E se a gente sincronizasse o Caps Lock de todo mundo? É a proposta…

E se a gente sincronizasse o Caps Lock de todo mundo? É a proposta do Global Caps Lock: você instala um utilitário no seu computador (não faça isso) e, a partir daí, ingressa em uma rede em que se alguém ativa o Caps Lock, ativa para todo mundo ao mesmo tempo — e vice-versa. Genial, mas repito: não instale isso no seu PC.

O novo jogo do Neal, “Stimulation Clicker”, é uma crítica…

O novo jogo do Neal, Stimulation Clicker, é uma crítica espirituosa (e meio viciante) dos estímulos apelativos da indústria para nos manter clicando e com os olhos grudados na tela. / neal.fun

Cuidar não escala

por Steven Scrawls

Publicado originalmente em inglês no blog do Steven Scrawls.

Conheci uma assistente social que tinha como trabalho cuidar de quatro crianças órfãs. Ela se alternava com seus colegas passando 24 horas de cada vez morando com as crianças, agindo, na prática, como se fosse uma mãe. As crianças, sem surpresa, tinham muitos traumas e, portanto, seu trabalho não era fácil, mas ela o achou profundamente gratificante; ela se importava de verdade com as crianças. Dessa forma, as crianças — que poderiam não ter tido nenhuma figura constante de pai, mãe ou irmãos em suas vidas — cresceram juntas, como uma família.

Fiquei impressionado com o arranjo. Se você quisesse projetar um sistema social para cuidar de crianças que perderam seus pais, não sei se conseguiria um resultado muito melhor. Com quatro crianças e quatro assistentes sociais (cada um trabalhando três turnos de 24 horas por semana), cada criança pode receber cuidados e atenção individuais; os assistentes sociais, por sua vez, têm espaço para manterem suas próprias vidas, tirarem férias e, às vezes, ter dois trabalhadores com as crianças em vez de um.

Para ter esse atendimento individualizado, eles tinham quatro assistentes sociais e quatro crianças. Um para um.

Você poderia adicionar mais algumas crianças ou tirar um assistente social, como medida de contenção de custos. Seria menos sustentável, mas não mudaria a essência da experiência. Só que você não poderia se afastar muito do um para um sem afetá-la, sem industrializá-la a ponto de perder o cuidado individual. Com quatro crianças, elas podem se sentir como crianças; se fossem quarenta, provavelmente se sentiriam gado.

Somos bastante limitados quando se trata de cuidar. Você só consegue se importar profunda e individualmente com uma pessoa de cada vez.

(mais…)

Voltando para casa do meu trabalho (olhando furiosamente para um computador) para relaxar com meus hobbies (olhando furiosamente para um computador).

Paulo Freire na era digital

Paulo Freire, educador e filósofo brasileiro, tornou-se assunto espinhoso no Brasil nos últimos anos. Seu nome é gasolina em discussões inflamadas nas redes sociais que transbordam para embates políticos no mundo real — ou vice-versa.

Ao lado de outras quimeras da polarização entre direita e esquerda, como comunismo, ideologia de gênero e meritocracia, o pensamento de Paulo Freire é discutido com paixão por gente que, ao que tudo indica, nunca sequer folheou um de seus livros. Ou, se sim, de duas, uma: não os entendeu, ou serviu-lhe a carapuça.

Ainda que evite embates (virtuais ou não), às vezes eles são inevitáveis. Num desses, dei-me conta de que nunca havia lido o autor, de quem o meu conhecimento se limitava à batida frase invocada em várias das contendas que envolvem seu nome:

Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor.

O que é curioso, dado que a frase não consta em Pedagogia do oprimido, de 1974, em que ele trata do assunto.

(mais…)

Alienação e aceleração

Em 1985, o educador estadunidense Neil Postman publicou Amusing ourselves to death1, uma crítica à TV e o seu poder de reduzir qualquer matéria ao entretenimento.

