Os apps de transporte criaram uma dinâmica de trabalho de Robin Hood ao contrário

Carlos André, entregador com uma perna só do UberEATS, com a bolsa de entregas da plataforma.

O cânone do Tecnocracia tem alguns autores que nunca escreveram uma linha sobre tecnologia. A vida é bem mais que gadgets e apps, ainda que, hoje, a vida seja moldada por eles. Um destes autores é um sujeito que só fez sucesso quando começou a contar os segredos da sua profissão. Em 1999, um chef desconhecido chamado Anthony Bourdain publicou um artigo longo na prestigiosa revista New Yorker detalhando como funcionavam restaurantes estrelados por trás da porta da cozinha. O título: “Não coma antes de ler isto”.

O artigo foi um sucesso e uma editora sugeriu que Bourdain encorpasse o texto para transformá-lo em um livro. Saiu dali o Cozinha confidencial. O livro é fundamental para qualquer um que não prepare em casa todas as refeições, ou seja, toda a humanidade com a exceção dos religiosos que vivem em comunidades fechadas, como os monges.

Além de uns casos escandalosos e fofocas corriqueiras (como a história da noiva que, durante seu casamento num restaurante, saiu da festa para chupar um cozinheiro ao lado da porta da dispensa), o interessante do livro do Bourdain é mostrar como os restaurantes criam métodos de reciclagem de comida para garantir que o que foi desperdiçado hoje não vire lixo, mas lucro, amanhã. Pelo parâmetro do Bourdain, um bom indicativo para entender a saúde financeira de um restaurante é observar se ele está começando a abrir para o brunch.

O brunch, essa refeição que não é nem um café da manhã por ter álcool, nem um almoço por só ter ovo e bolo, é um fenômeno muito mais popular nos Estados Unidos que nos Brasil (ainda bem), mas o exemplo se sustenta. Por quê? A real função do brunch é desovar todo o resto de comida comprada que, ao contrário do planejado, não saiu da cozinha nas noites de quinta, sexta e sábado, o filé mignon do horário dos restaurantes.

Se tem comida sobrando suficiente para justificar um brunch, é porque o dono não tem a menor ideia de como gerir um restaurante. Aliás, talvez a melhor lição do livro do Bourdain seja deixar claro que cozinhar bem não é incentivo nenhum para alguém abrir um restaurante. A primeira armadilha do dono de restaurante falido, diz o chef escritor, é acreditar nos amigos e familiares que dizem que seu prato específico é bom o suficiente para que alguém pague por ele. Isso enche o cozinheiro amador de esperança de largar as planilhas e a vida corporativa para passar as décadas que sobram da sua vida se dedicando à arte da gastronomia, sem chefe, cercado de amigos, dinheiro jorrando de pessoas desesperadas para provar seu prato específico que seus amigos e parentes tanto amam. O que o Bourdain conta é a realidade por trás do delírio.

Abrir um restaurante é uma experiência desgraçada. Você acorda muito cedo para receber fornecedores e dorme muito tarde, apenas depois de limpar a cozinha e o salão inteiros para que, quando você voltar de manhãzinha no dia seguinte, tudo esteja pronto para uso. Os melhores fornecedores já estão tomados por restaurantes maiores e mais antigos que os seus. Os melhores cozinheiros já estão empregados nestes mesmos lugares. E, além de fazer um único prato, você não entende nada de como gerenciar aquele monstro. Bourdain diz que os melhores donos de restaurantes que conheceu não sabiam fazer um arroz, mas manejavam planilhas lindamente. (Olha lá seu sonho de dizer adeus ao Excel dizendo adeus.)

