Prints do aplicativo oda Uber.

5 pontos para entender a operação da Uber a partir do seu pedido de IPO


12/4/19 às 9h45

Uma startup bem sucedida tem dois destinos possíveis (“exits” ou saídas, no jargão dos startupeiros): ser comprada por uma empresa maior ou abrir seu capital na bolsa. Em ambos os casos, investidores de risco, fundadores e funcionários com equity enriquecem, justificando, no caso dos últimos, as noites viradas trabalhando no escritório e outros abusos quase medievais, mas tão comuns nesses tempos anacrônicos em que vivemos. A Uber, uma das maiores startups da história, deu nesta quinta-feira (11) o primeiro passo para abrir seu capital na Bolsa de Nova York (NYSE): enviou um documento detalhado da sua operação, o S1, à Security and Exchange Comission (SEC), equivalente à CVM dos Estados Unidos.

Esses documentos são fascinantes. Neles, inexistem todos os filtros que os departamentos de relações públicas e agências de publicidade, que costumam dialogar com o público externo — incluindo jornalistas —, costumam usar. É linguagem direta, sem rodeios, porque o objetivo é convencer investidores a colocarem dinheiro ali dentro e qualquer tentativa de dourar a pílula pode ter consequências sérias lá na frente.

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O caso da Uber não é diferente. Dei uma lida no S1 da empresa e separei cinco pontos interessantes que revelam o estado atual da startup que revolucionou a mobilidade urbana.

5. A campanha #DeleteUber funcionou

O ano de 2017 foi talvez o pior da história da Uber, com uma sequência de escândalos que terminou com a derrocada do errático CEO e cofundador da empresa, Travis Kalanick — que, diz o S1, ainda tem um assento no conselho administrativo e detém 8,6% da empresa. Em janeiro, o primeiro deles relacionado a uma ordem de Donald Trump para barrar refugiados e imigrantes nos aeroportos, fez surgir a campanha #DeleteUber, incentivando os usuários a abandonarem o aplicativo em protesto.

Aparentemente, funcionou.

No documento, a Uber lista e explica os “fatores de risco”, ou seja, tudo o que pode impactar negativamente o seu negócio. Um deles descreve que a manutenção de “uma massa crítica” de motoristas, consumidores, restaurantes e transportadores é imprescindível para que a plataforma continue atraente a todas essas partes. Nesse contexto, “publicidade negativa relacionada à nossa marca”, como “percepção de uma cultura trabalhista tóxica” ou “afiliações políticas ou geopolíticas percebidas”, podem ser danosas. Como exemplo, a Uber relembra a campanha #DeleteUber:

(…) em janeiro de 2017, uma revolta contra nós em resposta às acusações de que pretendíamos lucrar em cima de um protesto contra uma ordem executiva banindo certos refugiados e imigrantes de entrarem nos Estados Unidos deu início ao #DeleteUber, uma campanha em redes sociais que encorajava os usuários da plataforma a apagarem nosso aplicativo e deixarem de usar a nossa plataforma. Como resultado da campanha #DeleteUber, centenas de milhares de consumidores pararam de usar a plataforma da Uber durante os dias da campanha.

4. Pagamento em dinheiro é um problema

Outro fator de risco apontado é o pagamento em dinheiro vivo, permitido em algumas regiões como Brasil e México. Diz a Uber:

Em certas jurisdições, permitimos que os consumidores paguem por corridas ou entregas de refeições usando dinheiro em espécie, o que levanta numeras preocupações regulatórias, operacionais e de segurança. Se não controlarmos essas preocupações com sucesso, podemos ficar sujeitos a ações regulatórias adversas e sofrer dano reputacional ou outras consequências adversas no financeiro e contabilidade.

O Brasil ganha destaque em outro trecho:

Em certas jurisdições como o Brasil, incidentes sérios de segurança resultando em assaltos e ataques violentos e fatais a motoristas enquanto usando a nossa plataforma foram reportados.

A Uber também diz que a operação com dinheiro vivo é complexa, porque muitas vezes é difícil receber dos motoristas e gera riscos de “compliance” devido à brecha que esse sistema gera para esquemas de lavagem de dinheiro.

3. Carros autônomos não tirarão motoristas humanos das ruas

Carro autônomo da Uber em uma rua, visto de frente.
Carro autônomo da Uber. Foto: Uber/Divulgação.

Entre 2015 e dezembro de 2018, os motoristas da Uber receberam US$ 78,2 bilhões e mais US$ 1,2 bilhão de gorjetas desde que o recurso foi introduzido na plataforma, em julho de 2017 — o dinheiro das gorjetas sempre vai integralmente ao motorista.

