.

Para complementar, usaria o SSD como um armazenamento rápido para dados que necessitam velocidade, como miniaturas das fotos no Immich ou meus arquivos no Nextcloud, além de downloads incompletos e mais alguns arquivos de configuração de contêineres.
Os HDs antigos serviriam de becape, um deles para o becape completo semanal e outro para um becape frio das minhas fotos e arquivos mais sensíveis, servindo como último recurso em caso de um desastre. A estratégia de becape também incluirá uma cópia na nuvem, usando Backblaze, que tem bons preços para um volume de dados pequenos como o meu.
A configuração exata do mini PC e acessórios:
- Mini PC: BASOARO Mini PC N150 (16 GB de RAM DDR5, NVMe de 256 GB).
- HD DAS WD Red Plus de 6 TB.
- Ugreen Case HD SATA SSD 3.5″ (até 20 TB).
- Tooq TQE-3527B Case HDD de 3.5″ (SATA I/II/III, USB 3.0).
- Switch Ethernet TP-Link TL-SG108 V3.0
Tudo comprado, foi só conectar os vários cabos, ligar tudo e começar a trabalhar. Ah, aproveitei para limpar o móvel da sala também; não foi muito legal ver a quantidade de pó que tava escondida ali.
Neste ponto, tinha uma noção clara de que precisaria instalar Ubuntu Server, para economizar recursos com um sistema sem interface gráfica. Dessa vez deu tudo certo, primeiro porque o computador estava conectado por cabo à internet, e segundo porque a vantagem de brincar com um projeto como esse é que você está sempre aprendendo coisas e fui me habituando à linha de comando do Linux.
Instalei os mesmos aplicativos do ambiente de testes e mais alguns, do zero, sem reaproveitar nada, para ter uma instalação limpa. São eles (por ordem de implementação):
- CasaOS, por ser a base para instalar e gerenciar os demais.
- Tailscale, para acessar o sistema de forma segura com uma VPN privada.
- Jellyfin e aplicativos *arr, porque não são críticos e seria uma boa forma de me acostumar com o sistema, as nomenclaturas, comandos etc.
- Glances, para ver em tempo real o rendimento do sistema, gargalos, alertas de problemas, consumo de recursos e temperatura do computador.
- Gluetun, para conectar aplicativos à internet através de VPN seletivamente.
- qBitTorrent, conectado ao Gluetun, funcionando apenas através da VPN.
- Nextcloud, que já era um aplicativo mais sensível e deixei para o final para ter mais experiência.
- Immich, que para mim era o aplicativo mais crítico devido a ser mais pesado, mais complexo no seu funcionamento e o responsável pela parte mais sensível do meu sistema, que é o armazenamento e becape das minhas fotos.
- Calibre, para organizar livros digitais.
***
Para alguém como eu, que não tem experiência nem formação técnica, brincar de Linux e linha de comando e aplicativos que você instala com instruções muito mais específicas do que clicar algumas vezes no botão “Próximo” dos típicos executáveis de Windows, é um bicho de catorze cabeças. Sim, catorze. As vezes eu me sentia um hacker de filme ruim que digita 700 linhas por segundo usando dois teclados simultâneos, quando na realidade eu apenas escrevi sudo qualquer-coisa no terminal seguindo as instruções de algum tutorial ou do Gemini.
Durante a implementação, topei com vários problemas. Poderia ficar horas aqui falando deles, mas a verdade é que foram tantas coisas (algumas realmente importantes, outras pequenos erros fáceis de arrumar) que eu não lembro de tudo e tampouco fiz um relatório completo. No geral, o que eu enfrentei com mais frequência foram erros de configuração, seja de contêineres, permissões ou sistema. Não são difíceis de resolver, mas demandam atenção.
Outra situação na qual gastei muitas horas, em parte para resolver o problema, em parte por conta do meu hiper-foco na tentativa de encontrar a solução, foi fazer funcionar o Intel Quick Sync do chip de vídeo. No início, não funcionava. Depois, passou a funcionar misteriosamente, mas não era reconhecida. E agora funciona, mas não consigo visualizá-la no Glances. Enfim, gastei boas horas até me dar conta que o ótimo é inimigo do bom, e aceitei a meia-vitória.
Também tive dificuldades com alguns aplicativos mais complexos, como Nextcloud e Immich, começando por algumas configurações e variáveis, passando por horas e horas de importação de dados e finalmente brigando com o HD para acessar os dados. Deixei o Immich rodando por vários dias processando os mais de 120 mil arquivos de foto e vídeo para organizar em diretórios, reconhecimento facial, OCR, etiquetas, metadados, geolocalização e busca inteligente. É uma cacetada de processamento que o chip Intel N150, do meu mini PC, ferveu para processar a interminável fila de tarefas. Descobri que o Immich permite usar processamento externo através da rede quando já estava na metade do caminho. Instalei o que precisava no meu notebook com um chip de vídeo dedicado (Nvidia RTX 3060) e aí foi coisa de horas para terminar o que levaria mais de uma semana.

