Universo alternativo: Cine Filmes e a pirataria de filmes debaixo do nariz do Google


29/5/19 às 10h34

Nota do editor: Esta matéria é parte de um especial do Manual do Usuário sobre aplicativos para Android em posições de destaque na Play Store brasileira, mas que estão fora do radar da imprensa. São famosos desconhecidos que, juntos, criam uma espécie de universo alternativo dos apps. Leia também a primeira parte (4Shared) aqui e a segunda (Biugo).


A relação entre a indústria do entretenimento e a pirataria sempre foi de tensão. Uma briga de gato e rato que contrapõe empresas multibilionárias e idealistas ou pessoas comuns sem muitos recursos, mas com uma vontade imensa de ter acesso à ampla produção artística da humanidade. Por isso, casos como o do Cine Filmes chamam a atenção: um app de streaming de filmes direto, gratuito, sem qualquer aval da indústria cinematográfica e que permaneceu disponível na Play Store por meses como um dos apps mais baixados da plataforma do Google.

Na guerra entre indústria do entretenimento e pirataria, não existem vencedores. Pelo menos, não vencedores definitivos. Qualquer vitória de um lado é seguida, quase imediatamente, por um contra-ataque do outro, e este quase sempre é bem-sucedido.

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Um dos golpes mais efetivos da indústria foi o streaming pago por mensalidade — o modelo da Netflix. Seu grande trunfo, tornar o consumo de filmes e séries mais fácil que o melhor modelo vigente da pirataria, na época representado pelo torrent. Em vez de baixar um aplicativo, acessar sites estranhos cheios de publicidade invasiva e correndo o risco de instalar um vírus no computador, aguardar horas pelo download e só então assistir ao conteúdo desejado, o streaming legalizado reduziu esse processo a dois passos simples: 1) escolha o que quer assistir em um catálogo enorme; 2) aperte o “play”.

A pirataria, como sempre acontece, revidou. O Popcorn Time acrescentou essa camada de comodidade do streaming ao modelo do torrent. Não demorou a ser derrubado pelo aparato jurídico da indústria, mas o modelo permaneceu e, até hoje, não é muito difícil encontrar herdeiros por aí, com todas as vantagens do modelo da Netflix e, além disso, gratuitos e com acervos maiores e mais atualizados.

Um dos herdeiros mais ousados foi o aplicativo brasileiro Cine Filmes. Isso porque ele estava disponível, de graça, na Play Store, a loja oficial do Google, uma das maiores empresas do mundo e que mantém laços íntimos com a indústria cinematográfica, oferecendo filmes para aluguel e compra dos direitos digitais na mesma loja onde o Cine Filmes era distribuído e promovido na lista dos apps gratuitos mais pesquisados. Fazendo uma analogia anacrônica, é como se um camelô de DVDs piratas tivesse um espaço de destaque garantido em todas as Blockbusters dos tempos áureos da mídia física.

Cine Filmes, uma Netflix de graça

O caso do Cine Filmes mostra que o conteúdo, quando é bom, supera qualquer limitação técnica e/ou estética. O app era simples de tudo, feio e exibia anúncios agressivos. Nada convidativo, mas o acervo de filmes era atual e a execução deles funcionava.

Era um negócio tão mambembe que a listagem de filmes tinha, como primeiro item, um aviso ao usuário na forma de um textão. Em letras maiúsculas e com diversos erros gramaticais e ortográficos, os desenvolvedores do app avisavam:

Tenha em mente que esse aplicativo é um modo alternativo de assistir filmes. Podendo haver momentos de instabilidades, ou problemas, mais saiba que sempre estaremos trabalhando para a melhoria…

O mesmo textão dizia, ainda, que o Cine Filmes oferecia suporte ao Chromecast e, a partir da versão 1.1, download para exibição offline. E como ninguém sobrevive de vento, destacava que os anúncios eram “necessários para que possamos manter o app”, pois “diferente de outros app nós possuímos servidores próprios”.

Textão de aviso aos usuários do app Cine Filmes.
Imagem: Cine Filmes/Reprodução.

Imediatamente abaixo deste aviso, surgia o catálogo. E ele parecia bem completo, incluindo lançamentos recentes que, com sorte, só devem aparecer em apps de streaming legalizados daqui a alguns meses ou anos. Entre eles, Vingadores: Ultimato e Pokémon: Detetive Pikachu. Esses eram identificados com uma etiqueta “CAM”, que, segundo os desenvolvedores, são “filmes com baixa qualidade de vídeo/áudio”, provavelmente filmados dentro de salas de cinema, uma prática antiga e que, aparentemente, continua em voga. Os filmes também estavam organizados por categorias e havia uma seção, no menu principal, em que os usuários podiam solicitar filmes ausentes no catálogo. (Aprende com eles, Netflix!)

O Manual do Usuário testou, com sucesso, o streaming de alguns filmes na plataforma. Há títulos dublados e outros legendados, e não era preciso fazer qualquer tipo de cadastro; bastava baixar o app, escolher o filme e dar o “play” — mais simples que uma Netflix da vida.

Prints das telas de lançamentos do app Cine Filmes.
Listagem de lançamentos do cinema no app Cine Filmes incluía Vingadores: Ultimato. Imagem: Cine Filmes/Reprodução.
Print do app Cine Filmes exibindo um filme disponível só no cinema.
Sai de baixo: O filme no Cine Filmes. Imagem: Cine Filmes/Reprodução.

Como é possível??

É inexplicável e, por isso, fascinante que um app tão descarado como o Cine Filmes tenha permanecido na Play Store por tanto tempo e com tamanho destaque na lista dos mais pesquisados.

Após o Manual do Usuário entrar em contato com o Google pedindo um posicionamento sobre o Cine Filmes, o aplicativo foi excluído da Play Store. Mesmo assim, a empresa não respondeu ao meu pedido, o que achei meio chato. Afinal, estraguei a diversão de milhões de brasileiros que usavam o Cine Filmes para ver filmes e, de quebra, ajudei a engordar ainda mais os bolsos de executivos dos grandes estúdios de cinema. Sequer um “obrigado”, Google? Sério!?

Página não encontrada do Cine Filmes na Play Store.
O Cine Filmes estava nesta página. Imagem: Google/Reprodução.

Enfim. A App Brain, uma plataforma de apps que se conecta à Play Store, traz mais dados e preserva vários que se foram junto com a listagem do Cine Filmes na loja do Google.

Por ela, descobre-se que o Cine Filmes foi lançado no dia 15 de outubro de 2018 e que teve cinco atualizações antes ser removido da Play Store. No dia 3 de maio, ultrapassou a barreira dos 5 milhões de downloads. O app mantinha uma nota de 4,59 de um total possível de 5, fruto da avaliação de mais de 164 mil pessoas. São números de fazer inveja a qualquer app.

O desenvolvedor do Cine Filmes se identifica como “MovieMaximum”, está ativo na plataforma da Play Store há 11 meses e só publicou este app. O e-mail informado, um @gmail.com, não retornou o contato do Manual do Usuário pedindo uma entrevista.

É o fim da pirataria? Nem de longe. O Google provavelmente ficará mais atento a apps que emulem o funcionamento do Cine Filmes, mas os piratas certamente encontrarão maneiras inventivas de contornar quaisquer bloqueios feitos pelas plataformas legalizadas.

Ou nem isso. Um pouco mais abaixo na lista de apps gratuitos mais pesquisados da Play Store, desponta um sugestivo CineFilmes HD, lançado por outro desenvolvedor em dezembro de 2018 e que já contabiliza mais de 500 mil downloads.

Sua vez, Google.

Montagem do topo: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

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