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Universo alternativo: Cine Filmes e a pirataria de filmes debaixo do nariz do Google

Nota do editor: Esta matéria é parte de um especial do Manual do Usuário sobre aplicativos para Android em posições de destaque na Play Store brasileira, mas que estão fora do radar da imprensa. São famosos desconhecidos que, juntos, criam uma espécie de universo alternativo dos apps. Leia também a primeira parte (4Shared) aqui e a segunda (Biugo).


A relação entre a indústria do entretenimento e a pirataria sempre foi de tensão. Uma briga de gato e rato que contrapõe empresas multibilionárias e idealistas ou pessoas comuns sem muitos recursos, mas com uma vontade imensa de ter acesso à ampla produção artística da humanidade. Por isso, casos como o do Cine Filmes chamam a atenção: um app de streaming de filmes direto, gratuito, sem qualquer aval da indústria cinematográfica e que permaneceu disponível na Play Store por meses como um dos apps mais baixados da plataforma do Google.

Na guerra entre indústria do entretenimento e pirataria, não existem vencedores. Pelo menos, não vencedores definitivos. Qualquer vitória de um lado é seguida, quase imediatamente, por um contra-ataque do outro, e este quase sempre é bem-sucedido.


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Um dos golpes mais efetivos da indústria foi o streaming pago por mensalidade — o modelo da Netflix. Seu grande trunfo, tornar o consumo de filmes e séries mais fácil que o melhor modelo vigente da pirataria, na época representado pelo torrent. Em vez de baixar um aplicativo, acessar sites estranhos cheios de publicidade invasiva e correndo o risco de instalar um vírus no computador, aguardar horas pelo download e só então assistir ao conteúdo desejado, o streaming legalizado reduziu esse processo a dois passos simples: 1) escolha o que quer assistir em um catálogo enorme; 2) aperte o “play”.

A pirataria, como sempre acontece, revidou. O Popcorn Time acrescentou essa camada de comodidade do streaming ao modelo do torrent. Não demorou a ser derrubado pelo aparato jurídico da indústria, mas o modelo permaneceu e, até hoje, não é muito difícil encontrar herdeiros por aí, com todas as vantagens do modelo da Netflix e, além disso, gratuitos e com acervos maiores e mais atualizados.

Ilustração com uma mãozinha depositando uma moeda em uma caixa com o logo do Manual do Usuário em uma das faces, segurada por dois pares de mãos. Ao redor, moedas com um cifrão no meio flutuando. Fundo alaranjado.

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Um dos herdeiros mais ousados foi o aplicativo brasileiro Cine Filmes. Isso porque ele estava disponível, de graça, na Play Store, a loja oficial do Google, uma das maiores empresas do mundo e que mantém laços íntimos com a indústria cinematográfica, oferecendo filmes para aluguel e compra dos direitos digitais na mesma loja onde o Cine Filmes era distribuído e promovido na lista dos apps gratuitos mais pesquisados. Fazendo uma analogia anacrônica, é como se um camelô de DVDs piratas tivesse um espaço de destaque garantido em todas as Blockbusters dos tempos áureos da mídia física.

Cine Filmes, uma Netflix de graça

O caso do Cine Filmes mostra que o conteúdo, quando é bom, supera qualquer limitação técnica e/ou estética. O app era simples de tudo, feio e exibia anúncios agressivos. Nada convidativo, mas o acervo de filmes era atual e a execução deles funcionava.

Era um negócio tão mambembe que a listagem de filmes tinha, como primeiro item, um aviso ao usuário na forma de um textão. Em letras maiúsculas e com diversos erros gramaticais e ortográficos, os desenvolvedores do app avisavam:

Tenha em mente que esse aplicativo é um modo alternativo de assistir filmes. Podendo haver momentos de instabilidades, ou problemas, mais saiba que sempre estaremos trabalhando para a melhoria…

O mesmo textão dizia, ainda, que o Cine Filmes oferecia suporte ao Chromecast e, a partir da versão 1.1, download para exibição offline. E como ninguém sobrevive de vento, destacava que os anúncios eram “necessários para que possamos manter o app”, pois “diferente de outros app nós possuímos servidores próprios”.

Textão de aviso aos usuários do app Cine Filmes.
Imagem: Cine Filmes/Reprodução.

