Há espaço para o iPad?

Steve Jobs no palco, em frente a uma tela exibindo a palavra “iPad” entre um iPhone e um MacBook.

O mundo em 2010 era bem diferente. Na época, netbooks — notebookzinhos baratos e lentos — eram populares portas de acesso à digitalização. Parecia que todo mundo tinha um.

A Apple sofria pressão para surfar a onda dos netbooks. Em vez disso, o ainda vivo Steve Jobs apresentou o iPad — um celularzão barato e rápido.

Por motivos diversos — entre eles, o próprio iPad —, os netbooks foram varridos do mercado poucos anos depois. O iPad, por outro lado, criou um mercado, criou um fonte de receita bilionária à Apple e, para muitos, continua sendo o único tablet viável.

O iPad foi o meu primeiro contato com a Apple, em 2012, com a segunda versão do tablet. Tive apenas outro depois dele, apesar de ter ficado menos de dois anos sem ter um iPad, sinal da longevidade que esse tipo de produto pode ter nas mãos de gente pouco exigente em suas demandas no digital.

O que tenho hoje é um iPad Pro de 9,7″ lançado em 2016 e comprado um ano mais tarde. Seu chip é uma variação pouca coisa mais rápida que o do iPhone 6S. O iPadOS estacionou na versão 16.5, ou seja, já está um ano/geração defasado. Apesar disso tudo e de surtos de lentidão, ele ainda me serve para a única coisa que faço nele: ler.

***

Em meados de julho, quando fui visitar meus pais, deixei o iPad para trás. Achei que apenas notebook e celular me seriam suficientes, e assim o foi.

Ao retornar, mantive o iPad desligado. Ocorreu-me a ideia de fazer um experimento: dá para passar sem o tablet?

Sim, óbvio que dá. Não era preciso um experimento para chegar a essa conclusão. Nem pretendia escrever a respeito, porém algumas descobertas após quase um mês longe do iPad me fizeram mudar de ideia.

O tempo antes dedicado ao tablet, em geral início da manhã e à noite, foi preenchido pelo celular e notebook. Para tanto, tive que fazer uma modificação na minha mesa: tirei o notebook do suporte vertical a fim de facilitar o tira-e-põe de cabos — um do hub USB-C e outro do disco rígido externo que uso para becapes no Time Machine.

Ocorre que nem todo o tempo que antes dedicava ao iPad foi preenchido. Por mais simples que seja levar um notebook de um lado a outro e ter que levantar a tampa para usá-lo, é menos simples que a tela exposta e sensível a toques do iPad.

Coletei os dados do Tempo de Uso, a ferramenta nativa aos três sistemas (iOS, macOS e iPadOS) que, como o nome sugere, monitora o uso desses dispositivos. Vale dizer que ela não é super confiável e, mesmo que fosse, os dados incluem atividades sociais (video chamadas com a família) e em que não fico olhando para a tela (algumas horas de GPS na estrada, por exemplo).

Feita essas ressalvas, as diferenças que de que suspeitava se revelaram nos números.

Nas três semanas sem o iPad, meu tempo de tela diário médio, somando celular e notebook, foi de 6h05min. Na semana com o iPad de volta à rotina, ele saltou para 9h25min, aumento de 55%.

Na semana com três dispositivos, o iPad contribuiu com 3h por dia (em média), ou 32% do tempo gasto em telas.

O incremento veio à custa do celular, que perdeu 31% do tempo na semana com o iPad em relação à média das três anteriores, sem o tablet (2h para 1h23min. Achei curioso o incremento no tempo de uso do notebook, de 25% (4h05min para 5h02min).

Gráfico de colunas em camadas, mostrando o tempo gasto em celular, notebook e tablet ao longo de quatro semanas.
Gráfico: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

***

Em sua newsletter do último domingo (25), o repórter Mark Gurman, da Bloomberg, comentou os esforços ainda sigilosos da Apple para redirecionar a expertise e mão de obra do seu malfadado carro autônomo para robôs domésticos. (Afinal, o que é um carro autônomo se não um robô gigante?)

O primeiro parágrafo da coluna me chamou a atenção:

Quando os executivos da Apple ponderaram quais novos produtos vender, eles se viram diante de um pequeno dilema: os dispositivos da empresa já estão entrelaçados em quase todas as partes da vida dos consumidores.

Em outro trecho, Mark lista alguns dos “problemas de primeiro mundo” que a Apple espera resolver com robôs. O primeiro me é familiar( embora não o considere um problema):

Seu dispositivo só é útil se você puder alcançá-lo. Há muitas ocasiões em que você pode querer usar seu computador, mas ele não está por perto — ou suas mãos estão ocupadas. Talvez você tenha deixado um dispositivo no escritório doméstico, mas agora está na cozinha ou na sala e precisa dele.

