Universo alternativo: Cine Filmes e a pirataria de filmes debaixo do nariz do Google

Nota do editor: Esta matéria é parte de um especial do Manual do Usuário sobre aplicativos para Android em posições de destaque na Play Store brasileira, mas que estão fora do radar da imprensa. São famosos desconhecidos que, juntos, criam uma espécie de universo alternativo dos apps. Leia também a primeira parte (4Shared) aqui e a segunda (Biugo).


A relação entre a indústria do entretenimento e a pirataria sempre foi de tensão. Uma briga de gato e rato que contrapõe empresas multibilionárias e idealistas ou pessoas comuns sem muitos recursos, mas com uma vontade imensa de ter acesso à ampla produção artística da humanidade. Por isso, casos como o do Cine Filmes chamam a atenção: um app de streaming de filmes direto, gratuito, sem qualquer aval da indústria cinematográfica e que permaneceu disponível na Play Store por meses como um dos apps mais baixados da plataforma do Google.

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Universo alternativo: Noizz (antigo Biugo), a rede social sensação da qual você nunca ouviu falar

Montagem de cena de "Stranger Things" com ícones da Play Store e do app Biugo.

Nota do editor: Esta matéria é parte de um especial do Manual do Usuário sobre aplicativos para Android em posições de destaque na Play Store brasileira, mas que estão fora do radar da imprensa. São famosos desconhecidos que, juntos, criam uma espécie de universo alternativo dos apps. Leia a primeira parte (4Shared) aqui e aguarde a última amanhã (29).


O mundo ainda está tentando entender o fenômeno TikTok: uma rede social chinesa, criada pela ByteDance, que se baseia em vídeos curtos e emprega um algoritmo pesado de recomendação. Na prática, parece ser uma espécie de sucessor espiritual do Vine e do Snapchat, com contornos de refúgio aos jovens que já acham que o Instagram ficou mainstream demais com pais, tios, toda essa gente velha publicando stories adoidado.

O TikTok é um dos apps chineses mais “internacionais” de que se tem notícia. Tem sido o app para iOS mais baixado do mundo há alguns trimestres, é um sucesso consolidado em mercados importantes como Índia e Estados Unidos, e, como costuma acontecer nesses casos, já começou a ganhar tração no Brasil também, aparecendo em colunas e reportagens na imprensa tradicional. Mas, na lista dos apps gratuitos mais pesquisados da Play Store brasileira, a loja de apps oficial do Android, outra rede social novata está ganhando de lavada do TikTok. Ela se chama Noizz (antigo Biugo).

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Universo alternativo: Como o 4Shared virou o “Spotify pirata” na era da música por streaming

Ícones do 4Shared e Play Store no mundo invertido da série "Stranger Things".

Nota do editor: Esta matéria é parte de um especial do Manual do Usuário sobre aplicativos para Android em posições de destaque na Play Store brasileira, mas que estão fora do radar da imprensa. São famosos desconhecidos que, juntos, criam uma espécie de universo alternativo dos apps. Leia a segunda parte (Biugo) e aguarde a última nesta quarta (29).


Nos últimos anos, ouvir música virou quase sinônimo de ter um app que faz streaming no celular. Nesta nova realidade, alguns players se destacam: Spotify, YouTube, Apple Music, Deezer. são poucos e você, muito provavelmente, já deve ter pelo menos ouvido falar de todos eles.

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Moto G7 Play: o mais barato finalmente está bom o bastante

Moto G7 Play: vale a pena comprar?

No início, era apenas um Moto G. O consumidor encontrava nas prateleiras algumas variações do modelo original, mas com diferenças circunstanciais — fora a memória principal, suporte a um ou dois chips e acessórios, era o mesmo Moto G. Quase sete anos depois, a família campeã de vendas da Motorola se desdobrou em quatro aparelhos que se diferem muito entre eles — nos “sobrenomes”, nos componentes e no visual. Curiosamente, talvez esta geração tenha o modelo de entrada, aquele baratinho, mais interessante de todos.

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Os bancos estão sob ameaça, mas não pelas fintechs que você imagina

por Guilherme Felitti

Você já leu a Bíblia? Eu ainda não. Independentemente da sua religião e das barbaridades que muitos religiosos tenham cometido — e continuem cometendo — em seu nome, é inegável o impacto que o livro ainda tem na nossa vida. Se você for à Itália, por exemplo, e visitar os museus de Florença, Roma e do Vaticano, é sempre bom ter em mente que os maiores mecenas de artistas como Michelangelo Buonarotti, Leonardo da Vinci, Rafael Sanzio e Caravaggio foi a Igreja Católica e que os temas das obras de arte eram, majoritariamente, histórias bíblicas.

Alguns deles, inclusive, eram contratados exclusivamente por papas ou pelo Vaticano. Rafael, por exemplo, dedicou quase a carreira toda para dois papas, Júlio II e o Leão X, e Michelangelo foi perseguido até o fim da vida por ter recebido uma encomenda também do Júlio II e não ter entregue as estátuas do seu túmulo.

Essa é uma história que mostra o tamanho da megalomania eclesiástica da época: Júlio II queria um túmulo com 40 estátuas de mármore numa estrutura de 7 metros de altura dentro da Basílica de São Pedro. O trabalho seria tão gigante que, antes de instalar o túmulo, foi preciso reformar as estruturas da igreja, que sucumbiria caso o projeto original com toneladas de estátuas fosse instalado. Júlio II morreu, Michelangelo entregou algumas das dezenas de estátuas e seus herdeiros perseguiram o artista até que os dois lados concordaram em um túmulo bem mais modesto, fora da Basílica. Júlio II está até hoje enterrado na igreja de San Pietro in Vincoli e hordas de turistas vão até lá não pelo legado do seu papado, mas pelo Moisés de mármore que Michelangelo esculpiu. Enfim.

Muitas das histórias que contamos ou ouvimos são baseadas em situações e arquétipos de personagens bíblicos. Independentemente da sua religião, são histórias e paráfrases que a gente repete diariamente, sem se dar conta. Por exemplo: quando queremos contar a história de alguém brigando contra outro claramente mais poderoso, vêm à mente a história de Davi e Golias.

Você, provavelmente, já a repetiu em algum momento da vida, talvez sem saber exatamente como se desenrolou a história por trás do ditado. Foi assim: os israelitas estavam numa luta sangrenta contra os filisteus. Um dia, o maior soldado dos filisteus, um gigante chamado Golias, confrontou o líder dos israelitas e exigiu uma luta um a um com qualquer guerreiro inimigo. Nenhum soldado israelita tinha coragem para tanto — dependendo de qual manuscrito você lê, a altura do Golias varia entre 2 e 3 metros. O único sujeito que se prontificou foi um pastor franzino chamado Davi, que estava no campo de batalha para levar comida aos seus irmãos soldados. O rei dos israelitas percebeu que as chances não eram grandes, mas mesmo assim topou e tentou emprestar seu elmo, seu escudo, sua espada e sua armadura para Davi, mas a diferença de tamanho entre ambos era tão grande que tudo caía no chão. Davi resolveu encarar Golias com a sua própria roupa de pastor e, antes da batalha, passou num riacho perto e selecionou cinco pedras redondas submersas.