Voltemos ao brunch. Para desovar comida que nem sempre está no seu melhor formato para consumo, o restaurante precisa apelar para estratégias que a deixem minimamente apetitosa. E dá-lhe manteiga e empanado. Empanar algo é a receita do sucesso: o que está dentro daquela crostinha crocante quase não importa, já que o gosto vai ficar soterrado em óleo e farinha. Além disso, quem não gosta de coisa frita? Empanar é tirar o foco da frescura do alimento. Você come um peixe ou um frango meio azedo sem perceber. Se Bourdain ficou pasmo com a estratégia dos brunches, lamento que ele tenha morrido sem conhecer a fundo os restaurantes a quilo no Brasil, onde a estratégia de reciclagem de comida está numa outra escala: filé na segunda-feira, carne desfiada do que sobrou na terça, croquete da sobra da sobra na quarta e um sopão para o jantar na quinta do que ainda resistiu no congelador. Se vivesse em tempos atuais, Antoine Lavoisier teria tornado o princípio da conservação da matéria ainda mais complexo depois de um mês comendo no quilo brasileiro. Enfim. O ponto principal do meu argumento é que, num brunch ou no quilo, você come feliz uma coisa que está quase passada e ainda paga a mais por isso. O dono do restaurante fica feliz. Seus triglicérides também.

Guarda na cabeça esse pensamento do empanado no brunch.

A bolha tóxica do empreendedorismo

Todo mundo tem seus “guilty pleasures”, aquela coisa que a gente sabe que não deveria fazer, mas tem prazer em fazer e por isso não nos aguentamos. Um dos meus é entrar no LinkedIn. Antes de entrar, eu preciso me preparar. Vou até a área de serviço e pego um galão de cândida, já que, no LinkedIn, você lê algumas coisas tão absurdas que tem que lavar os olhos com água sanitária depois.

Um desses absurdos apareceu na minha timeline há coisa de um mês. Um influenciador digital com um séquito no LinkedIn publicou uma foto de um entregador de aplicativo de delivery que não tinha uma perna. A imagem viralizou dentro desta bolha tóxica de empreendedorismo digital no Brasil, corroborando o discurso ufanista de “quem tem determinação não tem desculpas”. O post é um horror e eu não vou facilitar sua vida com o link. Agora, se seu dia está excelente e você quer uma razão para estragá-lo, pode ir atrás para ler os comentários reafirmando o absurdo.

A mídia foi atrás e deu um nome e uma história ao entregador sem perna. Ele se chama Carlos André, mora em Alagoas, tem 19 anos e perdeu a perna esquerda aos cinco anos depois de lutar contra um câncer. Ele sonha em ter dinheiro para comprar um carro adaptado a fim de trabalhar como motorista de aplicativo.

Alguém criou uma vaquinha online esperando arrecadar R$ 30 mil para ajudá-lo. A viralidade do post fez com que a grana juntada já tenha passado dos R$ 85 mil faltando ainda duas semanas para o fim da campanha de arrecadação. Ao que tudo indica, Carlos André poderá dar adeus às entregas de bicicleta e partir para o transporte passageiros em seu próprio carro.

É o tipo de história que apela para nossa humanidade: o sujeito vence um câncer e encara um trabalho físico para tentar pagar as contas. Do apelo à humanidade ao discurso motivacional no LinkedIn, como de fato aconteceu, é um pulinho. Carlos André assumiu a frase “Qual é sua desculpa?” em seu próprio Instagram, onde virou uma micro-celebridade com 11 mil seguidores. A vida, com o dinheiro da vaquinha e o status online, melhorou para Carlos André; isso é inegável. Mas e para os outros quatro milhões de brasileiros que dependem dos apps de corridas e entregas para pagar as contas todo mês?

Segundo um cálculo do Instituto Locomotiva com base em dados do IBGE, esses entregadores já representam um quarto de todos os trabalhadores autônomos do Brasil. Depender da bondade de estranhos é ótimo para terminar umas das peças de teatro mais famosas da história (Um bonde chamado desejo), não como um modelo de negócios.

A historinha que te contaram

A história do Carlos André é sintoma de um problema evidente: a ascensão de serviços de transporte mediados por aplicativos, seja o carro que te leva para a balada ou a bicicleta que traz teu jantar, é fundada em uma precarização enorme do trabalho. Engolir isso é difícil: quem vai querer admitir isso enquanto estamos pagando R$ 10 para atravessar a cidade? Ou quando trata-se do único emprego que o sujeito tem? É preciso de um lubrificante, uma historinha para deixar a situação mais palpável para os ouvidos de todos.

