Um viciado em telas no divã
Alguns meses atrás, em uma sessão da terapia, comentei a hipótese de ser viciado em telas. A psicóloga perguntou o que eu faço quando não estou olhando para elas. Consegui elencar poucos itens — todos simplórios, alguns patéticos, como “lavar louça”.
Ela disse que é comum que viciados, ao reconhecerem o vício, se vejam em um vazio existencial. Acho que não há margem para dúvidas em reconhecer “lavar louça” como sinal de um enorme vazio, não?
Dei-me conta desse problema ao ler estes três parágrafos publicados pelo Dave Rupert, que tomo a liberdade de traduzir:
Tive uma pequena e incômoda epifania dia desses: computadores e internet provavelmente me fazem mal. Digo, para além do conselho genérico de “sair da frente da tela”. Do ponto de vista do TDAH e da ansiedade generalizada, computadores e internet viraram fornecedores infinitos de veneno para o meu cérebro — feeds cheios de doses constantes de dopamina com catastrofismo por todos os cantos.
É difícil aceitar isso porque grande parte do meu trabalho, hobbies, formação, entretenimento, notícias, comunidade e curiosidades estão na internet. Eu amo a internet, ela é uma parte grande de quem sou hoje, mas entendo como suas estruturas de incentivos me prejudicam. Ainda não planejo me desconectar e viver no mato, mas isso me inspirou a criar uma “ordem de prioridades” para minhas mãos ociosas e os momentos de descanso:
Instrumentos musicais acima de blocos de papel, acima do notebook, acima do tablet, acima do celular.
Mais gente se identificou. Jim Nielsen:
Pelo comentário do Dave, tenho essa sensação lá no fundo de que a internet e os computadores não necessariamente se alinham com a minha própria visão do que é uma vida bem vivida para mim. Meu entusiasmo e atração por eles também costumam me deixar com a sensação de que “fui longe demais nisso”. Ainda não encontrei um equilíbrio saudável (mas também estou bem).
Sites especializados em tecnologia têm uma estranha obsessão por dispositivos que prometem nos dissuadir de telas, em especial as de celulares. São “dumb phones”, modelos que se parecem com o Kindle, aplicativos para restringir o acesso a apps viciantes e por aí vai. Passada a empolgação inicial, nada disso funciona. É quase um mantra neste Manual afirmar que mais tecnologia não costuma ser a saída para problemas causados pela tecnologia.
Por coincidência, o último episódio do podcast vibes em análise abordou o tema “compulsões digitais”. Elas se manifestam de várias maneiras, das manjadas (redes sociais) às mais recentes (bets/apostas).
Eu não me encaixo nos tipos debatidos pelo André e Lucas, apresentadores do podcast. Mal uso redes sociais porque não me atraem mesmo, e nunca apostei em nada — na verdade, tenho ojeriza a apostas de qualquer natureza.
Para mim, o prazer da tela decorre da “contenção” do espaço que ela exibe: meu computador, meu celular, meu site, minha lista de coisas para ler. Por vezes me pego obcecado com tolices, do tipo organizar diretórios e arquivos, processar itens não lidos em vários apps, mexer no leiaute deste blog. Em doses moderadas, elas funcionam como reguladoras de humor. Ainda que “inútil”, são calmantes.
O problema é quando exagero na dose. A já folclórica inquietude com o leiaute deste blog, por exemplo, atingiu níveis críticos no final de 2024. Vi-me ignorando a escrita para ficar ajeitando píxeis em que ninguém repararia.
Também tenho alguns arroubos morais relacionados a consumo, os quais não consigo justificar e que, como efeito indireto, me grudam ainda mais às telas, levando a uma “ressaca” carregada de arrependimento.
Virou piada aqui em casa o tanto de vezes que prometi trocar o iPhone por um Android e o MacBook por um notebook com Linux, porque são softwares abertos, ao contrário dos da Apple, proprietários. Quando entro nessa piração, passo dias pesquisando modelos, aplicativos alternativos, tentando encontrar soluções para problemas hipotéticos, imaginado “como seria/será”. Até que desisto. Muito complicado, não vale a pena; não tenho do que reclamar das coisas que uso.
