Foto do Nigel Goodman.

Como o roteirista e comediante Nigel Goodman trabalha


10/5/19 às 8h52

Nota do editor: Esta é uma nova seção do Manual do Usuário em que entrevisto profissionais de diferentes áreas a respeito de produtividade e da relação deles com a tecnologia. A inspiração óbvia é a seção “How I Work”, do Lifehacker. A seção será publicada quinzenalmente, em alternância com a das mochilas — mande a sua, aliás, porque o estoque segue seco!


  • Nome: Nigel Goodman, que é meu nome de verdade mesmo e não um nome artístico como algumas pessoas acham.
  • Cidade onde mora: Jundiaí (SP).
  • Emprego atual: Estou escrevendo para a quarta temporada de Irmão do Jorel e terminei de gravar minha participação na série Empurrando com a barriga, que eu também fui roteirista. Tenho um site/portfólio (levemente desatualizado) com meus trabalhos em nigelgoodman.com.br.
  • Computador: Desktop montado com processador Intel Core i5 2300, 8 GB de RAM, Geforce GTX 1060 de 3 GB.
  • Celular: Samsung Galaxy S9, que teve que ir à assistência ver um problema da bateria dentro da garantia (para não parecer que eu estou fazendo propaganda para a Samsung, porque não estou e nem recomendo).
  • Gadget favorito da vida: Um tablet da Samsung, o Galaxy Tab A P550 —a única coisa da Samsung que não tive que mandar à assistência nos últimos cinco anos. Comprei ele para usar como prancheta e acho que foi um dos únicos modelos mais baratos a vir com a S Pen (já cheguei a olhar se tinha um modelo mais novo desse mesmo tablet e aparentemente tiraram a S Pen, o que é uma pena). Como disse, uso como prancheta mesmo. Fazendo anotações direto no PDF dos roteiros, como eu fazia com os roteiros impressos. Já usei o tablet pra escrever roteiros (com um teclado Bluetooth) em uma viagem e rolou, mas foi mais um quebra galho. Como substituto pros roteiros impressos e para notas rápidas em reuniões, acho perfeito.

Como você chegou onde está?
Acho que uma coisa foi levando à outra. Se você me perguntasse isso na adolescência, eu ia dizer que queria escrever séries de comédia e trabalhar com desenho animado, mas não tinha a menor ideia de como fazer isso. Sabia que gostava de humor, então resolvi criar um blog, tentei fazer tirinhas, comecei a fazer stand up e nisso tudo fui conhecendo gente com esse mesmo interesse. Aí, por acaso, um desses amigos que eu fiz no humor, o Ulisses Mattos, mostrou o roteiro de uma série que a gente queria fazer no YouTube para um conhecido dele que era roteirista. O cara gostou do roteiro e convidou a gente para escrever para ele. Acabamos escrevendo duas séries de duas temporadas cada e isso me deu um portfólio pra mostrar.

Daí em diante um pouco foi sorte, porque tem coisas que simplesmente não dependem de você, e um pouco foi me dedicar em fazer sempre o máximo que eu podia. E valorizar bastante as pessoas legais que cruzavam comigo. Os melhores trabalhos que eu fiz foram com pessoas que admiro e foram os trabalhos em que eu mais aprendi também.

Como é um dia típico de trabalho seu?
Depende muito do trabalho. A quarta temporada de Irmão do Jorel está sendo totalmente remota, então estou escrevendo tudo de um quarto que eu transformei em escritório aqui em casa. Em algumas séries, por mais que eu escrevesse de casa, tinha reuniões presenciais regulares alguns dias por semana onde a gente comentava o que cada um tinha ou um período presencial pra desenvolver o que vai ser a série antes de ir escrever.

Frame do desenho "Irmão do Jorel".
Imagem: Cartoon Network/Divulgação.

Trabalhando em casa meu dia começa umas 8h da manhã. Eu tento acordar para tomar café com a minha mulher antes que ela saia para o trabalho dela. Descobri que, por mais que minha rotina seja flexível em casa, manter horários “normais” me ajuda a ser mais produtivo.

Termino o café no escritório e vejo e-mails, redes sociais e o que mais surgir até começar a trabalhar. Geralmente tenho o Final Draft aberto ou uma aba do Writer Duet no navegador, além de um bloco com anotações (que era um quadro branco pendurado do meu lado até eu me mudar). Tudo fica aberto até quando eu não estou trabalhando, para poder escrever rápido caso tenha alguma ideia. Além disso, tudo está salvo na nuvem pra acessar de qualquer lugar, do celular, tablet, etc.