É aí onde entra o discurso oficial que todos esses apps de transporte usam para convencer novos motoristas ou entregadores, com os grilhões de empregos que pagam pouco ou esmagados pelo desemprego: baixe o aplicativo e tenha a liberdade de trabalhar quando quiser:

Os entregadores definem seus próprios horários de trabalho e se conectam ao aplicativo quando quiserem. Além disso, eles ganham por pedido entregue. Quanto mais você entrega, mais você recebe.

O trecho acima foi retirado do site oficial de uma das maiores empresas de entrega de comida e ecoa uma linha de argumentação que a Uber martela desde 2014, quando entrou no Brasil na véspera da Copa do Mundo. O discurso oficial é de um ufanismo que, se você lamber a tela do celular ou do computador, vai sentir o gosto do açúcar. Ou da farinha, já que, na nossa metáfora gastronômica, o discurso é o empanado que faz você colocar para dentro, sem questionar, algo não muito saudável.

O discurso oficial de “você trabalha o quanto quiser, faz seu salário e não tem chefe” é tentador, mas depende de uma pirueta argumentativa para esconder que, sim, quem dirige ou pedala tem chefe. E não é um humano, mas o algoritmo por trás do aplicativo que vai lhe enviar corridas, entregas ou vai limá-lo1 da plataforma. O algoritmo tabula o número de corridas feitas, avaliações recebidas, reclamações dos passageiros, problemas causados e decide, em tempo real, o que fazer com o motorista.

Na Uber, por exemplo, rejeitar muitas corridas seguidas pode bloquear temporariamente o acesso do motorista à plataforma. Para não frustrar o algoritmo e, consequentemente, perder trabalhos, é preciso seguir à risca as suas exigências e não desagradá-lo. É engraçado como a frase anterior parece ter sido escrita para um deus, e não a um apanhado de código. Há qualquer coisa de tribal em não desagradar algo que não se vê e, na sua cabeça, controla sua vida fazendo terrorismo psicológico. A transformação do algoritmo nas nossas cabeças como uma entidade superior com a qual não podemos nos entrever é um fenômeno a ser explorado num Tecnocracia futuro.

Como único ponto de contato entre a empresa e o prestador de serviço, o algoritmo serve como um escudo aos administradores. É comum ouvir, como desculpas para evitar mudança na forma como o sistema foi feito, que “o algoritmo que decidiu”, como se não fosse um ser humano que tivesse programado o bendito algoritmo. A frase sugere um processo de abiogênese tecnológica, como se o código do algoritmo, um dia, aparecesse do nada no desktop do programador. Culpar o algoritmo é também uma bela maneira para os humanos por trás deles lavarem as mãos.

Vencedores e perdedores

Quem ganha com esse de modelo de negócios são os clientes (que pagam muito barato por corridas), os executivos (com seus salários polpudos) e os investidores (que esperam uma taxa de retorno violenta no IPO). Só. Já dá até para dizer que nem para a próprio empresa ele é bom, depois que Uber e Lyft divulgaram seus dados financeiros para abrir capital na bolsa norte-americana. O resumo de ambos os documentos enviados à SEC, a CVM dos Estados Unidos: o mercado de corridas e entregas mediadas por aplicativos não é lucrativo hoje e pode nunca ser.

O principal prejudicado na história é o motorista/ciclista/motociclista. Neste modelo de alta rotatividade, o profissional se torna descartável. É muito fácil perder a vaga caso as vontades algorítmicas não sejam cumpridas. Então a maioria, sem muita opção, se sujeita a elas.