Em duas oportunidades — início de 2024 com um celular Android e fevereiro deste ano com um ThinkPad com Linux —, eu não me adaptei. Digo, eu conseguiria me adaptar e usá-los, mas com os dispositivos à mão bateu uma preguiça violenta. Por que me dar essa trabalheira desnecessária? Tenho tanta coisa mais útil ou agradável para fazer…
Estou fugindo do assunto. Voltemos.
Como em todo vício, acho que tomar consciência do problema é o primeiro passo para tentar saná-lo.
Consigo identificar alguns avanços nesses dois meses desde que aceitei a minha adicção por telas. Ajuda que esse combate engloba outro que já travo há mais tempo, o de desacelerar e tentar viver em uma velocidade mais humana, menos maquínica. A meditação também tem ajudado.
Talvez não seja coincidência que tanta gente esteja se dando conta disso quase ao mesmo tempo. E é por isso que decidi desengavetar este rascunho meio tosco, meio embaraçoso, que estava juntando poeira digital há uns dois meses, e publicá-lo.
Não estamos sozinhos. Não somos esquisitões. (Ok, talvez um pouco.) O meu caso é ameno comparado a drogas mais pesadas, como redes sociais e bets. Seria até deselegante compará-lo a elas. Temos, porém, um ponto em comum: o digital, a internet e todo o aparato criado para nos segurar o máximo possível olhando para telas, vivendo um episódio particularmente ruim de Black Mirror.
Sobre os arroubos de moralidade (que não têm solução definitiva), no momento o meu pensamento é o seguinte:
Percebo que faço um looping como o seu, e já instalei distribuições Linux, mudei de e-mail e fiz várias outras mudanças drásticas, às vezes em uma tentativa de modificar hábitos que tomou fins de semana inteiros configurando um novo dispositivo, novos softwares, novas migrações, etc. Fui até estimulado pelas melhores intenções de comunidades online e “webamigos”. Tudo faz sentido! Não podemos estar errados…
Mas, como o seu texto já diz, isso mais me prendeu à tela do que me libertou. Entendi, então, que o movimento enganchava em cinco lugares:
* Um “software padrão” que não pode ser abandonado: a suíte de escritório da empresa, o formato de arquivo incompatível, o chat que todos usam, a rede social na qual os restaurantes deixam os cardápios.
* Um “software alternativo” que se torna redundante ou um hobbie: o LibreOffice que é usado “sempre que possível”, o Signal que enfeita a tela sem ter outros usuários para alguma conversa, o Linux que toma o tempo na solução da compatibilidade;
* A confusão da liberdade com o minimalismo: o “software alternativo” se soma ao ecossistema anterior, não o substitui, e isso entra em choque com a sensação de “menos é mais” que costuma acompanhar a busca pela fuga das big techs;
* O custo por alternativa: não dificilmente, R$ 200 mensais podem ser gastos em alternativas privativas a serviços gratuitos, sem que isso implique o abandono factual da big tech. O custo não é mais que uma ou duas saídas à noite, mas também é um gasto que poderá se mostrar impertinente aos poucos;
* A maldição do rabbit hole: a mais fácil de evitar para os repetentes da causa moral no digital, que é a criação de critérios cada vez mais rígidos até que tudo pareça insuficiente.
Assim, me peguei elaborando melhor um clichê: o de que o plano individual e de consumo, por mais que invistamos nele, não dá conta de vencer a luta contra uma web que já tem a big tech em sua infraestrutura. Os motivos são comportamentais/populacionais, de estrutura técnica profunda e até de hábitos individuais (sensibilidade).
No plano individual, há essa sensibilidade que desenvolvemos. Imagino que para você o ThinkPad deva parecer um trambolho ao lado da delicadeza do Mac, e, pra mim, admito que o Linux é um rascunho ao lado dos recursos gráficos do Windows.
