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Por que a descentralização em redes sociais é importante

Esquema visual demonstrando a diferença entre redes sociais centralizadas, como o Twitter, e descentralizadas, como o Mastodon.

Há anos escrevo sobre o Mastodon e ocorreu-me que em nenhum momento expus o porquê de alguém se preocupar com a descentralização em texto claro e conciso. Já expliquei isso em entrevistas e você encontra alguns dos argumentos aqui e ali nos materiais promocionais do Mastodon, mas este artigo deve responder a essa pergunta de uma vez por todas.

Nota do editor: O Mastodon é uma rede social descentralizada, criada pelo autor deste artigo. Para saber mais dela, leia esta reportagem. O Manual do Usuário também está no Mastodon; siga-o neste link.

Descentralização, substantivo: A dispersão ou distribuição de funções e poderes; a delegação de poderes de uma autoridade central para autoridades regionais e locais.

Ilustração com uma mãozinha depositando uma moeda em uma caixa com o logo do Manual do Usuário em uma das faces, segurada por dois pares de mãos. Ao redor, moedas com um cifrão no meio flutuando. Fundo alaranjado.

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Fediverse (ou Fediverso), substantivo: A rede social descentralizada formada por Mastodon, Pleroma, Misskey e outros usando o padrão ActivityPub.

Então, por que isso é importante? A descentralização subverte o modelo de negócio das redes sociais, reduzindo drasticamente os custos operacionais. Ela absolve uma única entidade de ter que arcar sozinha com todos os gastos. Nenhum servidor precisa crescer além da sua zona de conforto e capacidade financeira. Como o custo de entrada é quase zero, um operador de um servidor Mastodon não precisa levantar capital de risco, o que os pressionaria a recorrerem a esquemas de monetização em grande escala. Há uma razão pela qual os executivos do Facebook rejeitaram o modelo de negócio de US$ 1 por ano da WhatsApp após a sua aquisição: ele é sustentável e justo, mas não proporciona o mesmo retorno de investimento imprevisível e potencialmente sem limites que faz subir os preços das acções, tal como a publicidade faz.

Se você é o Facebook, isso é bom para você. Mas se você é um usuário do Facebook… Os interesses da empresa e do usuário estão desalinhados, de onde vem a velha máxima de que se você não está pagando, você é o produto. Esse modelo brilha em “dark patterns”1 como o padrão de feeds não cronológicos (porque é difícil dizer se você já viu tudo, você rola e atualiza mais o feed, o que leva a mais impressões de anúncios), o envio de e-mails de notificações não-lidas que na real não existem, o monitoramento do seu comportamento de navegação por toda a internet para descobrir quem você é…

Descentralização é a biodiversidade do mundo digital, a característica definidora de um ecossistema saudável. Uma rede descentralizada como o fediverso permite que diferentes interfaces de usuário, diferentes softwares, diferentes formas de governança coexistam e cooperem. E quando um desastre acontece, alguns estarão mais adaptados a ele do que outros, e sobreviverão ao que uma monocultura não conseguiria. Você não precisa pensar muito nos exemplos recentes. Considere a lei FOSTA/SESTA, aprovada nos Estados Unidos em 2018, que acabou sendo horrível para profissionais do sexo e que afetou todas as principais redes sociais comerciais porque todas elas estão sediadas nos EUA. Na Alemanha, o trabalho sexual é legal, então por que esses profissionais na Alemanha não podem participar nas redes sociais?

Uma rede descentralizada também é mais resistente à censura — e eu me refiro à verdadeira censura, não à do tipo “eles não me deixam postar suásticas”. Alguns vão afirmar que uma grande empresa consegue resistir melhor às demandas dos governos. Mas, na prática, as empresas comerciais lutam para resistir às exigências do governo dos mercados onde querem operar seus negócios. Veja, por exemplo, a oposição frágil do Google à censura na China e os bloqueios frequentes a ativistas turcos do Twitter. A força de uma rede descentralizada aqui está nos números — alguns servidores serão bloqueados, alguns obedecerão, mas não todos. E criar novos servidores é fácil.

Por último, mas não menos importante, a descentralização tem a ver com a correção da assimetria de poder. Uma plataforma centralizada de mídia social tem uma estrutura hierárquica em que as regras e sua aplicação, bem como o desenvolvimento e a direção da plataforma, são decididos pelo CEO, com os usuários não tendo quase nenhuma forma de discordar. Você não pode se afastar quando a plataforma contém todos os seus amigos, contatos e audiência. Uma rede descentralizada abandona deliberadamente o controle do proprietário da plataforma, essencialmente por não ter um. Por exemplo, como desenvolvedor do Mastodon, eu tenho apenas uma influência consultiva: posso desenvolver novas funcionalidades e lançar novas versões, mas não posso forçar ninguém a atualizar os servidores se não quiserem; não tenho controle sobre nenhum servidor Mastodon exceto o meu, não mais do que tenho controle sobre qualquer outro site na internet. Isso significa que a rede não está sujeita aos meus caprichos. Ela pode se adaptar a situações mais rapidamente do que eu sou capaz e pode servir casos de uso que eu não jamais teria como antecipar.

