Montagem de cena de "Stranger Things" com ícones da Play Store e do app Biugo.

Universo alternativo: Biugo, a rede social sensação da qual você nunca ouviu falar


28/5/19 às 10h45

Nota do editor: Esta matéria é parte de um especial do Manual do Usuário sobre aplicativos para Android em posições de destaque na Play Store brasileira, mas que estão fora do radar da imprensa. São famosos desconhecidos que, juntos, criam uma espécie de universo alternativo dos apps. Leia a primeira parte (4Shared) aqui e aguarde a última amanhã (29).


O mundo ainda está tentando entender o fenômeno TikTok: uma rede social chinesa, criada pela ByteDance, que se baseia em vídeos curtos e emprega um algoritmo pesado de recomendação. Na prática, parece ser uma espécie de sucessor espiritual do Vine e do Snapchat, com contornos de refúgio aos jovens que já acham que o Instagram ficou mainstream demais com pais, tios, toda essa gente velha publicando stories adoidado.

O TikTok é um dos apps chineses mais “internacionais” de que se tem notícia. Tem sido o app para iOS mais baixado do mundo há alguns trimestres, é um sucesso consolidado em mercados importantes como Índia e Estados Unidos, e, como costuma acontecer nesses casos, já começou a ganhar tração no Brasil também, aparecendo em colunas e reportagens na imprensa tradicional. Mas, na lista dos apps gratuitos mais pesquisados da Play Store brasileira, a loja de apps oficial do Android, outra rede social novata está ganhando de lavada do TikTok. Ela se chama Biugo.

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Print do título do Biugo na Play Store.
Imagem: Play Store/Reprodução.

Esta reportagem que você lê é, muito provavelmente, a primeira publicada no mundo sobre a nova rede social Biugo. O que é uma loucura, considerando que estamos falando do 13º mais baixado do planeta no primeiro trimestre de 2019, segundo a consultoria Sensor Tower.

Biugo: edição de vídeo ou rede social?

Nos últimos meses, quem publica apps passou a acrescentar, nos títulos deles, uma breve descrição do que fazem. Até mesmo os grandões aderiram à prática — o Facebook, por exemplo, publica o Messenger Lite como “Messenger Lite: ligações e mensagens gratuitas”.

Incluir no título as palavras que os usuários em potencial provavelmente usarão na hora de pesquisar pelo produto é uma estratégia clássica de SEO (otimização para buscadores). É por isso que, vez ou outra, nos deparamos com artigos em blogs e jornais com títulos que parecem um amontoado de palavras-chaves — não faz muito sentido para você, ser humano, mas os robozinhos do Google adoram. Se antes o SEO estava restrito à web, com o acirramento da disputa por espaço nas lojas de apps, as empresas de apps passaram a “otimizar” esse espaço também. No caso de apps menos conhecidos, como o Biugo, a tática tem um efeito colateral, que é ajudar a passar uma ideia, de pronto, do que eles tratam antes mesmo de o usuário tocar em qualquer ícone.

O “Biugo – Vídeos Curtos Com Mágica e Comunidade” se desdobra em duas funções principais, como denuncia seu título otimizado para SEO. A primeira é a de criador de vídeos. O app tem alguns moldes prontos que o usuário seleciona, personaliza com suas próprias fotos e músicas preferidas, e gera um novo vídeo protagonizado por ele mesmo. Fácil, rápido, bastam uns poucos toques e a mágica acontece.

Alguns sites brasileiros de tecnologia que exploram o submundo do conteúdo feito sob medida para buscadores já sacaram isso e têm publicado artigos com títulos do tipo “Como usar o Biugo, aplicativo para fazer vídeos para WhatsApp Status”. Usar o gerador de vídeos do Biugo para distribuir os resultados em outra rede social é um uso popular; até o Snapchat, com seus filtros-sensação de troca de gênero e “oloquinho meu”, também passa por isso.

Veja um exemplo de vídeo criado com o Biugo (daqui):

Mas o Biugo não é só um editor de vídeos fácil de usar. Lembre-se do seu nome na Play Store; ele é, também, uma “comunidade”. Sem surpresa, uma que lembra bastante o TikTok. A interface é gestual, há perfis — alguns já com milhares de seguidores — e a página inicial é montada por um algoritmo que destaca os vídeos mais populares da plataforma, vários deles com dezenas de milhares de visualizações. Ao abrir o app do Biugo, o usuário dá de cara com essa seleção dos vídeos mais populares, não com os moldes para criar vídeos “de mágica”, o sugere quais os verdadeiros objetivos dos desenvolvedores do app.