O fato é que, assim como a Globo brincava com o bordão “Isso a Globo não mostra!”, a alternativa às big techs não são muito mais do que uma brincadeira diferente, mas que ainda se dá no centro do mesmo espetáculo (chamando o Guy Debord para a conversa).
Nesse sentido, o gesto mais coerente com o que queremos está quase sempre atrás da cadeira. Assim, tenho entendido que é preciso simplesmente cultivar o abandono da tela aqui e ali. Não para sair do espetáculo, porque dele não se sai, mas para poder sobreviver um pouco melhor.
O campo da web parece um lugar denso demais para que consigamos desemaranhar os fios. É para onde o capital contemporâneo e sua obsessão pelo superávit comportamental mais tem olhado.
Ainda que tenhamos alguns bons botes salva-vidas, como o Manual, e, dolorosamente, o maltratado software livre e open-source, eles são por natureza insuficientes – e, curiosamente, isso não nega o quanto são tesouros importantíssimos.
E se o próximo texto do clube de leitura fosse “Sociedade do Espetáculo”? (Sugerindo mesmo que ainda não tenha aparecido nenhuma vez por lá)
“Assim, tenho entendido que é preciso simplesmente cultivar o abandono da tela aqui e ali. Não para sair do espetáculo, porque dele não se sai, mas para poder sobreviver um pouco melhor”
Putz, é isso, totalmente isso.
“E se o próximo texto do clube de leitura fosse “Sociedade do Espetáculo”? (Sugerindo mesmo que ainda não tenha aparecido nenhuma vez por lá)”
E isso também, assino embaixo!!! Onde coloquei meu exemplar mesmo?…
;-)
+1 para o clube do livro de Debord!
Eu estou acabando de revisar um livro da Best Seller chamado “Dopamine Kids”, que é voltado para pais. Tem muita coisa que os não pais vão achar abobrinha, e outras que os pais vão achar que a autora mora em Nárnia. Mas o bom desse livro é o embasamento (a autora é bioquímica e escreve para a NPR) e o tanto de fontes que ele fornece para quem quer entender como nós somos viciados em celular.
A primeira boa dica é “Addiction by Design”, da antropóloga Natasha Dow Schüll, que mostra como se comportam (e o que provocam) jogadores compulsivos e como tudo o que a indústria de cassinos usou para prender as pessoas em frente às máquinas caça-níqueis eletrônicas e videopôquer se transferiu para o Vale do Silício e a emergente indústria de apps.
Depois temos todas as pesquisas que embasam como nos viciamos (começando lá atrás, com experimentos sobre circuitos de dopamina) e quem hoje fala sobre isso (como Tristan Harris).
A lista de fontes ao fim do livro é substancial e muito boa.
Oi Rodrigo! Sempre boas essas reflexões, li algumas aqui sobre ser offline o máximo possível. O legal é ter essa consciência, isso já ajuda bastante. Porque tentar dosar o uso de telas é possível, mas sabemos que é difícil. Até no ponto de ônibus na rua tem uma tela com propaganda. No meu caso, não uso tanto o celular (quem me conhece sabe que é só ligar, mandar um SMS ou envia um e-mail que acessarei em casa), mas digito no notebook praticamente o dia todo. Então, evito muito tempo na TV, leio livros físicos, vou a eventos presenciais, filmes só no cinema e também desenho, converso bastante com meus pais e saio sozinha. Mas, como mulher periférica que vive em São Paulo, essas saídas são bem programadas e pelas manhãs. Meditar é bom lavar a louça meditando melhor ainda. Não se culpe, gente, o importante é ser consciente e criar suas estratégias para conviver com (menos) telas. Sucesso!
