Dez anos depois, o Chrome virou o novo Internet Explorer


4/9/18 às 15h40

No dia 4 de setembro de 2008, o Google lançou oficialmente a versão 1.0 do seu navegador web, o Chrome. Ele era rápido, leve, moderno, a antítese do líder da época, o famigerado Internet Explorer (IE). Dez anos depois, o Chrome lembra muito o que o IE era na época de seu lançamento.

Segundo a W3Counter, em agosto de 2008 o Internet Explorer tinha 60,4% do mercado. No último mês, o gráfico mostra o Chrome na liderança com 60,3%. O IE, somado ao seu sucessor, o navegador Edge, amarga o quarto lugar, com apenas 6,7% do mercado de navegadores web. Há uma década, 3/4 dos usuários da web usavam computadores com Windows XP, que tinha o IE como navegador padrão. Hoje, todas as versões do Windows somam 1/4 dos usuários; é o Android do Google, que traz o Chrome pré-instalado, quem domina esse ranking paralelo.

Gráficos de uso de navegadores web em agosto de 2008 e 2018.
Gráficos: W3Counter.

A semelhança entre Chrome e IE vai além do domínio exercido e da influência herdada dos sistemas operacionais mais populares. As práticas agressivas também são similares. Serviços do Google e de algumas outras empresas não funcionam direito (ou de maneira alguma) em navegadores que não sejam o Chrome. Nos anos 1990, muitos sites exibiam no rodapé dizeres como “Melhor visualizado no Internet Explorer”. Hoje, mensagens do tipo em referência ao Chrome são mais raras, mas quando aparecem elas ocupam o lugar do site que o usuário pretendia visitar.

O Chrome conseguiu replicar os vícios do IE dos anos 2000, mas não só. Ele também criou outros problemas. O maior é fruto do modelo de negócio do Google, a vigilância das pessoas. Usar o Chrome é fornecer ao Google um relatório detalhado de toda a sua atividade na web. Esse tipo de dado está entre os mais íntimos que alguém pode gerar na internet. Naquele campo de texto contamos os nossos anseios, medos, segredos e esperanças na forma de consultas feitas em buscadores — muito provavelmente o do Google, aumentando a onisciência da empresa.

Ainda assim, seria injusto comentar os dez anos do Chrome sem mencionar as suas contribuições à web. A ideia de separar cada aba em um processo distinto, por exemplo, evitando que o navegador inteiro trave quando um site trava, é genial — embora fomente a insanidade de manter eternamente +40 abas abertas. O modo anônimo (que não é anônimo) e a omnibox, que unifica barra de endereços e de busca, também foram introduzidos pelo Chrome. E o visual, ah, o visual do Chrome original, limpo, apenas com os botões necessários, feito para que os sites brilhassem. Lançou tendência. Apesar de tudo, obrigado por isso, Google.

A primeira versão do Chrome.
Bons tempos! Imagem: Lifehacker.

Em 2018, embora aquele gráfico ali faça parecer que sim, o Chrome não é unanimidade. Mesmo entre aquela maioria que o usa. Muita gente diz não gostar dele, mas que “não consegue largar”. Um cara do Gizmodo americano até escreveu um textão sobre isso. Bobagem, você consegue sim. Nunca estivemos melhor servidos de navegadores web.

O Firefox surgiu um pouco antes do Chrome, também durante o reinado do IE. Era ótimo, piorou um bocado no início dos anos 2010 pela má gestão da Mozilla, voltou a ser ótimo no final de 2017, com o foco realinhado para a missão original: ser um ótimo navegador. É. Baixe e veja por si mesmo.

Se você tem um iPhone ou Mac, é difícil ignorar o estupendo Safari. Há muitas vantagens competitivas em ser uma empresa trilionária e algumas poucas beneficiam o usuário final. No caso do Safari, a Apple recheia ele de recursos que impedem a vigilância de empresas de publicidade, incluindo Facebook e Google. Seus usuários percebem o valor da privacidade e a empresa corresponde porque não depende dessa vigilância, nem de agradar o Google, para lucrar. E isso sem ignorar o básico: o Safari é um ótimo navegador, muito rápido, bonito, bem feito. Use-o se puder.

Até o Edge, sucessor do IE com versões para Windows 10, Android e iOS, está ficando usável após anos patinando na falta de recursos básicos e instabilidades imperdoáveis. Paul Thurrott, veterano jornalista especializado na Microsoft, escreveu que a atualização de outubro próximo do Windows 10 trará tantas melhorias ao Edge que ele sente que a maioria das pessoas poderá usá-lo sem transtornos no lugar do Chrome ou do Firefox.

Em tempo: para celebrar o décimo aniversário do Chrome, o Google liberou a versão 69 do seu navegador com um novo visual mais moderno. Deve agradar aos usuários que se mantêm fiéis a ele seja por estarem mergulhados no ecossistema do Google, por indiferença ou por alguma necessidade específica.

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