No dia da batalha, os filisteus riram com aquela figura magricela em frente ao gigante. Antes que Golias sacasse sua espada, Davi pegou uma das pedras recolhidas no riacho, colocou em seu fundíbulo (uma arma que parece um estilingue giratório) e mirou no oponente. A pedra atingiu Golias na cara. Ele caiu no chão desacordado. Davi andou até ele, sacou sua espada e lhe cortou a cabeça, o que fez com que as tropas inimigas fugissem desesperadas. A história é um dos temas mais populares na arte, junto com a Pietá e o nascimento de Cristo. Você certamente já ouviu falar do Davi do Michelângelo, uma estátua de mármore com mais de cinco metros de altura retratando Davi completamente pelado, olhando para Golias momentos antes da luta com seu fundíbulo apoiado no ombro.

Foto da estátua de Davi de Michelangelo.
A estátua de Davi esculpida por Michelangelo. Foto: Brian Dooley/Flickr.

Pois bem. Neste exato momento, há uma briga do nível Davi e Golias rolando no mercado de tecnologia no Brasil que envolve os bancos. Você, meio apressado, vai falar: “Ah, Guilherme, falar das fintechs agora? Que novidade tem isso?” No que eu vou concordar 100% com você. Essa pauta seria excelente se estivéssemos em 2015, quando havia um futuro brilhante para o Parque Olímpico do Rio de Janeiro e “milícia” era uma palavra que mais relacionada a bairros pobres do Rio de Janeiro que ao Palácio do Planalto. O Tecnocracia de hoje não vai falar sobre fintechs. Quer dizer, não das fintechs que você está acostumado a ouvir falar em pautas do tipo. A briga realmente interessante rolando no mercado de tecnologia no Brasil tá em outra área. O Tecnocracia de hoje vai falar sobre o mercado de adquirência. Traduzindo: maquininhas de cartão.

As origens do duopólio

Nos últimos três anos, o que parecia um duopólio tranquilo de empresas controladas pelos dois maiores grupos bancários no Brasil de um setor bilionário que cresce anualmente a taxas de dois dígitos, mesmo com crise, virou uma guerra aberta, com dois players novos vindos (quase) de fora do setor bancário. A forma como Stone e UOL invadiram a festa de Rede e Cielo vai ser estudada em livros de história econômica do Brasil. Principalmente por que ambos não são ameaças potenciais; eles são realidade, com valor de mercado na casas dos bilhões de dólares e capital aberto na bolsa norte-americana. Ambos mudaram a maneira como o mercado opera e pressionaram os líderes.

É a história clássica de disrupção que você lê nos livros: o líder folgado e um pouco arrogante está deitado em berço esplêndido até que aparecem duas ou três novas empresas com uma nova abordagem. Inicialmente, o líder as desprezam dada a diferença de tamanho. Eventualmente, as novatas conseguem impactar o grande a ponto de fazê-lo rever sua estratégia para perder só os anéis, não os dedos. O que a gente tem visto nos últimos meses são os dois grupos bancários usando seu tamanho para tentar responder a dois desafiantes. Pior: a rachadura na armadura dos líderes incentivou outros bancos enormes, até então convencidos de que não valia mergulhar ali, a pularem de cabeça na disputa.

Para entender melhor a briga, como é padrão no Tecnocracia, vamos dar dois passinhos para trás. Primeiro, a gente vai entender quem são os Golias.

Como toda economia capitalista no mundo, a brasileira se apóia nos bancos. O mercado bancário no Brasil é extremamente concentrado: cinco bancos concentram mais de 80% dos ativos totais. Na categoria, o Brasil só perde para a Holanda, onde há quase 90% de concentração bancária. O Nexo tem um ótimo conteúdo comparando muitos países do mundo. O que são esses ativos? Basicamente, dinheiro. Os bancos oferecem uma série de serviços financeiros e o estudo do Banco Central que mede essa concentração avalia a participação de todos os bancos em categorias de serviço, como, por exemplo, crédito para pessoas físicas, jurídicas e rural, contas correntes, investimentos, emissão de cartões, seguro, financiamento, título de capitalização… A lista é enorme.

Os cinco bancos que dominam o mercado brasileiro são três privados (sendo que dois deles são nacionais) e dois públicos. Em ordem de total de ativos: Itaú Unibanco, Banco do Brasil, Bradesco, Caixa Econômica Federal e Santander. Neste Tecnocracia, a gente vai se concentrar nos bancos privados, já que os públicos têm um incentivo do governo para atingirem esse tamanho todo. Se o Banco do Brasil quebra, por exemplo, isso quer dizer também que a União quebrou. Você teria problemas mais sérios que o destino da sua previdência que está guardada lá.

Isso quer dizer que a gente vai falar dos dois maiores bancos privados do Brasil: Itaú e Bradesco.

Ambos tomaram esse tamanho todo com uma mistura entre aquisições de rivais e quebras de bancos menores, o que significa que o problema da concentração bancária vem piorando com os anos. Se você viveu na década de 1980, deve se lembrar de alguns outros bancos que hoje não existem mais. Por exemplo, o Ayrton Senna era obrigado por contrato a usar um boné azul de um banco mineiro chamado Nacional quando fosse dar entrevistas. Algumas das cenas mais clássicas do piloto mostram ele com o famoso bonezinho. Na década de 1990 também fez sucesso um comercial do Bamerindus com um jingle insuportavelmente chiclete (e eu agora estou com esta maldita música tocando em looping na cabeça). Se você já ouviu um tio cantar que “o tempo passa, o tempo voa”, mas alguma coisa continua numa boa, agora você sabe de onde vem. Bamerindus e Nacional quebraram.

A economia brasileira, principalmente antes do Plano Real, era instável o suficiente (e os donos de alguns bancos irresponsáveis em igual medida) para tornar a administração de um banco difícil. É, eu sei. Não era toda operação nacional de bancos estrangeiros ou banqueiros nacionais que conseguiam singrar estas águas. Como conheciam o mercado brasileiro, não se arriscaram em negócios com alto risco e tiveram o mínimo de administração, Itaú e Bradesco não só sobreviveram, mas foram englobando todos os outros. Lembra do Nacional? O Banco Central negociou a compra da massa falida pelo Unibanco. O melhor exemplo de concentração, porém, aconteceu há pouco mais de dez anos, quando o próprio Unibanco e o Itaú se uniram. As conversas sobre uma possível fusão aconteciam desde a virada do século, mas só foram concretizados após a crise econômica de 2008, quando o Unibanco estava numa posição delicada de liquidez. Juntos, se tornaram o maior banco do hemisfério sul do planeta.

A concentração bancária significa que, historicamente, toda introdução de tecnologia para pagamentos no Brasil dependeu da anuência dos grandes bancos. Na década de 1990, a principal tecnologia de pagamento que tínhamos eram folhas de papel onde você escrevia o valor e firmava com sua assinatura. Os cheques eram uma forma fácil de transacionar grandes quantias de dinheiro sem precisar de malas (alô, Geddel!), mas eram também uma mídia que convidava à fraude. Bastava uma assinatura falsificada para roubar um bom dinheiro de alguma conta. Em 1999, por exemplo, 62% das transações financeiras no Brasil eram feitas por cheque.

Mão preenchendo um cheque do Itaú.
Aos jovens: isto é um talão de cheques. Foto: Gadini/Pixabay.

Até que chegaram os cartões. Os bancos, muito interessados em diminuir as perdas com fraudes (afinal, quem acaba pagando a conta é o próprio banco), resolveram investir em cartões. A lentidão do começo era consequência do processo analógico. Tudo era mecânico, não eletrônico. Os primeiros cartões, sempre de crédito, precisavam de um equipamento, apelidado de reco-reco, que imprimia os dados do clientes em uma folha carbono. Por isso que os cartões mais antigos tinham os dados da conta e o nome do dono em alto relevo. O varejo mandava a cópia de carbono para o banco, que realizava a operação financeira. Vantagens sobre o cheque? Não muitas, na verdade. As fraudes continuavam.