Rapaz, não tem muito a ver com “vício por telas”, porém, eu já to há quase 1 mês (ou mais) pesquisando iphone 13 mini no olx (tenho um 15 pro) para “usar menos o celular”, alternando com momentos pesquisando o iphone air – incoerente, não? De um lado, pesquisando um telefone antigo mas que ainda dá conta do recado, do outro, um topo de linha moderno (embora não seja o pro). Paralelamente, estou pesquisando câmeras fotográficas melhores que as de celular… Esse capitalismo nos pega de jeito mesmo. No fim das contas, somando tudo, vai aí uns 10 ou 15K para continuar no mesmo lugar que estou agora… Achando que uma câmera dedicada vai trazer o “prazer de fotografar” e não ficar estocada em um canto após 15 dias da novidade “gastar”.
Ainda dá tempo de abortar o plano!
Fotografia é um hobby caro! E tecnicamente exigente.
E envolve editar a foto depois, o que, para mim, é o que elimina todo gosto.
Mas é muito pessoal, de repente um pouco de distância do celular já é o suficiente para retomar o teu gosto pela fotografia. Certamente a possibilidade de controle de abertura, velocidade, ISO e as estéticas que isso permite pode ser a diferença que você precisa.
Pois então, tava olhando a R50 da Canon, aí a lente que vem nela já não é aquilo tudo, aí fui pesquisar uma lente 35mm ou 50mm equivalente (já que o sensor dela é APS-C) e uma tava 2 mil e tanto e a outra uns 4 mil kkkkkkrying… Aí fui ver o preço da “compacta premium” da canon, a powershot g7x… tá custando o preço de duas R50! Não faz o menor sentido! Sensor menor, sem possiblidade de trocar lentes, sem viewfinder… essas coisas que me fazem voltar à razão.
Ah, antes de finalizar, fui olhar o preço de um rolo de filme 35mm de 36 poses pra usar em uma lomo que tenho… 120 reais… se bobear tá mais caro que a câmera de “prástico” hahaha que absurdo!
Concordo Rafael. Eu “larguei” a fotografia por ter que passar horas na frente do computador para editar as fotos. Quase entrei no looping de querer comprar um monitor maior e/ou um computador mais potente. O resultado final vale o esforço, confeso, mas só de pensar em ficar um fim de semana em casa na frente do computador para editar mais de 1000 fotos e desanima demais.
Pois é.
Qualquer evento tu dispara 400, 500 fotos fácil. Só triar já dá trabalho; mesmo que tenha presets pra aplicar, ou editar e aplicar em fotos sob mesma posição, é… chato.
Pensei um dia desses de fazer um experimento: é digital, mas só posso levar uma lente e só posso voltar com 36 fotos (simulando um rolo, né).
Não fiz ainda. Mas, poxa, a máquina está parada, então, de repente, vou encarar.
Fotografo pouquíssimo e só me dou a esse trabalho de edição se for usar as fotos para alguma coisa (compartilhar/publicar em algum lugar). A foto original e as ferramentas de edição sempre estarão disponíveis; não vejo motivo para passar tanto tempo editando fotos que, se duvidar, ninguém nunca mais vai ver.
Lembrei desse vídeo. Pode se encaixar no que o Ghedin e outros estão vivendo: https://youtu.be/2NO1PckKrME
Tenho compulsão por comida. Desinstalei ifood e reduzi drasticamente os pedidos.
Ao menos a compulsão por comida feita em casa não me dá prejuízo e é mais saudável.
Sobre redes sociais… O problema é que até as versões web agora estão boas e navegáveis. Apenas apagar o app não foi suficiente, excluí a senha do navegador para não poder logar, mas aí era muito drástico, precisava ter informações de amigos (mandam mensagem por lá.)
A solução foi usar um app modificado do instagram. Feed bloqueado, mas dá para mandar e receber msgs.
Se o smartphone não é ferramenta obrigatória no seu trabalho, experimentem sair um dia sem ele. Apenas um único dia deixem ele em casa. Que sensação esquisita, parece que ficou um braço para trás.
Qual seria esse app modificado para acessar o Instagram?
Instale via obtanium
https://github.com/jean-voila/FeurStagram
Ótima reflexão!
