Paulo Freire na era digital

Paulo Freire, educador e filósofo brasileiro, tornou-se assunto espinhoso no Brasil nos últimos anos. Seu nome é gasolina em discussões inflamadas nas redes sociais que transbordam para embates políticos no mundo real — ou vice-versa.

Ao lado de outras quimeras da polarização entre direita e esquerda, como comunismo, ideologia de gênero e meritocracia, o pensamento de Paulo Freire é discutido com paixão por gente que, ao que tudo indica, nunca sequer folheou um de seus livros. Ou, se sim, de duas, uma: não os entendeu, ou serviu-lhe a carapuça.

Ainda que evite embates (virtuais ou não), às vezes eles são inevitáveis. Num desses, dei-me conta de que nunca havia lido o autor, de quem o meu conhecimento se limitava à batida frase invocada em várias das contendas que envolvem seu nome:

Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor.

O que é curioso, dado que a frase não consta em Pedagogia do oprimido, de 1974, em que ele trata do assunto.

Embora não possa ser atribuída ao autor, a frase encapsula parte do seu argumento. Falta-lhe, porém, outra importante — uma que, à luz das discussões infrutíferas por vezes suscitadas ou impulsionadas por menções a Paulo Freire, pode-nos ser útil nessas mesmas situações.

***

Justiça seja feita, dá para entender a aversão de extremistas de direita à obra de Paulo Freire — ao menos, daqueles que o leram.

Logo no início de Pedagogia do oprimido, o autor avisa ao leitor incauto que o livro lhe pode ser indigesto, em especial se ele for um sectário de direita (zero surpresa aqui), mas também ao fatalista de esquerda, que troca o radicalismo revolucionário pelo sectarismo reacionário.

Em ambos os casos, ou de ambos os lados, tal postura trava qualquer possibilidade de mudar a realidade:

A sectarização, em ambos os casos, é reacionária porque, um e outro, apropriando-se do tempo, de cujo saber se sentem igualmente proprietários, terminam sem o povo, uma forma de estar contra ele.

Enquanto o sectário de direita, fechando-se em “sua” verdade, não faz mais do que o que lhe é próprio, o homem de esquerda, que se sectariza e também se encerra, é a negação do si mesmo.

Um, na posição que lhe é própria; o outro, na que o nega, ambos girando em torno de “sua” verdade, sentem-se abalados na sua segurança, se alguém a discute. Daí que lhes seja necessário considerar como mentira tudo o que não seja a sua verdade. “Sofrem ambos da falta de dúvida.”

“Sofrem ambos da falta de dúvida.”1

Outro aspecto da obra que logo salta à vista é o que pretende Freire com a sua pedagogia do oprimido. Que, óbvio, é libertar o oprimido, mas também o opressor. Sua teoria é a da libertação dos homens, não somente dos homens oprimidos. É essa a parte que falta na frase-clichê atribuída ao autor:

A violência dos opressores, que os faz também desumanizados, não instaura uma outra vocação — a do ser menos. Como distorção do ser mais, o ser menos leva os oprimidos, cedo ou tarde, a lutar contra quem os fez menos. E esta luta somente tem sentido quando os oprimidos, ao buscarem recuperar sua humanidade, que é uma forma de criá-la, não se sentem idealistamente opressores, nem se tornam, de fato, opressores dos opressores, mas restauradores da humanidade em ambos. E aí está a grande tarefa humanista e histórica dos oprimidos — libertar-se a si e aos opressores.

A internet não fomenta a reflexão, o reconhecimento de equívocos, o diálogo. Tenho a impressão, não é de agora, que redes sociais e grupos de mensagens são menos “praças públicas”, mais câmaras onde as pessoas pensam alto. Quando confrontadas, a reação é de surpresa e defensiva, o que interdita o debate.

Mesmo quando este flui, há uma dinâmica de vencedores e derrotados que destoa de uma abordagem construtiva.