O cartão como método de pagamento já existia no Brasil desde 1954, mas faltava uma peça até ele ganhar massa crítica: a rede eletrônica de pagamento. Ainda nos anos 1990, começaram a aparecer as primeiras. Os bancos, àquela altura, tinham passado por um processo de informatização pesada na década de 1980. Com a rede fazendo a comunicação em tempo real da transação entre o varejo e o banco, não havia mais motivos para ter reco-reco ou office boy correndo a cidade para levar comprovante de carbono de cima para baixo. O potencial de fraude era tão menor que os bancos resolveram jogar seu peso nesta transição.

Aqui vale um esclarecimento. Quem não cobre (ou cobria, no meu caso) economia pode achar que banco só serve para ter conta, sacar dinheiro e reclamar na hora de ligar para o SAC para habilitar ou cancelar um cartão novo. Os serviços B2C, digamos assim, são só a ponta do iceberg. O Itaú e o Bradesco são grupos enormes que controlam outros tantos negócios com relação indireta com o saque que você faz toda semana para pagar sua balada. Entre 1995 e 1996, quando estava claro que o futuro dos pagamentos era o cartão, os dois bancos, ainda aliados a outros bancos, fundaram as duas empresas líderes no setor até hoje. De um lado, o Itaú, junto com o Citibank, o Unibanco (antes da fusão, lembre-se disto) e a bandeira Mastercard criaram a Redecard, que viraria Rede; do outro, Bradesco, Banco do Brasil, Banco Nacional, Banco Real e Visa criaram a Visanet, que viraria Cielo. Parece festa de adolescente: o grupo de meninas de um lado, o grupo de meninos de outro, ambos se entreolhando, todo mundo parado no lugar1. Nos dois grupos, Itaú e Bradesco assimilaram todos seus sócios (com exceção das bandeiras de cartão e do Banco do Brasil, sócio do Bradesco no grupo Elo) e viraram os donos de fato de Cielo e Rede.

A partir de 1996, o mercado de cartões começou a crescer como um cavalo. Em 2000, as compras usando cartões de crédito e débito atingiram R$ 59 bilhões. Uma década depois, o valor das transações cresceu quase dez vezes. Em 2018, foi R$ 1,3 trilhão, mais de 20 vezes de aumento em relação a 2000, segundo os dados consolidados da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (ABECS). Nada indica que esse número vá diminuir nos próximos anos, já que cerca de 50 milhões de brasileiros ainda não têm uma conta bancária, segundo o Banco Central (quinta página do estudo). Mesmo os que têm um cartão ainda não o usa constantemente. E estima-se que quase metade de todas as compras no Brasil são feitas em dinheiro.

Durante os primeiros 15 anos deste mercado, Cielo e Rede surfaram essa onda praticamente sozinhos. Como faziam parte de uma estrutura muito maior, todos os fatores necessários para ganhar o jogo estavam postos. Os bancos que as apoiam têm milhares de agências e milhões de clientes pelo Brasil, emitem os cartões e têm dinheiro de sobra para oferecer o financiamento por trás do parcelamento. O segredo do jogo de adquirência é capilaridade, a capacidade de atingir não só a rede enorme de mercados, mas até o boteco de esquina na cidadezinha do interior. O dono deste boteco precisa ter uma conta no banco e é bem provável que ele seja cliente de um dos dois maiores bancos. Com as dezenas de milhões de clientes dos seus donos e sem qualquer concorrência séria, a Cielo e a Rede nadaram de braçada. Houve, sim, um rival: a GetNet, que acabou comprada pelo Santander em 2014 por R$ 1,1 bilhão. Mas a GetNet estava longe de ser uma ameaça.

No ápice da dominação, Cielo e Rede tinham mais de 90% de um mercado bilionário crescendo a ritmo acelerado. Como quase sempre acontece com quem domina um setor por tempo demais, a liderança começou a soar como uma garantia. Um dos fundadores da Intel, um húngaro chamado Andy Groove, cunhou uma frase que, anos depois da sua morte, seus sucessores parecem não ter entendido totalmente: “só os paranóicos sobrevivem”. O que poderia dar de errado para Cielo e Rede?

Os Davis

Entram os Davis. O primeiro deles você conhece muito bem. O UOL nasceu antes do estouro da bolha de 2000 como uma iniciativa do jornal Folha de S.Paulo para tentar se adaptar àquela mídia nascente chamada internet. Com a Folha e, posteriormente, as revistas da Abril, o UOL virou um gigante online baseado na força do seu conteúdo. Junto ao iG, ao Terra e à Globo.com, o UOL dominou a internet brasileira durante o que chamamos de era dos portais. Portais, jovens, eram sites que se propunham a concentrar todos os serviços e conteúdos de que o sujeito precisasse online. Durante um bom tempo, as maiores pontocons da internet no Brasil eram os portais, inspirados pelo modelo da America Online2.

Print de uma chamada do UolKUT, o clone do Orkut lançado pelo UOL.
O finado UolKUT. Imagem: UOL/Reprodução.

Houve um momento em que milhões de brasileiros entravam pela primeira vez na internet e, sem familiaridade, guardavam dois ou três sites maiores onde sempre entravam. Junto ao Orkut, o UOL virou uma dessas portas de entrada, o que lhe garantiu uma audiência tremenda desde sempre. O público ele já tinha; faltavam os serviços. Desde sempre, o UOL se notabilizou por uma estratégia de copiar serviços que faziam sucesso e oferecer para sua base. Em 2006, quando o MSN Messenger era um fenômeno, o UOL lançou seu UOL Messenger. Antes disso, quando o mensageiro mais popular era o ICQ, o UOL veio com o ComVC. Quando o Orkut dominava as redes sociais brasileiras, o UOL lançou o desavergonhado UOLKut. E não, não é piada.

Foi uma dessas cópias que colocou o portal no jogo de adquirência. Durante boa parte da primeira década dos anos 2000, os portais eram praticamente os únicos beneficiados pela receita publicitária online. O período pós-estouro da bolha foi ingrato para empreendedores digitais. Foram anos polpudos para UOL, Terra, Globo.com e iG. A onda começaria a mudar em 2005, quando o Google chegou oficialmente ao Brasil. Seis anos depois, seria a vez do Facebook. Quando os dois gigantes colocaram o pé no Brasil, o mercado publicitário mudou o alvo dos seus canhões. A fonte publicitária dos portais secou e todos foram obrigados a encontrar outras fontes de receita. O UOL apostou em duas frentes: computação em nuvem e pagamentos digitais. Pelo primeiro, começou a comprar startups e empresa estabelecidas da área. Juntas, elas formaram o UOLDIVEO. Pelo segundo, notou que o brasileiro estava se acostumando a comprar online e que o PayPal, pioneiro em pagamentos digitais no mundo, ensaiava uma operação local. Nasceu o PagSeguro.

O segundo Davi veio de um cenário completamente diferente, a começar pela experiência na área. Antes de sair da puberdade, o carioca André Street já tinha fundado uma empresa processadora de pagamentos eletrônicos, a Paga-fácil. Depois de vendê-la, se juntou ao amigo Eduardo Pontes e fundou a primeira carteira digital brasileira, a BrasPag, lá em 2005, comprada quatro anos depois pelo Grupo Silvio Santos (!) numa das compras mais confusas da história da internet do Brasil. Até hoje, é difícil encontrar alguém fora do negócio que entenda a estratégia por trás. Quando o Banco Panamericano quebrou, a Cielo comprou o negócio, mas Street e Pontes já tinham a cabeça em outra ideia.

