Escolhas tecnológicas
Há uma pequena grande crise no universo de blogs em inglês voltados à Apple e desenvolvedores independentes de aplicativos para iOS. O blog MacStories, após anunciar com estardalhaço a saída do então Twitter em 2022, voltou à plataforma de Elon Musk neste mês de agosto.
O movimento de retorno foi feito na surdina. Nem mesmo os colaboradores fixos do blog souberam de antemão. Todos eles pularam do barco após a notícia se espalhar. Leitores e assinantes pagantes do MacStories também souberam da novidade por outras fontes.
Dois dias após a notícia estourar, Federico Viticci, fundador e um dos dois sócios do MacStories, publicou uma justificativa em uma página gerada por um aplicativo de anotações — não no MacStories, como fizeram quatro anos antes ao anunciar a saída do Twitter:
Queremos ser absolutamente claros sobre algo: retornar ao X não representa uma mudança em nossos valores, o que o MacStories ou nós defendemos ou um endosso a Elon Musk. Nós desprezamos a política de Musk, sua retórica, seu desrespeito descarado pelos outros e a direção que ele deu ao X. Mas também discordamos que participar do X significa que nos alinhamos com qualquer uma das visões ou ações de Musk. Rejeitamos a visão de mundo de Musk e continuaremos a tratar as pessoas com a gentileza e o respeito que elas merecem, onde quer que estejam na Internet.
O motivo alegado para o blog e os dois sócios (além de Viticci, John Voorhees) retornarem ao X é comercial. O MacStories tem perdido audiência para a IA do Google (“Google Zero”) e sofrido com a fadiga de assinaturas. Além disso, Viticci tem dedicado tempo e suor à produção de conteúdo sobre inteligência artificial, que, reza a lenda, tem mais público no X. Tanto que ele agora se define como “um novo tipo de criador” de soluções, além de escritor e podcaster.
Desenvolvedores saíram em defesa do MacStories. Brent Simmons, do NetNewsWire, classificou a decisão como uma “escolha tecnológica”, recorrendo à falácia do “socialista de iPhone”: quem está criticando usa e depende de tecnologias das big techs, logo são hipócritas por condenar a decisão do MacStories.
Jeff Johnson, conhecido pela extensão para Safari StopTheMadness, repostou o texto de Simmons dizendo que se trata, na verdade, de uma decisão política dentro de um sistema que incentiva escolhas difíceis, e que nesse sistema escolhas individuais ruins são inevitáveis.
Marco Arment, do aplicativo de podcasts Overcast, repostou sem comentário o texto de Simmons.
Entre os críticos, Steve Troughton-Smith, do aplicativo de rádio online Broadcasts, apontou que mais que o retorno ao X, o pior de todo esse episódio foi a maneira como Viticci e Voorhees executaram a decisão:
Fazer uma escolha de tecnologia é uma coisa. Fazer isso na surdina e esperar duas semanas até as pessoas notarem é outra. Não debater isso com seus colaboradores até o ponto em que todos saem, irritados e magoados, também é uma escolha. E esperar mais dois dias para admiti-lo em público em um canto obscuro da internet que você sabe que seus leitores e assinantes provavelmente não encontrarão. Isso é digno de crítica. Bem como afugentar todos os membros da equipe ou colaboradores que não são homens brancos hétero.
Niléane Dorffer, (agora ex)-colaboradora do MacStories, uma mulher preta e trans, disse-se irritada por ter sido feita de boba no post em que anunciou sua saída do projeto. Afirmou, também, que Viticci tomou decisões editoriais que passaram pano para o estreitamento da relação entre o CEO da Apple, Tim Cook, e o governo Trump, por medo de ser barrado nos aeroportos estadunidenses. (Viticci é italiano.) Disse, por fim, que esperava mais do fundador do blog, mas que ele é “apenas mais um techbro”.
Nas respostas ao post de Simmons, um não desenvolvedor, Craig Scrogie, foi quem sintetizou melhor a decepção de colaboradores e leitores:
Isso não é “escolha tecnológica”. O MacStories reverteu uma escolha política baseada em princípios, traiu a confiança e abandonou o apoio a uma comunidade inclusiva. Eles mantiveram esse posicionamento até que ele se tornou inconveniente. É por isso que as pessoas estão chateadas. Essa comunidade não vai se curar se seu instinto for passar pano para comportamentos condenáveis.