Acredito muito no “caminho do meio” budista. Acho que há como equilibrar o digital com o offline/analógico, sem se abster totalmente de um ou outro.
Nos últimos tempos tenho conseguido, bem aos poucos, fazer atividades mais analógicas, como escrever um diário num caderno, ler livros físicos (que acho imensamente mais prazerosos que via telas, apesar de ler também no kindle), às vezes comprar jornais e revistas impressas pra ler na varanda numa tarde de sábado. Ao mesmo tempo, ler jornais, artigos e blogs online me entretém, me estimulam muito intelectualmente e me dão acesso a conteúdos que seriam impossíveis analogicamente.
Vez ou outra também tento atividades mais artísticas, como fazer workshop de cerâmica (imensamente prazeroso, foi a última vez que entrei no famigerado estado que chamam de “flow”); ou aprender a desenhar com lápis e papel (via curso online, hahah); ou brinca um pouco com o violão. A sensação dessas atividades é bem diferente e difícil de explicar, mas parecem um pouco como um foco fluido, imersivo, e extremamente gratificantes. Ao mesmo tempo, jogar videogame numa televisão no sofá com minha namorada se tornou um ótimo momento de tempo de qualidade juntos e também me proporcionam um estado imersivo e contemplativo.
Acho que é mais um lance de ter mais opções de atividades e ir sentindo qual é o momento e a vontade para cada uma delas. E não ter medo de experimentar. Ou então experimentar mesmo com receio.
Outro ponto é que, para algumas pessoas, é mais difícil sair de casa pra fazer algo fora, por inúmeros motivos. Dentre eles, está o fato de que em algumas cidades, não há muitas opções de lazer. Por outro lado, em grandes cidades, às vezes o custo e o risco (não apenas financeiro) de se locomover para encontrar pessoas acaba sendo um fator desestimulante a sair.
Outro motivo é que à medida que envelhecemos, mais tempo é dedicado para a família nuclear do que a uma rede de amigos que, por sua vez também estão na tendência de terem seus próprios afazeres familiares. Há um gráfico que vi certa vez sobre com quem mais passamos tempo da vida à medida em que envelhecemos, que demonstra que, em geral, o tempo com amigos vai diminuindo na transição da vida de jovem para adulta, e o tempo com companheiro/a vai aumentando gradativamente. Nada nos impede de sairmos sozinhos, mas as pessoas em geral acham menos agradável.
Enfim, acho que esse debate envolve muitas variáveis, tanto a nível individual quanto estrutural da modernidade.
Desejo boa jornada a nós!
O gráfico que citei: https://www.voronoiapp.com/demographics/Who-Do-Americans-Spend-Their-Time-With-846
Putz, eu também me sinto assim, viciada em telas (ou compulsiva, vá lá) – quem não está assim, com o tanto de smartphones no mundo contemporâneo?
E venho tentando diminuir o tanto que fico conectada, ainda que meu dia a dia seja todinho baseado nalgum computador (laptop, desktop, celular, pode escolher)… que desafio imenso!!!
Rede social (daquelas mais tradicionais) tenho acessado cada vez menos… um problemão, porque meu negócio pre-ci-sa ser visto. Amigas se ressentem, fico sem saber o que anda acontecendo na vida de pessoas queridas… e uma certa ressaca (o tal vazio, será?) me perpassa toda…
Daí lembro que somos seres sociais e que a internet serve pra nos conectar (tipo a gente aqui) – como seguir com equilíbrio?
Não tenho respostas, só mais perguntas.
Me lembrei de um trecho do livro Futuro Ancestral do Ailton Krenak (lido com atraso para o clube de leitura do Manual) que me impactou muito quando eu li, tanto que até salvei em minhas anotações:
(sobre o ambiente digital) – “você se dedica a esse ambiente por horas a fio e acha que está movendo alguma coisa, mas na verdade podemos ficar ali a vida inteira e não mover nada”
Eu tenho essa mesma sensação de vazio quando passo horas no computador achando que estou fazendo algo útil, ou pior, que vou configurar as coisas para fazer algo muito útil no futuro.