Até esse ponto da história, a dupla já tinha fundado e vendido quatro empresas de pagamentos eletrônicos. Para os dois era evidente que havia um mercado muito maior do que processar pagamento para o varejo: aquele duopólio no mercado de adquirência. A Stone começou a operar, oficialmente, em 2013 com um objetivo em mente: dificultar a vida de Cielo e Rede. Para isso, trouxe para debaixo do seu guarda-chuva startups de gente nova, como a Pagar.Me, fundada por dois amigos com 16 anos3, ou de gente com experiência no setor, como a MundiPagg, de ex-funcionários da Braspag. Ou seja: tecnologia e gente boa.

As histórias dos dois Davis se entrelaçam em 2015, quando as máquinas da Stone começam a chegar ao varejo e o UOL lança a Moderninha. O ataque é em dois flancos: de um lado, a Stone peitou de frente o mercado onde Cielo e Rede fizeram seu domínio, o varejo tradicional. Do outro, a Moderninha começou a desbravar o mercado dos profissionais liberais, gente que trabalha fora de um estabelecimento e precisava de uma forma mais barata para aceitar cartões. O UOL e tantos outros players, como iZettle, SumUp e Payleven, que ofereciam máquinas para transformar o celular em uma máquina de cartões (a chamada subadquirência) surfaram a onda dos motoristas de aplicativos, por exemplo, com um modelo novo: em vez de alugar a máquina, com a exigência de mensalidades, você a comprava e poderia até parcelar.

As grandes deram de ombros no começo. Um dos diretores da Cielo chegou a me falar num almoço que o modelo não colaria já que as máquinas dão muito problema e precisam de manutenção constante (que bela defesa do próprio modelo de negócios, hein?). O modelo pegou, a ponto de ambas o copiarem, com a POP Credicard (a Credicard é do Itaú) e a Cielo Zip.

É aí que aparece a primeira rachadura na armadura de Cielo e Rede. Pela primeira vez em tantos anos, elas não ditavam o que acontecia, mas seguiam o que os outros estavam fazendo. Faltava à Stone capilaridade (lembra?), mas a empresa ia aos poucos colocando sua máquina verde em cada vez mais varejistas com a ajuda de franquias em centenas de cidades brasileiras a fim de estreitar o relacionamento e personalizando a sua solução para os mais diversos setores. Os dois gigantes pareciam satisfeitos em “perder” o mercado de subadquirência, até que o UOL deu um cavalo de pau e resolveu entrar forte na adquirência com a Moderninha Pro. Para piorar, o banco Safra também entrou na briga com o Safra Pay. Durante uma década, você tinha três máquinas disponíveis no mercado ao lado da sua casa. Agora, são seis e contando.

A maneira como Stone e PagSeguro entraram chutando a porta de um setor que parecia resolvido ajuda a explicar por que ambas abriram capital nos Estados Unidos. A PagSeguro fez seu IPO em janeiro de 2018 na Bolsa de Nova York — captação de US$ 2,3 bilhões, valor de mercado de US$ 9,2 bilhões. A Stone fez em outubro do mesmo ano na Nasdaq — valorização de 30% no primeiro dia e valor de mercado também na casa dos US$ 9 bilhões. Ambas valiam, mais ou menos, o mesmo que a líder Cielo, ainda que transacionem bem menos dinheiro que ela. Tanto dinheiro quer dizer que todo mundo já pode comprar iate e encher piscinas com champanhe? Longe disto. Óbvio que tem uma saída financeira para a galera, mas o grosso do dinheiro deverá ser aplicado para conseguir segurar o contra-ataque de Cielo e Rede. Por quê?

Equipe da Stone comemora o IPO da empresa na Times Square, em Nova York.
IPO da Stone na Nasdaq, em Nova York. Foto: @aqui/Medium.

A disputa por mercado

Você consegue notar o nível de uma briga por um mercado pelo número de celebridades que tentam te vender os produtos ou serviços na TV. Nesta, a gente tem Luciano Huck, Tiago Leifert e Ivete Sangalo vendendo maquininha, três dos rostos mais reconhecidos (e caros) da publicidade nacional. Dado o escalonamento da briga, não me surpreenderia que alguma delas apelasse para o sujeito considerado o Santo Graal da publicidade brasileira, o apresentador Fausto Silva. (Fun fact: quando chegou ao Brasil, a montadora JAC Motors tinha diminuído sua lista de potenciais garotos-propaganda para dois nomes: George Clooney e Fausto Silva. O presidente Sergio Habib queria o galã, mas um outro Sérgio, o Amado, presidente da Ogilvy, a agência da JAC, o convenceu pelo apresentador. Anos depois, Habib admitiu que foi a escolha correta).

Nesta briga, hardware é commodity. Ganha quem oferece taxas melhores. Qual é o discurso repetido “ad infinitum” por todas as celebridades nos comerciais de maquininha? Abolimos as taxas. Neste aspecto, ter os dois maiores bancos do Brasil por trás é uma vantagem maravilhosa. Com os cofres cheios e, mais importante que isso, lucros trimestrais que não param de crescer mesmo na pior crise da história do capitalismo brasileiro, Bradesco e Itaú têm gordura suficiente para diminuir as taxas de forma a tentar “sufocar” os rivais menos capitalizados. É a estratégia de sangrar um pouco — não é agradável, mas não te mata, ao contrário do teu rival. E isso já começou.

Em abril, a Rede extinguiu a taxa cobrada para adiantar o dinheiro recebido na sua maquininha. Pode ter soado grego, mas é o seguinte: sempre que algum cliente passa o cartão para pagar uma compra na sua cafeteria, por exemplo, a dona da máquina dá um prazo até te entregar aquele dinheiro. Por padrão, as adquirentes no Brasil repassam o dinheiro das máquinas 30 dias sem cobrar taxa adicional. Se você tem muita urgência, pode antecipar o recebimento — até no mesmo dia, em alguns casos —, desde que pague uma taxa extra à dona da máquina. É essa taxa que a Rede zerou na antecipação para dois dias, mas com um porém: a isenção só vale para quem recebe em uma conta Itaú. Entendeu o que falei lá em cima sobre as vantagens que os bancos têm em usar o próprio tamanho e as dezenas de serviços disponíveis para vencer essa guerra?

“Fontes próximas a Stone e PagSeguro dizem que o Itaú está engajando em concorrência predatória ao oferecer, a custo zero, um produto que tem no mínimo um custo de oportunidade de 0,5% ao mês (a taxa CDI). Para as novas entrantes, a prática equivale a ‘dumping’. Além disso, ao oferecer estas condições apenas ao cliente que recebe numa conta no Itaú, o banco estaria fazendo uma “venda casada”, uma conduta ilegal.” Este trecho é da notícia do Brazil Journal. Ou seja: como toda briga que envolve empresas estabelecidas e entrantes, esta deverá ser resolvida, pelo menos em parte, com a ajuda dos tribunais. Num setor altamente regulamentado, deve levar vantagem não só quem programa melhor ou tem mais dinheiro no banco, mas quem consegue melhor navegar pelo tenebroso labirinto burocrático brasileiro.

Recuperando a nossa metáfora bíblica, o Davi já não é tão franzino e o Golias, nem tão gigante. É a primeira vez em duas décadas que a posição dos bancos em algum setor está sob ameaça e não é pelas fintechs — ou, pelo menos, não pelas fintechs a que você se acostumou a ler sobre.