Embora tenha afirmado que continuaria no Mastodon e no Bluesky, os perfis de Viticci nessas plataformas foram reduzidos a links automatizados de novos posts do MacStories. Bem diferente do X, onde ele vem publicando em alta frequência. Ele, Voorhees e o perfil do MacStories estão pagando a assinatura do X para ter o selo de verificado e (supostamente) maior alcance para seus posts.
À parte toda a questão política, pergunto-me se o X fará alguma diferença nos negócios do MacStories. O algoritmo de recomendação da plataforma penaliza duramente links externos e a competição pela atenção dos cracudos de IA é intensa. O X já passou há muito tempo ao estágio final da “bostificação” de Cory Doctorow, quando todo o valor gerado pelo serviço retorna à big tech que o fornece. Curioso para ver o desenrolar dessa história.
Mas eu duvido muito que o X dê tanto retorno em audiência quanto esse pessoal argumenta
o Viticci SEMPRE foi um esquerdomacho techbro, surpreso que as pessoas só tão descobrindo agora e a escrita dele também nem é lá essas coisas, os reviews dele principalmente do iOS/iPadOS eram verborragia pura. eu particularmente só acompanhava ele porque ele sempre trouxe excelentes shortcuts pra iOS e macOS mas agora nem isso tá valendo.
que tenha o fim que merece.
Acho que a discussão mais interessante não está na qualidade dos textos dele, ou se ele é “esquerdomacho” ou “techbro”. E sim sobre se a decisão de um blog estar presente no X passa ou não de um limite perante o júri da parte da Internet que se sente sensata e do bem.
mas eu quero uma discussão interessante eu quero apontar a escrotidão de um techbro verborrágico que acha que 20 páginas de review do iOS é saber escrever uai.
Bom, acho que tudo é válido visto que estamos conversando sobre o fato de um blog do outro lado do mundo ter criado uma conta no X rs
Se sentir sensato e do bem não tem muito a ver com senso de aprovação de núcleos sociais.
Penso que o tal juri advoga para o seu contexto.
Gosta quem quer, e também desgosta quem quer. E isso é um espectro, aonde para diferentes pessoas o fato e discussão será mais ou menos relevante.
Nessas horas, o que é certo ou errado vai da perspectiva de cada um.
Grupos com opiniões divergentes sempre vão tratar desaprovar o comportamento ou comentário do grupo oposto. Vejo como algo bem natural.
Concordo com tudo o que você disse. No final vai de cada um o que achar da situação, inclusive não achar nada, como eu. Dentro de todas essas possibilidades, existe também a de desaprovar quem desaprova, que é o meu caso rs. Não pela crítica, mas se pela hipocrisia.
Veja o comentário de um dos desenvolvedores citados no post. Qual palavra não se aplicaria a blogs com presença no Instagram do Zucherberg?
“Essa comunidade não vai se curar se seu instinto for passar pano para comportamentos condenáveis.”
Nesse caso o próprio crítico está, como ele mesmo criticou, deixando algumas plataformas de lado de sua crítica “por ser muito inconveniente”.
Sim e não, hehe. Quis trazer esse debate para não pela volta do MacStories ao X em si, nem pela qualidade do que eles publicam.
Chamou a minha atenção a virada de 180º no discurso que embasou a decisão de abandonar o então Twitter em 2022 e as consequências desse retorno à reputação que eles conquistaram ao sair da plataforma quatro anos atrás e abraçar o Mastodon.
O Mastodon é um bando de xaropes, sim; sou o primeiro a admitir. Só que não é só isso. O Mastodon atrai um público que é avesso ou discriminado em plataformas comerciais, especialmente no X. Ao preferi-lo em detrimento ao X, o MacStories ganhou proeminência nesse canto dos excluídos da internet. Acredito que seja por isso todo o barulho que a decisão do Viticci causou no Mastodon (somada à maneira deselegante como ele a implementou, claro).
Também interessa-me a questão das escolhas individuais frente aos problemas sociais causados pela big tech. Não raro ela é tratada de forma rasa, caindo na falácia do socialista de iPhone, mas há exceções e acho (“acho” do verbo “na minha opinião”) o X uma dessas fáceis de tomar porque aquilo virou, em grande medida, uma câmara de eco de gente que concorda ou não liga para a ideologia racista do Musk e/ou picaretas querendo fazer dinheiro com rage baiting. Estou realmente curioso para saber se essa decisão do MacStories moverá a balança do negócio. (Desconfio que não.)