Temos então um batalhão de trabalhadores não apenas insatisfeitos, mas esgotados. Quem nunca pegou uma corrida de app com o motorista claramente virado da noite anterior? Muitos reportam problemas de saúde mental, como agressividade, ansiedade, ataques de pânico e burnout pelas horas excessivas. A responsabilidade pelas ferramentas de trabalho é 100% do fornecedor, o que faz com que as ciclovias de São Paulo estejam apinhadas de entregadores com as bicicletas laranjas do Itaú. Quando o app cria uma nova promoção ou serviços mais baratos, o espremido da história é sempre o trabalhador. Spoiler: quem custeia esse hambúrguer mais barato no seu prato ou a corrida com outras pessoas no carro? Raramente o app. É um jogo onde a banca sempre leva. Scott Galloway, professor da Universidade de Nova York, resumiu: os apps de transporte e delivery, com EBITDA negativo e sem prover qualquer benefício, são grandes programas de transferência de renda dos motoristas para os passageiros.

Nota-se a tese de Galloway por uma simples contraposição: o Uber está prestes a realizar um IPO na casa dos US$ 100 bilhões, e seus motoristas ganham um salário que, pelo menos nos EUA, está abaixo da linha da pobreza (!), segundo um estudo da Ridester. Pior: o modelo de contratação popularizado virou uma febre em outras áreas, o que deverá trazer consequências bem sérias em médio prazo. Em outras palavras: a tecnologia, alardeada como veículo para democratizar o acesso às oportunidades, está deixando os pobres ainda mais pobres.

Há um inédito movimento de resposta dos brasileiros. Em fevereiro, motoristas de Uber, 99 e afins promoveram, pelo menos, duas manifestações pelo Brasil — uma em Fortaleza, outra em São Paulo — para exigir melhores condições de trabalho. Em São Paulo, há uma movimentação para uma terceira na primeira semana de maio e, desde janeiro, fala-se em greve. Em suma, eles pedem que as plataformas aumentem os preços para os passageiros e diminuam a porcentagem tirada de cada corrida, o que aumentaria os ganhos dos motoristas no fim do mês. “A Uber mudou a forma de pagamento em setembro do ano passado e alguns motoristas, como a 99 pagava melhor, deixaram a Uber. Agora a 99 além de baixar o valor adotou o mesmo tipo da Uber, que é um valor por minuto e inferior ao que ganhávamos”, disse Paulo Reis, um dos líderes da manifestação ao Uol. Você deve ter cansado de ouvir, há três anos, sobre manifestações de taxistas contra os apps. É a primeira vez que os motoristas fazem manifestações contra as próprias plataformas.

Que resposta as plataformas podem dar? Como todos os motoristas e ciclistas são fornecedores dentro um marketplace, a plataforma não tem qualquer responsabilidade por eles. Não gostou das condições? Tchau e benção. Porta da rua, serventia da casa, já diria minha avó. E, em um país de desemprego galopante como o Brasil dos últimos quatro anos, o cenário é perfeito para que essas empresas tenham um repositório quase infinito de trabalhadores novos para substituir os insatisfeitos que saírem.

Esse modelo de contratação, com seus problemas embutidos, não se restringe a veículos terrestres. No fim de fevereiro, um avião caiu no Texas, matando os três tripulantes. O avião era contratado pela Amazon e carregava milhares de produtos. Uma apuração do Business Insider mostrou que pilotos já tinham alertado a empresa sobre riscos de queda pelo excesso de horas de vôo aliado à inexperiência de muitos contratados.

Condições precárias

Alguns empregos justificam rotinas extenuantes com benefícios, como forma de recompensar as dificuldades extras. Quem trabalha em plataformas de petróleo, por exemplo, tem um regime de trabalho de X dias em mar e Y dias de folga em terra.

Não é o caso da chamada “gig economy”, ou economia dos bicos. Este trabalhador, quando insatisfeito sabe que, sem qualquer direito, sai com uma mão na frente e outra atrás. Aqui, ele só é interessante enquanto produz. Quando enfrenta algum impedimento produtivo, é trocado por outro.