Meu trabalho em casa é cheio de pausas. Algumas porque eu realmente preciso parar para assistir a uma referência para algo que estou escrevendo e outras só por distração mesmo, para esvaziar a cabeça antes de voltar e reler uma cena que acabei de escrever. Às vezes tenho um problema no roteiro que não sei como resolver e aproveito para fazer alguma tarefa de casa, ou até ir no mercado, enquanto penso no que estou trabalhando. Um pouco de procrastinação faz bem, desde que não saia de controle e eu esteja dentro do prazo.

O bom de trabalhar em casa é não ter que seguir 100% o horário comercial. Isso é uma vantagem que eu tento aproveitar em vez de replicar o pior de um “escritório” dentro de casa, que é ficar sentado na frente do teclado mesmo que não esteja rendendo. Em casa, eu escrevo mais quando estou rendendo e descanso quando sinto que preciso descansar.

De noite eu durmo. A não ser que virar a noite seja a única alternativa, eu durmo. Com o tempo eu aprendi que dormir, mesmo que você acorde bem mais cedo no dia seguinte, é sempre melhor que trabalhar esgotado.

Se eu tenho reunião, isso significa 1h de estrada até São Paulo ouvindo podcast na ida e na volta. Só o celular e um tablet (ou só o celular mesmo) são tudo que eu preciso para abrir os roteiros no Google Drive/Dropbox/e-mail e fazer minhas anotações. Eu já tive um notebook, mas tem muito tempo que abandonei e não sinto necessidade nenhuma tendo um PC em casa. Ou se eu estiver escrevendo de uma sala de roteiro, vou ter um computador lá com tudo que eu preciso (ou quase tudo, mas a gente dá um jeito).

Isso até agora, porque meu filho nasceu e eu não sei como vai ficar minha rotina em casa de agora em diante. Talvez eu tenha que te atualizar no ano que vem.

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Alguma história curiosa ou engraçada que já aconteceu enquanto trabalhava?
Cara, uma vez eu estava em uma produtora num esquema que era uma furada. O programa era ao vivo, mas até o último segundo queriam alguma alteração no roteiro e, para piorar, a gente nem tinha um chefe de roteiro estabelecido. E eram alterações do tipo: coloca isso, agora tira isso que eu pedi para pôr, agora muda aquilo que já estava ok… A equipe de roteiro ficava fazendo uma versão atrás da outra, numa correria desesperada.

Aí, meu amigo, um dia alguém salvou uma versão antiga do arquivo por cima da versão atual. Foi a mesma pessoa que uma vez imprimiu infinitas folhas só com caracteres aleatórios. JURO! Eu ficava do lado da impressora e do nada começaram a sair umas folhas com algumas linhas de hieróglifos, como se alguém estivesse trabalhando em um arquivo corrompido sem se importar muito com isso. Só parou porque acabou o papel da impressora.

Voltando, o William [nome fictício] mudou algumas coisas em uma versão de quatro horas atrás que ele tinha salva no computador dele em vez de pegar a versão da nuvem, e a gente chamou a diretora do programa para passar o roteiro. Não deu nem cinco minutos e setenta e cinco segundos (essa piada vai ficar interna) e a diretora esbarrou em um pedaço que ela já tinha pedido para tirarmos. E eu sei que a gente tinha tirado porque tinha sido eu. Outra pessoa passou rápido o roteiro e achou outra parte que já tinha mudado também. F*deu. Bateu um desespero porque a gente não tinha mais tempo para refazer tudo que já tinha mudado, mas a gente sempre salvava um PDF para compartilhar com a equipe (pra ninguém mexer no arquivo). O mais fácil era converter o PDF, dar um Ctrl+C nas últimas alterações e pronto. William disse que faria isso. Fez, alterou o que precisava na abertura e mandou imprimir.

Uma folha, duas folhas, três folhas e obrigado por usar a versão de teste do conversor de PDF aleatório. Era muita emoção sentar do lado da impressora.

Você dá muita atenção à produtividade? Se sim, de que maneiras práticas isso se traduz em sua rotina?
Médio. Não me preocupo muito em virar uma máquina e escrever o máximo por dia que for possível. Minha preocupação é exatamente em me organizar para não precisar ficar louco no fim do prazo, deixar de comer porque preciso enviar algo até tal hora, essas coisas. Minha organização é bem simples: todos os prazos na agenda, um check list de coisas que eu preciso fazer à mão numa folha solta na mesa (já usei post-its no monitor e foi legal também) e o que eu estou trabalhando sempre aberto no PC.

