IFA 2016: A feira de tecnologia do povo

Pessoas comuns na IFA em torno de um game no estande da Samsung.

Cada grande feira de tecnologia tem suas peculiaridades. A CES, que acontece em Las Vegas e praticamente abre o ano (é sempre no começo de janeiro), ainda é considerada o principal berço das inovações. Já a MWC (Barcelona) e a Computex (Taipei) são mais focadas: a primeira em smartphones e no universo ao seu redor; a segunda, por ter as asiáticas no comando. Já a IFA, em Berlim, é palco para novidades domésticas, principalmente em TVs, e mais recentemente pelos smartwatches também. Porém o que mais a destaca das demais é o fato de ser uma feira aberta ao público. Você aí que não é jornalista, executivo de alguma empresa da área ou representante do varejo, pode dar rolê aqui sem problema.

É a terceira IFA que cubro, logo posso dizer que essa é uma das características mais marcantes e empolgantes do evento. Nos estandes, além dos profissionais da imprensa fazendo verdadeiros books fotográficos de cada produto ou malabarismos para filmar e narrar sozinhos seus hands-on (vi isso e até tentei fotografar, mas fiquei com pena do colega), vemos “pessoas normais” interagindo com os produtos. É muito legal ver as reações e a percepção de quem não tem o costume de transitar por ambientes do tipo.

Messe Berlin de frente.

Fachada da Messe Berlin, onde acontece a IFA.

Fachada decorada pela Samsung para a IFA.

Berlim, uma das capitais mais multiculturais da Europa, das cidades que mais receberam refugiados nos últimos tempos, se vê refletida na IFA. Famílias de todas as origens, etnias e religiões, grupos formados por pessoas de diferentes idades circulam pelos mais de 25 pavilhões da feira distribuídos por 150 mil metros quadrados. Segundo dados da organização, em 2015 a IFA recebeu 240 mil visitantes, sendo 142 mil para fazer negócios e 63 mil visitantes internacionais. O número que sobra, de “civis”, pode parecer baixo, mas considerando que a maioria deles só consegue visitar o evento no fim de semana, eu diria que 40 mil pessoas até que é bastante.

O que talvez explique ele não ser maior seja o preço para entrar. É claro que, para alguém que vem do Brasil e pensa tudo em real, qualquer trocado em euro me parece caro, mas levando em conta que a IFA é uma feira enorme e que um dia acaba sendo pouco para dar conta de tudo, achei os € 17 do ingresso diário meio salgados. Existem descontos que aliviam o bolso de alguns alemães, como o de € 13 euros para idosos, o de € 9 para estudantes ou ainda o passe para depois das 14h, chamado de Happy Hour (a feira abre às 10h e a fecha às 18h), que sai por € 13. Desses valores diferenciados, o mais vantajoso é o familiar, que custa € 35 e vale para dois adultos e três crianças menores de 18 anos. Crianças de até 6 anos não pagam.

Mesmo assim, só o fato de existir a possibilidade de ir a um evento desses me parece fantástico. Fico pensando no impacto que uma feira aberta desse porte teria no Brasil, com famílias inteiras vendo e experimentando inovações de verdade. No caso do brasileiro, seria ainda mais incrível, pois boa parte desses produtos não chega ao nosso mercado. Posso estar soando ingênua e sonhadora, mas será que isso não aguçaria a nossa curiosidade pela tecnologia, a ponto de deixarmos de ser apenas consumidores? Eu realmente suspeito que sim.

Por essas e outras, fui tentar entender o motivo de vermos tantas “pessoas normais” transitando na IFA.

Entschuldigen sie, sprechen sie Englisch?

Crianças interagindo com blocos de montar na IFA.

Falar com os alemães não é tarefa fácil. Muitos deles até entendem inglês, mas não a ponto de desenvolver uma conversa num nível para se conceder entrevistas. No geral, eles respondem “a little bit” toda vez que alguém pergunta se falam inglês. Não por acaso, todos os promotores começavam falando em alemão comigo. Afinal, mesmo eu não tendo nenhum traço germânico, os alemães são maioria aqui e é para quem a IFA é voltada.

O primeiro senhor que abordei, que parecia muito interessado nas TVs da Samsung e estava acompanhando da família, disse que falava inglês, mas quando viu que eu era imprensa, mesmo do Brasil, se negou a conversar comigo. O promotor que acompanhou a minha tentativa frustrada me alertou de que seria difícil falar com os alemães. Acho que o fato de eu não saber falar nada além de “Oi!” em alemão (“Halo!”) tampouco ajudou. Até tentei aprender um “Com licença, você fala inglês?”, mas é algo como “Entschuldigen sie, sprechen sie Englisch?” Ou seja, não rolou.

