Livrar-me do carro próprio trouxe economia, paz de espírito e a esperança de cidades melhores


13/5/19 às 14h02

Em dezembro de 2017, no intervalo de um evento de tecnologia, conversava com amigos sobre assuntos aleatórios quando mencionei “meu carro”. Eles me olharam atônitos. “Você não parece o tipo de pessoa que tem carro”, disseram. Senti-me lisonjeado. Quando voltamos de viagem, comecei a cogitar a ideia de não apenas parecer, mas de ser uma pessoa sem carro. O processo todo levou um ano e, agora, alguns meses após me desfazer do carro próprio, desfruto de menos estresse no dia a dia e uma economia notável nos gastos mensais.

Uma vida dentro do carro

Meus pais sempre tiveram carro, e, mesmo andando bastante a pé e de bicicleta na adolescência, acostumei-me ao carro para ir à escola (voltava a pé) e para chegar a todos os demais eventos onde o horário, a distância ou as circunstâncias tornava difícil a um adolescente comparecer por seus próprios meios. Depois de adulto, essa ideia continuou a me acompanhar, mesmo já morando em cidades maiores onde outros modais de transporte, como o ônibus, eram mais presentes. (No interior, mesmo hoje a situação é mais complicada.)

Os tempos são outros. A urgência dos problemas crônicos da cultura automotiva cresceram em mim nesse intervalo. O carro está associado a ideias com que não me identifico. O individualismo, a agressividade que parece inebriar qualquer um que se senta atrás do volante, a sensação de poder que o marketing das montadoras tenta passar. E é, também, cada vez mais uma questão de sobrevivência. A ocupação que os carros fazem das ruas, das cidades, é irracional e o rastro de poluição (do ar, sonora e visual) que eles deixam, sufocante. Sendo viável, por que não tentar outro estilo de vida?


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Todos esses questionamentos são válidos, mas talvez o maior fator de decisão seja o embate entre duas forças inerentes ao carro próprio: a comodidade que ele proporciona e o custo de manter esse luxo.

A comodidade se manifesta fortemente quando você acorda atrasado, com uma leve dor de cabeça e, para piorar, faz frio e está chovendo. Nessas horas a ideia de entrar no carro, colocar uma música gostosa e ir até o seu destino sem os inconvenientes de se molhar, passar frio e conter o mau humor na presença de outras pessoas amontoadas no mesmo espaço que você dentro de um corredor gigante chacoalhando é muito tentadora. Adotar o transporte público significa alargar um pouco o nível de paciência com as intempéries da vida. Inevitavelmente o ônibus atrasará, vai ter criança chorando, gente ouvindo música alta no celular, aperto, um motorista com o pé mais pesado, muitas variáveis que exigirão, em dias de maior estresse, que se respire fundo e conte até dez. Estamos chegando. Já vai acabar.

Entra em cena a economia. Olhar o dinheiro que sobra no fim do mês quando não se tem carro é um enorme incentivo. Muita gente que pensa nesta hipótese não consegue ter essa visão por um mero erro de cálculo: os custos de se ter um carro são grandes, embora eles nem sempre sejam evidentes.

Aos números

A pedido do Manual do Usuário, o consultor de finanças pessoais da Par Mais, Jailon Giacomelli, fez os cálculos dos custos que um carro gera. Ele usou como base um modelo popular avaliado em R$ 40 mil.

Na conta, que Giacomelli classificou de conservadora, este carro custaria R$ 1.276 por mês. Os custos mensais, especificados por ele, seguem abaixo:

  • Depreciação: R$ 333 (10% ao ano do valor de mercado do veículo, ou seja, R$ 4 mil dividido por 12 [meses]);
  • Combustível: R$ 176 (rodando 20 km por dia, 22 dias úteis por mês; combustível a R$ 4 e consumo de 10 km/l);
  • Garagem/estacionamento: R$ 200.
  • Seguro: R$ 166 (considerando o seguro anual de R$ 2 mil);
  • IPVA: R$ 100 (considerando percentual hipotético de 3% do valor do carro; o valor devido varia de estado para estado);
  • Manutenção: R$ 84 (considerando apenas a básica e revisão, sem imprevistos).

Se você fez as contas, notou que falta R$ 217. Esse valor é uma espécie de “custo de oportunidade”, referente ao que se deixa de ganhar ao não investir o valor do carro. Em uma aplicação simples qualquer, que renda a SELIC (atualmente em 6,5% ao ano), aqueles R$ 40 mil do veículo renderiam R$ 2.600 no primeiro ano.

