Como as tecnologias de conexão nos separam

O subtítulo de Superbloom, livro mais recente do escritor estadunidense Nicholas Carr, pode surpreender quem nunca parou para questionar ou mesmo observar os meios de comunicação: “Como as tecnologias de conexão nos separam.”

Soa contraditório, não? Sim, mas faz sentido. Com o texto delicioso que lhe é característico — e que, vez ou outra, nos é oferecido em sua newsletter —, Carr repassa a história das tecnologias de comunicação sob uma nova perspectiva, uma em que, por causa do desenvolvimento focado em eliminar atritos e acelerar a velocidade da informação, deteriora o corpo social.

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Fadiga de notificações, ou seria de jornalismo?

O Guardian pescou um dado interessante (dentre os muitos interessantes) da edição 2025 do Digital News Report, talvez a maior pesquisa sobre a imprensa do mundo, produzida anualmente pelo Instituto Reuters:

Análise do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo descobriu que 79% das pessoas pesquisadas sobre o assunto ao redor do mundo disseram que não recebem atualmente nenhum alerta [notificação] de notícias durante uma semana comum. Mais importante, 43% daquelas que não recebiam alertas disseram que os haviam desativado deliberadamente. Elas reclamaram de receber muitos alertas ou de não achá-los úteis, de acordo com a pesquisa, que abrangeu 28 países.

Houve uma época, ali por volta de 2014, em que as notificações do celular eram encaradas como “área VIP”, local de disputa pela atenção das pessoas, àquela altura já saturadas pelo volume de informações do digital.

Sem surpresa, a área de notificações também acabou saturada e descartada como mais um lixão digital. Suspeito que muita gente nem ligue para o que tem ali, acumulando dezenas, centenas de notificações não lidas, ignoradas.

O enfoque óbvio da pesquisa do Instituto Reuters, o jornalismo, me fez lembrar de um textinho ótimo do Ricardo Fiegenbaum, pesquisador do objETHOS, da UFSC. Um texto nada acadêmico (no melhor sentido), em que ele pensa alto o lugar do jornalismo hoje:

É nesse terreno minado, paradoxal, complexo e incerto que adentro quando penso o jornalismo. E cada questão que se apresenta neste cenário – lógicas, ideológicas, pragmáticas, tecnológicas, discursivas, etc. — leva-me sempre à pergunta fundamental: do que estamos falando quando falamos de jornalismo?

É uma boa pergunta.

Suspeito que a fadiga transcende as notificações e que boa parte do que se entende por “jornalismo”, hoje, escapa a uma das definições mais nobres do ofício, uma que o Ricardo menciona: atender às necessidades de informação das sociedades.

Do arquivo: em 2022, à luz da edição daquele ano do Digital News Report, me perguntava — ecoando Caetano — quem é que lê tanta notícia.

Contra curtidas e métricas na internet

Eu nunca te pedi nada neste podcast — nem para curtir, avaliar ou comentar. Continuarei assim. Neste episódio, dou uma filosofada sobre curtidas e métricas na internet.

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Alguns links citados:

Facebook Demetricator, por Ben Grosser.

Building a slow web, coluna do Greg Sarjeant na Good Internet.

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Aproveite que está curtindo, dando estrelas e comentários para o podcast, e considere assinar o projeto. Custa só R$ 9/mês ou R$ 99/ano e ajuda um bocado!

Entre a Meta anunciando que sua IA, Meta AI, atingiu 1 bilhão de usuários e o Google que os AI Overviews são usados por 1,5 bilhão, fico curioso em saber quantas dessas pessoas fazem o uso intencional do recurso, ou que preferem-no àqueles que a IA substitui.

Os AI Overviews aparecem no topo das buscas, sem opção de desligamento. O Meta AI suspeito que muita gente aciona sem querer ao tocar naquele botão horrível no WhatsApp, nos resultados da pesquisa dos três apps ou ao tentar marcar uma pessoa em um grupo digitando uma arroba.

Muito fácil chegar a números enormes quando já se tem uma plataforma gigante. Acho que isso nem entra na discussão. A questão é alardeá-los como tais números fossem conquistados, e não impostos.

Tudo bem se você usa o ChatGPT para escrever

Eu não me importo se você usa o ChatGPT ou qualquer outra IA generativa para escrever. Não faz diferença, no fim das contas. O preciosismo com que muitos tratam o assunto (incluindo eu, até pouco tempo atrás), como se houvesse alguma qualidade intrínseca digna de preservação no texto puramente humano, é infundado.

Sei que é uma opinião polêmica. Peço, além da sua paciência, que a encare num sentido estrito, ou seja, que desconsidere outras questões que orbitam o assunto, como a ética e a ambiental. Dito isso, a seguir tentarei justificá-la.

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O sumiço dos celulares pequenos

O Bruno, de Florianópolis (SC), perguntou:

Ghedin, você acha que os celulares pequenos, que são bons de usar em uma só mão, viraram coisa de nicho? As grandes empresas largaram mão de fazer celular pequeno e só tende a crescer ou estabilizar nos tamanhos atuais?