Nos últimos três anos, você se cansou de ouvir ou ler sobre como as startups mudariam radicalmente a forma como lidamos como dinheiro e como os bancos, estas estruturas monolíticas e atrasadas, seriam enterrados por essas empresas ágeis. Deixa o tio Guilherme te contar uma coisa: o “tecno-entusiasmo” sobre o qual já falamos tanto aqui te enganou (de novo), amiguinho. Não porque o Nubank seja irrelevante — está bem longe de ser. Sem dúvida, a startup do cartão de crédito roxo criou um novo parâmetro de qualidade no atendimento, na facilidade em realizar serviços pelo app e na diminuição da taxa de juros cobrada dos clientes.

Anos depois de a febre Nubank estourar, fica claro que os grandes bancos, ameaçados, souberam muito bem se adaptar apelando para a estratégia usada pelo Facebook para desossar o Snapchat: para que comprar se eu posso copiar e colocar para meus clientes? As facilidades em serviços que o Nubank introduziu já foram replicadas por Itaú e, em menor grau, Bradesco. A grande diferença ainda é o atendimento — entre tomar um tiro na perna e ligar para o SAC de um banco, a única escolha lógica é se o tiro é na direita ou na esquerda. Tem um parênteses aqui: entre os dois bancos, o Itaú é mais dado a experimentações tecnológicas. Hoje, alguns dos cientistas de dados mais talentosos e melhor remunerados do Brasil trabalham para o Itaú. São dezenas deles na sede do banco, na zona sul de São Paulo. É um legado deixado pelo Roberto Setúbal, que saiu da presidência do banco em 2017.

(Aliás, um leve momento jabá: por uma coincidência do tamanho do lucro dos bancos no Brasil, essa discussão surgiu de surpresa no grupo exclusivo para assinantes do Manual do Usuário no Telegram, dias antes deste episódio do Tecnocracia ser gravado. O que significa que, ao assinar o Manual do Usuário, você tem acesso a um grupo de gente que discute tecnologia com pé no chão, não com a mão no Instagram. Assine. É barato).

A Stone e o UOL rivalizarem com uma divisão de um banco, vá lá. Mas fica cada dia mais claro que uma startup com centenas de funcionários engolir um banco inteiro soa um pouco exagerado. Principalmente porque o parâmetro da Nubank, o banco norte-americano CapitalOne, percorreu o mesmo caminho nos Estados Unidos no passado. Os bancos de hoje no Brasil já viram esta história e parecem atentos o suficiente para não apenas replicar o que startups menores fazem, mas também explorar tecnologias que, em médio prazo, deverão engolir os cartões.

Enquanto o Banco Central faz os últimos ajustes do sistema de pagamentos instantâneos brasileiro, nesta semana o Itaú anunciou o iti, seu projeto de carteira digital para permitir o pagamento de compras usando um QR Code no celular. Quando o sistema começar a valer, deve chover fintechs querendo ser a “Venmo brasileira” e, com isso, DOC e TED devem se juntar ao cheque no museu dos meios de pagamento. Com o iti, o Itaú está “disruptando” a si mesmo antes que uma startup o faça e isso, vindo do maior banco privado do Brasil, é enorme.

Em entrevistas recentes, o fundador da Nubank, David Velez (pegou a coincidência do nome?), repete que cartão é DVD — uma hora ninguém mais vai usar. E ele tem toda razão. Mas, nesta briga específica, a impressão que dá é que o Golias não apenas aprendeu a usar o fundíbulo do Davi, como também já começou a jogar pedras em sua direção antes que o rival tenha tempo de alcançar sua própria arma.

Foto do topo: Thomas Hobbs/Flickr.


  1. Pelo menos eram assim as festinhas adolescentes na década de 1990. Com Instagram e Dua Lipa, deve ter mudado alguma coisa hoje. Sei lá, eu tenho 36 anos, virei o tio que fica entediado na festa e vai embora cedo para dormir antes das 10h da noite. ↩
  2. você, que nunca perdeu dois dias da sua vida pela severidade da ressaca por ter o metabolismo rápido como o Usain Bolt, saiba que a Aol foi tão poderosa que comprou a Warner na maior aquisição da história. Spoiler: deu merda. ↩
  3. Depois de ler isto você também se questiona o que tem feito da sua vida?↩

Livrar-me do carro próprio trouxe economia, paz de espírito e a esperança de cidades melhores

Em dezembro de 2017, no intervalo de um evento de tecnologia, conversava com amigos sobre assuntos aleatórios quando mencionei “meu carro”. Eles me olharam atônitos. “Você não parece o tipo de pessoa que tem carro”, disseram. Senti-me lisonjeado. Quando voltamos de viagem, comecei a cogitar a ideia de não apenas parecer, mas de ser uma pessoa sem carro. O processo todo levou um ano e, agora, alguns meses após me desfazer do carro próprio, desfruto de menos estresse no dia a dia e uma economia notável nos gastos mensais.

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Como o roteirista e comediante Nigel Goodman trabalha

Foto do Nigel Goodman.

Nota do editor: Esta é uma nova seção do Manual do Usuário em que entrevisto profissionais de diferentes áreas a respeito de produtividade e da relação deles com a tecnologia. A inspiração óbvia é a seção “How I Work”, do Lifehacker. A seção será publicada quinzenalmente, em alternância com a das mochilas — mande a sua, aliás, porque o estoque segue seco!

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Todo mundo precisa de um app de anotações rápido e que sincronize com a nuvem

Print do Simplenote em um celular e em um tablet.

Fato: um bom aplicativo de anotações no celular é imprescindível. Seja para escrever notinhas temporárias ou lembretes, registrar ideias, desenvolver textos completos ou se organizar, ter um app rápido e sem firulas, que receba texto puro e que facilite a sua recuperação está entre aquelas pequenas maravilhas que nem sempre reconhecemos ou valorizamos.

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O que se perde quando “vemos Netflix” em vez de filmes

Criança em frente à TV ligada em ambiente escuro.

por Drew Austin

Cada vez mais os livros não têm capas: o rápido crescimento de tablets e e-readers fez com que mais livros fossem lidos em telas que não enfatizam a capa como um identificador visual e um delimitador físico. Uma capa já representou a individualidade tangível de um livro, sua discrição. Agora, nas telas, as capas persistem como imagens retangulares vestigiais, ornamentando de maneira supérflua resultados de busca ou PDFs. Essa mudança de ênfase significa que os leitores se envolvem mais diretamente com os próprios textos, em vez de julgar os livros por suas capas, como adverte o clichê? Cinquenta Tons de Cinza e livros de autoajuda ganharam popularidade em aparelhos pós-capa. Estamos finalmente livres para ler o que realmente queremos, seguros em saber que ninguém pode nos julgar?

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Os apps de transporte criaram uma dinâmica de trabalho de Robin Hood ao contrário

por Guilherme Felitti

O cânone do Tecnocracia tem alguns autores que nunca escreveram uma linha sobre tecnologia. A vida é bem mais que gadgets e apps, ainda que, hoje, a vida seja moldada por eles. Um destes autores é um sujeito que só fez sucesso quando começou a contar os segredos da sua profissão. Em 1999, um chef desconhecido chamado Anthony Bourdain publicou um artigo longo na prestigiosa revista New Yorker detalhando como funcionavam restaurantes estrelados por trás da porta da cozinha. O título: “Não coma antes de ler isto”.

O artigo foi um sucesso e uma editora sugeriu que Bourdain encorpasse o texto para transformá-lo em um livro. Saiu dali o Cozinha confidencial. O livro é fundamental para qualquer um que não prepare em casa todas as refeições, ou seja, toda a humanidade com a exceção dos religiosos que vivem em comunidades fechadas, como os monges.