Quem responde pelo Biugo?

Print do site oficial do Biugo.
Imagem: Biugo/Reprodução.

Os desenvolvedores do Biugo, ou quem é o seu dono, é uma grande incógnita.

O e-mail de contato do desenvolvedor na página do Biugo na Play Store é um @gmail.com. O site oficial tem apenas uma página com links para a Play Store, a App Store e para um termo de uso/política de privacidade curto e que não cita quaisquer detalhes da empresa, como a razão social ou local da sua sede.

Uma consulta ao domínio do site indicado como oficial (biugoing.com, acima) revela que ele foi criado recentemente, no dia 28 de janeiro, está registrado na China e que o site é hospedado nos Estados Unidos, no estado da Califórnia. As informações de propriedade estão ocultas.

Não existe entrada do Biugo na Wikipédia. Pesquisas em buscadores convencionais e específicos, como Twitter e YouTube, retornam apenas posts caça-cliques e tutoriais como o citado acima, links de download em lojas de apps obscuras e ~artes feitas por usuários. Em buscadores convencionais, como DuckDuckGo e Google, tampouco há resultados úteis.

Ranking dos apps mais baixados do mundo no primeiro trimestre de 2019.
Biugo: 13º app mais baixado no primeiro trimestre de 2019. Gráfico: Sensor Tower/Divulgação.

Como dito, segundo a consultoria Sensor Tower o Biugo foi o 13º app mais baixado do mundo no primeiro trimestre de 2019, com pouco mais de 40 milhões de downloads. Foi a primeira vez que ele apareceu no ranking; no do período imediatamente anterior, o quarto trimestre de 2018, nem sinal dele. Para situar a façanha, o Biugo fechou o trimestre à frente de nomes como Twitter, Uber e Amazon em número de downloads.

Um detalhe que chama a atenção é a URL da página do Biugo na Play Store. O identificador do app é “com.yy.biu”.

Destaque no endereço do app Biugo na Play Store.
De quem é este app? Imagem: Play Store/Reprodução.

A YY é uma gigante desconhecida chinesa, com capital aberto nos Estados Unidos e valor de mercado de US$ 5,1 bilhões (cerca de R$ 21 bilhões). A YY alega ter +300 milhões de usuários, uma rede social homônima na China e alguns apps adquiridos recentemente, como a plataforma de jogos Hago e o app de streaming ao vivo Bigo. É da YY também o aplicativo “LIKE — Vídeos Curtos com Mágica”, outro app esquisito no topo do ranking dos mais pesquisados da Play Store brasileira e o oitavo mais baixado do mundo no primeiro trimestre de 2019 no relatório da Sensor Tower.

Sendo uma empresa de capital aberto, fui direto na página de informações aos investidores em busca de ligações da YY com o Biugo. Nada no último balanço disponível, do último trimestre/ano de 2018, nem na apresentação para investidores. Talvez por ser um app novo? Afinal, o domínio foi registrado em janeiro, após o período do último relatório financeiro divulgado. A YY divulgará os resultados do primeiro trimestre de 2019 nesta terça (28), após o encerramento do pregão na Nasdaq. A conferir; aparecendo alguma informação do Biugo, esta matéria será atualizada.

Outro indício de que o Biugo tem origem chinesa é o e-mail informado nos vagos termos de uso para denunciar abusos. Hoje, o texto pede a quem se sinta lesado para entrar em contato com um tal de “Tony” no endereço biugogp@gmail.com, mas até a semana passada — como prova o cache do Google — o endereço do “Tony” era outro, 1534725117@qq.com. O QQ é um app de mensagens/portal de serviços da Tencent, uma das maiores empresas de tecnologia da China.

Conteúdo inapropriado

A falta absoluta de informações não é a única estranheza do lacônico site oficial. O link da App Store presente ali, que deveria conduzir o usuário ao download do Biugo no iPhone, não funciona. Tentei acessar o Biugo na App Store brasileira e norte-americana, sem sucesso; na de Israel (?), ele está disponível. De qualquer maneira, o relatório da Sensor Tower indica que 100% dos downloads do app foram feitos na Play Store, ou seja, da versão para Android.