Ou, talvez, eu só possa… esperar estar no escritório novamente? Não consigo lembrar a última vez em que precisei — no sentido puro do verbo — usar o computador a ponto de lamentar não tê-lo comigo. E, veja, é a minha “ferramenta de trabalho”. Não sou médico, ninguém vai morrer se atrasar a newsletter do Manual ou a ativação de uma assinatura em meia ou uma hora ou mesmo no dia seguinte (o que é raríssimo).

E foi isso o que me pegou, quando parei para refletir sobre todos aqueles números. À noite, em especial, a disponibilidade do tablet, que não tem um lugar fixo, ao contrário do notebook, me atrai. E não acho que seja legal gastar ainda mais tempo olhando para essa tela. Até a outra grande tela da casa, a TV, me parece mais saudável para momentos de descompressão ou de tédio mesmo.

Até alguns meses atrás, já dava como certo o gasto em um novo iPad quando o meu pedir arrego. Hoje, não estou mais tão certo. Tentarei deixá-lo desligado por mais tempo. No mínimo, ganharei algumas noites — e dias, e semanas — olhando menos para telas.

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24 comentários

  1. Nas férias viajando com minha filha de avião e carro, levar o tablet Galaxy S9 FE foi uma das decisões mais acertadas para entrete-lá. Estou estudando para um exame, gosto da praticidade do tablet, tela maior é mais confortável.

  2. Esse post veio justamente no momento em que estou pensando em comprar um tablet “barato”, um Galaxy Tab da vida, só para leitura. E isso só porque descobri que meu celular da acesso ao Claro Banca, com um acervo de jornais e revistas. Mas não estou convencido em desembolsar uns mil reais só para isso.

    1. Se for realmente só para leitura, acho bem mais legal pegar um e-reader por aí , seja um Kindle ou um Kobo (vende no aliexpress esse e outros modelos sem ser Kindle). A tela eink é melhor pros seus olhos, a bateria dura muito mais, eh muito mais a prova de distração (já que por definição só vai ter livros lá dentro, contrariamente a um tablet com navegador e etc a um clique de tentação), e o preço é bem mais barato. A tela de 6 polegadas não importa em livro digital de verdade porque podemos aumentar a fonte, e se você tiver um Kobo da para instalar Koreader nele que permite fazer o mesmo com PDF.

      1. Eu tenho um Kindle. O tablet seria mais para leitura de revistas e jornais e PDFs.

        Mas, sinceramente, provavelmente não vou comprar não.

      2. No AliExpress também são vendidos os tablets da Boox, que têm tela de e-ink, o que ajuda a não acelerar o consumo de mídia, já que a taxa de atualização da tela não é tão rápida, o que inibe o “scrolling” constante. A única coisa que me impede de comprar um deles é que os modelos simples geralmente estão indisponíveis na loja situada no Brasil que os vende; e também não sinto tanta segurança na privacidade do software (não pesquisei tão a fundo para confiar).

        1. ia falar justamente dessa marca, os preços estão meio altos o que me impede de comprar, mas entre eles e uma iPad como vou usar só para ler acho que pegaria os Boxx

  3. Eu estou bem curioso quanto ao futuro dos tablets. Pq tanto os iPads topos de linha quanto os tablets Android estão ficando com poder de fogo de computadores. Mas seus sistemas operacionais estão anos-luz longe de sistemas operacionais de computadores. Acho que vai ter um momento onde este mercado vai acabar estagnando pq não se tem mais por onde evoluir.

      1. Fica difícil prever. O último iPod era basicamente um iPhone sem rede celular. O iPhone ficou tão grande (potencialmente falando), que engolir o iPod era um caminho natural. Só que aparelhos portáveis como smartphones e tablets estão chegando muito próximos a configurações de computadores sem entregar as mesmas funcionalidades justamente pq o sistema operacional não dá suporte.

        1. Verdade. É aquela coisa: se continua sem entregar essas mesmas funcionalidades corre o risco de estagnar, se entrega, corre o risco de disputar nicho de mercado semelhante. Não vejo, ainda, um outro caminho que torne o iPad extremamente singular…

  4. Já tenho um iPad desde o mini 1 (que dei pro meu pai e ele ama) e agora tenho um de 10ª geração.
    Tenho usado muito o iPad pra manipular planilhas de forma mais prática e trabalhar com mapas (pra isso ele é simplesmente fantástico), além de ler bastante. O formato ajuda e me mantém mais atento, eu penso.

  5. Eu tenho 2 Ipads, 1 que eu comprei em 2016 (ipad pro) e outro que me foi passado por parente (um ipad 2), mas eu quase não uso mais. No meu caso, um ereader eink substituiu completamente seu uso, que também era primariamente ler (no meu caso, um Kobo Glo N613). Era muito melhor ler epubs, arquivos txt e mobis (convertidos em epub via calibre) nele. Quando eu descobri que dava para instalar o Koreader nele, aqui caso interesse, aí matou de vez. O koreader tem uma função de reformatar o PDF (detecando caracteres e cortando imagens, e dividindo colunas), adaptando-o para a tela do Kobo e permitindo aumentar a fonte, que eu acho uma super-tecnologia muito melhor que ficar lendo PDFs no estilo ‘raiz’.