Também praticamente não uso redes sociais, mas tendo a achar que preciso ler todos os textos de blogs e jornais para me informar e aprender coisas novas, e no fim não tenho nada de novo para contar pra ninguém, fora uma frustração e revolta com o mundo. Não é muito diferente do scroll infinito.
Descobri isso este ano quando comecei a utilizar ferramentas analógicas pra escrever e me organizar. O computador fornece estímulos demais, ainda mais pra cérebros neurodivergentes. Minha saúde mental melhorou consideravelmente ao migrar pra um sistema analógico.
Sou da opinião de que o problema vem antes do smartphone: a Internet não fez bem pra humanidade. Ela resolveu uns 50 problemas enquanto criu 10 mil que não existiam.
Depois veio smartphones e a coisa ficou pior…
Vi uma frase não sei onde outro dia:
“Quando os telefones estavam presos na parede, a humanidade estava livre”.
É ao mesmo tempo bom e ruim saber que nós e vários outros estamos lidando simultaneamente com o vício em telas.
Tenho compilado reflexões sobre vida digital vs analógica, que pretendo ir publicando no blog.
É mais difícil ainda para quem trabalha na internet, com a internet. Iniciativas similares à Small Web (Kagi) parecem promissoras porque propõem que as porções da internet feitas por e para humanos deem as mãos
“São ‘dumb phones’, modelos que se parecem com o Kindle, aplicativos para restringir o acesso a apps viciantes e por aí vai. Passada a empolgação inicial, nada disso funciona. É quase um mantra neste Manual afirmar que mais tecnologia não costuma ser a saída para problemas causados pela tecnologia.”
Como usuário de dumb phone a mais de um ano (completo 2 anos em setembro) acho meio errado generalizar. “Nada disso funciona” pra quem? E talvez seja uma posição meio específica. Só penso isso pq funcionou pra mim, mas acho que da pra dizer o mesmo da posição do texto.
Acho legal que pessoas tentem diferentes métodos, não acho que tem uma bala de prata, o que funciona pra uns não funciona pra outros. Melhor então ir tentando tudo. Até porque, parece que o vício em tela tem motivos bem diferentes. No texto, você fala que não usa redes sociais. Será então que a solução para seu caso vai ser a mesma de uma pessoa que usa?
No meu caso, meu problema era simplesmente procrastinação. O uso de tela me incomodava por roubar o tempo que eu gastava fazendo atividades que gosto, tipo cozinhar, ler e até jogar (pra mim usar tela só é um problema quando é uma atividade passiva, cada um resolve o problema que tem). Ter um dumbphone ajudou nisso tanto quanto ter um DSi, que é uma tela mas por ter um uso muito limitado meio que me obriga a usar ela pra fazer algo que considero produtivo.
Sinto o mesmo. Vivi o momento áureo de conectar à Internet com um modem US Robotics, lembro até hoje da sensação de abrir o site do ‘Cadê?’ pela primeira vez. Momentos marcantes de uma revolução tecnológica que não existem mais.
A hiperconectividade que tanto me admirou, hoje me assusta. É muito fácil estar em contato com alguém do outro lado do mundo, mas ao mesmo tempo tão dificil se conectar com quem está por perto.
É normal com a idade e com as responsabilidades (trabalho, filhos, contas) nos sentirmos meio perdidos na vida, mas acredito que com o excesso de conectividade isso tem se intensificado, e cada vez mais cedo: fico me perguntando o que será da mente das crianças de hoje que raramente se encontram fisicamente para brincar após a escola, pois ficam mergulhadas no mundo das telas desde muito cedo, replicando o mundo conectado dos pais.
Também tenho esse vício. Ainda é meio constrangedor pra mim admitir.
