Como seria um Twitter gerenciado pelos próprios usuários, sem a empresa Twitter? Assim

Mascote do Mastodon em uma nuvem com o logo da rede ao lado.

Dia desses me peguei pensando em uma hipotética rede social nos moldes do Twitter, mas sem as suas muitas partes ruins — em especial a vigilância dos hábitos e gostos dos usuários para veiculação de anúncios segmentados e as regras frouxas contra neonazistas, misóginos e outros tipos que não deveriam ter espaço de fala em locais públicos. Dali a alguns minutos, lembrei que essa alternativa já existe. É o Mastodon.

O Mastodon é uma rede social de código aberto e federada. Reside neste último termo a sua maior diferença, embora não seja um conceito muito simples de se explicar.

Talvez fique mais fácil entender as redes federadas com uma analogia com seu paralelo mais próximo, o e-mail. Com meu endereço, digamos ghedin@manualdousuario.net hospedado em um servidor X, consigo trocar mensagens sem qualquer empecilho com pessoas que estão em outros servidores — Gmail, Hotmail, o e-mail da empresa, um endereço pessoal self-hosted. Cada servidor tem suas regras de spam e pode ter interfaces próprias ou ser usado em aplicativos/clientes de terceiros como Outlook e Apple Mail. Se um servidor apresenta comportamento errático que coloca em risco os demais, pode ser bloqueado, e se o serviço que você usa adotar práticas ou posturas que lhe desagradem, é relativamente fácil migrar para outro sem qualquer prejuízo.

Mascote do Mastodon segurando um celular.A lógica do Mastodon é similar — até mesmo na maneira como se referenciam os usuários, com uma @nome-da-instância ligado ao nome; o meu perfil, por exemplo, é @ghedin@masto.donte.com.br.

Qualquer um pode baixar e instalar o sistema do Mastodon em um servidor, criando uma instância. Depois de configurada, a instância pode ser conectada às demais do chamado Fediverso, o universo de redes sociais federadas. Fazendo outra analogia, esta geopolítica, é como uma federação: um Estado [Fediverso] composto por diversas entidades territoriais autônomas dotadas de governo próprio [instâncias]. No Mastodon, esse modelo permite que membros de uma instância possam ver e interagir com toots (os tweets do Mastodon) de membros de outras instâncias. É um Twitter com alma de e-mail, ou um Twitter descentralizado. Este vídeo explica bem (em inglês).

O Twitter e outras redes comerciais são a antítese do e-mail e das redes federadas. Ele é centralizado, ou seja, há uma infraestrutura única sob os caprichos de apenas uma empresa que controla com mão de ferro a experiência, os dados dos usuários, o que pode e o que não pode fazer ali dentro e a definição e aplicação das regras de convivência. Se você estiver descontente com o estado do app oficial do Twitter ou com o tratamento permissivo dado a neonazistas, bem… azar o seu. Você até consegue baixar um backup das suas mensagens, mas ele é apenas consultivo, ou seja, não pode ser exportado para outro sistema similar ao Twitter.

As virtudes e desafios de uma rede federada

O Mastodon foi lançado em março de 2016, fruto das ideias do desenvolvedor Eugen Rochko. Não foi a primeira nem a última rede social federada, embora seja uma das mais bem sucedidas. Hoje, mais de 2,2 milhões de pessoas usam o Mastodon e se esse número quase desaparece perto das maiores redes comerciais (321 milhões no Twitter e 2,45 bilhões no Facebook), é digno de nota o fato da rede sempre ser lembrada como refúgio viável quando algum evento ruim ocorre nas maiores, como a campanha #deleteFacebook em abril de 2018 e a proibição de conteúdo adulto no Tumblr em dezembro de 2018.

O modelo de instâncias significa que o trabalho de moderação é melhor dividido e que as regras de convivência podem ser mais rígidas ou frouxas, dependendo de onde você fizer seu perfil. Nas menores, dá para falar com os administradores diretamente, o que aumenta o nível de confiança de todos os envolvidos. O modelo federado também favorece o surgimento de comunidades temáticas, que lembram os fóruns de discussão dos anos 2000. As maiores, porém, costumam ser genéricas; quando muito, fazem referência a algum país ou idioma.