Freire propõe uma pedagogia horizontal, ou dialógica, em contraposição à antidialógica ou “bancária”, vertical, em que o educador “deposita” (daí o termo “bancária”) um conhecimento enlatado aos educandos, no limite para a manutenção do status quo.

Daí que, na interpretação talvez equivocada, talvez empolgada deste que lhe escreve, seus preceitos poderiam ser adaptados ao debate político polarizado, mediado por telas, do século XXI. No que quero dizer que, no geral, “o outro lado” não é a personificação da estupidez e/ou da maldade.

***

Pedagogia do oprimido me causou um misto de esperança e desalento; de alegria por dar contornos mais nítidos a um desconforto perene e, ao mesmo tempo, melancolia por esses contornos serem, hoje, não só objetos de discórdia, mas tidos como tortos, demoníacos, até, por tanta gente. É um belo livro.

Deixou-me, também, muitas questões abertas. Como dialogar de boa-fé com quem pensa diferente? Sem recorrer à condescendência, ao maniqueísmo ou à demonização do diferente?

Num trecho mais pragmático (a parte 3), Freire traça uma espécie de “plano de ação” pedagógico. Diz ele que “nosso papel [de educadores] não é falar ao povo sobre a nossa visão do mundo, ou tentar impô-la a ele, mas dialogar com ele sobre a sua e a nossa”.

Parece-me haver um paralelo quase perfeito dessa premissa pedagógica com as celeumas nas redes sociais, no sentido de que a compreensão mútua e o consenso passa por ouvir e entender as angústias do outro. Esse interesse genuíno, elemento vital ao diálogo, talvez se perda na interação digital.

  1. A frase é de Márcio Moreira Alves, em conversa com Freire.

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17 comentários

  1. Do lado de cá, fico muito feliz de saber que você leu Paulo Freire, Ghedin.

    Lá na psicanálise (parece que a gente anda temendo esse nome, quase desisto do comentário só por ter que usá-lo e saber as polêmicas que podem surgir, bom… Mas lá na psicanálise:) se fala muito sobre a repressão – um mecanismo psíquico em que expulsamos ativamente pra fora da consciência o que não se quer lembrar – e sobre o recalque – outro mecanismo em que não só algo é expulso da consciência, como é, também, negado a ela, esquecido.

    De todo modo, qualquer uma das duas coisas, ao vir à tona, tende a causar uma desestabilização, um incômodo. E a forma de evitá-la, às vezes, é uma demonização injustificada, que é como uma defesa mesmo, uma tentativa de manter as coisas como já estão, e todos os problemas como já os conhecemos.

    É que nada justifica, me parece, o medo que criamos do Paulo Freire enquanto sociedade (ao menos, não nós, brasileiros comuns). E há muito do que ele convoca em suas obras que balançaria importantes estruturas. Essas, que, ainda que nos punam, ainda que nos façam sofrer e que destruam o tecido social a ponto de impedir uma conversa qualquer, têm o nosso sincero apego.

    Me parece que temos medo de Paulo Freire como quem expulsa da consciência, reprimindo e/ou recalcando, o que tememos desmontar o cenário geral. É melhor gritar a minha dor, digamos assim, em uma câmera de eco. E seria esquisito – se o motivo não fosse tão óbvio – porque se teme tanto Paulo Freire hoje no Brasil.

  2. “O pensamento de Olavo de Carvalho é discutido com paixão por gente que, ao que tudo indica, nunca sequer folheou um de seus livros. Ou, se sim, de duas, uma: não os entendeu, ou serviu-lhe a carapuça.”

    Vale a mesma frase. No fim, o que importa é a ideologia da pessoa, aí ela molda qualquer coisa na cabeça dela. Se for de direita, vai dizer um amontoado de células é ser humano, que pessoas em contextos de vida absolutamente desiguais são tratadas de forma idêntica pelo mercado de trabalho, que uma novela pode moldar o comportamento da sociedade. Se for de esquerda então, aí até assassinato e multilação vai ser bacana legal e incentivado.

