Cuidar não escala

por Steven Scrawls

Publicado originalmente em inglês no blog do Steven Scrawls.

Conheci uma assistente social que tinha como trabalho cuidar de quatro crianças órfãs. Ela se alternava com seus colegas passando 24 horas de cada vez morando com as crianças, agindo, na prática, como se fosse uma mãe. As crianças, sem surpresa, tinham muitos traumas e, portanto, seu trabalho não era fácil, mas ela o achou profundamente gratificante; ela se importava de verdade com as crianças. Dessa forma, as crianças — que poderiam não ter tido nenhuma figura constante de pai, mãe ou irmãos em suas vidas — cresceram juntas, como uma família.

Fiquei impressionado com o arranjo. Se você quisesse projetar um sistema social para cuidar de crianças que perderam seus pais, não sei se conseguiria um resultado muito melhor. Com quatro crianças e quatro assistentes sociais (cada um trabalhando três turnos de 24 horas por semana), cada criança pode receber cuidados e atenção individuais; os assistentes sociais, por sua vez, têm espaço para manterem suas próprias vidas, tirarem férias e, às vezes, ter dois trabalhadores com as crianças em vez de um.

Para ter esse atendimento individualizado, eles tinham quatro assistentes sociais e quatro crianças. Um para um.

Você poderia adicionar mais algumas crianças ou tirar um assistente social, como medida de contenção de custos. Seria menos sustentável, mas não mudaria a essência da experiência. Só que você não poderia se afastar muito do um para um sem afetá-la, sem industrializá-la a ponto de perder o cuidado individual. Com quatro crianças, elas podem se sentir como crianças; se fossem quarenta, provavelmente se sentiriam gado.

Somos bastante limitados quando se trata de cuidar. Você só consegue se importar profunda e individualmente com uma pessoa de cada vez.

Houve alguma dor nessa descoberta. Muitos dos meus sonhos utópicos — e se pudéssemos viver em uma sociedade onde todos pudessem obter a comida, a moradia, os cuidados com a saúde, as oportunidades de crescimento que merecem? — vêm de um lugar de desejo de poder viver em um mundo onde as pessoas são cuidadas. A enormidade da escala do sofrimento humano faz com que o esforço individual pareça fútil, levando as pessoas a soluções que escalam1 — deveríamos construir mais moradias, reformar a saúde pública, reformar o sistema financeiro, ter um tipo diferente de governo, mudar os incentivos etc.

Os adultos muitas vezes encaram soluções limitadas para grandes problemas como infantis. Sim, você poderia fazer alguns sanduíches para quem tem fome, mas há bilhões de pessoas famintas. Talvez seu esforço seja melhor direcionado trabalhando em soluções exponenciais. Daí que crianças que se sentem mal pelo morador de rua se tornam estudantes universitários que têm opiniões enérgicas sobre o socialismo ou o desenvolvimento tecnológico.

E, então, algo muda novamente quando esses estudantes se formam e começam a trabalhar e têm filhos, e, de repente, eles estão mais preocupados com babadores e mamadeiras do que com modelos econômicos. Algumas pessoas interpretam o desinteresse por grandes causas como um sinal de que as pessoas estão perdendo a esperança em um mundo melhor, tornando-se complacentes. Outros, como parte natural do envelhecimento, uma maneira saudável de se concentrar no que está sob o seu controle, de não se perder em hipóteses presunçosas. Provavelmente há alguma verdade em ambos os lados, mas eu me pergunto se parte desse foco mais restrito vem de uma descoberta profunda de que cuidar não escala.

“Não escalar” é um xingamento para a mente de um engenheiro. É um horror (de um modo esquisito) pensar que você poderia ser o CEO de uma empresa dedicada a alimentar o mundo, passar a vida desenvolvendo o Food-o-Matic para dar de comer a todos, mas se você negligenciar o cuidado com seus filhos, eles terão que conviver com a sua negligência.

Tem sido uma boa oportunidade para reexaminar minha visão de mundo. Durante grande parte da minha vida, encarei atividades de pequena escala com uma espécie de rejeição casual — não que eu não respeite ou valorize pessoas com ocupações que operam em nível individual, mas sempre fui cético quanto a buscar por essas coisas porque uma parte de mim pensa que “vivemos em um mundo enorme em uma época de enorme alcance. Um livro didático poderia educar milhares de pessoas, um discurso poderia inspirar milhões, um ótimo software poderia tocar a vida de bilhões. Por que você escolheria atividades limitadas quando pode fazer algo sem limites? O potencial ilimitado para escalar não é melhor do que o mero indivíduo?”

A engenharia de software como campo é composta por pessoas que estão muito conscientes das oportunidades perdidas para escalar (“por que não há uma API para que eu não tenha que esperar em uma ligação por uma hora?”). E isso não é uma coisa ruim! O software trouxe muito valor ao mundo, tornando acessíveis a todos coisas que costumavam estar ao alcance de apenas de alguns. A larga escala não é ruim, pelo menos não necessariamente. O industrial é perfeitamente capaz de ser melhor do que o artesanal. Às vezes, o vídeo do YouTube é mais útil que o professor particular.

Uma parte de mim, porém, se contorce com uma sensação de insuficiência quando penso em fazer algo em pequena escala. Digo, neste momento estou escrevendo um post em um blog — convertendo esses pensamentos em um formato propício ao consumo em escala. Pode ser tentador ver o trabalho individualizado como algo insignificante ou sem importância. Não ajuda que as pessoas cujo trabalho pode escalar tenham acesso à fama, riqueza e um poder raramente ao alcance de pessoas que operam no nível individual. E, sim, às vezes o trabalho em pequena escala é apenas esforço desperdiçado, o orgulho que se impõe à constatação óbvia de que o mesmo resultado poderia ser obtido com menos trabalho.