Gráfico do custo mensal de um carro.
Na ponta do lápis.

Note que a conta não considera, ainda, imprevistos. Eles acontecem e são mais frequentes do que imaginamos no dia a dia: panes, defeitos, batidas. Rodar dentro de uma lata de uma tonelada em alta velocidade junto com outras milhares de latas tão pesadas e rápidas quanto é um perigo em si. É um milagre que acidentes de trânsito não sejam mais comuns. Tem também os roubos e furtos, que também não podem ser desprezados e podem gerar prejuízos pequenos, mas relevantes — aqueles que ficam abaixo do valor da franquia, por exemplo.

“O que as pessoas não consideram nessa conta, e por isso acham que é vantagem ter o carro, é a depreciação (10% ao ano) e quanto esse dinheiro renderia se não estivesse no carro (6,5% ao ano). Tirando esses dois, R$ 1.276 viram R$ 726. Esse ‘custo escondido’, que você não sente no dia a dia, tem que ser considerado”, explica Giacomelli.

Saindo do exemplo, temos um caso real para analisar — o meu. Em novembro de 2018, decidi fazer um experimento1 e ignorar o carro, passando o mês como se ele não existisse. (Só dei umas voltas perto de casa duas vezes para não deixar o carro parado e correr o risco de arriar a bateria.)

Tenho o hábito de anotar todos os meus gastos, então foi fácil saber quanto o carro havia me custado até ali. Peguei o valor, dividi por dez e usei a média do período como referência. Fiz o mesmo com o cálculo da depreciação e aquele “custo de oportunidade”. O gasto mensal ficou um pouco abaixo do da simulação feita acima porque não tinha custo com garagem e o valor do carro era menor.

Os modais que mais usei nesse período foram o ônibus e as caronas pedidas por apps como 99 e Uber. Em termos financeiros, a divisão entre eles foi de 38,5% e 61,5%, respectivamente. E andei bastante a pé — o aplicativo do celular que conta passos apontou um aumento de 33,5% no número deles em novembro em relação à média dos dez meses anteriores.

A diferença no gasto mensal com locomoção foi impressionante: uma economia de 78,2%. Importante dizer: sem nenhuma concessão ou preocupação em não gastar, ou seja, não me abstive de compromisso algum por não ter o carro à mão.

Imagine essa economia o ano inteiro. Por vários anos. Em uma vida.

Fosse apenas pela racionalidade, a gente faria um monte de coisas de maneira diferente. “O subjetivo pesa bastante”, explica o consultor de finanças pessoais. Ele, que costuma atender clientes confrontados pelo dilema de ter ou não um carro próprio (ou mais de um), diz que alguns optam por manter o carro pelo status que o veículo ainda confere. A já referida comodidade, da qual voltaremos a falar em um instante, também é um grande fator que engloba de situações cotidianas, como fazer compras, às eventuais, como viagens curtas para outras cidades.

Colocar todos os gastos na ponta do lápis é importante porque, em alguns casos, a conta se revela favorável ao carro. Giacomelli usa uma família com filhos como exemplo. “Se o ônibus ou a van para a escola custa o mesmo ou mais que a diferença [entre ter e não ter o carro] e o horário é compatível com os dos pais, vale a pena manter o carro. É conveniente, você vai ter o carro para outras situações e a conta fecha”.

Todos os cálculos e opiniões acima consideram um carro já quitado. Com o carro financiado, cenário muito comum, “a conta não fecha nunca porque tem o custo do juro”, adverte Giacomelli.

As quedas de braço

Quando me propus o teste de novembro, não antecipei o efeito que deixar de dirigir teria no meu psicológico. Embora quem dirija suspeite que a atividade seja estressante, é o tipo de coisa que só se percebe em sua plenitude na prática.

Dirigir é um negócio muito exaustivo. A rotina tira isso de perspectiva, da mesma maneira que quem exagera no açúcar ou no sal perde muitas nuances do sabor dos alimentos. Não estar ao volante, sobrecarregando os sentidos, revelou-se um alívio. E andar por caminhos que antes só fazia dentro de uma caixa de metal a velocidades sobre-humanas, uma grata (re)descoberta do lugar onde moro e das pessoas, a maioria desconhecidas, com quem o compartilho. Saí de uma bolha literal (o espaço individual dentro do carro) e metafórica (a ideia, perpetuada pela indústria, de que dentro do seu carro você reclama um naco enorme do espaço público).