A conexão que faço com minhas insatisfações psicológicas é que computador ou eletrônico em geral são um campo paradisíaco control freak. Como tudo ali, teoricamente, é exato, seria possível chegar num nível de controle (ajustes e customizações) impossível na vida real. No fundo, isso é uma compensação ridícula (falando de mim) para a insegurança com a vida. Depois que reconheci isso, ficou muito mais fácil reduzir esse suposto hobby.
Legal o texto Ghedin mas eu tenho ressalvas quanto a ideia de tratar como vício esse tipo de atitude que temos em relação à telas. Me soa muito como o tratamento ao vício em drogas e pornografia: muito achismo e muito ruído pra algo que sempre existiu (escapismo) só que tinha outras ferramentas (jornais, livros, puteiros, trabalho) antes de termos acesso à internet. E eu digo isso porque essas questões indiretas do suposto vício em telas é algo que percorre a humanidade desde os pré-socráticos. A mente humana é desenhada assim (talvez?) e em cada geração surge algo novo pra ser o nosso vício. Como eu disse já foi jornal, livro, puteiro, religião; o comportamento compulsivo (que é o mais correto de usar aqui ao invés de vício) em relação a algo parece (achismo sem base intelectual) algo humano mais do que capitalista ou moderno. Provavelmente vemos esse problema de telas e acesso à internet como muito maior do que ele realmente é porque, atualmente, somos nós inseridos nesse contexto. Damos muita importância aquilo que nos afeta diretamente ou que vivenciamos diariamente (nesse caso, o acesso à telas).
Vale a reflexão quando isso interfere na nossa vida pessoal e rouba tempo com família (filhos, companheira, pais) ou interfere diretamente na nossa parca capacidade de viver em uma sociedade, mesmo que doente, que nos cobra um alto preço biológico (acordar, consumir, comer mal, ser produtivo por 8h diariamente etc).
Isso. Não chamaria de vício a não ser que esteja atrapalhando a fazer outras coisas. E mesmo assim “vício em telas” parece muito genérico. Redes sociais, games, leitura de ebook, filmes… Tudo é tela, mas cada uma é uma coisa diferente.
Importante esta reflexão.
Eu costumava dizer que o computador não melhora nem piora ninguém, só amplifica.
Tu é desorganizado? Vai ficar mais desorganizado (tinha um amigo que salvava todos os arquivos do Word na área de trabalho sem mudar o nome padrão — 0001.doc, 0002.doc…). É paranóico? Vai ficar mais paranóico? Tem TOC de organização? Vai achar mais ferramentas para isso.
Eu sou viciado em informação. Eu assinava a Veja e devorava assim que chegava (falei em voz alta? Ok, 30 atrás, tá, tenham compaixão). Ou um jornal. Eu lia bula de remédio, cartaz de instruções de incêndio em hotel, enciclopédia verbete por verbete. Com a internet isto se amplificou exponencialmente, mas não nasceu com ela.
Não é limitando o tempo no celular, usando o tablet só para livros que melhoro isso. É parte do que sou, e se pretendo melhorar (para fazer outras coisas que gosto) preciso trabalhar a raiz do problema, não os meios. O complicado: trabalho na frente do computador conectado todo dia. Eu lembro quando programava offline, sei que minha produtividade e foco eram outros.
Matar o traficante não acaba com o vício nem com a droga. Só muda o trajeto.
Tanto que eu consigo passar uma manhã sem olhar o celular, ou manter horas de conversa sem nem tirar do bolso. Mas se estou trabalhando a tentação de F5 no hackernews ou no Órbita está a uma aba de distância. Preciso tirar um cochilo, o celular vai junto. Enfim, há gatilhos demais.
Nossa como tem sido complexo reconhecer que possivelmente o vício em telas possa estar me conduzindo para uma vida diferente daquela que gostaria. É triste perceber que somos cada vez mais passageiros em nossa própria existência, navegando de acordo com a maré, sem forças para nadar contra ela.
Escelente texto, me arrisco a dizer que é uma reflexão necessária nos dias atuais e também uma triste realidade que não se pode evitar sem muito esforço, abdicação e se arriscando a parecer estranho em comparação aos outros.