Há uma dinâmica do princípio de Pareto na base de motoristas, segundo um estudo da própria Uber. (O princípio de Pareto não tem relação com o “adevogado” Luiz Pareto — e só quem é velho da internet vai pegar a piada —, mas com o economista italiano Vilfrido Pareto, o primeiro a observar que, em muitos sistemas, 20% das causas são responsáveis por 80% dos efeitos.) Segundo dados de 2015, só 19% dos motoristas trabalham mais de 35 horas por semana, o que a gente poderia considerar um emprego em tempo integral. A maioria (51%) dirige de uma a quinze horas por semana, como se fosse um bico. Os dados sugerem que os apps de transporte são um “pool” interessante como complemento de renda. Como bem argumenta James Stainer, há uma relação de necessidade: quem precisa mais, dirige mais. Mas a história de trabalhar o máximo possível não é para todo mundo, principalmente porque o aumento nas horas dedicadas não vem acompanhada de algum benefício além da grana. Sempre bom lembrar que a gente não é robô: sob muito stress, o corpo humano, uma hora, pifa. E quando isso acontece, o app vê o motorista/ciclista/motoqueiro como um peso morto e abre espaço para quem possa ocupar produtivamente seu lugar.

Sem plano de saúde, previdência privada ou Fundo de Garantia sobre Tempo de Trabalho (FGTS), o trabalhador precisa continuar a agradar o algoritmo para conseguir pagar as contas do mês. Quando esse sujeito tiver problemas de saúde, quem vai manter as contas enquanto ele se trata? Libertários acham que, baseado na meritocracia, só deve ganhar quem produz e uma pessoa internada não produz nada além de gastos para o sistema de saúde. Só que a maioria de nós fica doente em algum momento da vida e os que escapam da doença, inevitavelmente, não escapam da morte. Onde vai desaguar essa crise? Nos sistemas públicos de saúde e previdência. Quando cair doente, é para no SUS que eles vão se abrigar. Quando sofrerem um acidente, é o INSS que terá que lhe cobrir financeiramente. Nas contas de união já severamente endividada e com problemas para honrar alguns compromissos.

Enquanto isso, você atravessa a cidade por R$ 10 e um punhado de executivos — na sua maioria branca — fica mais rico. Você acha que a explosão dos apps de transporte não têm nenhuma relação direta com você? Pense de novo.

Em termos econômicos, essa multidão de quatro milhões de brasileiros trabalhando em apps na hora do almoço para pagar o jantar também terá impactos no médio prazo. Quem não tem dinheiro guardado no fim do mês é um péssimo consumidor,  não por não querer, mas por não ter para comprar. Historicamente, o mercado brasileiro sempre foi muito baseado em consumo interno e o mercado imobiliário se apoiou muito nas últimas décadas no FGTS. Sempre que a economia dava uma desacelerada, principalmente nos últimos vinte anos, o governo de qualquer matriz ideológica apelava para duas estratégias: tirar temporariamente impostos de veículos novos para manter a indústria automobilística vendendo modelos antigos e caros para os brasileiros; e flexibilizar as regras para saque do FGTS para comprar imóveis. Um aumento do teto aqui, uma nova regra que permite sacá-lo no nascimento de um filho ali. Tudo como forma de injetar dinheiro em uma economia baseada majoritariamente no consumo das classes média e baixa.

Nos últimos seis anos, o número de microempreendedores individuais (MEIs) no Brasil mais que dobrou, de 3,6 milhões em 2013 para 8,1 milhões em abril. O aumento não vem de um ataque fulminante de empreendedorismo no brasileiro — o sujeito pula da cama e pensa: “quer saber? Vou perseguir meus sonhos de montar uma fábrica de biju gourmet” e a caminho do local de trabalho para pedir demissão toma um latte de meio litro numa cafeteria hipster. O aumento vem do desemprego. Sem carteira assinada, resta “empreender”. Note as aspas: a maioria destes novos MEIs desde 2013 não empreende; se vira.

Em médio prazo, essa multidão de MEIs e Pessoas Jurídicas (PJs) terá como consequência a diminuição do valor guardado (ainda que obrigatoriamente, como o FGTS) pelo brasileiro médio. É um argumento que vale não apenas para apps de transporte ou economia dos bicos, mas para a precarização do trabalho em todas as áreas. A tecnologia não criou o problema, mas lhe deu uma escala e uma velocidade que seriam impossíveis na economia analógica.

