O museu de grandes novidades da tecnologia: o futuro que nunca chegou

Há alguns acontecimentos na história que parecem fadados a acontecer, que é só questão de tempo até que aquilo se concretize, mas que no fim não acontecem. Na política brasileira, existe a presidência de Tancredo Neves e o caso clássico de Fernando Henrique Cardoso posando para fotógrafos sentado na cadeira de prefeito de São Paulo dias antes da eleição de 1985, tamanha era sua confiança. Quando Jânio Quadros levou, declarou à imprensa: “gostaria que os senhores testemunhassem que estou desinfetando esta poltrona porque nádegas indevidas a usaram”. Na política internacional, o melhor exemplo é a esperada vitória do candidato republicano Thomas Dewey sobre o democrata Harry Truman pela Casa Branca em 1948. Truman não só levou como posou com um jornal que adiantava sua derrota, em uma das cenas mais clássicas do jogo político global. No esporte, a vitória do Brasil na Copa do Mundo de 1982, o Cavaliers perder do Warriors na final da NBA em 2016 e o rebaixamento do Fluminense no Brasileirão de 2009.

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A máquina do ódio: Uma conversa com Patrícia Campos Mello

Os últimos dois anos da vida de Patrícia Campos Mello, repórter especial da Folha de S.Paulo, foram marcados por ódio e ameaças destilados pelas redes sociais. Desde que revelou, no jornal onde trabalha, o escândalo dos disparos de mensagens em massa ilegais no WhatsApp nas eleições de 2018, ela se viu alvo de ataques coordenados e incessantes de apoiadores de Jair Bolsonaro (sem partido), candidato beneficiado pelos disparos e que acabaria eleito presidente do Brasil.

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A raiva constante que sentimos na internet nos torna humanos piores

Na primeira onda de personagens da Marvel, lá na década de 1960, um dos favoritos do público que já consumia história em quadrinhos era um herói longe daquele ideal de Apolo que Superman e Capitão América carregam até hoje. O Coisa, do Quarteto Fantástico, exercia um certo fascínio por mostrar um sujeito que, transformado num amontoado de pedras à revelia, tinha que lidar com os lados bons — a força e a invulnerabilidade — e os nem tanto — basicamente você parece um muro com pernas.

Com isso na cabeça, Stan Lee e Jack Kirby, as mentes criativas da Marvel na época, se colocaram a pensar em um novo herói. De um lado, havia o racional. “Por um longo tempo eu percebi que as pessoas preferem alguém que não seja perfeito. É uma aposta segura que você lembra do Quasimodo, mas você consegue nomear personagens mais heróicos, bonitos e glamurosos de O Corcunda de Notre-Dame? E também tem o Frankenstein. Sempre tive um ponto fraco pelo monstro de Frankenstein. Ninguém vai me convencer que ele era o vilão. Ele nunca quis machucar ninguém. Ele simplesmente forçou seu caminho em uma segunda vida tentando se defender e neutralizar quem tentava destruí-lo. Decidi que também poderia pegar algo emprestado também do Dr. Jekyll e Mr. Hyde — nosso protagonista iria se transformar constantemente da sua identidade normal para seu alter ego super-humano”, segundo o Stan Lee.

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Milícias digitais como o QAnon ameaçam, com a ajuda das redes sociais, o pacto civilizatório

Quando eu entrei no jornalismo e, especificamente, no jornalismo de tecnologia, o clima que conduzia a área era de otimismo. Meu primeiro texto foi publicado em 2003, quando eu estava no terceiro ano de faculdade, o Google ainda era uma startup a se provar, Microsoft e GE se alternavam como maior empresa do mundo, a Nokia estava a quatro anos de lançar seu primeiro smartphone realmente popular, o N951, e Mark Zuckerberg era apenas um estudante de Harvard que fundaria o Facebook no ano seguinte2. O mundo ainda estava escalando a ladeira do “tecno-otimismo”, incentivado por algumas novidades que soavam, à primeira vista, como se fossem piadas.

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O Brasil real não cabe nas discussões delirantes do Twitter

Em 1924, Oswald de Andrade, Mario de Andrade e Tarsila do Amaral eram três dos artistas mais relevantes do Brasil. Os três tiveram participação decisiva na Semana de Arte Moderna dois anos antes, um movimento artístico que desencadeou o Modernismo no Brasil ao questionar e reinventar alguns pilares nos quais a arte tradicionalmente se apoiava até então. O movimento reuniu escritores, poetas, pintores, escultores, músicos com o intuito de propor uma nova visão sobre o que era produzir arte e, principalmente, como se desvencilhar daquele modelo clássico trazido da Europa e regurgitado até então.

A arte produzida no Brasil desde a vinda da Corte Portuguesa, cheia de pintores que vieram tentar a vida por aqui, reproduzia muito o que era praticado na Europa sem adaptações radicais. Desde que um sujeito francês chamado Jean-Baptiste Debret desembarcou no Brasil quase uma década depois da corte portuguesa e se tornou uma espécie de pintor oficial do reino, a arte brasileira seguia as suas pegadas. Quando o Museu do Ipiranga estiver aberto (sabe-se lá quando) você vai poder ver isso expresso na tela “Independência ou Morte ou O Grito do Ipiranga”, do Pedro Américo, recriando Dom Pedro I declarando a independência do Brasil. Tudo é clássico: a composição, as cores, o tema, a maneira como o brasileiro é retratado como um capiau que não entende nada do que está acontecendo… Você pode achar que a tela do Pedro Américo é muito distante da Semana de 22; não é. A tela é de 1888, 80 anos depois do desembarque da corte e 34 anos antes do movimento modernista, o que serve para mostrar também como o Brasil é novo.