A Mastodon(te) é a maior instância brasileira, com pouco mais de 700 membros. Em entrevista ao Manual do Usuário, o fundador Renato Lond disse que criou a instância brasileira quando buscou por uma alternativa mais saudável ao Twitter e, ao deparar-se com o Mastodon, não encontrou uma instância brasileira. “As pessoas que moderam comigo — Ana, Abacaxi, Amber e ohtori —, todas elas já estavam por ali em algum canto. A minha ideia era juntar esse pessoal que estava espalhado por alguns servidores. Acho que é uma boa juntar esse pessoal”. Carioca, há três anos Lond mudou-se a trabalho para Bruxelas, na Bélgica.

O descontentamento com redes sociais comerciais foi o que o levou a ir atrás de redes de código aberto federadas. “O problema maior não é a rede ser comercial ou não, mas sim que, no caso do Facebook, Twitter e afins, você realmente não tem nenhuma noção do que acontece lá dentro e não tem a opção de sair”, explica. “Saí do Facebook faz um ano e pouquinho, fiz download dos meus dados e não consigo colocá-los em lugar nenhum porque não tem como migrar as coisas, as amizades. Uma das coisas que acho legais do Mastodon e do Fediverso é que se amanhã o Mastodon não funcionar mais, dá para fazer um ‘fork’, começar um software novo e continuar falando com as mesmas pessoas. Eu tenho um controle maior sobre os dados e como me comunico com as pessoas na rede no geral”.

A federação também traz benefícios imediatos, longe de situações cataclísmicas como o fim do Mastodon. Em julho deste ano, a rede social norte-americana Gab, conhecida pela alta concentração de partidários da extrema-direita, migrou para o Mastodon. De repente, o Mastodon, chamado por alguns de “Twitter sem neonazistas”, se viu dividindo espaço com uma das maiores comunidades online de neonazistas do planeta. A reação foi imediata. Muitos administradores de instâncias populares fizeram uso da prerrogativa de cortar o acesso de outras instâncias às suas para isolar a do Gab. A listagem de instâncias no site oficial do Mastodon também não incorporou o Gab alegando que ele infringe o pacto que as une — entre outras coisas, existe a obrigação aos administradores para “moderarem ativamente conteúdo racista, sexista, homofóbico e transfóbico”. Até aplicativos, que em tese são agnósticos em relação às instâncias que os usuários frequentam, cortaram o acesso à do Gab, casos do Tusky (Android) e Toot!, Mast e Amaroq (iOS).

Situações menos emblemáticas não escapam do radar dos administradores. Há um trabalho ativo para limitar o alcance de instâncias reprováveis no Fediverso. “Existem esforços de fazer repositórios públicos de informações com instâncias com comportamentos ruins no passado e moderadores e administradores que tendem a não moderarem suas instâncias. Esses, nós bloqueamos. Tem instâncias japonesas que permitem shotakons [representações eróticas de crianças em desenhos japoneses]; elas são banidas por padrão”, explica Lond.

Com seus pouco mais de 700 usuários e só recebendo novos mediante convite de quem já está lá dentro, a instância brasileira Mastodon(te) passa longe de problemas graves com neonazistas do Gab e que infestam e, não raro, pautam o debate no Twitter. Ainda assim, “moderação é o que dá mais trabalho”, diz Lond. Ele gasta até duas horas por semana analisando e decidindo, junto a outros cinco moderadores, denúncias de conteúdo suspeito de violar as regras da instância. Fora isso, “durante o dia dou uma olhada nas timelines e no meu tempo livre dou uma olhada mais aprofundada. Sigo outros administradores e moderadores e é questão de botar o ouvido para ouvir o que está rolando”, conta.

Nicho

O objetivo de Renato Lond nunca foi ter uma grande instância. Em alguma medida, ele vê o crescimento como potencialmente prejudicial. “Quando a gente olha para o mastodon.social [a instância ‘oficial’ do projeto e uma das maiores do Mastodon], o que tende a acontecer é que a moderação fica prejudicada porque você não consegue ter uma resposta rápida quando você tem 100 mil pessoas na instância ao mesmo tempo”, justifica. O sistema do Mastodon permite restringir a entrada de novos membros ou condicioná-la a convites de quem já está dentro. Para a Mastodon(te), o limite está próximo: “Acho que 1 mil usuários seria o limite máximo, porque mais que isso não daríamos conta”.