    1. Olavo de Carvalho era um frasista, não um filósofo – apesar de se autodenominar como tal. Até porque filósofos são conhecidos mais por por mais dúvidas baseadas nos fatos do que certezas. Ter a certeza de tratar o diferente como estúpido não é filosofia, é política.

      Comparar Olavo com Freire é comparar um certo político brasileiro com um premio nobel da paz (não que o premio também significa algo). Olavo e o tal politico pregavam a violência contra os diferentes. Freire e o ganhador do nobel da paz buscam reduzir conflitos

  3. Eu só escreveria “ideologia de gênero”, entre aspas. Esse é um “conceito” do senso comum, não proveniente de estudos sobre gêneros.

  4. não é por acaso que muitos marxistas mais ortodoxos (e chatos…) torçam o nariz quando se fala em paulo freire

    pedagogia do oprimido foi escrito no chile, durante o governo democrata-cristão que precedeu o de allende — momento em que freire já havia se mudado para a suíça, salvo engano. A vida política chilena naquele momento vivia um turbilhão, o que inclui mesmo perspectivas revolucionárias e de ação direta — e o livro, de algum modo, serviu justamente de alerta para os limites de qualquer tipo de ação política não-dialógica ou messiânica.

    desse período no Chile surgiu também um livrinho muito interessante chamado extensão ou comunicação?, fruto do envolvimento de freire com trabalhos de extensão rural e assistência técnica a camponeses.

    líamos bastante esse livrinho na graduação e sua grande lição pra gente foi justamente a necessidade de saber escutar. Escutar não com condescendência ou como mera atitude protocolar, mas iniciativa ativa de diálogo com o outro.

    as redes sociais são mesmo esse grande funil cacofônico de performances individuais no qual a possibilidade de escuta é bloqueada, sufocados que estamos em meio ao fluxo incessante de estímulos. Não há sequer tempo para a escuta — até porque o tempo que sobra nos impele a emitir opiniões, quaisquer que sejam.

    nesse sentido, fica aqui outra sugestão de educador pra pensar as redes sociais: https://www.scielo.br/j/rbedu/a/Ycc5QDzZKcYVspCNspZVDxC/

    o texto de jorge larrosa é de 2002, mas é assustadoramente atual: parece que foi escrito para as redes sociais.

    este trecho diz muito sobre nossa vida digital:

    O sujeito moderno é um sujeito informado que, além disso, opina. É alguém que tem uma opinião supostamente pessoal e supostamente própria e, às vezes, supostamente crítica sobre tudo o que se passa, sobre tudo aquilo de que tem informação. Para nós, a opinião, como a informação, converteu-se em um imperativo. Em nossa arrogância, passamos a vida opinando sobre qualquer coisa sobre que nos sentimos informados. E se alguém não tem opinião, se não tem uma posição própria sobre o que se passa, se não tem um julgamento preparado sobre qualquer coisa que se lhe apresente, sente-se em falso, como se lhe faltasse algo essencial. E pensa que tem de ter uma opinião. Depois da informação, vem a opinião. No entanto, a obsessão pela opinião também anula nossas possibilidades de experiência, também faz com que nada nos aconteça.

    passamos o dia emitindo opinião atrás de opinião nas redes sociais e, com efeito, nada nos acontece: é uma existência apática, pasteurizada — e cada vez mais orientada para o ódio e para a negação do diálogo.

    e nesse ponto freire continua fundamental lembrando da necessidade de saber ouvir o outro.

  5. Existe também uma necessidade de não sermos anacrônicos na análise do Paulo Freire. Ele era um homem que foi preso pela ditadura e que, mesmo assim, conseguia dialogar com os soldados que cuidavam dele (tem uma passagem muito boa sobre essa parte na Jacobin que tem ele na capa). Porque isso é importante? Porque na época em que ele pensou em tudo isso, ele jamais imaginaria que o outro lado (a oposição) seria nazi-fascista (no sentido de ideias propagadas e não de ações). Na Pedagogia da Esperança o Paulo Freire fala sobre a esperança para aqueles que tem esperança (ou seja, não se deve humanizar os humanos que escolher não ser humanos). Nesse livro ele inclusive vai reforçar a ideia de que a educação é necessária na medida em que é necessário formar novos humanos capazes de serem humanos (não podemos esquecer que ele parte de uma base pedagógica e fala sobre a experiência em sala de aula na educação de adultos) e não abadonarem a humanidade que os permite ter esperança. A esperança é a ideia de que é possível mudar e caminhar para uma justiça social e não que devemos “ouvir os lados” e dialogar com todo mundo.