Há três anos anos, a China derrubou sua tradicional limitação de apenas um filho em cada família exatamente pelo motivo oposto. Como filho único, o jovem chinês tinha que custear a própria vida, sustentar os pais e, em alguns casos, a esposa e os pais dela. Ao final das longas jornadas de trabalho todo mês, quase não lhe restava nada para guardar. Quando a economia chinesa soluçou depois de uma década crescendo rápido como um trem (um processo que, incidentalmente, ajudou muito o Brasil lá por 2010), o governo percebeu que uma forma de tentar acelerá-la de novo era por meio do consumo interno. Ao permitir dois filhos por família, o jovem chinês agora poderia dividir os gastos com o irmão e poupar para gastar lá na frente e tentar fazer a economia girar.

As vagas nos apps de transporte formam um paliativo interessante quando a economia se encontra em frangalhos e não existe outra opção, como é o caso do atual estado econômico brasileiro. O problema é quando o paliativo se encaminha para virar constante. Já são, pelo menos, quatro anos de febres de apps de transporte no Brasil, com o setor absorvendo cada vez mais trabalhadores. Nenhum país fica rico com milhões de pessoas dirigindo ou levando comida para os outros. Ainda mais quando o dinheiro da plataforma não fica no Brasil— nos papéis do IPO, a Uber revelou que, no Brasil, só é reinvestido na operação local ganhos acima de US$ 500 milhões. Em outras palavras, o dinheiro que a Uber ganha no Brasil não fica por aqui, uma situação só aconteceu conosco, segundo o documento. O cenário é ainda mais preocupante em um mercado com falta aguda de profissionais técnicos, como engenheiros, programadores, matemáticos e estatísticos, caso do Brasil

O que o discurso utópico da “liberdade” e “seja seu próprio patrão” esconde é que a economia dos bicos produz em escala empregos pouco especializados, que pagam mal, rendidos às decisões das plataformas e sem uma rede de proteção para dezenas ou até centenas de milhões de pessoas no mundo. Isso tem consequências para a sociedade, inclusive para quem não é motorista ou ciclista. Para gerenciar tanta gente, o modelo secular de administração exigia uma camada intermediária. Essa camada, com os apps, não existe mais. Como são poucas as plataformas que concentram estes trabalhos no mundo, os beneficiados por empregos mais complexos e com benefícios excelentes despenca. O problema da concentração de renda se torna ainda pior: um grupo minúsculo de investidores e executivos e uma multidão de trabalhadores, organizados por algoritmos, correndo para atender o próximo passageiro ou levar a próxima refeição.

A projeção do Carlos André, o entregador sem uma perna, passa a corroborar o discurso dos influenciadores de empreendedorismo do LinkedIn, de que “basta querer”. “Se não aconteceu, é por que não quis o suficiente”. “Quais são as suas desculpas”. [Cadê meu galão de cândida?] A romantização recobre esse processo com uma crocante camada de “auto-ajuda motivacional”, ótima para ganhar curtidas no ambiente tóxico do LinkedIn, mas brutalmente desconectado da realidade.

Mais que isso: a maioria dos que repetem a baboseira não percebe que não faz parte do topo, mas da base da pirâmide. A maioria faz parte dos atingidos, não dos beneficiados. Mas, de novo, pagar tão baixo para atravessar a cidade ou ter alguém trazendo seu cheesecake com desconto é tentador demais. É como aquela casquinha crocante e quentinha de alguma milanesa que você pegou num restaurante de quilo. Agora está uma delícia, mas, lá na frente, o que está por baixo da casquinha vai ter trazer alguns problemas.


Foto do topo: Ricardo Amorim/LinkedIn.

  1. Aliás, você sabia que o verbo “limar” vem de músicos que enviavam — de mentira — substitutos quando não podiam estar numa sessão de gravação? Curiosidade aleatória do episódio. Aliás de novo, se você está de bobeira, esta entrevista do Serginho Leite no Jô em 1993 é de chorar de rir.

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