Além de uns casos escandalosos e fofocas corriqueiras (como a história da noiva que, durante seu casamento num restaurante, saiu da festa para chupar um cozinheiro ao lado da porta da dispensa), o interessante do livro do Bourdain é mostrar como os restaurantes criam métodos de reciclagem de comida para garantir que o que foi desperdiçado hoje não vire lixo, mas lucro, amanhã. Pelo parâmetro do Bourdain, um bom indicativo para entender a saúde financeira de um restaurante é observar se ele está começando a abrir para o brunch.

O brunch, essa refeição que não é nem um café da manhã por ter álcool, nem um almoço por só ter ovo e bolo, é um fenômeno muito mais popular nos Estados Unidos que nos Brasil (ainda bem), mas o exemplo se sustenta. Por quê? A real função do brunch é desovar todo o resto de comida comprada que, ao contrário do planejado, não saiu da cozinha nas noites de quinta, sexta e sábado, o filé mignon do horário dos restaurantes.

Se tem comida sobrando suficiente para justificar um brunch, é porque o dono não tem a menor ideia de como gerir um restaurante. Aliás, talvez a melhor lição do livro do Bourdain seja deixar claro que cozinhar bem não é incentivo nenhum para alguém abrir um restaurante. A primeira armadilha do dono de restaurante falido, diz o chef escritor, é acreditar nos amigos e familiares que dizem que seu prato específico é bom o suficiente para que alguém pague por ele. Isso enche o cozinheiro amador de esperança de largar as planilhas e a vida corporativa para passar as décadas que sobram da sua vida se dedicando à arte da gastronomia, sem chefe, cercado de amigos, dinheiro jorrando de pessoas desesperadas para provar seu prato específico que seus amigos e parentes tanto amam. O que o Bourdain conta é a realidade por trás do delírio.

Abrir um restaurante é uma experiência desgraçada. Você acorda muito cedo para receber fornecedores e dorme muito tarde, apenas depois de limpar a cozinha e o salão inteiros para que, quando você voltar de manhãzinha no dia seguinte, tudo esteja pronto para uso. Os melhores fornecedores já estão tomados por restaurantes maiores e mais antigos que os seus. Os melhores cozinheiros já estão empregados nestes mesmos lugares. E, além de fazer um único prato, você não entende nada de como gerenciar aquele monstro. Bourdain diz que os melhores donos de restaurantes que conheceu não sabiam fazer um arroz, mas manejavam planilhas lindamente. (Olha lá seu sonho de dizer adeus ao Excel dizendo adeus.)

Voltemos ao brunch. Para desovar comida que nem sempre está no seu melhor formato para consumo, o restaurante precisa apelar para estratégias que a deixem minimamente apetitosa. E dá-lhe manteiga e empanado. Empanar algo é a receita do sucesso: o que está dentro daquela crostinha crocante quase não importa, já que o gosto vai ficar soterrado em óleo e farinha. Além disso, quem não gosta de coisa frita? Empanar é tirar o foco da frescura do alimento. Você come um peixe ou um frango meio azedo sem perceber. Se Bourdain ficou pasmo com a estratégia dos brunches, lamento que ele tenha morrido sem conhecer a fundo os restaurantes a quilo no Brasil, onde a estratégia de reciclagem de comida está numa outra escala: filé na segunda-feira, carne desfiada do que sobrou na terça, croquete da sobra da sobra na quarta e um sopão para o jantar na quinta do que ainda resistiu no congelador. Se vivesse em tempos atuais, Antoine Lavoisier teria tornado o princípio da conservação da matéria ainda mais complexo depois de um mês comendo no quilo brasileiro. Enfim. O ponto principal do meu argumento é que, num brunch ou no quilo, você come feliz uma coisa que está quase passada e ainda paga a mais por isso. O dono do restaurante fica feliz. Seus triglicérides também.

Guarda na cabeça esse pensamento do empanado no brunch.

A bolha tóxica do empreendedorismo

Todo mundo tem seus “guilty pleasures”, aquela coisa que a gente sabe que não deveria fazer, mas tem prazer em fazer e por isso não nos aguentamos. Um dos meus é entrar no LinkedIn. Antes de entrar, eu preciso me preparar. Vou até a área de serviço e pego um galão de cândida, já que, no LinkedIn, você lê algumas coisas tão absurdas que tem que lavar os olhos com água sanitária depois.

Um desses absurdos apareceu na minha timeline há coisa de um mês. Um influenciador digital com um séquito no LinkedIn publicou uma foto de um entregador de aplicativo de delivery que não tinha uma perna. A imagem viralizou dentro desta bolha tóxica de empreendedorismo digital no Brasil, corroborando o discurso ufanista de “quem tem determinação não tem desculpas”. O post é um horror e eu não vou facilitar sua vida com o link. Agora, se seu dia está excelente e você quer uma razão para estragá-lo, pode ir atrás para ler os comentários reafirmando o absurdo.

A mídia foi atrás e deu um nome e uma história ao entregador sem perna. Ele se chama Carlos André, mora em Alagoas, tem 19 anos e perdeu a perna esquerda aos cinco anos depois de lutar contra um câncer. Ele sonha em ter dinheiro para comprar um carro adaptado a fim de trabalhar como motorista de aplicativo.

Alguém criou uma vaquinha online esperando arrecadar R$ 30 mil para ajudá-lo. A viralidade do post fez com que a grana juntada já tenha passado dos R$ 85 mil faltando ainda duas semanas para o fim da campanha de arrecadação. Ao que tudo indica, Carlos André poderá dar adeus às entregas de bicicleta e partir para o transporte passageiros em seu próprio carro.

É o tipo de história que apela para nossa humanidade: o sujeito vence um câncer e encara um trabalho físico para tentar pagar as contas. Do apelo à humanidade ao discurso motivacional no LinkedIn, como de fato aconteceu, é um pulinho. Carlos André assumiu a frase “Qual é sua desculpa?” em seu próprio Instagram, onde virou uma micro-celebridade com 11 mil seguidores. A vida, com o dinheiro da vaquinha e o status online, melhorou para Carlos André; isso é inegável. Mas e para os outros quatro milhões de brasileiros que dependem dos apps de corridas e entregas para pagar as contas todo mês?

Segundo um cálculo do Instituto Locomotiva com base em dados do IBGE, esses entregadores já representam um quarto de todos os trabalhadores autônomos do Brasil. Depender da bondade de estranhos é ótimo para terminar umas das peças de teatro mais famosas da história (Um bonde chamado desejo), não como um modelo de negócios.

A historinha que te contaram

A história do Carlos André é sintoma de um problema evidente: a ascensão de serviços de transporte mediados por aplicativos, seja o carro que te leva para a balada ou a bicicleta que traz teu jantar, é fundada em uma precarização enorme do trabalho. Engolir isso é difícil: quem vai querer admitir isso enquanto estamos pagando R$ 10 para atravessar a cidade? Ou quando trata-se do único emprego que o sujeito tem? É preciso de um lubrificante, uma historinha para deixar a situação mais palpável para os ouvidos de todos.

É aí onde entra o discurso oficial que todos esses apps de transporte usam para convencer novos motoristas ou entregadores, com os grilhões de empregos que pagam pouco ou esmagados pelo desemprego: baixe o aplicativo e tenha a liberdade de trabalhar quando quiser:

Os entregadores definem seus próprios horários de trabalho e se conectam ao aplicativo quando quiserem. Além disso, eles ganham por pedido entregue. Quanto mais você entrega, mais você recebe.