    É preciso entender que ele era um revolucionário – um teórico da revolução – e não um conciliador de classes ou um social-democrata (a sua leitura é do ponto de vista de um social democrata). A libertação do opressor é na medida de trazer ele para o lado do povo (justiça social) e não de o deixar livre nas suas ideias conservadoras.

    O próprio Paulo Freire vai além nesses conceitos na Pedagogia da Autonomia – que onde ele fala sobre empatia, conhecimento libertador, construção coletiva de educação (saberes) etc.

    Dando um passo pra trás, em Educação Como Prática da Liberdade, precursora da Pedagogia do Oprimido, é onde ele fala mais claramente que a função da educação (e do educador) é libertar as massas através da educação. Mas essa libertação não é uma libertação do pensamento conversador, liberal ou de direita. É uma libertação no sentido de revolução (que dialoga com a autodeterminação dos povos) sobre a prática de ensino que leve o educando à libertação das amarras sociais que o impedem de entender os mecanismo do capital dentro das nossas vidas.

    Mais sobre isso vai ser visto na obra do Ivan Meszaros, A educação para além do capital, onde ele toca em pontos mais críticos (mas que expandem a visão do Paulo Freire) como a aliencação do processo educacional, educação como um processo do capitalismo, modelo prussiano de educação e resgatra a ideia de libertação pela via da educação através da ideia de educação como transformação social (ascenção sustentável, ou seja, não precisa ser um jogo de soma zero).

    Mas é interessante entender que a visão do Paulo Freire é uma visão de esperança, dialógo, libertação e construção coletiva do ponto de vista da revolução popular e da superação da democracia burguesa. Porque? Porque o Paulo Freire era marxista, afinal de contas, que criticava a neutralidade da educação (no sentido de reproduzir o capital em sala de aula).

    O que mais vai dialogar com a pedagogia freiriana é o livro O caminhar da Igreja com os oprimidos do Boff. A teologia da libertação é, bem dizer, a bibliogragfia básica e a sustentação teórica da Pedagogia do Oprimido.

    1. Contextualização oportuna, Paulo. (Nota-se que você é bem mais versado em Paulo Freire!)

      Quando você diz faz a ressalva ao anacronismo da análise, porque Freie “jamais imaginaria que o outro lado (a oposição) seria nazi-fascista (no sentido de ideias propagadas e não de ações)”, eu tendo a concordar. Acho que tem um nível de ideologização no opressor que, ultrapassado, inviabiliza o diálogo.

      O que me tocou no livro foi um olhar não a esse opressor irremediável, mas ao que Freire diz ser parte da sua pedagogia resgatar e, também, ao oprimido que tem o opressor introjetado. Talvez eu tenha me equivocado na interpretação, mas vi nitidamente o cara que ganha R$ 5 mil e tem medo da taxação de grandes fortunas e o pobre de direita nesses dois perfis.

      O novo livro do Jessé Souza, O pobre de direita: A vingança dos bastardos, aborda esse perfil. Não o li, só ouvi a entrevista que ele deu ao Ilustríssima Conversa, podcast da Folha. A certa altura ele critica a demonização que se faz de quem vota em Bolsonaro e outras personagens do tipo. Esse pessoal tem demandas legítimas, à parte as preconceituosas (e que não devem ser relativizadas, friso), que não foram atendidas por governo algum, ao menos não de um modo duradouro e universal.