Imediatamente abaixo deste aviso, surgia o catálogo. E ele parecia bem completo, incluindo lançamentos recentes que, com sorte, só devem aparecer em apps de streaming legalizados daqui a alguns meses ou anos. Entre eles, Vingadores: Ultimato e Pokémon: Detetive Pikachu. Esses eram identificados com uma etiqueta “CAM”, que, segundo os desenvolvedores, são “filmes com baixa qualidade de vídeo/áudio”, provavelmente filmados dentro de salas de cinema, uma prática antiga e que, aparentemente, continua em voga. Os filmes também estavam organizados por categorias e havia uma seção, no menu principal, em que os usuários podiam solicitar filmes ausentes no catálogo. (Aprende com eles, Netflix!)

O Manual do Usuário testou, com sucesso, o streaming de alguns filmes na plataforma. Há títulos dublados e outros legendados, e não era preciso fazer qualquer tipo de cadastro; bastava baixar o app, escolher o filme e dar o “play” — mais simples que uma Netflix da vida.

Prints das telas de lançamentos do app Cine Filmes.
Listagem de lançamentos do cinema no app Cine Filmes incluía Vingadores: Ultimato. Imagem: Cine Filmes/Reprodução.
Print do app Cine Filmes exibindo um filme disponível só no cinema.
Sai de baixo: O filme no Cine Filmes. Imagem: Cine Filmes/Reprodução.

Como é possível??

É inexplicável e, por isso, fascinante que um app tão descarado como o Cine Filmes tenha permanecido na Play Store por tanto tempo e com tamanho destaque na lista dos mais pesquisados.

Após o Manual do Usuário entrar em contato com o Google pedindo um posicionamento sobre o Cine Filmes, o aplicativo foi excluído da Play Store. Mesmo assim, a empresa não respondeu ao meu pedido, o que achei meio chato. Afinal, estraguei a diversão de milhões de brasileiros que usavam o Cine Filmes para ver filmes e, de quebra, ajudei a engordar ainda mais os bolsos de executivos dos grandes estúdios de cinema. Sequer um “obrigado”, Google? Sério!?

Página não encontrada do Cine Filmes na Play Store.
O Cine Filmes estava nesta página. Imagem: Google/Reprodução.

Enfim. A App Brain, uma plataforma de apps que se conecta à Play Store, traz mais dados e preserva vários que se foram junto com a listagem do Cine Filmes na loja do Google.

Por ela, descobre-se que o Cine Filmes foi lançado no dia 15 de outubro de 2018 e que teve cinco atualizações antes ser removido da Play Store. No dia 3 de maio, ultrapassou a barreira dos 5 milhões de downloads. O app mantinha uma nota de 4,59 de um total possível de 5, fruto da avaliação de mais de 164 mil pessoas. São números de fazer inveja a qualquer app.

O desenvolvedor do Cine Filmes se identifica como “MovieMaximum”, está ativo na plataforma da Play Store há 11 meses e só publicou este app. O e-mail informado, um @gmail.com, não retornou o contato do Manual do Usuário pedindo uma entrevista.

É o fim da pirataria? Nem de longe. O Google provavelmente ficará mais atento a apps que emulem o funcionamento do Cine Filmes, mas os piratas certamente encontrarão maneiras inventivas de contornar quaisquer bloqueios feitos pelas plataformas legalizadas.

Ou nem isso. Um pouco mais abaixo na lista de apps gratuitos mais pesquisados da Play Store, desponta um sugestivo CineFilmes HD, lançado por outro desenvolvedor em dezembro de 2018 e que já contabiliza mais de 500 mil downloads.

Sua vez, Google.

Montagem do topo: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

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20 comentários

  1. Mais um app: Vizer

    Apareceu como destaque para mim na Play Store.

    Tem um site também.

    Baixei para ver do que se trata. É um app bonito, bem feito.
    Ele pega os filmes que estão hospedados em servidores (openload).
    Da até para transmitir via Chromecast.

    “O vizer é uma plataforma de site e aplicativo para assistir filmes x series online grátis! O nosso site atualiza todas as séries no dia em legendado e dublado, e como o nosso site é um indexador automático, somos os mais rápidos postadores do Brasil. Vizer não armazena mega filmes e series em nosso site, por isso é completamente dentro da lei. O vizer indexa conteudo encontrado na web automáticamente usando Robots e Inteligência artificial. O uso do vizer é totalmente responsabilidade do usuário. A distribuição de filmes é da parte de plataformas como openload entre outros. Qualquer violação de direitos autorais, entre em contato com o distribuidor. Em caso de dúvidas ou reclamações sobre conteúdo, funcionalidade do site, anúncios entre outros, entre em contato com a equipe de suporte do vizer.”

  2. Pra mim a Google sempre faz vista grossa para esses apps desde que fiquem quietinhos no seu canto. Eu desconfio que esses apps sejam mais rentáveis em publicidade que os apps famosos.