No livro, Postman faz o alerta de que o mundo contemporâneo não é o imaginado por George Orwell em 1984 (opressor, totalitário), mas sim o que Aldous Huxley apresenta em Admirável mundo novo, ou seja, um em que as pessoas sacrificam seus direitos voluntariamente em troca de felicidade artificial. A diferença é que em vez do “soma”, a droga sintética que dava barato no livro, a do mundo real dos anos 1980 seria a TV.

O argumento de Postman contrasta os Estados Unidos do século XIX, quando alguns bolsões apresentavam índices altíssimos de alfabetização e os debates entre políticos e figuras públicas eram acontecimentos e demoravam horas, às vezes dias, com o distraído pela TV, evocando Marshall McLuhan e sua máxima (“o meio é a mensagem”) para sustentá-lo:

A duração média de uma cena na televisão é de apenas 3,5 segundos, de modo que o olho nunca descansa, sempre tem algo novo para ver. Além disso, a televisão oferece aos espectadores uma variedade de assuntos, requer habilidades mínimas para compreendê-los e visa em grande parte a gratificação emocional.

Se trocarmos “televisão” por “TikTok” ou “Instagram”, a frase continua valendo nos anos 2020 sem demandar outras alterações.

(mais…)

De mudança para o WhatsApp (sim, o WhatsApp)

O balanço do uso do Signal para a nossa comunidade rendeu bons comentários (por e-mail!) de apoiadores.

A Patrícia disse:

O Telegram parecia mais animado #imho… (mais interações de assuntos mais diversos)

O Leandro manifestou a situação de — imagino — muitos que estão ali:

Meu único uso do Signal é o grupo do Manual, mas olhando de curioso na minha lista de contatos, estão os mais aleatórios possíveis: [lista de contatos aleatórios]

O comentário do Vinícius me levou a uma nova camada de reflexão:

Particularmente achei que a mudança do grupo para o Signal, embora entenda os motivos, tirou um diferencial da assinatura do manual. O grupo antes era bem movimentado, acessava sempre, com muitas conversas sobre cultura, comportamento, etc. Após o Signal ficou mais morno, com menor volume de mensagens e conversas mais nichadas em questões de programação/pessoal da TI. Acredito que muitas das pessoas, como eu, só instalaram o mensageiro pelo grupo do manual. Daí entro quando lembro, às vezes passo alguns dias e menos assim há poucas mensagens “atrasadas”, algumas dezenas.

Após ler o texto, agora, abri o app (que, pelos registros do meu celular, tinha aberto na segunda-feira — há 4 dias — e há 40 mensagens não lidas. Claro que quantidade não é um dado que indica muita coisa sozinho, o ponto é a diminuição mesmo na interação. O que, para mim, era um chamariz da assinatura, meio que morreu. Concordo que os rumos que o Telegram tomou são questionáveis e repito que entendo os motivos da mudança, mas para mim o resultado foi esse. =(

O “rumo questionável” que o Telegram tomou foi transformar o aplicativo em veículo para criptomoedas. É… uma pena.

Por fim, o do Paulo em resposta à edição de domingo da newsletter (que envio a assinantes):

Eu entendo a relutância de muitos (eu às vezes tenho isso) de usar o WhatsApp, mas seria interessante centralizar tudo em um único app (pra mim, no caso) com os grupos e contatos pessoais. O Telegram era mais fácil porque, ainda que não seja o meu app primário, ele concentra muitos robôs de serviços que eu uso, além de poder guardar conversas/anotações/listas de forma simples, coisa que o WhatsApp ainda não faz (de forma simples, faz mas de forma meio capenga). O Signal “ostracizou” ainda mais o grupo pra mim, porque não ter um app web/tablet dificulta muito pra mim de ler ou de me lembrar de ler o grupo. Não é nada demais, mas eu sinto que o Signal é uma barreira pra lembrar do grupo do Manual.

