A infernal vida em que todos precisam ser “influencers”

por Guilherme Felitti

Não é sempre, mas uma gota sozinha pode transbordar um balde. Abre aspas para a BBC Brasil:

Corre em livros de História a seguinte anedota sobre o então imperador Dom Pedro II: ao chegar ao baile que veio a ser o último do seu reinado e da monarquia, no dia 9 de novembro de 1889, tropeçou ao entrar no salão. Ao se reerguer, disse, brincando: “A monarquia tropeça, mas não cai.”

Se verdadeira, a piada carregava uma ironia que Dom Pedro II só conheceria mais tarde. A festa derrubou, de fato, a monarquia seis dias depois, em 15 de novembro de 1889.

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Se um podcast é baixado e ninguém o ouve, ele tem audiência?

O digital promete ser possível mensurar qualquer coisa com precisão cirúrgica, resultando em maior eficiência nos gastos, ou seja, em economia. Mesmo quando os números existem e o investimento é satisfatório, porém, é bom encarar esse arranjo com algum ceticismo.

Em setembro de 2023, uma mudança sutil no aplicativo de podcasts da Apple, padrão no iOS, reverberou tão forte que sacudiu toda a indústria.

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Tirinha em preto e branco. Homem sentado à mesa, com um notebook, e a frase “Trocou sua foto de perfil e esperou pelos likes”.

Tirinha do Gabriel Pardal publicada no livro Canibal Vegetariano.

A ojeriza à IA de (parte) das pessoas não é a única explicação do sucesso repentino — ainda que limitado — da Cara. A toxicidade do Instagram talvez seja um incentivo ainda maior.

Nesta semana, a Meta confirmou que está testando anúncios não puláveis no feed. Para estarem cogitando isso, significa que estão confiantes de que os usuários engolirão mais essa.

A Meta é uma versão moderna daqueles testes bizarros que Skinner e Milgram faziam nos anos 1960. “Que prática abusiva e/ou repulsiva a gente vai colocar no Instagram hoje a fim de determinar o máximo que as pessoas toleram antes de desinstalarem o aplicativo?” Pelo visto, isso ainda vai longe.

DONOTREPLY.CARDS

Cartões para usar em redes sociais como defesa contra “reply guys”. Amo o conceito, mas não tenho certeza de que sejam eficazes na vida real. Cria do Dan e do Florian.

Domando apps do tipo “para ler depois”

Quando os celulares modernos se popularizaram, surgiu uma categoria de aplicativos para conciliar o desconforto da tela pequena e a natureza móvel do dispositivo, que nos deixa em contato permanente com conteúdos interessantes.

Apps do tipo “para ler depois”, como Instapaper e Pocket, são repositórios privados de textos que catamos por aí e que, por qualquer motivo, não queremos ou não podemos ler no momento.

Eu sempre tive um desses instalado em meu celular, desde o primeiro capaz de lidar com tais apps. E, daquela época até hoje, jamais havia conseguido segurar o contador de leituras pendentes.

Alguém consegue? (mais…)

Os “reply guys”

Não se pode dizer que os estadunidenses são ruins de dar nomes às coisas. Veja, por exemplo, os “reply guys”: caras que publicam respostas desagradáveis em posts públicos de mulheres.

Em um curto intervalo, duas mulheres que se destacam em áreas dominadas por homens, Veronica (Linux/software livre) e Sophie (desenvolvimento web), reclamaram da ação de “reply guys” no Mastodon.

Veronica resolveu fechar sua conta no Mastodon por tempo indeterminado. No caso da Sophie, um post descompromissado em que ela comparava a cor do cabelo com a do seu editor de código foi parar até em chans porque o código no print não era acessível — o que não importava muito nesse contexto.

Não é um problema novo. Em 2020, o Twitter implementou filtros para limitar quem podia responder posts numa tentativa de desestimular os “reply guys”. Em novembro de 2023, foi a vez do Mastodon tentar conter o problema, mostrando alertas no Android para quem tenta responder posts de perfis que não se seguem mutuamente ou muito antigos.

São medidas válidas. Em seu relato, Sophie exalta os recursos de bloquear e silenciar do Mastodon, embora a implementação no seu aplicativo preferido, Ice Cubes, deixe a desejar.

Talvez o grande dano das plataformas sociais dos anos 2010 ao debate público foi incutir na gente a ideia errada de que devemos dar opinião para tudo, de que não podemos passar batido por um botão “Responder” na internet — ainda mais se a outra pessoa não for um homem, mesmo que nada ali nos diga respeito ou que o erro não importe.

Acredite se quiser, mas é possível ler uma opinião ou comentário inconsequente de alguém e ignorá-lo, deixar pra lá.