Já usei um app de hábitos para me ajudar a manter a rotina funcionando, principalmente quando estava indo à academia e tinha algum projeto paralelo pessoal que eu não queria abandonar.

Qual o seu lifehack (atalho/dica/facilitador) favorito?
Não começar pelo começo. Isso é a melhor coisa que eu descobri. Em vez de começar o roteiro de um episódio pela primeira cena eu começo pela cena que eu acho que vai ser mais legal de escrever.

Dá pra fazer isso porque num roteiro a gente tem várias fases de planejamento antes de realmente “escrever”. Você precisa ter feito uma boa escaleta, com tudo que vai acontecer em cada cena, e daí pode começar por onde quiser.

E isso também funciona quando eu não estou tendo um dia bom. Se eu não estou num bom humor hoje, posso pular as cenas que precisam ser mais engraçadas e escrever só as que acho mais simples. Eu não jogo o dia fora batendo a cabeça no mesmo lugar e ainda fico com uma sensação boa de que está ficando pronto, o que ajuda a não me sentir pressionado no dia seguinte.

Você consegue se desconectar de vez em quando?
Consigo. Eu não sofro se tiver que ficar horas sem olhar o celular, mas mesmo assim eu acho que passo mais tempo do que deveria vendo redes sociais. Não é o “fear of missing out”; meu problema são aqueles momentos de ócio em que eu poderia terminar de bordar “don’t panic” numa toalha, mas acabo passando 15 minutinhos olhando o Instagram, de novo. Só porque está ali, à mão.

Tento evitar essas olhadas por reflexo. Deletei o Facebook quando parou de fazer sentido pra mim. Tiro todas as notificações de redes sociais, deixo o telefone na mesa com a tela pra baixo, até saio de casa sem ele. Mas tem horas que não é reflexo. Eu sei que se eu olhar o Twitter durante um episódio de Game of Thrones vai ser divertido. E eu também divulgo meus trabalhos por ali, então ainda tem isso.

Quais aplicativos não saem da tela inicial do seu celular?
Widget da agenda com os próximos compromissos num tamanho bem opressor, acompanhados de Gmail, Drive e Dropbox pra fingir que eu trabalho tanto assim.
O Maps e os apps de podcast e Spotify, porque eu só escuto podcast e música nos deslocamentos.

Twitter, Zapzap e Instagram, porque eu olho bastante mesmo.

E tem um que não está na tela inicial, mas por causa do tamanho, que é o widget do Google Keep que eu deixo como uma barra gigante e anoto várias ideias que vou tendo, lista de mercado, etc.

E vários apps de paternidade agora.

Você tem algum projeto paralelo? Se sim, fale um pouco sobre ele.
Eu tenho um podcast, mas é um podcast para dormir. Tem que ouvir antes de dormir e a função dele é fazer a pessoa dormir. Não faz nenhum sentido ouvir acordado e é proibido ouvir dirigindo. O nome do podcast é Nigel Goodman. Tem no Spotify se você não sabe o que é podcast (é só procurar como se fosse uma música chamada “Nigel Goodman”, mas não tem instrumentos e eu não canto).

Caricatura do Nigel Goodman usada na divulgação do seu podcast.
Arte do podcast do Nigel.

O que você está lendo no momento?
Eu estou lendo A longa e sombria hora do chá da alma. É o segundo livro que o Douglas Adams escreveu com o Dirk Gently. Eu gosto do Douglas Adams, mas só tinha lido o Guia do mochileiro das galáxias até então. Aí vi a série (que não tem nada a ver com o livro) e resolvi ler logo.

Pratica atividade física (qual?) e/ou tem algum cuidado especial com a saúde?
Atualmente não. Eu estava bem mais ativo ano passado. Cheguei a tirar foto no Crossfit e tudo, mas tive que parar de ir um tempo e aí parei total. Agora eu tô naquele momento “tenho que voltar a fazer alguma coisa”, mas ainda não fiz nada.

Que conselhos você daria a alguém interessado em seguir carreira na tua área?
Espera um pouco pra ver se vai continuar tendo áudio visual no Brasil.

Caso continue tendo, o que funcionou pra mim foi, independente de qualquer coisa, continuar fazendo o que eu acho legal, nem que seja como um projeto paralelo. Se você quer usar esse músculo, é ele que você tem que exercitar. Por mais que vá ser algo menor, é algo que você gosta e pode ser que outra pessoa goste também e fique com isso na cabeça até precisar de um roteirista pra um projeto nessa linha.

Nigel Goodman é roteirista e comediante. Saiba mais sobre o trabalho dele em seu site oficial, Twitter e Instagram.

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