Ótima pergunta! É quase um meme o fato de que, semana sim, semana também, alguém pergunta no Órbita se existe algum celular pequeno sendo vendido. Do meu lado, uma experiência recente e ruim com um celular gigante fez eu voltar a minha atenção a essa lacuna no mercado.

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De saída do Mastodon: alguns comentários

por Rob Shearer

Texto publicado originalmente no blog do Rob Shearer em 10/4/2025.

Nota do editor: Embora eu seja afeito ao Mastodon e aposte no ActivityPub há muito tempo (o primeiro post do assunto aqui saiu em 2019), eles estão longe de serem uma solução perfeita. Não concordo com todos os argumentos do Rob, o que não os invalida. Pelo contrário: alguns verbalizam incômodos subjetivos que tenho com o protocolo e outros foram revelações desconfortáveis, mas importantes. Espero que a tradução do textão dele nos ajude na eterna busca por melhorias.

Estou desativando os robôs do Mastodon que usava para publicar os horários do nascer e pôr do Sol. O evento que precipitou isso foi que o administrador da instância que hospeda essas contas exigiu que elas se tornassem praticamente impossíveis de descobrir, mas o motivo subjacente é que ficou cada vez mais claro que o Mastodon não é, e nunca será, uma boa plataforma para “notificações efêmeras assíncronas de qualquer tipo”. Eu também argumentaria (de forma mais controversa) que simplesmente não é uma boa infraestrutura para redes sociais de qualquer tipo. Há muitas pessoas interessantes usando o Mastodon, e tenho certeza que ele continuará como um espaço satisfatório para certos nichos. Mas não há dúvida de que ele jamais oferecerá a diversão do Twitter em seus primórdios, muito menos a vivacidade do Twitter durante sua fase de crescimento. Já faz tempo que removi o Mastodon da minha tela inicial e migrei para o Bluesky para redes sociais focadas em texto.

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Sem Instagram, sem privacidade

Ao nos transformarmos em divulgadores das nossas próprias vidas no digital, novos dilemas sociais emergem. (A essa altura não tão novos, mas ainda difíceis de lidar.)

Neste post solitário (é o primeiro e único do blog; em inglês), a pessoa reflete sobre a situação em que alguém publica fotos dela no Instagram e um terceiro, conhecido de ambas, fica sabendo da reunião delas:

Nos últimos meses, notei várias vezes como as pessoas sabem mais sobre a minha vida do que eu conto a elas ou do que provavelmente ouvem dos outros. Por exemplo: aonde viajamos no último fim de semana e com quem. Como elas sabem? Instagram. Uma postagem de um terceiro dessa viagem. Claro. Você não precisa estar no Instagram para estar no Instagram.

Como atender às expectativas de um público tão diverso, mesmo que composto por pessoas do seu convívio? Fotos de viagem ou de uma festa são interpretadas de maneiras diferentes por sua família, seus amigos, colegas de trabalho e chefe.

Acho eu que existem dois caminhos: ignorar as consequências (sociopatia?) ou “pasteurizar” o conteúdo para tentar agradar a todos (impossível, mas dá para chegar perto).

E, mesmo assim, não se escapa de outros dilemas:

Imagine um amigo com quem você foi foi viajar no fim de semana. Esse amigo conversa com outro amigo em comum. Esse amigo em comum poderia muito bem ido com vocês na viagem, já que você gosta dele, mas, devido a circunstâncias da vida, você não o convidou. Você provavelmente se sentiria desconfortável ao ver esse primeiro amigo falando sobre a viagem como se tivesse sido a melhor viagem de todas, onde todos se divertiram horrores e agora todos que estavam lá viraram melhores amigos para a vida toda.

No entanto, essa é a impressão que uma postagem ou história no Instagram geralmente evoca. É, provavelmente, o tipo de conteúdo que a maioria dos seguidores desse primeiro amigo adora ver. Exceto talvez por algumas pessoas que se perguntam por que você não as convidou para a viagem.

Ela propõe, como solução, uma nova etiqueta que desaprove postagens de reuniões sociais para além dos envolvidos. Em vez de um story para todos os seguidores no Instagram, restringir aos “melhores amigos” ou mesmo em um grupo no WhatsApp/Signal.

A era do vender-se em dobro

Mudanças comportamentais têm acontecido num ritmo tão veloz que padrões e premissas que eram comuns há uma ou duas décadas me escapam completamente. O artigo do W. David Marx me recordou de um deles: a aversão ao mainstream, ou a não ser um “vendido”.

Nas últimas três décadas, a cultura da juventude passou de um profundo ceticismo em relação ao comércio para uma defesa fervorosa do anti-anti-comércio, culminando em uma geração inteira de “criativos” que aproveitam o mercado comercial para… se envolver em ainda mais comércio.

