A poltrona de rolagem [de feeds]
newcartographies.com
Digo logo de cara que tenho minha cota de textos desse assunto publicados aqui, o que não invalida a observação (em inglês) do Nicholas Carr em sua newsletter:
Odeio ser cínico, mas acho que a principal razão para a proliferação desses tipos de artigos [sobre usar menos o celular] é que eles são iscas algorítmicas. São sintomas da doença que prometem curar. Estamos viciados em ler sobre nosso vício em celulares. Se os materiais têm um valor terapêutico, provavelmente é menos em ajudar as pessoas a ganhar controle sobre a mídia do que em renovar uma fantasia tranquilizadora de tal controle.
O que nos leva a situações engraçadas, como dois viciados crônicos em celulares dando dicas de como usar menos o celular (podcast, em inglês).
Tenho a impressão de que o conteúdo criado como oferenda ao deus algoritmo se manifesta em qualquer assunto popular, mesmo que de nicho. Fisgam quem está à toa na internet, em seus múltiplos feeds com recomendações algorítmicas que estressam ao máximo qualquer manifestação mínima de interesse em dado tema.
Outro assunto, um subjacente, são os “PKMs”, ou gerenciamento de conhecimento pessoal, com seus métodos de organização desnecessariamente complexos e aquele gráfico legal de conexões gerado pelo Obsidian. A promessa é que ao organizar suas ideias em texto e conectá-las todas, você terá o super poder de jamais esquecer das coisas.
O desfecho para quem consegue sair desses ciclos intermináveis de conteúdo é o mesmo: para que tudo isso, afinal? (em inglês).
Embora seja de fato curioso o tanto de energia que se dispõe a fim de se livrar do vício em tecnologia (em especial redes sociais), normalmente usando mais tecnologia (!), tendo a achar que não deveríamos colocar na conta do usuário essa responsabilidade. O buraco é bem mais embaixo.
Como já discutimos aqui diversas vezes, o dinheiro que alimenta essas big techs é absolutamente incompreensível, capaz de bancar os melhores profissionais da área de neurociência, psicologia, marketing, engenharia, etc. somente para descobrir as fraquezas humanas e explorá-las financeiramente. Por isso, o argumento ‘cada um sabe o que é melhor para si’ é uma furada — não é assim que funciona o cérebro humano.
Ora, não é simplesmente uma coincidência o vício coletivo nessas tecnologias pelo mundo todo, incluindo pessoas de todas as raças, gênero, idade e cultura. Só vamos sair dessa quando: 1. entendermos que há um problema (esse ponto parece que já está relativamente bem estabelecido); 2. entender que o problema é social, não individual (longe de ser um consenso); 3. debatermos soluções para regulamentar essas tecnologias para o bem não das empresas mas das pessoas humanas que de fato vivem na sociedade (temos alguns exemplos tímidos, como a proibição de redes sociais para menores de 16 anos em alguns países).
Isso, a gente nota esse modelo de isca em outros temas: “Por que uso ou deixei de usar tal coisa?”. E aqui a gente pode substituir “coisa” por distro, rede social, plataforma, aplicativo, etc.
Felizmente, desenvolvi algum grau de anticorpos contra essas chamadas. Na minha mente, uma das vozes apenas diz: “Legal, mas não me interessa”, e passo, igual página com alerta de anúncios.
“O Sol nas bancas de revista
me enchem de alegria
e preguiça
quem lê tanta notícia?”
Foi só ler e a música começou a tocar na mente, rs…