E está tudo bem. Sempre haverá outra instância aberta e a possibilidade de criar uma nova. Vale a pena buscar uma com que você tenha alguma afinidade porque um dos grandes baratos do Mastodon, afinal, é a timeline local, que exibe todos os toots apenas dos membros da instância. Ainda assim, o “modo padrão” de uso é seguindo pessoas, como ocorre no Twitter e em qualquer rede social, e nesse contexto não há limitações — você pode estar em uma instância francesa e seguir perfis da brasileira, desde que ambas sejam federadas.

Por mais que se pareça com o Twitter, os usos do Mastodon são variados e diretamente afetados pelas suas distinções. Não só as técnicas — como o limite de até 500 caracteres por mensagem contra os 280 da rede comercial —, mas as que derivam dos incentivos para se abrir uma conta em uma instância. “Tem muita gente que usa o Twitter como fonte de notícia e isso ainda é uma carência no Fediverso. Não tem agência de notícia, não tem um monte de coisas… Tem gente que usa o Twitter como megafone, para amplificar uma mensagem a uma marca e, novamente, não tem muita marca no Fediverso”, alerta Lond. Essa escassez de notícias e de perfis comerciais, porém, pode ser libertadora. “Tem muita gente que usa o Twitter para falar merda e o Mastodon funciona muito bem para isso”.

Essa sensação, de que o Mastodon é um negócio pequeno por definição, é compartilhada por muita gente dentro da instância brasileira e vista, quase que de maneira unânime, como um aspecto positivo. Falta ao Mastodon a veia comercial que em redes comerciais atrai grandes empresas e anunciantes e que, em algum momento, vira o foco e passa, se não a ditar, a interferir nos rumos da plataforma. É sintomático, por exemplo, que as subsidiárias brasileiras de Twitter e Facebook sejam quase totalmente focadas em comercial.

O conceito de redes sociais virtuais é relativamente novo, tem menos de 20 anos. Os esforços do Facebook em manter o engajamento dentro da sua rede e a adoção bem sucedida dos Stories, formato efêmero com validade curta, de apenas 24 horas, apontam para mais comedimento. O Mastodon parece mais adaptado a essa nova realidade (afinal, dá para criar instâncias totalmente isoladas), ainda que seja utopia apostar em uma virada para cima do Twitter.

Apps

O Mastodon é uma iniciativa sem fins lucrativos. Desconheço instância que veicule anúncios. Por esses e outros motivos, o Mastodon é mais receptivo a desenvolvedores terceiros que o atual Twitter. Na prática, isso significa que dá para fazer aplicativos mais robustos e variados para o Mastodon. Resguardadas as devidas proporções, o ecossistema dele lembra um pouco o dos primórdios do Twitter, quando este não dificultava a vida de quem tentava reproduzir a experiência nuclear da rede social em outros apps.

Interface do Mastodon no navegador Safari.

A interface “oficial” do Mastodon (acima) é web e lembra um bocado o Tweetdeck, com suas colunas e visual escuro. Para celulares, porém, o melhor é se jogar nos apps, todos eles feitos por desenvolvedores independentes e com toques muito originais de usabilidade.

Para Android, sobram elogios ao Tusky (gratuito). Ele tem um visual mais tradicional e zero dependência do Google — dá até para baixá-lo na loja de apps de código livre F-Droid, se quiser. O site oficial do Mastodon também indica o Subway Tooter (gratuito) e o Fedilab (R$ 9,90), este compatível também com outras redes sociais federadas como Peertube (site de vídeos), Pixelfed (estilo Instagram) e Friendica.

No iOS, a minha escolha é o Toot! (R$ 14,90). Gosto muito do editor, que é super completo e compatível com os recursos exclusivos do Mastodon (sinalização de conteúdo sensível, opções de privacidade do toot e enquetes), e do visual, com o simpático mascote que solta estrelinhas ao publicar um toot e a “roda” no botão do canto inferior direito que revela em qual instância você está ao ser girada. Outras opções para o sistema da Apple são o Mast (R$ 18,90) e o Amaroq (gratuito).

Veja mais apps para outras plataformas.

Um app só para falar merda

Prints do Stream.
Imagens: Stream/Divulgação.

Muita gente abre o Twitter, escreve algum desabafo e, instantes após publicá-lo, apaga a mensagem. Ou nem chega a enviá-la. Por anos, redes sociais nos instigaram a dizer o que viesse à nossa cabeça. Internalizamos aquele convite e muitos pensamentos que em outras épocas não seria compartilhados, agora são.