Aliás, o HD foi um pesadelo à parte por vários motivos diferentes. Ao escolher um mini PC, a opção de armazenamento teria que ser via USB 3.0 com um “case” externo. Isso gerou problemas em alguns momentos, como o primeiro case que escolhi não ter um interruptor físico, o que impedia-o de voltar à vida em caso de queda de energia, reinício ou desligamento. Eu tinha que fisicamente pressionar um botão no case. Troquei de case, e o novo aparentemente tem um modo de descanso agressivo que ainda não consegui descobrir como resolver e nem identificar o padrão (se a cada X horas/dias deixa de funcionar). Isso faz com que o HD fique indisponível. Até o momento, a única forma que encontrei de solucionar o problema é reiniciando o sistema inteiro, incluindo usar uma tomada inteligente para cortar a corrente e fazer o HD iniciar do zero. E o pior é que eu não faço a mínima ideia do que está causando isso, qual a frequência e como corrigir. Então, por enquanto, eu reinicio tudo quando vejo que o HD ficou indisponível. Por fim, tive também o azar de ter recebido uma unidade defeituosa, que só fui descobrir quando o disco já estava em uso há umas duas semanas, acarretando na devolução para troca e vários copia-cola de dados na sequência.
Apesar de tudo isso, sobrevivi. E o meu incrível data center doméstico também. Está lá, funcionando 24/7, rodando redondinho exceto por esse lance do HD. Como você pode notar, existem (e tenho certeza que existirão) muitos desafios e problemas, mas com a maturidade das soluções atuais, a disponibilidade praticamente infinita de conteúdo e a ajudinha de algum LLM, as dificuldades se tornaram superáveis por qualquer pessoa minimamente iniciada em tecnologia.
***
Eu me diverti. Gosto de brincar com projetos como esse e foi uma experiência muito legal. Na verdade, continua sendo, é um projeto contínuo, ainda que a implementação inicial consuma muito tempo. Sei que é algo que tenho que seguir acompanhando, desenvolvendo, evoluindo e dando manutenção. Juntando a parte divertida com a parte do aprendizado e da vontade de conhecer mais de algo que gosto muito, acho que foi uma decisão acertada. Hoje tenho o sistema funcionando bem, sem depender de grandes empresas e nem de uma assinatura mensal, com a certeza de que eu sou o dono e gerencio meus arquivos, com a possibilidade de implementar novas soluções ao meu gosto e necessidade, de forma livre e gratuita.


Se você conhece ao menos um pouco de tecnologia em geral, mas se interessa muito por esse tema, se é uma pessoa curiosa, tem vontade de aprender, se preocupa com seus dados e informações, tem um pouco de tempo livre para dedicar ao projeto e uma graninha para investir na configuração inicial ou até mesmo hardware velho e sem uso que você possa usar para começar, eu recomendo muito. Para mim, foi unir o útil ao agradável. Às vezes não tão útil nem agradável, mas valeu a pena.
Quero deixar o espaço aberto para uma discussão mais ampla. Será um prazer ajudar qualquer pessoa que se interesse pelo tema e queira saber mais sobre a minha experiência, ou até mesmo trocar ideias de como fazer, melhores práticas e até mesmo a experiência de outros leitores.
Muito legal essa configuração, estou pensando em fazer um também, minha esposa tá gastando uma grana todo mês com armazenamento do google drive.
que chique tudo isso. estou namorando um projeto desses há tempos. mas sempre enrolando, seja pela falta de tempo (que muitas vezes nunca vai se resolver, é preciso priorizar as várias questões da vida mesmo) ou a inércia frente ao tanto de opções.
muito bom ler esse depoimento.
Muito bom! Passei por um roteiro similar: quis muito testar o Home Assistant pra ter uma experiência melhor entre o amaldiçoado Samsung SmartThings dos meus aparelhos de ar condicionado, e ao não tão agradável Tuya/SmartLife das lâmpadas controle IR/RF e aspirador-robô.
Comecei com o HA OS num VirtualBox do notebook com pouco uso, que ficou mais de mês ligado e fechado no rack da TV. Foi MUITO legal e resolveu inúmeros problemas de experiência de uso que eu tinha com os dispositivos mencionados – incluindo fazer a luz do A/C ficar sempre desligada, sem a necessidade de vários cliques lentos.
Aí abri o bolso e comprei um mini PC Beelink com Intel N95 e 8GB RAM. Achei usado no OLX, num anúncio que inspirou confiança, e deu certo demais!
Nele eu rodo Proxmox com a VM do HA OS, alguns LXC, sendo os principais os do Docker (uso misto) e o do PBS (Proxmox Backup Server).
Aliás, é engraçado (pra não dizer caótico) ter que decidir entre rodar algo dentro da VM do HA OS (como app “nativo”, embarcado), num LXC dedicado, ou como um containers dentro do LXC Docker. 😂
Ainda preciso investir em mais armazenamento e montar um fluxo de backup remoto antes de avançar para o Immich e Nextcloud.
Penso também em colocar o meu desktop, subutilizado, pra algum fluxo de backup local, pra não ficar só dentro do próprio mini PC – mesmo com a nuvem.
Muito bom… Era meu sonho. Estava até pensando em ir a Ciudad del Este comprar um mini PC, mas aí veio esse superfaturamento de hardware.
Sobre o HD que ‘dorme’, eu lembro que eu via algo similar ocorrer no meu sistema, mas como o HD é interno ele volta em 1 segundo. No app Discos acho que tem uma configuração para desabilitar isso…. Via linha de comando eu não faço ideia.
Descreve mais detalhes da parte física do setup que o pessoal do manual sempre curte: qual o modelo do mini-pc? processador? quantidade de ram? marcas e modelos dos discos? switch? E o mais importante: o preço de tudo, sempre legal saber no final quanto foi gasto pela brincadeira. :)
Ah, falha minha: o Lucas mandou esses detalhes, que acabei cortando na edição. Acrescentei ao post e republico aqui:
Que massa! Eu empaquei na configuração do nexcloud..