As forças que promovem o carro são muito poderosas, especialmente quando contrapostas à publicidade do transporte público, geralmente restrita a alguns informes da prefeitura e ativistas e acadêmicos sem os orçamentos milionários e os publicitários premiados das montadoras. Procure um comercial delas em que o carro apareça em um congestionamento ou mesmo dividindo a via com outros carros. Uma delas teve a cara de pau de pedir ao consumidor que imaginasse “um lugar onde o interesse de alguns é colocado acima do de todos” em um comercial que, de início, parece mais uma convocação para queimar carros em vez de comprá-los — mais uma apropriação cínica do discurso anti-carros pela indústria. Porque esse utópico lugar “de todos” seria uma cidade com menos carros e mais transporte público, e não uma em que qualquer um pode comprar um carro de R$ 70 mil.

Placa com citação de Jarret Walker sobre frequência no transporte público.
Uma frequência de 10 minutos se aproxima de um nível de serviço em que as pessoas param de se preocupar com um horário específico e pensam que o serviço está lá sempre que precisarem. Essa é a mudança psicológica decisiva, em que o trânsito começa a se tornar útil para pessoas que valorizam a liberdade.” Foto: @BrentToderian/Twitter.

Talvez os ônibus da sua cidade não sejam tão bons. Não é acaso; como diz a citação de Jarrett Walker acima, a qualidade do transporte público resulta das decisões operacionais, de infraestrutura, financiamentos e do uso da terra. Um transporte público ruim dá espaço a soluções paliativas que não só não resolvem o problema da locomoção nas cidades, mas o piora. Vide os apps como Uber e 99. Um estudo publicado este mês se soma a outros que apontam que a presença de apps do tipo aumentou os congestionamentos nas cidades nos últimos anos.

É cômodo pedir um carro pelo celular? Demais. Mas o transporte público poderia ser menos pior se houvesse um esforço sistemático em aperfeiçoá-lo. Meu experimento revelou, também, que há espaço para aperfeiçoamentos, afinal mais da metade das minhas viagens por meios de transporte automotivos ainda foram em carros, só não um que fosse meu.

Embora existam muitos outros fatores, da segurança às políticas públicas de mobilidade urbana, montadoras e a Uber focam no ponto mais fraco das pessoas — como toda empresa —, a conveniência. Elas estabelecem o que o pensador Tim Wu chama de “tirania da conveniência”:

A conveniência tem a capacidade de tornar as outras opções impensáveis. (…) Resistir à conveniência — não ter um celular, não usar o Google[, abdicar do carro próprio] — passou a exigir um tipo especial de dedicação que com frequência é tipo como excentricidade, se não fanatismo.

Eu estou em uma camada privilegiada da sociedade e sei que muitos leitores do Manual estão comigo nessa — é o que apontou a última pesquisa demográfica que rodei aqui, em março deste ano. Foi por isso que, correndo o risco de soar um privilegiado que descobriu que o seu umbigo não é o centro do mundo (uma análise correta), estou publicando isto. Para muita gente, ônibus não é alternativa; é a única opção. Para mim, não é a opção mais conveniente, mas é a que eu acredito e que diz a ciência é a melhor para todos. Representa um pequeno sacrifício em prol de um bem maior. E, sinceramente: a maioria das viagens que faço nos ônibus de Curitiba são bem boas. Melhores do que se fosse de carro e, em alguns casos, mais rápidas graças aos corredores exclusivos em algumas vias mais movimentadas. Economizar quase um salário mínimo por mês também é muito bom, devo dizer.

É como diz Enrique Peñalosa, prefeito de Bogotá e um dos políticos mais vocais e premiados na promoção do transporte público:

“Um país desenvolvido não é um lugar onde os pobres têm carros. É um onde os ricos usam o transporte público.”

Eu iria além e diria que um país desenvolvido é um lugar onde não há ricos e pobres, mas tudo bem. Uma batalha de cada vez.

Foto do topo: Ford/Old Car Advertising.


  1. Na ocasião, ainda trabalhava em uma empresa e, por isso, me deslocava todo dia para a redação. Em dezembro passei a trabalhar em casa, o que diminuiu ainda mais os meus custos com locomoção.

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