Um efeito colateral desses tristes episódio é destacar que não existe paraíso na internet. Até por ser o contraponto do Twitter pós-Elon Musk, o Mastodon ganhou uma aura de virtuosismo que não se sustenta. Não me entenda mal: no frigir dos ovos, acredito que o Mastodon funcione melhor que o Twitter/X e outras alternativas, mas apenas porque esses eram/são muito ruins.

Interfaces para o coração partido

Em dezembro de 2022, a designer Marie Spreitzer terminou um relacionamento. Para lidar com seus sentimentos, fez este exercício com interfaces de aplicativos que ela usa no dia a dia.

Você verá diferentes explorações de como as interfaces para o coração partido poderiam parecer. Adicionando um toque de comentário social e muitos sentimentos, estou tentando representar meu mundo emocional neste momento.

O barulho ao redor

Em Um lugar silencioso, monstros horríveis e hipersensíveis estraçalham seres humanos que fazem qualquer barulho. Que me perdoem os meus iguais, mas acho que os monstros do filme têm alguma razão.

Não posso ser a única pessoa que se incomoda com a barulheira artificial que se tornou parte da paisagem, um (não tão) pequeno desconforto em troca do progresso.

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Adolescentes no Instagram e as ferramentas de controle parental

A mãe chega em casa após um dia de trabalho extenuante, incluindo algumas horas no transporte público. Toma um banho e já corre para preparar o jantar para ela e seus dois filhos. Depois da refeição, enquanto assiste à novela, ela saca o celular, abre a Central da Família da Meta e revisa as atividades e configurações dos perfis dos filhos no Instagram.

A história acima aconteceu com aproximadamente zero mães, pais ou responsáveis.

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Talvez seja melhor manter os apps de mensagens separados

Todos os dias, faço uma curta peregrinação digital: passo por cinco ou seis aplicativos de mensagens para saber das novidades e responder pessoas. Seria ótimo se fosse um só, não?

Eu achava que sim, e mais gente — que sabe programar e/ou tem recursos — também. Embora os principais aplicativos de mensagens do mercado não trabalhem com rivais, soluções como Beeper, Texts e Element One conseguem, ainda que na base da gambiarra, juntar as mensagens do WhatsApp, Signal, Telegram e outros, todos sob um único ícone na tela do celular.

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Não podemos para generalizar, mas é sempre bom escutar com um pé atrás as novidades e ferramentas que empresas como a Meta lançam para aplacar críticas. Embora existam algumas que, bem usadas, podem fazer a diferença na saúde mental de menores de idade, as revelações na Justiça dos EUA de que Mark Zuckerberg vetou alterações em produtos pensadas para esse fim colocam sob outra perspectiva (ou a mesma, dependendo de quem vê) as prioridades da empresa. Via CNN (em inglês).

O efêmero como padrão no digital

Quem tinha mais de 30 anos em 2013 provavelmente nunca usou ou sequer entende o Snapchat.

Hoje, porém, todos sentimos a influência do aplicativo de mensagens efêmeras. Os stories, grande legado do Snapchat à humanidade, rejeitam uma máxima da internet comercial: a de que todos os dados devem ser guardados “ad aeternum”, para sempre.

O efêmero no digital é um conceito não intuitivo. Com os preços de armazenamento em queda e as promessas de novas tecnologias capazes de extrair insights de grandes volumes de dados — big data, machine learning, LLMs! —, dispensá-los se torna uma atitude quase subversiva.

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Contra o tecno-otimismo

Nos anos 1990, Marc Andreessen criou o Netscape, primeiro navegador web comercial de sucesso, pivô da disputa que levou a Microsoft ao banco dos réus em um dos maiores julgamentos antitruste dos Estados Unidos.

Hoje, Andreessen é mais conhecido por ser sócio da Andreessen Horowitz, ou a16z, uma das firmas de capital de risco mais badaladas do Vale do Silício. Ele viu antes da maioria o potencial de crescimento de startups como Facebook, Skype, Airbnb e Stripe, e lucrou horrores com essas sacadas.

Andreessen também gosta de escrever. Bastante. Foi um dos que popularizam os detestáveis fios no Twitter (outra empresa em que investiu). Seus longos textos em tom de manifesto são populares no meio tecnológico, frutos da fama adquirida em uma tão rara quanto feliz previsão acertada feita em 2011, no artigo seminal “O software está devorando o mundo”. O que não significa que ele seja ou deva ser encarado como um oráculo.

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Topa tudo por dinheiro

Kate Knibbs, repórter da Wired, descobriu um fenômeno bizarro no YouTube: canais que leem obituários de pessoas comuns, em grandes volumes.

Na apuração, Kate descobriu que os canais fazem isso de olho na receita com publicidade que o Google divide com youtubers.

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