A era do vender-se em dobro
Mudanças comportamentais têm acontecido num ritmo tão veloz que padrões e premissas que eram comuns há uma ou duas décadas me escapam completamente. O artigo do W. David Marx me recordou de um deles: a aversão ao mainstream, ou a não ser um “vendido”.
Nas últimas três décadas, a cultura da juventude passou de um profundo ceticismo em relação ao comércio para uma defesa fervorosa do anti-anti-comércio, culminando em uma geração inteira de “criativos” que aproveitam o mercado comercial para… se envolver em ainda mais comércio.
Em qual momento virar vendedor no Instagram (leia-se: influencer) virou meta de vida, sonho de criança? Ou trabalhar na Globo e vestir a camisa com orgulho, ao melhor estilo Marcos Mion? Estaríamos traindo o movimento punk, véi? (Eu não lembrava do nível de insanidade desse vídeo. E, meu deus, “há 18 anos”…) Quando foi que o consumo totalizante de cultura enlatada, produzida em escala industrial (as “franquias”), sitiou o imaginário das massas?
Voltando ao artigo:
O tabu do século XX contra “vender-se” era, em sua essência, uma norma comunitária que recompensava jovens artistas que se concentravam na arte e punia aqueles que apropriavam a arte e a subcultura para o lucro vazio. Agora, a cultura é mais exemplificada por pessoas cujo objetivo parece ser o lucro vazio.
Hipóteses?
A era do vender-se em dobro (em inglês)
culture.ghost.io
Eu acho que isso é mais uma romantização do que uma mudança. Quando trabalhar na Globo virou meta? acho que faz tempo. Atores e atrizes pré-2000 já desejavam muito trabalhar na Globo, assim como já vi vários músicos dizendo que emplacar uma música na novela das 9 era tirar a sorte grande pra eles. As principais bandas punks e de metal fecharam com gravadoras enormes e venderam uma tonelada de discos, tocando, inclusive, em novelas da Globo (de cabeça, lembro de Guns n’ Roses e Metallica em várias trilhas sonoras, pra ficar nas gringas). Eles podiam até dizer que não gostavam da fama e do dinheiro, mas não abriram mão de nenhum dos dois. Nos anos 90 tbm era super comum o desejo de ser modelo de passarela ou jogador de futebol, o que equivale a vontade de ser influencer de hj, na minha opinião. O que mudou, na minha visão, é que essa performance de rebeldia saiu de moda e agora a performance é outra, mas o mainstream e o desejo de fazer parte dele sempre existiram, tanto que o mainstream é mainstream kkk
Agora, quanto a galera que realmente foge do círculo comercial, eles continuam existindo, só são uma minoria exatamente como já eram antigamente.
Acho que a grande questão entre “se vender” ou não está na manutenção da essência artística. No renascimento os artistas “se vendiam” para a Igreja e para marchands, mas o fato de sua arte ter se mantido demonstra que tinha sua consistência. Tem muito artista pop que consegue manter uma carreira consistente sem precisar apelar ao mainstream, e outros conseguem manter trabalhos mais comerciais e uma carreira mais independente, como o Mike Patton, por exemplo, ou o próprio João Gordo que, apesar de ter “se vendido” pra MTV e pra Record, mantém a integridade do Ratos de Porão até hoje. O problema então está mais em não ter qualquer consistência artística do que se vender ou não.
É meio complicado entender a fundo essas questões sem primeiro ouvir um sociólogo ou antropólogo, mas na minha visão leiga sobre isso, estamos na ressaca total da contracultura dos anos 60/70. O capitalismo tem o poder de fagocitar as resistências e fazê-las parte de si. Foi o que aconteceu com esse sentimento de rebeldia, que era parte da mentalidade dos jovens dos anos 60 até o começo de 2000, mais ou menos. A rebeldia foi engolida, mastigada e cuspida na forma de produtos e propaganda até a exaustão, de forma que se tornou um grande clichê aparentar ser “do contra”. Então, como se dizia nas aulas de lógica, a negação da negação é uma afirmação, portanto chegamos na outra ponta do pêndulo, onde cool é estar em sintonia com as trends geradas em plataformas privadas por quem paga mais. Mas, para o nosso bem, acredito que a ressaca disso tudo vai chegar também. Aliás, acho que já está aí no ar e estamos fazendo ela acontecer.
Isso explica tanta coisa – inclusive politica – que só vim agradecer por esta frase.
o que acho engraçado é que “influencer” é o fim, mas não acho uma profissão em si, pois a pessoa precisa criar algum conteúdo, nem que seja para ser de “life style”, se você for vendedor, você tem um produto em específico para vender, mas e o influencer? ele tem que criar um público, mas ninguém cria um público pq é influencer, tem que falar de alguma coisa.
o que vejo muita gente falando por aí é que quer ser influencer pelo status que tem, mas se perguntar influencer de que, muitos não saberão a resposta, ou falarão que é de “lyfe style”.
Isso é uma combinação de Fetiche de Mercadoria (curiosamente, a imagem do ser “anti-sistema” explorada como uma forma de fetiche, como o famoso caso das camisetas do Che Guevara) e de Identidade Performativa (tipo a galera do metal que se identifica pelas camisetas do Iron ou do Metallica).
O uso de objetos como identificação é algo natural ao ser humano desde sempre (pensa nas pessoas que usam camiseta do Corinthians ou do Flamengo desde sempre), mas atualmente é muito maior essa ideia da identidade baseada na performance, muito mais baseada na adoção dos simbolismos culturais que na sua real compreensão.