Em qual momento virar vendedor no Instagram (leia-se: influencer) virou meta de vida, sonho de criança? Ou trabalhar na Globo e vestir a camisa com orgulho, ao melhor estilo Marcos Mion? Estaríamos traindo o movimento punk, véi? (Eu não lembrava do nível de insanidade desse vídeo. E, meu deus, “há 18 anos”…) Quando foi que o consumo totalizante de cultura enlatada, produzida em escala industrial (as “franquias”), sitiou o imaginário das massas?

Voltando ao artigo:

O tabu do século XX contra “vender-se” era, em sua essência, uma norma comunitária que recompensava jovens artistas que se concentravam na arte e punia aqueles que apropriavam a arte e a subcultura para o lucro vazio. Agora, a cultura é mais exemplificada por pessoas cujo objetivo parece ser o lucro vazio.

Hipóteses?

Eu sei que você já passou dos 30

Neste podcast, falo de algumas coisas que andei aprontando no Manual e de como estou lidando com a descoberta de que gente jovem não me lê.

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Alguns links citados no monólogo:

Assine o Manual por apenas R$ 9/mês ou R$ 99/ano.

Lerama v2 ganha feeds, novo visual e ferramentas de gerenciamento — e o Lerama em si.

Perfis do Lerama por aí: Mastodon, Bluesky, Telegram.

Embelezando o texto na web.

Painel público da audiência do Manual (o negócio do Umami).

Português é o segundo idioma mais popular (de longe!) no Buttondown.

Feliz aniversário!

por Alex Schroeder

Hoje recebi um longo e-mail de um colega de trabalho. Ele foi meu gerente de projeto por duas semanas, alguns anos atrás. É uma pessoa legal. Ele escreveu três parágrafos enormes, desejando saúde, momentos inesquecíveis e encontros enriquecedores, descrevendo a vida como um livro aberto cheio de desafios e momentos maravilhosos… Depois das primeiras frases, comecei a me perguntar: o que está acontecendo? O e-mail terminava com mais votos de feliz aniversário e feliz Páscoa. Mas isso foi na semana passada.

Aí me lembrei que a minha empresa também entrou no hype da inteligência artificial.

Fiquei sem saber o que fazer. Respondo com um e-mail exagerado de agradecimento gerado por IA, só para trollar? Apenas um “Muito obrigado!”… Ou parto para uma conversa séria?

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“Aguente firme!”

Neste texto (em inglês), a Rach conta que conversava por mensagem com um amigo a respeito de um tema delicadíssimo (o câncer da mãe dele; ela perdeu a mãe para um câncer há 13 anos), quando, em um momento de hesitação/reflexão, a “IA” do aplicativo de mensagens sugeriu uma resposta para ela enviar:

Aguente firme!

A reação dela:

Meu fluxo de pensamento foi imediatamente interrompido enquanto eu contemplava como aquilo [a sugestão] seria uma coisa absolutamente imprópria de enviar naquele momento.

O exemplo me chamou a atenção para algo que as empresas de IA omitem: quando elas falam que a tecnologia “entende o contexto”, o que querem dizer é, na verdade, que ela entende o contexto que está documentado/codificado. O que, não raro, é insuficiente. Das inevitáveis lacunas brotam sugestões impróprias, como o “aguente firme!” sugerido à Rach.

Será que uma IA, ainda que alimentada por todo o conhecimento codificado que a humanidade já produziu, será um dia capaz de entender a dor de ver um ente querido ser devorado por uma doença agressiva?

O Governo Federal lançou, nesta terça (11), o Crianças, adolescentes e telas: Guia sobre usos de dispositivos digitais:

O Guia é um documento oficial com análises e recomendações sobre o tema, baseado em evidências científicas e nas melhores práticas internacionais, inteiramente comprometido com a construção de um ambiente digital mais saudável. Aqui você encontra orientações e ferramentas para lidar com a complexa relação das infâncias e adolescências com o mundo digital. Além disso, o Guia serve de base às políticas públicas nas áreas de saúde, educação, assistência social e proteção.

O guia completo (164 páginas) e um resumo executivo (24) estão disponíveis nesta página, sem custo.

Via Mobile Time.

Soube que os amigos do BaixaCultura disponibilizam “All watched over …

Pôster de “All watched over by machines of loving grace”, com o título do documentário à frente do que parecem ser servidores, em foto preto e branco.

Soube que os amigos do BaixaCultura disponibilizam All watched over by machines of loving grace, documentário em três partes de Adam Curtis, de 2011, legendado em português. Mesmo para quem já viu (meu caso), vale a pena ver de novo à luz da lua de mel dos tecnocratas do Vale do Silício com Donald Trump.

Talvez devêssemos parar de chamá-las de *Notificações* e, em vez disso, nos referirmos a elas como *Interrupções*. “Trabalhando em umas coisas, por isso desativei as interrupções por um tempo.” “Tudo bem.”

@praxeology@post.lurk.org (em inglês).