Qualquer rede social alternativa que rejeite a descentralização acabará por se enrolar com estas questões. E se não perecer como aquelas que tentaram e falharam antes, ela simplesmente se tornará aquilo que pretendia substituir.

Leia também: Como seria um Twitter gerenciado pelos próprios usuários, sem a empresa Twitter? Assim

Publicado originalmente no blog do Mastodon em 30 de dezembro de 2018.

Ilustração do topo: Mastodon/Reprodução.


  1. Um “dark pattern” é uma interface de usuário criada especialmente para enganar as pessoas e direcioná-las à realização de uma ação de maneira inconsciente ou pensando tê-la feita espontaneamente. O termo foi cunhado em 2010 por Harry Brignull.

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8 comentários

  1. Guedim, entendo o lado filosófico da coisa, mas na prática… É como a comparação WhatsApp x Telegram. O Telegram é muito melhor! Mas o mundo está no WhatsApp. Sou usuário Linux Desktop, nada de servidores, desde 2005. Ainda tem quem me olhe como se eu fosse um ET. Tive uma recaída com o Twitter esse mês, que durou duas semanas! Aquilo é tóxico.

    Tecnocracia!!! Muito bom! Adoro! Sou viciado em podcasts.

    1. Depois que um aplicativo ganha tração, o crescimento é exponencial e revertê-lo se torna muito difícil. É o caso do WhatsApp. Uma pesquisa recente apontou que 99% dos brasileiros com smartphone usam esse app. Difícil competir com algo assim, tão enraizado.

      Nesse caso, porém, não acredito que o Telegram seja superior. O fato de não ter criptografia de ponta a ponta padrão e obrigatória, como o WhatsApp, é um aspecto bem fraco do serviço.

  2. “Como o custo de entrada é quase zero, um operador de um servidor Mastodon não precisa levantar capital de risco, o que os pressionaria a recorrerem a esquemas de monetização em grande escala.”

    Isso não é um argumento a favor da descentralização. Mesmo numa rede centralizada, os custos operacionais são o menor dos problemas. Mas eu não preciso me dar ao trabalho de me aprofundar nessa afirmação pois o próprio texto já faz questão de confirmá-la na sentença seguinte.

    “Há uma razão pela qual os executivos do Facebook rejeitaram o modelo de negócio de US$ 1 por ano da WhatsApp após a sua aquisição: ele é sustentável e justo”

    Ora, o WhatsApp é e sempre foi uma rede centralizada. Como pode ela ter tido um modelo justo e sustentável ao custo de US$1/usuário/ano ao mesmo tempo em que uma rede centralizada é, por definição, segundo o trecho anterior, cara o suficiente ao ponto de precisar levantar capital de risco e recorrer a esquemas de monetização em grande escala para mantê-la?

    Não estou aqui para criticar a conclusão do artigo (de que redes descentralizadas são importantes, ou, ainda, são inerentemente superiores a redes centralizadas), que, diga-se de passagem, eu concordo, mas por outros motivos. Mas o que me parece é que o autor simplesmente iniciou com uma conclusão já pronta e então foi buscar explicações a posteriori para justificá-la.

    1. Não acho que os trechos são mutuamente excludentes. O fato de o WhatsApp não ter prosperado no modelo de US$ 1 por ano ratifica o argumento dele: fosse uma rede descentralizada, os insatisfeitos poderiam migrar de instância e trabalhar com outro modelo de negócio, mantendo a compatibilidade com a maioria dos usuários.

      Outro caminho alternativo a um WhatsApp descentralizado poderia ser um operacional mais equilibrado, porque, ao contrário do que o texto sugere (e aqui acho que o autor escorregou num exemplo ruim), o WhatsApp não se sustentava com cobrando US$ 1 por ano. Em 2013, ano anterior à venda ao Facebook, o WhatsApp faturou apenas US$ 10,2 milhões e teve prejuízo de US$ 138 milhões, mais que o dobro do ano anterior (US$ 55 milhões). (Dados daqui.)

  3. O texto e o argumento são excelentes. A ideia é exposta de uma forma simples e direta. A única coisa que senti falta foi de abordar a problemática de porque esse modelo de rede social “não pega” no grande público e como tentar contornar isso.

    1. Minha teoria favorita para explicar isso gira em torno de dinheiro e falta de escrúpulos das redes comerciais.

      O dinheiro sempre jorrou nessas plataformas comerciais, primeiro de investidores de risco, depois de empresas ávidas para anunciarem nas plataformas onde “estava todo mundo” (em algum ponto não estavam, mas depois vira uma bola de neve). A parte da falta de escrúpulos reside no uso de dark patterns e outras técnicas viciantes de estímulo ao uso. É tipo traficar drogas — não à toa, outro empreendimento altamente lucrativo e com muitos usuários.

    2. Comodismo. Efeito ‘ maria vai com as outras ‘. Uso Linux Desktop desde 2005, mas 99% dos amigos para quem já apresentei o sistema, continuar usando Windows, mesmo pirata, por puro comodismo. E não são empresas que tem software legado que só roda em uma plataforma específica. São pessoas que acessam a internet, YouTube, Facebook, fazem um trabalho escolar ou universitário, que seriam muito bem atendidas, como eu sou.

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