    Ereaders então rivalizam com o Ipad para mim e outras pessoas na tarefa de leitura, pois são mais confortáveis para os olhos e com baterias muito mais longevas. Agora, eu uso o Ipad para ver vídeos e jogar uns jogos de vez em quando.

  6. Eu uso demais meu tablet, já usei mais pq já foi onde eu estudava desenho, mas ele substitui o tempo de tela do smartphone. Aff, já tentei ficar sem um tempo e simplesmente meu smartphone tomou conta e com isso aumento de dores na mão e ombro TT.

  7. Não tenho iPad, mas não dispenso um tablet. Inclusive acabei de adquirir um novo recentemente. Como a maioria dos brasileiros, passo a maior parte do tempo usando meu smartphone, mas prefiro ler artigos mais longos no tablet (thanks sincronia de abas do Firefox). Vídeos também prefiro ver no tablet.

  8. Pra mim o iPad mini 5 se tornou a forma possível de usar o iPhone SE 4.7’.
    Quando quero ler o manual por exemplo, só vejo pelo iPad. É extremamente leve e portátil e tem uma tela melhor que a do iphoninho.

    1. por curiosidade, além de ler, qual outro uso você dá ao ipad?

      1. Uso para ver filmes, series, YouTube antes de dormir ou as vezes durante o trabalho enquanto faço algo de rotina. Utilizo para escrever as cifras que utilizo aos domingos, as crianças jogam, enfim…

  9. Bem bacana seu experimento Ghedin! No seu recorte é muito interessante ver que no retorno do iPad, seu consumo de tela foi incremental, com o uso dos demais devices se mantendo o mesmo.

    A impressão geral de boa parte dos consumidores é que na rotina de uso o iPad entra na caixinha da redundância, é substituível. Acredito que isso seja algo da própria dinâmica pessoal. Conheço pessoas que deixam o iPad na gaveta e outras que abandonaram o notebook em função do iPad – é o meu caso.

  10. eu tenho ume relação muito íntima com meu iPad desde a faculdade. Uso para escrever, na faculdade tinha esse objetivo claro de anotar tudo que a lousa permitia, anotar em slides, fotos etc. Desde 2020 não piso em uma sala de aula, mas continuo usando ele para escrever coisas do dia a dia, até tento manter um diário que mais uso semanalmente.
    Hoje em dia além da escrita, uso como TV portátil – dado que nao tenho uma TV. Recentemente troquei meu ipad que tinha 6 anos por um dos novos e não me arrependo, meu uso nele aumentou um pouco mas acho que canibalizou o uso do celular. Hoje, acho indispensável ter acesso as minhas notas todas com OCR sem carregar um caderno

  11. Engraçado que pra mim é o oposto: quando estou no iPad, minha sensação é que estou usando bem o meu tempo de tela. Geralmente estou lendo (inclusive coisas pro trabalho, trabalho com audiovisual então leio muitos roteiros) ou assistindo filmes/séries no quarto (quando me dá preguiça de ir pra sala assistir na TV). Raramento uso o youtube no iPad (que é onde eu sinto que estou mais perdendo tempo…rs), acabo usando mais no celular.
    No computador, quando não estou trabalhando, é o lugar que eu acostumei para passear por lojas online e fazer compras (não faço nos outros dispositivos).
    Resumindo: minha luta eterna é diminuir o tempo de uso do computador e do celular e ficar mais com o iPad.

    1. Usava muito o iPad para vídeos quando morava com meus pais. Morando sozinho e, depois, com minha companheira, passei a assistir a vídeos somente na TV — não por uma imposição a mim mesmo, apenas porque é mais confortável. Não vejo vídeos nem no computador, nem no celular, muito menos no tablet. Só na TV.

      1. Eu trabalho com cinema. Pra mim ver filme (ou mais raramente séries) na TV significa estudar. Também não vejo realitys na TV, justamente porque pra mim TV é um modo de visionamento que exige mais atenção (eu consigo mapear melhor as composições, enquadramentos), inclusive o sofá da minha casa eu já comprei pensando em não ter muito como deitar pra que eu fique o máximo de tempo sentado possível (acho que eu funciono de forma contrária ao teu nesse sentido…rs).
        O iPad acaba sendo o lugar que eu uso pra relaxar, quando já estou na cama. Inclusive é séries é no iPad o lugar que mais vejo.

        1. Isso justifica minha preguiça em ir pra TV, pq entro no modo trabalho…rs

  12. eu tenho usado cada vez menos, tenho usado só para ler mangás, antes via vídeos, mas se ele é curto vejo no celular mesmo, que está sempre a mão, se for longo, prefiro ver pela TV, assim como séries.

    esporadicamente jogo algum joguinho com minha esposa ou sobrinha