Só que às vezes as coisas não escalam sem mudarem de natureza. Cuidar não escala sem que vire outra coisa. Pensar nisso me ajudou a rever como me sinto a respeito de atitudes como pais cuidando de seus filhos, meus amigos tirando um tempo para conversarem comigo. Não é que eu fosse cínico a ponto de não achar que essas ações fossem importantes; é só que é difícil me livrar da sensação de que as pessoas, de que eu, deveríamos estar fazendo coisas maiores e melhores.

O cuidar, no entanto, não tem como ser maior e melhor. Se o seu objetivo é educar o mundo, você pode procurar maneiras de educar milhares ou milhões. Se você quiser inspirar o mundo, bilhões o aguardam. Mas se o seu objetivo é cuidar do mundo e, em dado momento, você estiver dando toda a sua atenção e carinho a uma pessoa, estará fazendo o melhor que se pode fazer.

Há algo estranhamente reconfortante nisso.

  1. Nota do tradutor: “Escalar”, aqui, é usado num sentido distinto, próprio da tecnologia da informação, de estender o alcance ou a disponibilidade de uma solução ao maior número de usuários/pessoas possível.

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12 comentários

  1. Resumo do texto: não é dinheiro (só) que ajuda as pessoas, mas pessoas ajudam pessoas.

    Se produzir em escala resolvesse problemas, na verdade já teríamos resolvido nas primeiras eras industriais.

    Só refletir dentro deste contexto: como indivíduo podemos fazer ações simples que ajudem o próximo real, o vizinho, amigo, parente principalmente? Muitas vezes é realmente estar do lado e ajudar a pensar. Não precisa fazer tudo pelo o outro – isso falando de duas pessoas capazes físicamente e psicológicamente, claro. Mas sim pessoas interagindo com pessoas criam comunidades fortes.

    Talvez o sentido de “família” é o sentido real comunitário. Podemos ter país, mães e parentes biológicos próximos, mas o laço maior muitas vezes é mais a relação de quem realmente ensinou a pescar, vamos dizer assim. Quando falam de um sentido mais restrito de família (seja de laços cossanguineos ou de relacionamento amoroso entre pessoas cis), isso é só uma máscara “comercial”, se parar para pensar. Afinal, uma família pode gerar um ser que vira mais uma peça no capitalismo, né?

    Saíndo deste pensamento bobo e tentando voltar ao texto. Quando vemos uma comunidade seja a do Manual/Órbita, seja outras, e as proximidades, apesar de não íntimas ou de real atuação (mais digital), vemos que é um impacto positivo tais relações. Pois são pessoas conversando, interagindo, tirando dúvidas e até mesmo desabafando. Procurando caminhos que possam construír juntos para uma sociedade equilibrada.

    Ter 1 milhão de amigos e seguidores pode até resultar em renda, em ganhos de poder social e econômico. Mas tipo, a pessoa apenas vira um símbolo, um personagem, um ícone. E mesmo ajudando outras pessoas, pode soar artifícial dependendo do que faz.

    Como disseram abaixo, micropolítica também faz parte da macropolítica. Um pequeno grupo coeso que se entende e tem interações robustas, muitas vezes tem mais força do que um grande grupo artifícial, feito apenas de fãs e adoradores.

    Cuidar de si e cuidar do próximo não precisa ser algo grandioso. Basta se entender com aquele que te entende. O resto é vivência.

    (E sim, sempre vai ter exceções, tem horas que tem que ser o chato da história e dizer que a idéia é legal, mas tem sempre o porém e mas… só que é reconfortante pensar que não precisa ter números para sobreviver socialmente. Basta ter um bom apoio social, seja de familiar ou amigo).

    1. “Se produzir em escala resolvesse problemas, na verdade já teríamos resolvido nas primeiras eras industriais.” – Bingo!

      1. E o engraçado é que a natureza pura ela produz em escala, de forma automática. Só que ela tem seus próprios ciclos, e procura se adaptar ao ambiente onde está. Ela se limita em si mesmo.
        Quando o ser humano começou a tentar controlar isso, talvez não pensou nas consequências, pois tenta acelerar um processo que tem sua cadência, e sem essa cadência, ela gera disfunções.

  2. A reflexão que esse texto deixa é como nossas ações podem se reverberar. Muitas vezes damos importância por coisas ínfimas, na outra ponta, fazemos coisas incríveis, mas nos achamos ínfimos. Tudo parte de dentro de nós, de nosso microcosmo para o Universo. Quando observo o meu mundo interior, sem egoísmo, mas com amor, sem julgamento, também tenho a capacidade de observar o outro com mais afeto. Afeto, eis uma escala que precisamos praticar. Texto fantástico, obrigada por compartilhar. E desejo a todo mundo um excelente 2025!

  3. Num momento que nossa palavra pode alcançar 6 amigos numa mesa, mas também pode ser transmitida para centenas a milhares de quase desconhecidos em um aplicativo de rede social, esse texto é uma faísca para acender a aura de cuidado que fins de ano aparentam pedir.

  4. escalar com cuidado é o mesmo que mudar paradigmas sociais, ética, entendimento de mundo e costumes gerias, só com isso se escala os cuidados individuais.

  5. Caramba. Obrigado por compartilhar isso, cara. Valeu mesmo.

  6. Nunca é tarde pra aprender que micropolíticas também são macropolíticas. Ótimo texto!

  7. Ótimo texto! E o tema do “cuidar do outro” casou bem com a época do Natal. Excelente maneira de se despedir para um breve e merecido descanso.

  8. Achei excelente.

    Acho que os economistas padecemos do mesmo problema de sempre buscar soluções “macro” e negligenciar o “micro”.