Encontramos os aplicativos de IA perdidos. E ninguém baixa eles

por David Gerard

Em setembro passado, o programador Mike Judge perguntou: se a IA é tão boa para programar, cadê os pequenos aplicativos feitos por IA? Onde estão os widgets que alguém simplesmente vibe codou? A avalanche de apps porcaria feitos por IA? Ele foi atrás dos números e não encontrou aumentos nos apps chegando à App Store ou à Play Store.

Neste ano, os bros da IA finalmente estão excretando aplicativos! E adivinha só? Ninguém quer saber deles.

Tem um artigo recém-publicado do National Bureau of Economic Research (NBER): “Writing code vs. shipping code: Productivity effects across generations of AI coding tools” (algo como “Escrever código vs. lançar código: efeitos de produtividade através das gerações de ferramentas de programação com IA”).

A tese deles é que a IA trouxe ganhos tremendos de “produtividade” na programação, mas isso não se reflete no uso dos aplicativos resultantes.

A ideia do NBER de “ganho de produtividade” é simplesmente quantidade de linhas de código. Cuspir código de chatbot agora é produtividade. Eles passam as primeiras quarenta páginas do artigo analisando o processo de vibe-codar mais e mais linhas de código.

Então ótimo, temos uma fonte inesgotável de lixo, bem produtiva. Mas… alguém liga para isso? Essa pergunta é respondida de passagem, nas últimas nove páginas do artigo:

Apesar dessa expansão na oferta, constatamos que o uso total de aplicativos nos primeiros três meses após o lançamento não aumentou em nenhum dos quatro marketplaces.

[…] A parcela de novos aplicativos que não conseguem alcançar nem um público modesto aumentou em todos os marketplaces, sugerindo que a expansão do lado da oferta está concentrada em aplicativos com pouca ou nenhuma base de usuários.

Ou seja, os usuários não estão nem aí para a enxurrada de apps-spam toscos feitos por IA. E por que ligariam?

O artigo não chega a provar que esse monte de lixo é feito com apps programados por IA, mas os autores acham que essa é a fonte óbvia do aumento repentino de novos apps, no que eu concordo.

Tem um monte de gente que sempre quis ser desenvolvedora e que de repente se sentiu empoderada pelo vibe coding. E os gráficos do artigo mostram um salto no número de novos apps no que os autores chamam de “era da programação agêntica”.

Por que os usuários não ligam? Os autores sugerem que talvez os usuários é que precisem se atualizar e acompanhar o ritmo:

[…] a resposta de uso pode simplesmente estar sendo lenta, já que descoberta e adoção levam tempo.

Ou talvez os usuários apenas não estão interessados em apps ruins.

Se você olhar os gráficos na página 42, o número de apps só sobe, sobe e sobe!

Mas o uso total de todos os apps está estagnado ou caindo. Adicionar mais apps não significa mais apps sendo usados.

E aí tem as avaliações e os downloads. Ninguém avalia ou baixa essa apps vibe-codados. É spam e ninguém liga.

Os autores do artigo são entusiastas de IA que parecem decepcionados que ninguém esteja nem aí para esse tanto de código lixo. Eles até descrevem errado os próprios dados no resumo do artigo:

Os grandes ganhos em produtividade da IA em nível de tarefa, portanto, se traduziram apenas parcialmente em software lançado e utilizado até o momento.

Se você chama zero ou negativo de “parcial”… Porque zero ou negativo é exatamente o que os próprios gráficos deles mostram.

Os autores insistem em chamar esse rodopio de trabalho inútil de “produtividade”, e não de um desperdício completo de esforço, dinheiro e do tempo de todo mundo.

Publicado originalmente no Pivot to AI em 16/6/2026.

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7 comentários

  1. Acho que nesse artigo o autor se perde em relação a um fato simples: ninguém baixa apps mais além dos apps das big techs, apps das utilidades (água, luz, banco, …) e apps de coisas consolidadas. Tanto apps artesanais quanto vibecodificados são muito difíceis de terem uma aderência junto ao público.

    E acho que uma coisa legal de olhar seria para o mundo Enterprise. Pelo menos na firma em que trabalho, cuja especialidade não é software, muita coisa que nós iríamos contratar com uma empresa terceira hoje em dia acaba virando uma aplicação IA vibecodificada. Não que seja um mar de flores, mas o gasto com essas terceirizadas tem caído.

  2. O vibe coding não seria essa personalização extrema do aplicativo, focando o uso pessoal?
    Baseado nisso, devem existir diversos casos úteis que não foram (e não precisam) ser compartilhados ou baixados.

    Então deveríamos buscar uma outra métrica para medir o sucesso desse tipo de desenvolvimento (não sei dizer qual!).

    Deixo um exemplo pessoal. Meu fillho está colecionando o álbum da copa. Ele fez um site usando IA para controlar as figurinhas, faltantes e repetidas. Tudo bem fluído, salvando localmente no navegador. E funciona muito bem para ele.

    O Vibe coding não é uma solução para aplicações corporativas, sistemas críticos, etc. Mas entendo que, sim, têm o seu uso para casos pessoais, prototipagem, validação de ideias, etc.

    1. Acho que sim, é super válido nesses casos. Esse uso dialoga com um post de 2020 do Robin Sloan em que ele faz um paralelo entre software feito só para si ou para poucas pessoas à culinária doméstica.

      A crítica do David, porém, é direcionada àqueles que prometiam (e ainda prometem) que a IA generativa criaria um “boom” de novos aplicativos disponíveis publicamente, gerando uma nova era de ouro nas lojas de aplicativos. O que não aconteceu até agora: o “boom” de novos apps veio em 2026, só faltou combinar com o público 🥲

    2. Nesses casos a IA me parece um ótimo caso de uso, pois diminui o corte de entrada para fazer programas simples, acho que o problema é conseguir métricas validas para esse tipo de caso, pois esses apps entram mais como um estatística de estudos pessoais ou melhora na qualidade de vida pessoais.
      Acredito que a questão é em como os entusiastas de IA, que geralmente investem dinheiro em nessas empresas, tem entrado numa espiral de busca por uma produtividade da vida em todos os antros possíveis, em que se a IA existir ela vai portanto gerar produtos de maior qualidade e valor, e portanto gerar mais dinheiro, o que representa pra eles um retorno de seu investimento financeiro. A questão aqui me parece mais um claro conflito de interesse dessas pessoas, elas querem aplicativos melhores? ou querem retorno financeiro? os delírios dessas pessoas é justificado? No meu ver são pessoas que pularam de cabeça nisso tudo e estão em claro estado de psicose, assim como foi com criptomoedas e NFT (mesmo que a IA seja bem mais útil do que esses exemplos).