  6. Não sei de onde vem essa ideia da praça pública como um lugar de discussão aberta e cordial. Talvez entre velhos brancos? A praça pública que conheço é onde passa rápido um monte de gente que está indo pra outro lugar, alguns param temporariamente se parecer seguro, outros dormem por não ter casa, e onde no passado enforcavam mas hoje arrastam pelos pés alguns infelizes pra mostrar o que não fazer e quem estava no poder. Mas devem ter praças e praças.

    Também não vejo as redes sociais como câmaras de eco muito mais do que qualquer outro canto da sociedade, que é toda segregada mesmo. Cada família, cada lugar de trabalho, é bolha atrás de bolha, câmara de eco atrás de câmara de eco, devido à falta de diversidade. Câmara de eco é mato, acontece que nas redes sociais você consegue levar sua câmara de eco ao extremo, ver a dos outros e até entrar em conflitos entre elas porque isso gera lucro pro dono do panóptico de câmaras de eco.

    Melhor seria ter consciência disso tudo, e usar as câmaras de eco mais produtivas para fazer coisas produtivas, do que perseguir esse sonho bem “era de ouro da civilização” de que todo mundo vai dar as mãos e conversar igual gente grande. Isso sim acho reacionário. A sociedade é conflituosa e continuaria sendo se essa desigualdade fosse reduzida, vejo o problema em como ela está embutida no sistema, não em todo mundo não emular um lorde inglês, que acho forçado.

    A ideia de “entender as dores do outro” e “dialogar de boa fé” até vale quando você está falando de duas pessoas que se encontram em uma situação ruim, sentem empatia uma pela outra mas estão tendo atritos e não se entendendo. Pode ser uma ferramenta foda pra construir certas pontes, mas fora desse contexto…

    Quando você tem uma pessoa que simplesmente acredita na inferioridade e na escravização/extermínio da outra, chega a ser dissimulado sugerir “a compreensão mútua e o consenso” ou “ouvir e entender as angústias do outro.” Não é um problema comunicacional, é político.

    Talvez eu seja parte do problema do ponto de vista de quem quer “ganhar mentes e corações” por aí, talvez esteja construindo um monte de estereótipos que não condizem com o argumento, mas realmente toda essa linha de pensamento me parece ingênua demais.

    1. Quando você tem uma pessoa que simplesmente acredita na inferioridade e na escravização/extermínio da outra, chega a ser dissimulado sugerir “a compreensão mútua e o consenso” ou “ouvir e entender as angústias do outro.” Não é um problema comunicacional, é político.

      E esse é o limite da democracia burguesa e o limite do pensamento da esquerda liberal.

    2. Comunicação também é política. Uma não se faz sem a outra e vice-versa. É meio triste (desesperador, até) acreditar que somos tão rachados assim, 50/50, em tantas questões que torna a convivência entre os diferentes insuportável.

      Não argumento no texto que todo mundo chegará a um consenso e que se deva relativizar a escravização/extermínio de dados grupos minorizados em prol da convivência pacífica. O que argumentei, com base no que Paulo Freire escreveu, é que podem existir demandas legítimas de quem está do “outro lado” e que, não por acaso, esse pessoal pode estar direcionando suas mágoas e rancores às pessoas erradas.

      Talvez seja ingenuidade mesmo. É que não consigo vislumbrar outra via pacífica para buscarmos uma coesão mínima da sociedade.

      1. Creio que sua linha de raciocinio também está certa, Ghedin. O ponto é como filtrar a demanda legítima do discurso segregador inserido no meio. Ou até melhor: como fazer o outro vencer o próprio preconceito criado?

        A sintese do “oprimido querer ser o opressor” mostra isso: pessoas apenas querem ter um conforto e o prazer da vida, mesmo que custe a humilhação de outro. Mas em uma sociedade criada hoje muito baseada no “já que o outro não me ajuda, então que se dane o resto”, as pessoas perdem suas esperanças comunitárias e se veem como salvadores de si mesmas, no máximo falando com pessoas que tem ideias similares. Vilões se criam por fricção social (ou por psicopatias), não por bondade.