Estamos aqui para experimentar, por isso, à luz desses e outros comentários de assinantes que não estão no ou não curtiram o Signal, decidi migrar o grupo para o WhatsApp. Por alguns motivos:

  • Goste dele ou não, é o app mais usado no Brasil;
  • Apesar das investidas da Meta para transformá-lo em SAC 2.0 e cavalo de Troia para a inteligência artificial da empresa, a Meta AI, conversas entre indivíduos e em grupos ainda são criptografadas de ponta a ponta;
  • O recurso de comunidades é um pouco complexo, mas não para o público do Manual, que pode se beneficiar da organização;
  • Tenho revisto a minha política de boicote às big techs. Embora ainda priorize tecnologias que contornam as grandes do setor, por coerência não há problema em adotar o WhatsApp — já usamos/lido com Apple, Amazon, Oracle, Automattic… a lista é longa e inescapável, se quiser dialogar com um público mais amplo.

Antes de tomar essa decisão, perguntei aos três insatisfeitos (haha) das mensagens acima o que achavam do WhatsApp, hipótese que foi bem recebida.

Quem já apoia o Manual receberá, ainda hoje (11), o link de convite para o grupo no WhatsApp. Se você ainda não assina o projeto, faça isso agora para participar.

Números enormes

Números que ajudam a colocar em perspectiva o tamanho do setor de tecnologia — em vários sentidos.

Saiu a nova edição da pesquisa TIC Kids Online Brasil. Ela mostra que embora 93% da população brasileira com idades entre 9 e 17 anos esteja conectada à internet, apenas 3 em cada 10 crianças são supervisionadas pelos pais ou responsáveis com recursos de restrição de conteúdo. / convergenciadigital.com.br

A SaferNet encaminhou um relatório ao Ministério Público Federal, Polícia Federal e autoridades francesas em que denuncia que +1,25 milhão de usuários do Telegram no Brasil estão em grupos que vendem e compartilham imagens de abusos sexuais e nudez não consensual. / convergenciadigital.com.br

Essa caberia no post de apps atualizados, mas preferi colocar aqui: após um hiato de 19 anos, o aplicativo WinDirStat ganhou uma atualização. (E das grandes, cheio de novidades.) / blog.windirstat.net (em inglês)

Talvez o boicote não seja a melhor forma de protesto

Em junho de 2023, o Reddit parecia estar prestes a implodir. Protestos motivados por uma rasteira que a empresa passou em desenvolvedores de aplicativos alternativos levaram a um “apagão” de comunidades — convertidas para “privadas” por moderadores voluntários, elas ficaram inacessíveis ao público.

Apesar da pressão, o Reddit resistiu. Sem apps de terceiros, consolidou a experiência do usuário nos canais oficiais e, em março, fez a sua esperada abertura de capital na Bolsa de Nova York.

(mais…)

O wordfreq, projeto que monitora mudanças na linguagem da humanidade usando a web como referencial, parou de ser atualizado. Culpa das IAs generativas: “Acredito que ninguém tenha dados confiáveis do uso da linguagem por seres humanos pós-2021”, escreveu Robyn Speer, criadora do projeto.

“Então, eu não quero trabalhar em nada que possa ser confundido com IA generativa, ou que possa beneficiar a IA generativa. A OpenAI e o Google podem coletar seus malditos dados, e espero que eles tenham que pagar um preço muito alto por isso. Eles mesmos fizeram essa bagunça.” / github.com (em inglês)

A Senacon intimou fabricantes de celulares que pré-instalam apps de bets em seus celulares. (Fiquei intrigado com a prática; um leitor disse, no nosso grupo no Signal, que o Motorola Edge 50 Pro dele oferece um desse no primeiro uso.) Sobrou até para a LG, que faz uns bons anos deixou de vender celulares. / gov.br

Essa e outras medidas do governo me lembram a atitude governamental contra as plataformas sociais das big techs, tentativas vãs de apagar um incêndio com um copo d’água. Para se ter ideia da profundidade do buraco, a Agência Pública mostrou como adolescentes estão torrando os R$ 200/mês do programa Pé-de-Meia, do governo federal, em jogo do tigrinho. / apublica.org

Tudo isso é desolador, mas ninguém pode se dizer surpreso: a finalidade de jogos de azar, sempre se soube, é viciar pessoas em perder dinheiro.