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O manual de eleição digital para o fascista moderno chegar ao poder


Ouviu o Tecnocracia e veio aqui em busca dos links citados?


Poucas semanas antes do segundo turno das eleições presidenciais de 2018, um dos candidatos, Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores (PT), anunciou que havia registrado seu plano de governo em uma blockchain, a tecnologia por trás do bitcoin. No site da campanha, já fora do ar, mas ainda disponível na Wayback Machine, o comunicado oficial explicava que o registro na blockchain era uma forma de garantir que as propostas, “constantemente modificadas para a manipulação de eleitores”, chegariam a eles na íntegra. Eleitores em dúvida sobre as “teorias criadas pela rede de desinformação do candidato opositor” poderiam, em tese, conferir se era mentira ou não.

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Pausa no Guia Prático

Gravar o Guia Prático no formato de 2020, ou seja, solo ou com convidados esporádicos, tem se tornado desafiador. Muitos assuntos que me ocorrem abordar no programa, em áudio, acabam transformados em artigos ou reportagens, ou resumidos na newsletter.

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Mark Zuckerberg está no lado errado da história

Em 1954, a Suprema Corte dos Estados Unidos julgou inconstitucional, por unanimidade, a segregação racial nas escolas do país. Até então, os governos estaduais definiam se alunos brancos e negros seriam misturados ou se cada um iria para uma escola diferente — em sua maioria esmagadora, as escolas frequentadas pelos brancos não eram as mesmas escolas frequentadas pelos negros. Estudos feitos nas décadas seguintes mostraram que as escolas dos brancos recebiam mais dinheiro do governo e eram melhores em qualidade educacional que as escolas dos negros.

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Boicotar empresas resolve alguma coisa?

Neste podcast, reflito sobre os boicotes deste início de julho aos aplicativos de entregas (iFood e cia.) e das grandes empresas à plataforma de anúncios do Facebook. No final, recomendo dois filmes brasileiros.

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#ApoioBrequeDosAPPs: A paralisação dos entregadores de aplicativos no dia 1º de julho, com Reginaldo Zafemina

Neste podcast, converso com o entregador de aplicativos Reginaldo Zafemina, de Campinas (SP), a respeito da grande paralisação da categoria no dia 1º de julho. Para mais informações, dê uma olhada nos perfis do Treta no Trampo (Twitter, Instagram, Facebook).

Foto do topo: Roberto Parizotti/Fotos Públicas.

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Como ler livros enquanto o mundo derrete lá fora

Neste podcast eu comento a nova livraria do Manual do Usuário e falo de como está difícil ler qualquer coisa maior que um tuíte nos últimos meses. Nas indicações, tem um filme e um livro brasileiros.

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Levando joguinhos a sério, com Carlos Aquino

Neste podcast, converso com o Carlos Aquino, do blog Retina Desgastada, sobre as várias maneiras de se relacionar com video games, as mensagens que alguns títulos trazem, o que estamos jogando agora e como conciliar uma biblioteca enorme de jogos. No final, ele indica um jogo canadense, uma série e um filme norte-americanos, e eu, um filme sueco.

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Todo dia ela faz tudo sempre igual: trabalho em tempos de COVID-19

Além do cappuccino, do Vaticano e do fascismo, a sociedade moderna deve à Itália o conceito de empresa. Ainda que grupos de pessoas venham se unindo sob uma mesma organização para fazer comércio desde a Mesopotâmia, 3 mil anos antes de Cristo, foi durante o Império Romano que tomou forma a estrutura da empresa que conhecemos até hoje.

“Eles certamente criaram alguns dos conceitos fundamentais de legislação corporativa, particularmente a ideia de que uma associação de pessoas pode ter uma identidade coletiva separada dos seus componentes humanos. Eles ligavam as companhias à família, a unidade básica da sociedade. Os sócios — ou ‘socii’ — deixavam a maior parte das decisões gerenciais para os gerentes, que, por sua vez, operavam o negócio, administravam os agentes no campo e mantinham ‘tabulae accepti et expensi’, os livros de contabilidade”. Ainda que os romanos tenham dado a primeira forma, foram outros italianos que, baseado no que os romanos já tinham criado, aperfeiçoaram o modelo. Esse trecho é de um livro excepcional chamado The company: A short history of a revolutionary idea, de dois jornalistas da revista The Economist, John Micklethwait e Adrian Wooldridge.

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A apropriação da tecnologia pelas grandes empresas, com Jaydson Gomes

Neste podcast, converso com Jaydson Gomes, da BrazilJS, sobre JavaScript, como as grandes empresas subvertem iniciativas de código aberto e o que fazer com seu evento presencial quando uma pandemia acontece. No final, indicamos um livro e uma série norte-americanos e um filme japonês.

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Cabe falar de política em um site de tecnologia?

Neste podcast, aproveito o gancho deixado por um leitor no último Tecnocracia para falar da incidência de temas políticos na pauta do Manual do Usuário. Pode? Não pode? É ruim? No fim, indico uma série documental brasileira.

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