Prints da tela inicial, de vídeos mais populares, do Biugo.
O usuário dá de cara com os vídeos mais populares ao abrir o Biugo. Imagens: Biugo/Reprodução.

Uma possível explicação para o sumiço do Biugo das lojas de apps da Apple é o, digamos… teor dos vídeos mais populares da plataforma, como se nota nos prints acima. A primeira tela do app é um festival de soft porn e mulheres em posições sensuais. Isso tem incomodado os usuários brasileiros do app para Android, como se percebe pelos numerosos comentários reclamando de conteúdo inapropriado para menores na página do app na Play Store:

cara muita pornografia nossa só gente amostra do corpo,se insinuando que horror! crianças também com abunda na tela que isso nossa horrível!!! tenho Tiktok,Like,Kwai e são tudo bons vídeos que toda família pode ter! agora nossa o de vcs que isso me assustei ao ver que o em alta de vcs é só gente amostrando tudo que isso gente???? nossa!!! cadê o respeito da família? cadê as regras de vcs tem que ter pra quando alguém fizer vídeo de pornografia, vcs te que excluírem na hora!!! mudem isso em !!!!

parece mais a revista da play boy de tanta mulher pelada que tem , achei que seria videos para familia , como wu gostaria de homenagear meu filho pelo seu aniversário baixei o aplicativo mas me arrependi 😪

Print de alguns comentários do Biugo na Play Store.
Comentários insatisfeitos na página do Biugo. Clique na imagem para ampliá-la. Imagem: Play Store/Reprodução.

Representantes do app respondem alguns comentários com um português de tradutor automático, uma diferença notável em relação à descrição do app, que é bem traduzida — incluindo as imagens ilustrativas na Play Store. Nos comentários com reclamações de conteúdo impróprio, eles prometem “aprimorar a revisão de conteúdo”. Talvez seja uma boa esperarmos sentados por isso.

Dentro do app, que o Manual do Usuário analisou brevemente, nota-se que as reclamações de conteúdo impróprio procedem, embora não tenha testemunhado pornografia explícita nem pedofilia. Há, sim, muitos vídeos com apelo sexual, o tipo de conteúdo com potencial para assustar pessoas mais sensíveis e, definitivamente, desaconselhável a menores de idade. Não há algo inerentemente errado; o Tumblr permaneceu relevante por anos graças ao soft porn, mas jamais escondeu essa força. O Biugo se apresenta, antes de tudo, como um app para fazer vídeos de mágica e, depois, como uma rede social de vídeos divertidos. Falta um elemento importante em sua promoção que induz muitas pessoas a erro.

Biugo merece atenção

A imprensa descobriu o TikTok recentemente. Já não é raro encontrar referências e até matérias falando do fenômeno chinês no Brasil. No mesmo ranking da Play Store em que o Biugo aparece na 19ª posição, porém, o TikTok não está nem entre os 100 mais pesquisados. E embora a Sensor Tower credite a oitava posição do Biugo no ranking dos mais baixados do primeiro trimestre aos usuários indianos, é fato que o público brasileiro contribui também para esse desempenho surpreendente. Isso posto, por que ninguém está falando do Biugo?

Todos os problemas do Biugo são agravados pelo fato de ninguém saber quem responde pelo Biugo. Além de não haver representação oficial no Brasil, sequer é possível detectar qual empresa, de que lugar do mundo, é responsável pelo app; o que é possível levantar, hoje, são apenas suspeitas de ligações com a YY. Então, temos aqui um app aleatório, com uma proposta quase inocente (“faça vídeos de mágica!”), que se aproveita desse chamariz para oferecer uma rede social sem qualquer moderação e sem um responsável legal para o caso de algo sair errado.

O Manual do Usuário entrou em contato com o e-mail fornecido pelo Biugo na página da Play Store e até a publicação desta matéria, não havia recebido resposta. Também foi pedido ao Google Brasil um posicionamento sobre a presença deste app e se o seu conteúdo e falta de informações sobre os donos do app não violam as regras da Play Store. Até a publicação desta matéria, nada de retorno também.

Montagem do topo: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

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