Mais adiante, tive sorte. Foi Mehmet Baha, do Chipre (país cuja língua oficial é o turco), mas que fala inglês e já visitou o Brasil, o primeiro visitante da IFA que falou ao Manual do Usuário. Acompanhado de sua esposa, ele parecia bastante interessado em um protótipo de máquina de tatuagem temporária exposto no estande da Samsung (Prinker era o nome do gadget, com o qual eu fiz uma tatuagem com os dizeres “MdU”). Há três anos na Alemanha, Baha contou que essa foi a sua segunda IFA e que, além da Samsung, queria encontrar produtos da JVC e da Marshall. “Eu gosto de ver as novidades e desses estandes interativos. Venho para poder experimentar essas inovações que sei que podem me impactar depois, quando estiver comprando algo do tipo”, explicou.

Lounge ao ar livre da T-Mobile.

A estudante de engenharia civil Melanie Hocke, que acompanhava o namorado nesta que foi a sua primeira IFA, disse que achou tudo muito colorido e barulhento. Ela não parecia muito animada, ainda que estivesse brincando com os novos smartphones da Huawei quando a abordei. Já a jovem Andrea Ernst, berlinense de 16 anos, disse que sempre visita a IFA e que gosta de experimentar o que vê antes na Internet. Acompanhada da mãe, Andrea ficou muito tempo mexendo em um Phab 2 Pro, da Lenovo, o primeiro smartphone comercial com o Tango funcionando, um sistema que dá noção espacial e de profundidade à câmera do aparelho. Inclusive, Andrea sabia mexer melhor que o promotor do estande no aparelho. Das marcas expostas na IFA, ela disse que queria mesmo era visitar a Lenovo, porque ela trazia algumas novidades do Google.

Visitantes mexem em smartphone da Lenovo.

Brindes e shows de culinária

Há gente de todas as idades mesmo: de crianças em carrinhos até idosos em cadeiras de rodas. Um bom contingente do público parava nos estandes para ver os produtos, mas a verdade é que a maioria parecia mais interessada nas demonstrações e nos brindes.

Quase todos os estandes davam alguma coisa aos visitantes: sacolas de papel (sério), ecobags, óculos de Sol coloridos, canetas e por aí vai. Algumas empresas dão brindes para qualquer pessoa que passe pelo seu espaço; outras “exigem” que o visitante experimente seus produtos ou veja demonstrações para conquistar o presente.

As pessoas gostam muito de brindes, inclusive de canetas simples como essas da Lenovo.

De qualquer forma, era difícil avistar uma pessoa (sem credencial) que não tivesse pelo menos com uma sacola a tira colo. Teve até uma senhora que achou que podia pegar uma caneca que estava enfeitando o estande da Lenovo. Explico: lá estava eu testando o tão bem falado Yoga Book (a versão com Android parece meio inacabada, confesso) quando comecei a procurar pela caneta que acompanha o gadget. A tal senhora então me alcançou a caneta. No que eu terminei de agradecer, ela pegou a caneca onde estava a caneta e saiu andando despreocupadamente. Eu e os colegas jornalistas das Filipinas, no Yoga Book ao lado, ficamos sem entender por um tempo até que começamos a rir. Muda a nacionalidade, o idioma, até o continente, mas a verdade é que somos todos iguais.

Robôs dançarinos chamam a atenção do público.

Outra observação curiosa sobre as “pessoas normais” da IFA é que elas param para ver qualquer coisa que se mexa: robôs dançarinos, braços hidráulicos fazendo coreografias com TVs e pessoas em cima do palco falando. (Infelizmente, eu não conseguia entender o conteúdo dessas apresentações porque grande parte delas eram em alemão.) Porém, o tipo de show que mais atraía a atenção eram os de culinária. E quase todo estande de marca global que vende eletrodomésticos e/ou equipamentos para cozinha tinha um. Mesmo que não tivesse uma provinha, as pessoas paravam para ver os chefs cozinhando e até ficavam esperando pelo próximo show. É mesmo um fenômeno a ser estudado essa nossa nova obsessão pela gastronomia!

Visitantes reunidos em torno de um show de culinária.

Teve também mais de um estande expondo barbeadores e convidando o público masculino a fazer a barba durante a IFA. Estaríamos testemunhando o surgimento de uma nova (e estranha) tendência em eventos de tecnologia? Só saberemos na próxima feira, a CES, em janeiro!


Emily foi a Berlim e na correria para cobrir a IFA se rendeu à maquiagem hiper-real das fabricante de smartphone asiáticas:

Emily na câmera frontal de um smartphone da Huawei.

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6 comentários

  1. Excelente artigo.
    Fico curioso em imaginar também uma feira de tecnologia aqui no Brasil, seria uma coisa a longo prazo, mas também acho que fortaleceria o interesse das pessoas não apenas na tecnologia, mas na ciência.
    Outra coisa. Esses artigos diferenciados do MdU que dão certeza de que o caminho de vocês está correto. Dá gosto de ver conteúdo diferente.
    Parabéns!

  2. até uns anos atrás, a IFA também tinha um combo bilhete de trem/metrô + entrada na IFA. No meu primeiro ano lá, comprei errado na máquina da estação… em vez do passe semanal de trem/metrô (dãaa). Só entendi dias depois que aquele passe dava direito a entrar na feira.

      1. Exceto que provavelmente ele já tinha as entradas pra feira a convite de alguma fabricante e acabou pagando mais a toa hehe

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