O trecho acima foi retirado do site oficial de uma das maiores empresas de entrega de comida e ecoa uma linha de argumentação que a Uber martela desde 2014, quando entrou no Brasil na véspera da Copa do Mundo. O discurso oficial é de um ufanismo que, se você lamber a tela do celular ou do computador, vai sentir o gosto do açúcar. Ou da farinha, já que, na nossa metáfora gastronômica, o discurso é o empanado que faz você colocar para dentro, sem questionar, algo não muito saudável.

O discurso oficial de “você trabalha o quanto quiser, faz seu salário e não tem chefe” é tentador, mas depende de uma pirueta argumentativa para esconder que, sim, quem dirige ou pedala tem chefe. E não é um humano, mas o algoritmo por trás do aplicativo que vai lhe enviar corridas, entregas ou vai limá-lo1 da plataforma. O algoritmo tabula o número de corridas feitas, avaliações recebidas, reclamações dos passageiros, problemas causados e decide, em tempo real, o que fazer com o motorista.

Na Uber, por exemplo, rejeitar muitas corridas seguidas pode bloquear temporariamente o acesso do motorista à plataforma. Para não frustrar o algoritmo e, consequentemente, perder trabalhos, é preciso seguir à risca as suas exigências e não desagradá-lo. É engraçado como a frase anterior parece ter sido escrita para um deus, e não a um apanhado de código. Há qualquer coisa de tribal em não desagradar algo que não se vê e, na sua cabeça, controla sua vida fazendo terrorismo psicológico. A transformação do algoritmo nas nossas cabeças como uma entidade superior com a qual não podemos nos entrever é um fenômeno a ser explorado num Tecnocracia futuro.

Como único ponto de contato entre a empresa e o prestador de serviço, o algoritmo serve como um escudo aos administradores. É comum ouvir, como desculpas para evitar mudança na forma como o sistema foi feito, que “o algoritmo que decidiu”, como se não fosse um ser humano que tivesse programado o bendito algoritmo. A frase sugere um processo de abiogênese tecnológica, como se o código do algoritmo, um dia, aparecesse do nada no desktop do programador. Culpar o algoritmo é também uma bela maneira para os humanos por trás deles lavarem as mãos.

Vencedores e perdedores

Quem ganha com esse de modelo de negócios são os clientes (que pagam muito barato por corridas), os executivos (com seus salários polpudos) e os investidores (que esperam uma taxa de retorno violenta no IPO). Só. Já dá até para dizer que nem para a próprio empresa ele é bom, depois que Uber e Lyft divulgaram seus dados financeiros para abrir capital na bolsa norte-americana. O resumo de ambos os documentos enviados à SEC, a CVM dos Estados Unidos: o mercado de corridas e entregas mediadas por aplicativos não é lucrativo hoje e pode nunca ser.

O principal prejudicado na história é o motorista/ciclista/motociclista. Neste modelo de alta rotatividade, o profissional se torna descartável. É muito fácil perder a vaga caso as vontades algorítmicas não sejam cumpridas. Então a maioria, sem muita opção, se sujeita a elas.

Temos então um batalhão de trabalhadores não apenas insatisfeitos, mas esgotados. Quem nunca pegou uma corrida de app com o motorista claramente virado da noite anterior? Muitos reportam problemas de saúde mental, como agressividade, ansiedade, ataques de pânico e burnout pelas horas excessivas. A responsabilidade pelas ferramentas de trabalho é 100% do fornecedor, o que faz com que as ciclovias de São Paulo estejam apinhadas de entregadores com as bicicletas laranjas do Itaú. Quando o app cria uma nova promoção ou serviços mais baratos, o espremido da história é sempre o trabalhador. Spoiler: quem custeia esse hambúrguer mais barato no seu prato ou a corrida com outras pessoas no carro? Raramente o app. É um jogo onde a banca sempre leva. Scott Galloway, professor da Universidade de Nova York, resumiu: os apps de transporte e delivery, com EBITDA negativo e sem prover qualquer benefício, são grandes programas de transferência de renda dos motoristas para os passageiros.

Nota-se a tese de Galloway por uma simples contraposição: o Uber está prestes a realizar um IPO na casa dos US$ 100 bilhões, e seus motoristas ganham um salário que, pelo menos nos EUA, está abaixo da linha da pobreza (!), segundo um estudo da Ridester. Pior: o modelo de contratação popularizado virou uma febre em outras áreas, o que deverá trazer consequências bem sérias em médio prazo. Em outras palavras: a tecnologia, alardeada como veículo para democratizar o acesso às oportunidades, está deixando os pobres ainda mais pobres.

Há um inédito movimento de resposta dos brasileiros. Em fevereiro, motoristas de Uber, 99 e afins promoveram, pelo menos, duas manifestações pelo Brasil — uma em Fortaleza, outra em São Paulo — para exigir melhores condições de trabalho. Em São Paulo, há uma movimentação para uma terceira na primeira semana de maio e, desde janeiro, fala-se em greve. Em suma, eles pedem que as plataformas aumentem os preços para os passageiros e diminuam a porcentagem tirada de cada corrida, o que aumentaria os ganhos dos motoristas no fim do mês. “A Uber mudou a forma de pagamento em setembro do ano passado e alguns motoristas, como a 99 pagava melhor, deixaram a Uber. Agora a 99 além de baixar o valor adotou o mesmo tipo da Uber, que é um valor por minuto e inferior ao que ganhávamos”, disse Paulo Reis, um dos líderes da manifestação ao Uol. Você deve ter cansado de ouvir, há três anos, sobre manifestações de taxistas contra os apps. É a primeira vez que os motoristas fazem manifestações contra as próprias plataformas.

Que resposta as plataformas podem dar? Como todos os motoristas e ciclistas são fornecedores dentro um marketplace, a plataforma não tem qualquer responsabilidade por eles. Não gostou das condições? Tchau e benção. Porta da rua, serventia da casa, já diria minha avó. E, em um país de desemprego galopante como o Brasil dos últimos quatro anos, o cenário é perfeito para que essas empresas tenham um repositório quase infinito de trabalhadores novos para substituir os insatisfeitos que saírem.

Esse modelo de contratação, com seus problemas embutidos, não se restringe a veículos terrestres. No fim de fevereiro, um avião caiu no Texas, matando os três tripulantes. O avião era contratado pela Amazon e carregava milhares de produtos. Uma apuração do Business Insider mostrou que pilotos já tinham alertado a empresa sobre riscos de queda pelo excesso de horas de vôo aliado à inexperiência de muitos contratados.

Condições precárias

Alguns empregos justificam rotinas extenuantes com benefícios, como forma de recompensar as dificuldades extras. Quem trabalha em plataformas de petróleo, por exemplo, tem um regime de trabalho de X dias em mar e Y dias de folga em terra.

Não é o caso da chamada “gig economy”, ou economia dos bicos. Este trabalhador, quando insatisfeito sabe que, sem qualquer direito, sai com uma mão na frente e outra atrás. Aqui, ele só é interessante enquanto produz. Quando enfrenta algum impedimento produtivo, é trocado por outro.

Há uma dinâmica do princípio de Pareto na base de motoristas, segundo um estudo da própria Uber. (O princípio de Pareto não tem relação com o “adevogado” Luiz Pareto — e só quem é velho da internet vai pegar a piada —, mas com o economista italiano Vilfrido Pareto, o primeiro a observar que, em muitos sistemas, 20% das causas são responsáveis por 80% dos efeitos.) Segundo dados de 2015, só 19% dos motoristas trabalham mais de 35 horas por semana, o que a gente poderia considerar um emprego em tempo integral. A maioria (51%) dirige de uma a quinze horas por semana, como se fosse um bico. Os dados sugerem que os apps de transporte são um “pool” interessante como complemento de renda. Como bem argumenta James Stainer, há uma relação de necessidade: quem precisa mais, dirige mais. Mas a história de trabalhar o máximo possível não é para todo mundo, principalmente porque o aumento nas horas dedicadas não vem acompanhada de algum benefício além da grana. Sempre bom lembrar que a gente não é robô: sob muito stress, o corpo humano, uma hora, pifa. E quando isso acontece, o app vê o motorista/ciclista/motoqueiro como um peso morto e abre espaço para quem possa ocupar produtivamente seu lugar.