  3. Sinceramente não sou muito fã deste tipo de app. Tenho uma desconfiança de como funciona e de como lida com dados (deveria a propósito ter visto os pedidos de permissão que o mesmo dá. Mesmo que o povão ignora, esta informação tem relevância).

    Não que eu seja contra a pirataria, mas sim que tal como dito por alguns, o problema é que por trás de alguns modelos de pirataria, há riscos de vírus e comprometimento de dados. Digo mais dos apps, mas claro, há exceções também – a única coisa incômoda seria os anúncios.

    Diferente de pessoas como Pilotti, não tenho um conhecimento amplo em outros métodos, como Popcorn Time, Torrent (sério, tenho preguiça para ir atrás de locais de “seeds”) e até mesmo Usenet (isso tem que ter dinheiro, diga-se de passagem).

    1. O Pirate Bay tem um sistema de caveiras (verde e rosa) que indicam que o arquivo é confiável (eles foram testados pela equipe do site e foram enviados por usuários VIP) que é bastante seguro, muitas vezes mais do que usar um plugin de DRM do Google para ver filmes da Netflix no seu navegador, por exemplo.

      Trackers privados, como eu disse pra você em outro comentário, são mais mais seguros do que a maioria das soluções proprietárias em relação aos seus dados (eles vivem de doações, normalmente paypal ou BC) e a sua permanência no tracker é balizada pelo seu ratio (razão entre o que você baixa e o que você compartilha com a comunidade) e pela sua reputação (uploaders que enviam arquivos falsos ou com algum tipo de irregularidade [como vírus/worms ou trackers internos] são expulsos da comunidade no ato).

      A ideia de pirataria como fonte de vírus e roubo de dados é exclusiva de fontes como sites de baixa qualidade que sobrevivem via anúncios e downloads/cliques de programas obscuros (via de regra, sites e aplicações como o CF/CFHD). O grande problema é que esse tipo de site/app é exatamente o que é usado pelas pessoas que não sabem como/onde pegar o conteúdo e dependem de terceiros para consumir conteúdo a um custo justo.

      Usenet não faz mais sentido, tudo o que sai na Usenet acaba em trackers privados e, posteriormente, em trackers públicos como o TPB. Só vale a pena se você quer muito ser o primeiro a ter acesso ao conteúdo.

  4. “Após o Manual do Usuário entrar em contato com o Google pedindo um posicionamento sobre o Cine Filmes, o aplicativo foi excluído da Play Store.”

    Rodrigo é o bichão mesmo…

  5. “Após o Manual do Usuário entrar em contato com o Google pedindo um posicionamento sobre o Cine Filmes, o aplicativo foi excluído da Play Store.”

    Estamos todos gratos. KKKKKKKKKKKK

  6. Boa sorte e tome cuidado com gente maluca disposto de te ferrar por perder app pirata, não Sei se fez coisa certa pq pirataria é algo complexo para ser tratado como crime comum. Apoio o mdu! Seja forte. Mas entendo que tem motivos e razões para agir isso. Isso respeito e admiro a coragem.

  7. Ghedin X9, cabuetou o piratão das massas kkkkkkkk

    Essa série tem que continuar, nem que seja só uma vez por mês, o trabalho tá excelente.

  8. Cara vai ter gente maluca(o) atacando e te ameaçado, bem boa sorte mas pelo menos não sei se é coisa certa de remover app pirata pq pirataria é algo complexo não se deve colocar como crime comum.
    Mas pelo menos vc fez que sabe que é certo. Boa Rodrigo! O manual de usuário tem que aguentar ataques dos malucos e trolls e coringas tô torcendo por mdu e por vc. Vc é corajoso tem meu respeito.

    1. Vai nada, tem umas 100 variações do Popcorn Time na Play Store. Quem baixa o Cine Filme ou o CFHD é quem não sabe exatamente como a coisa funciona. E quem não entende isso não tem muito tempo/vontade de ir atrás de quem derrubou o aplicativo. Vão no máximo baixar o CFHD e tocar a vida.

      E os devs do CF vão fazer outro app, talvez mais refinado, e mandar pra Play Store com outro nome e outra assinatura.

      Só gostaria de saber o que você considera “certo” na questão.

      1. A pirataria não é simples e complexo tomar um crime comum, irá prender muitos brasileiros levando milhares até milhões sabe?

        1. Há o risco de prender o sal no rabo, vai que ele tem um receptor pirata na casa dele, ofertado pelos amigos milicianos que fazem gato net?

          1. Bem se tiver pessoas que tiram vidas e cometem crimes graves não podem piratear como milícia e etc mas essa possibilidade de ter isso por isso tornaram pirataria ilegal né?

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