Redes sociais, celulares e “a geração ansiosa”

Sucesso de vendas nos Estados Unidos e no Brasil1, A geração ansiosa, livro do psicólogo e professor da Universidade de Nova York, Jonathan Haidt, alega ter provas de que celulares modernos (“smartphones”) e redes sociais são responsáveis por “reconfigurar” o cérebro e destruir a saúde mental de crianças e adolescentes.

(mais…)

Há espaço para o iPad?

O mundo em 2010 era bem diferente. Na época, netbooks — notebookzinhos baratos e lentos — eram populares portas de acesso à digitalização. Parecia que todo mundo tinha um.

A Apple sofria pressão para surfar a onda dos netbooks. Em vez disso, o ainda vivo Steve Jobs apresentou o iPad — um celularzão barato e rápido.

(mais…)

Cadê você?

Novas ondas da tecnologia de consumo geram novos hábitos, alguns deles estranhos. Quando a internet móvel em celulares se popularizou, por exemplo, muita gente achou divertido dizer ao mundo por onde passava em aplicativos como o Foursquare.

Embora os motivos para alguém não fazer isso sejam vários e óbvios e o Foursquare seja apenas uma sombra do que foi naqueles anos malucos, uma variação da prática continua muito viva e, para alguns, embrenhada no cotidiano.

Na newsletter de tecnologia da Bloomberg, Ellen Huet comentou a transformação do aplicativo Buscar, da Apple, em uma espécie de mini-rede social baseada em geolocalização.

Existem bons motivos para dividir com alguém a sua localização precisa e em tempo real, como combinamos de nos encontrarmos com alguém. O uso inicial era esse, explica Ellen, mas, hoje, ela diz que o compartilhamento “se transformou em um sinal de intimidade digital e confiança”. Para os mais novos, é ainda pior:

O hábito digital também se tornou mais popular entre as gerações mais jovens. Alguns na geração Z veem isso como um rito de amizade ou um marco indicando proximidade.

O Snapchat tem um recurso tão popular quanto o Buscar da Apple — ao menos nos Estados Unidos. A Meta, que oferece o mapa no WhatsApp, vem testando o recurso no Instagram, com uma abordagem menos utilitária, mais parecida com a do Snapchat.

Um pouco influenciado pela leitura (em andamento) de A geração ansiosa, em que Jonathan Haidt explica a fixação dos jovens pelo celular, em parte, pelo que chama de “segurismo”, um eufemismo bobo dele para a superproteção dos adultos, me peguei pensando se esse Big Brother com os amigos em um mapa digital não é mais um sintoma da solidão crônica que todos, independentemente da idade, enfrentamos nesses áridos anos 2020.

Números enormes

Números que ajudam a colocar em perspectiva o tamanho do setor de tecnologia — em vários sentidos.

De acordo com a Nielsen, o Brasil tem 10,4 milhões de influenciadores digitais. Para a consultoria, qualquer perfil com mais de mil seguidores é considerado influenciador. Esses números podem variar muito. Em 2022, a Adobe estimou esse número em 20,1 milhões — considerando quem tinha +5 mil seguidores e ganhava algum dinheiro com posts em redes sociais. / uol.com.br, news.adobe.com (em inglês)

***

Pela primeira vez em 12 anos (!), o Medium fechou um mês no azul. Com mais de um milhão de assinantes pagantes (a empresa não revelou os números exatos), o TechCrunch fez as contas e estimou o faturamento anual em US$ 50–60 milhões. / techcrunch.com

***

De acordo com o Banco Central, entre janeiro e maio deste ano os brasileiros mandaram US$ 7,3  bilhões em criptomoedas para o exterior — o mesmo valor gasto por brasileiros em viagens a turismo para fora do país. / investnews.com.br