Sem plano de saúde, previdência privada ou Fundo de Garantia sobre Tempo de Trabalho (FGTS), o trabalhador precisa continuar a agradar o algoritmo para conseguir pagar as contas do mês. Quando esse sujeito tiver problemas de saúde, quem vai manter as contas enquanto ele se trata? Libertários acham que, baseado na meritocracia, só deve ganhar quem produz e uma pessoa internada não produz nada além de gastos para o sistema de saúde. Só que a maioria de nós fica doente em algum momento da vida e os que escapam da doença, inevitavelmente, não escapam da morte. Onde vai desaguar essa crise? Nos sistemas públicos de saúde e previdência. Quando cair doente, é para no SUS que eles vão se abrigar. Quando sofrerem um acidente, é o INSS que terá que lhe cobrir financeiramente. Nas contas de união já severamente endividada e com problemas para honrar alguns compromissos.

Enquanto isso, você atravessa a cidade por R$ 10 e um punhado de executivos — na sua maioria branca — fica mais rico. Você acha que a explosão dos apps de transporte não têm nenhuma relação direta com você? Pense de novo.

Em termos econômicos, essa multidão de quatro milhões de brasileiros trabalhando em apps na hora do almoço para pagar o jantar também terá impactos no médio prazo. Quem não tem dinheiro guardado no fim do mês é um péssimo consumidor,  não por não querer, mas por não ter para comprar. Historicamente, o mercado brasileiro sempre foi muito baseado em consumo interno e o mercado imobiliário se apoiou muito nas últimas décadas no FGTS. Sempre que a economia dava uma desacelerada, principalmente nos últimos vinte anos, o governo de qualquer matriz ideológica apelava para duas estratégias: tirar temporariamente impostos de veículos novos para manter a indústria automobilística vendendo modelos antigos e caros para os brasileiros; e flexibilizar as regras para saque do FGTS para comprar imóveis. Um aumento do teto aqui, uma nova regra que permite sacá-lo no nascimento de um filho ali. Tudo como forma de injetar dinheiro em uma economia baseada majoritariamente no consumo das classes média e baixa.

Nos últimos seis anos, o número de microempreendedores individuais (MEIs) no Brasil mais que dobrou, de 3,6 milhões em 2013 para 8,1 milhões em abril. O aumento não vem de um ataque fulminante de empreendedorismo no brasileiro — o sujeito pula da cama e pensa: “quer saber? Vou perseguir meus sonhos de montar uma fábrica de biju gourmet” e a caminho do local de trabalho para pedir demissão toma um latte de meio litro numa cafeteria hipster. O aumento vem do desemprego. Sem carteira assinada, resta “empreender”. Note as aspas: a maioria destes novos MEIs desde 2013 não empreende; se vira.

Em médio prazo, essa multidão de MEIs e Pessoas Jurídicas (PJs) terá como consequência a diminuição do valor guardado (ainda que obrigatoriamente, como o FGTS) pelo brasileiro médio. É um argumento que vale não apenas para apps de transporte ou economia dos bicos, mas para a precarização do trabalho em todas as áreas. A tecnologia não criou o problema, mas lhe deu uma escala e uma velocidade que seriam impossíveis na economia analógica.

Há três anos anos, a China derrubou sua tradicional limitação de apenas um filho em cada família exatamente pelo motivo oposto. Como filho único, o jovem chinês tinha que custear a própria vida, sustentar os pais e, em alguns casos, a esposa e os pais dela. Ao final das longas jornadas de trabalho todo mês, quase não lhe restava nada para guardar. Quando a economia chinesa soluçou depois de uma década crescendo rápido como um trem (um processo que, incidentalmente, ajudou muito o Brasil lá por 2010), o governo percebeu que uma forma de tentar acelerá-la de novo era por meio do consumo interno. Ao permitir dois filhos por família, o jovem chinês agora poderia dividir os gastos com o irmão e poupar para gastar lá na frente e tentar fazer a economia girar.

As vagas nos apps de transporte formam um paliativo interessante quando a economia se encontra em frangalhos e não existe outra opção, como é o caso do atual estado econômico brasileiro. O problema é quando o paliativo se encaminha para virar constante. Já são, pelo menos, quatro anos de febres de apps de transporte no Brasil, com o setor absorvendo cada vez mais trabalhadores. Nenhum país fica rico com milhões de pessoas dirigindo ou levando comida para os outros. Ainda mais quando o dinheiro da plataforma não fica no Brasil— nos papéis do IPO, a Uber revelou que, no Brasil, só é reinvestido na operação local ganhos acima de US$ 500 milhões. Em outras palavras, o dinheiro que a Uber ganha no Brasil não fica por aqui, uma situação só aconteceu conosco, segundo o documento. O cenário é ainda mais preocupante em um mercado com falta aguda de profissionais técnicos, como engenheiros, programadores, matemáticos e estatísticos, caso do Brasil

O que o discurso utópico da “liberdade” e “seja seu próprio patrão” esconde é que a economia dos bicos produz em escala empregos pouco especializados, que pagam mal, rendidos às decisões das plataformas e sem uma rede de proteção para dezenas ou até centenas de milhões de pessoas no mundo. Isso tem consequências para a sociedade, inclusive para quem não é motorista ou ciclista. Para gerenciar tanta gente, o modelo secular de administração exigia uma camada intermediária. Essa camada, com os apps, não existe mais. Como são poucas as plataformas que concentram estes trabalhos no mundo, os beneficiados por empregos mais complexos e com benefícios excelentes despenca. O problema da concentração de renda se torna ainda pior: um grupo minúsculo de investidores e executivos e uma multidão de trabalhadores, organizados por algoritmos, correndo para atender o próximo passageiro ou levar a próxima refeição.

A projeção do Carlos André, o entregador sem uma perna, passa a corroborar o discurso dos influenciadores de empreendedorismo do LinkedIn, de que “basta querer”. “Se não aconteceu, é por que não quis o suficiente”. “Quais são as suas desculpas”. [Cadê meu galão de cândida?] A romantização recobre esse processo com uma crocante camada de “auto-ajuda motivacional”, ótima para ganhar curtidas no ambiente tóxico do LinkedIn, mas brutalmente desconectado da realidade.

Mais que isso: a maioria dos que repetem a baboseira não percebe que não faz parte do topo, mas da base da pirâmide. A maioria faz parte dos atingidos, não dos beneficiados. Mas, de novo, pagar tão baixo para atravessar a cidade ou ter alguém trazendo seu cheesecake com desconto é tentador demais. É como aquela casquinha crocante e quentinha de alguma milanesa que você pegou num restaurante de quilo. Agora está uma delícia, mas, lá na frente, o que está por baixo da casquinha vai ter trazer alguns problemas.


Foto do topo: Ricardo Amorim/LinkedIn.

  1. Aliás, você sabia que o verbo “limar” vem de músicos que enviavam — de mentira — substitutos quando não podiam estar numa sessão de gravação? Curiosidade aleatória do episódio. Aliás de novo, se você está de bobeira, esta entrevista do Serginho Leite no Jô em 1993 é de chorar de rir. ↩