O problema óbvio dessa abordagem é que nem todos os pensamentos que passam da nossa cabeça para a tela são inofensivos. O Mastodon parece um refúgio mais seguro para essas mensagens — muitas delas nem chegam a ser ilegais ou condenáveis, mas capazes de criar saias justas. Mas sabe o que seria melhor? Um feed individual, desligado da internet.

É mais ou menos isso o que promete o Stream (iOS, gratuito). “Todos os seus pensamentos são armazenados localmente, em seu celular”, diz o site do app. A interface lembra a do Twitter — e, caso algum pensamento faça sentido lá, basta puxar a mensagem para o lado para publicá-la —, mas sua finalidade não poderia ser mais diferente. Talvez uma melhor descrição do Stream seja um diário em forma de linha do tempo: você escreve e envia… para lugar algum. Fica salvo no celular, com a opção de associar a tags, e só.

Agradeço ao pessoal do Mastodon(te) por ajudar a listar os pontos positivos do Mastodon. Obrigado!

Imagem do topo: Mastodon/Divulgação.

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13 comentários

  1. Me passou pela cabeça agora criar uma instância de Mastodon para fazer uma comunidade brasileira de discussão de transporte público.

    Mas é só uma ideia. E jogo aqui pois sei que tem gente que pega ideia sem avisar e faz.

  2. Já estava previamente interessado, fiquei mais interessado ainda depois da leitura (valeu pelo cc no Twitter!), mas fiquei bem decepcionado com o processo de criação de conta pelo site.

    Primeiro que não fica claro exatamente como começar. No site oficial há um filtro de interesse e de idiomas. Filtrei por várias categorias, e nenhuma delas lista Português como um idioma presente. Onde está o mastodonte, o servidor brasileiro? Eu quero criar conta nele.

    Definitivamente não é uma experiência de Sign up/Onboarding nem um pouco amigável.

    Sem contar que, na (minúscula) lista de categorias do site, metade das categorias tem potencial mais de afastar do que de atrair possíveis interessados: a julgar pela listagem, o combo gaming+LGBTQ+activism+furry+adult representa metade dos interesses possíveis. Pessoalmente não tenho absolutamente nada contra nenhum desses interesses, mas para alguém do “grande público”, essa seleção aí tem mais potencial de afastar do que de atrair. (Aí vai do quanto o Mastodon realmente está interessado no “grande público” neste momento, sim…)

    Enfim, vou continuar fuçando aqui. Vi potencial. Estou me sentindo de maneira parecida com quando descobri o IRC, lá pela virada do milênio… :)

    1. Ó! Imediatamente depois de postar o comentário acima eu saquei qual foi o meu problema: o mastodonte, servidor brasileiro que eu tava procurando, está fechado para novos cadastros sem convite. Faz sentido ele não aparecer na listagem — e, se ele é mesmo o único em língua portuguesa, faz sentido o idioma também não aparecer.

    2. Muito interessante o artigo, e a minha reação foi de criar uma conta e iniciar o uso.

      Porém, tive exatamente a mesma experiência. A barreira de entrada é gigante.

      A instância brasileira seria minha opção natural, porém ela não está aceitando novos usuários. Então na lista de possíveis servidores, cai num mar de opções que mais confunde do que ajuda.

      Resultado: não criei uma conta.

      Como discutido no grupo do manual do Telegram, fica a dica para a criação de uma instância e que talvez derrube um pouco essa barreira para novos usuários aderirem à plataforma.

      Eu teria um incentivo muito maior em aderir em uma instância mantida por um site e comunidade que conheço.

      1. Mandei convites em privado a vocês dois, Bracht e Gustavo. Espero que curtam!

        Para quem também se interessou, coloquei em outro comentário mais acima um link/convite com 5 usos (para evitar abusos). Espero que mais gente se anime e dê uma chance ao Mastodon :)

  3. Fiquei um tempo e depois apaguei a conta em um dos meus momentos de surto pós discussão de net.

    Não vejo de forma ruim, mas sinto que geralmente as redes sociais acabam sendo grupos de convívio de comuns.

    Fóruns de internet e grupos de discussão, ao meu ver, não deixam de ser redes sociais.

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