Pois é.. é um assunto meio “irrelevante” que traz discussões relevantes.
Assim como é importante não cair na falácia do socialista de iPhone, acho que muito do público Mastodon, (que também em muitas vezes também acaba sendo uma câmara de eco), acaba caindo na falácia do: desaprovo a ideologia do Musk, logo todos que usam o X apoiam o Musk (ou não ligam), e logo essa rede é irrelevante e não dá retorno.
Acompanho o Viticci e assino o MacStories desde mais ou menos 2022. Quem minimamente o conhece sabe que ele não tomaria essa decisão se algum dado de mercado não estivesse apontando que isso seria relevante, sobretudo no universo IA que é bem criticado nas outras redes.
Eu creio que a rusga com o X é de outra natureza: que, ao participar o X, alguém ajuda a aumentar o poder do Musk, ou seja, por tabela aumenta o poder de influência da ideologia dele. Essa lógica vale para todas as plataformas e é por ela, entre outros motivos, que não uso Instagram, Facebook ou X para divulgar o Manual (e, não que isso importe, nem pessoalmente).
Com certeza não é só uma “escolha tecnológica” (isso seria reduzir até o que é tecnologia) e a maneira como conduziram a mudança foi muito ruim, mas a proporção que o assunto tomou é assustador. Acho que o Leonardo já resumiu bem a situação no outro comentário.
E é impressionante como os usuários da plataforma “mais amigável” partiram para o ataque sem considerar as nuances da situação. Se comportando igual aos da plataforma que condenam.
Muito triste ver isso no Mastodon, mas me parece que exemplifica bem que esse formato de plataforma leva a esse tipo de comportamento. Independente de der boas intenções e guidelines “melhores”.
Tempos nebulosos. Google acabando com os negócios mundo afora e bilionários tomando conta da mídia. Como bem disse: “quem está criticando usa e depende de tecnologias das big techs, logo são hipócritas por condenar” decisão alheia. Não há ideólogo que resista a um boleto escorregando por debaixo da porta.
I mean… acredito que nenhum dos críticos sejam apoiadores das opiniões do Zuck/Meta, e todos estão no Instagram e WhatsApp. Quem tem a régua da moral pra determinar até onde é aceitável?
Transparência com os colaboradores a parte (que acredito ter sido realmente um erro), todos que conhecem o Viticci sabe que ele de fato não endossa o Musk. Me parece uma discussão muito meta (perdão o trocadilho), de pessoas que não estão comprometidas pessoalmente como ele a manter o site financeiramente saudável.
Coincidência ou não, eu voltei ao X na semana passada por 2 motivos. O Instagram estava fritando o meu cérebro pelas razões que todo mundo já sabe e no X ainda consigo ver só quem eu sigo (aba Seguindo). Sinto que tenho uma (falsa) sensação de um pouquinho à mais de controle no feed. Discordo em todos os aspectos do Kiko do Foguete, mas o ponto é que ainda acho o X com ainda um restinho de Internet orgânica, na qual tu não precisa de postar em 4k.
O Instagram também tem um feed cronológico de só quem você segue. Toque no nome “Instagram”, no topo da página, que a opção aparece.
Vez ou outro acesso minha conta dormente no X. Acho que não sobrou muita coisa orgânica por lá. O algoritmo destaca posts que usam os truques mais manjados de “rage baiting” e isso contamina todo mundo, até a turma que sigo. Eu saí por princípio, e continuo fora por isso e porque não tem nada ali que me pareça útil, interessante ou agradável.
Se por acaso você usa Android, recomendo demais modificações (patches) com o aplicativo “Morphe”! Com ele, é possível se livrar de anúncios, recomendações, reels e garantir feed cronológico no Instagram.
As modificações são aplicadas por você mesmo, no seu dispositivo, e o código dos patches são open-source. Uso há meses e tem uma comunidade bem forte em volta disso. =)
O duro é que, apesar de todos os pesares, com a morte da Internet orgânica eu não consigo julgar ou apontar dedos. Vejo como só mais uma história triste, talvez também por estar sendo feita às escuras.