Parece muito e é. Da receita bruta de 2018, de US$ 49,8 bilhões, US$ 37,3 bilhões foram para os ganhos de motoristas e restaurantes, reembolsos e descontos, e US$ 1,7 bilhão para incentivos aos motoristas. A certa altura, a Uber diz que “o maior impacto na nossa ‘taxa de retorno’ [o percentual que fica com a Uber de cada corrida ou entrega] vem, historicamente, dos ganhos do motorista”. Essa taxa, diz a Uber, é extraída via “ajustes de curto prazo que podem ser mais facilmente adaptados para mercados locais específicos”. Devido à concorrência, a Uber concede “incentivos a motoristas” que, em alguns casos, acabam tornando a corrida mais cara à empresa do que o valor pago pelo consumidor. Nesse cenário, a corrida gera prejuízo.

A Uber acredita que a sua “escala e plataforma proverão importantes vantagens”, ou seja, quanto maior a Uber e menor as rivais, menor a pressão em conceder benefícios a motoristas e consumidores. Na medida em que as concorrentes mudarem suas estratégias para conseguir lucro no curto prazo, a Uber acredita que não precisará investir tanto nesses gastos para reter motoristas e consumidores. Esses incentivos, explica a empresa, deverão ser usados para crescer o negócio em cima de “alternativas mais baratas, como a propriedade e o uso de carros particulares”, além de servirem para dosar a oferta e a demanda.

Os carros autônomos aparecem com destaque também, afinal, se implementados eles aliviariam a maior despesa da empresa. A Uber afirma estar fazendo “investimentos substanciais” em novas ofertas e tecnologias e que deverá aumentar a injeção de capital nesse departamento, mas faz a ressalva de que essas novas frentes são “inerentemente arriscadas” e que podem não trazer nenhum benefício no futuro.

Nesse cenário, motoristas humanos ainda terão vez? A Uber é enfática ao dizer que sim. A empresa aposta que passaremos por um “longo período híbrido”, com motoristas humanos dividindo as pistas com os carros autônomos, e que estará em uma posição privilegiada para ajustar a proporção de um e outro dinamicamente. De qualquer modo, “motoristas [humanos] são uma vantagem crítica e um diferencial para nós e continuarão sendo os nossos valiosos parceiros no longo prazo”.

2. O Brasil manda dinheiro para fora

Em 2018, o Brasil gerou US$ 959 milhões de receita à Uber, ou 8,5% da receita global da empresa. É o segundo maior mercado da Uber, (bem) atrás apenas dos Estados Unidos. Se a operação local fosse uma empresa brasileira, com esse faturamento ela estaria entre as 160 maiores do país, segundo o ranking Valor 1000.

No trecho sobre tributação, a Uber diz que:

A empresa pretende reinvestir os ganhos indefinidamente em todas as subsidiárias com exceção do Brasil, onde toda a receita que exceder US$ 500 milhões será reinvestida indefinidamente.

Aparentemente, esse tratamento diferenciado decorre de alguma brecha fiscal. Em seguida, diz o documento:

A empresa não espera incorrer em tributação material adicional relacionada à repatriação da receita do Brasil até US$ 500 milhões.

Em outras palavras, meio bilhão de dólares gerado no Brasil será usado para sustentar a empresa em outros mercados. Esse dado reforça a tese do Guilherme Felitti de que o dinheiro que serviria de fomento à inovação no país não fica aqui.

1. A Uber sangra muito dinheiro — e talvez jamais dê lucro

A Uber está em mais de 700 cidades, tem 91 milhões de usuários que fazem 14 milhões de corridas por dia. Entre 2012 e setembro de 2018, foram feitas 10 bilhões de corridas. Mesmo assim, a empresa jamais deu lucro.

Em 2018, a Uber faturou US$ 11,3 bilhões1, aumento de 42% em relação a 2017, e teve lucro de US$ 1,3 bilhão. Porém, ter fechado no azul foi o resultado de operações pontuais como as vendas de suas operações locais na Rússia à Yandex e à Grab no Sudeste asiático. O EBITDA ajustado, que em termos simples é a capacidade da empresa de gerar caixa, foi um prejuízo de US$ 1,8 bilhão. Já o prejuízo operacional, de US$ 3 bilhões — mas, hey, melhor que em 2017, quando foi de US$ 4 bilhões.

No resumo dos fatores de risco aos investidores, a Uber admite que talvez jamais dê lucro. Lê-se ali:

Temos sofrido perdas significativas desde que surgimos, nos Estados Unidos e em outros grandes mercados. Esperamos que as nossas despesas operacionais cresçam significativamente no futuro a perder de vista e podemos não alcançar a lucratividade.

Com a abertura de capital, a Uber espera ter um valor de mercado de US$ 90 a US$ 100 bilhões.


Matéria atualizada em 13 de abril às 16h40 para corrigir a bolsa onde a Uber será listada (originalmente dizia a Nasdaq em vez da NYSE) e o total de corridas entre 2012 e setembro de 2018 (10 bilhões, e não 1 bilhão).

  1. A diferença entre esse dado e a receita bruta de US$ 49,8 bilhões, citado mais acima, é que o número maior contempla o valor total gerado pela Uber, sem descontar os valores pagos a motoristas e restaurantes, por exemplo.

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