        Algo que se notar quando vemos algumas conversas abertas em redes sociais, acaba muito comum mesmo dentro do progressimo: muita gente se diz “aberta” mas só escuta quem convesa igual a ela. Não escuta ou finge escutar quem precisa mais de coisas em uma comunidade, talvez até por um preconceito interno de pensar que a pessoa está mendigando atenção e posses. Talvez seja esse o ponto central do J.

        Como até colocaram nessa eleição de 2024: precisa-se realmente atender pautas sociais como respeito às diferentes formas de genero como exemplo . Mas tipo, mesmo uma pessoa de diferente genero precisa de casa e recursos/renda. Fazer saraus, eventos especializados ou grupos de estudo vai gerar um tipo de renda, mas pessoa se alimentam todos os dias e não dá mais para ficar plantando por aí ou tem horta comunitária por perto, nem todo mundo consegue se auto sustentar.

        (No dia que finalmente porem para funcionar um sistema de renda universal, vamos ver no que vai dar. Sei que pode ser que o auxilio emergêncial na época da pandemia pode ter sido um teste mas infelizmente nas mãos de pessoas que nem conseguiram analisar a fundo os resultados obtidos).

  7. Por isso que nunca tive redes sociais, são apenas câmaras de eco, para nos ouvir pensando alto sem nenhuma vontade de e debater. O problema de Freire é que as pessoas deixam de ter certezas para terem duvidas – e isso incomoda.

  8. Até hoje me devo a leitura de Paulo Freire. A vez que tentei ler senti que o texto era bem rebuscado no final. Talvez a frase que se atribuí a Freire seja no final ou o resultado da sintese do livro em si ou do trabalho feito por Freire.

    Me pego muitas vezes pensando também justamente este tipo de coisa. A sensação é que pensar nessa linha (ambos os lados em um conflito precisam de um intermediário que evite escalonamento) é virar o estereótipo do “isentão” – a pessoa que não quer conflitos entre as partes até porque sabe que conflitos podem respingar em si mesmo.

    Entender que este conflito se dá devido as diferenças socioeconômicas talvez seja o ponto principal aqui. Se “o sonho do oprimido é ser o opressor”, no caso o sonho de quem até então foi-se abusado é abusar, ou melhor, o sonho de quem não tem dinheiro e poder é ter ambos e de sobra.

    Não a toa hoje tem muito a frase “o pior problema do capitalismo é o capitalismo” – as relações hoje se baseiam em valores, no caso monetários. Quando governos tentam organizar a economia, o dito “mercado” (especuladores e donos de posses, herdeiros e membros de grupos sociais ocultos) tentam bagunçar a mesa do jogo econômico para continuar no poder, enquanto ao mesmo tempo graças a nova organização, alguns novos jogadores entram para de oprimido virar opressor (geralmente alguém que entra para o crime organizado por exemplo). Isso falo de comunidades baseadas no capitalismo.

    Se perguntem em comuindades gestionadas entre seus pares – ativistas de reforma agrária por exemplo – como eles evitam este tipo de conflito. Com organização social, ou seja, atribuir responsabilidades, direitos e deveres a seus pares, parte dos conflitos entre si são evitados. Grupos de povos originários (“indigenas”) que não tem a forma social que nós temos creio que parte do mesmo princípio: eles estão unidos em busca de uma convivência pacífica entre seus pares para sobreviverem no meio ambiente onde estão.

    Paro por aqui pois ia divagar demais. E não duvido que tem outras pessoas que podem falar com mais propriedade – até porque diferente de mim estes leram e entenderam Paulo Freire.

  9. As redes sociais e em consequência delas a polarização acentuaram o efeito Dunning-Kruger, assuntos como:
    Paulo Freire
    Racismo
    Facismo
    Nazismo
    Ideologia de Gênero e mais alguns por ai possuem especialistas que nunca leram meia dúzia de páginas sobre o assunto. (Alguns destes assuntos ai me incluo, mas prefiro não opinar quando confrontado).

    Resumo tá PHODA.