Print do Simplenote em um celular e em um tablet.

Todo mundo precisa de um app de anotações rápido e que sincronize com a nuvem


8/5/19 às 8h41

Fato: um bom aplicativo de anotações no celular é imprescindível. Seja para escrever notinhas temporárias ou lembretes, registrar ideias, desenvolver textos completos ou se organizar, ter um app rápido e sem firulas, que receba texto puro e que facilite a sua recuperação está entre aquelas pequenas maravilhas que nem sempre reconhecemos ou valorizamos.

Mesmo que a utilidade desses apps seja inegável, desconfio que muita gente viva sem um do tipo. Em uma nada científica enquete publicada no Twitter, menos da metade (49%) dos 219 votantes disseram ter e usar bastante um app do tipo. Quase 1/5 dos que responderam disseram não usar um app de anotações. Como vocês vivem!?


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Desconfio também que os apps pré-instalados nos aparelhos afetam diretamente esse uso/não uso. Os sistemas da Apple sempre tiveram o Notas, mas foi apenas no iOS 9 (2015) que o app ganhou funcionalidades à altura dos melhores do gênero. No Android, embora o Google tenha o Keep desde 2013, que faz as vezes de bloco de anotações, ele não vem pré-instalado em muitos celulares. O da Samsung, elogiado pelo suporte à stylus, fica confinado ao celular — até tem um app para Windows, mas pelos comentários na loja do Windows parece ser um desastre.

Apresento, abaixo, algumas opções de apps de anotações multiplataforma e com todas as boas características que um precisa ter.

Qual app de anotações escolher?

Hoje uso o Notas, da Apple. Antes de migrar para o ecossistema da empresa, minha escolha era o Simplenote, um aplicativo simples de tudo e, justamente por isso, sensacional. Ele tem uma API aberta, o que viabiliza o surgimento de aplicativos nativos em múltiplas plataformas — cheguei a criar, em parceira com um programador Alison Robson, um app do tipo para Windows, o Notation.

Em 2013, o Simplenote foi comprado pela Automattic, a empresa por trás do WordPress. Desde então, ganhou apps nativos nas principais plataformas do mercado: Android, iOS, Linux, macOS e Windows 10, além de ser acessível pela web. É gratuito, criptografado (embora não de ponta a ponta) e preza pela simplicidade. Para muita gente, resolve e é uma indicação fácil.

O fato de não ser criptografado de ponta a ponta pode inibir alguns usos para dados mais sensíveis. Na seção de perguntas e respostas do Simplenote, a Automattic diz que devido à busca na versão web, o conteúdo das notas não pode ser criptografado dessa maneira. “Por este motivo, não recomendamos usar o Simplenote para armazenar qualquer coisa particularmente sensível”, diz a empresa. Esse tipo de admissão passa uma confiança enorme — antes abrir o jogo e dizer-se incapaz de oferecer algo do que viver em negação e tentando enganar os usuários, como fazem certas empresas por aí.

Como é sempre bom ter escolhas, recentemente deparei-me com um novato na área, o Standard Notes. Se lhe falta o histórico do Simplenote, o Standard Notes ganha pontos pela franqueza e modelo de negócio.

Print do Standard Notes com rascunho de texto aberto.
Standard Notes para macOS.

O visual e diversas características dele fazem lembrar o Simplenote. A diferença que mais se destaca é que o Standard Notes oferece um plano pago. Custam pouco, mas é pago, porque é independente e pretende se manter assim por pelo menos cinco anos, que é a duração do plano mais longo que eles oferecem, a ser pago de uma tacada só — sai US$ 2,48 por mês.

Os desenvolvedores dizem que o valor desses cinco anos com desconto é encarado por eles como um “levantamento de fundos” de curto prazo para bancar o projeto, que não tem anúncios nem conta com investimento de risco. “Isso garante que as nossas prioridades estejam sempre alinhadas com as suas”, justiticam. (Também há planos anuais e mensais, mas os valores dobram quanto menor é o prazo da assinatura.)

Se estiver na dúvida, a versão gratuita do Standard Notes conta com recursos básicos e necessários: criptografia de ponta a ponta, sincronia automática entre dispositivos sem limite de dados nem do total de dispositivos conectados, acesso web e acesso offline.

O que o usuário pagante ganha é o acesso a 29 “extensões”, que são melhorias oferecidas em cima do Standard Notes. Coisas como editores especializados (Markdown, para programação, LaTeX etc.), temas coloridos para a interface, “desfazer” infinito, autenticação em dois fatores (2FA) e suporte a domínio personalizado e um certificado SSL para publicar um blog na plataforma de blogs do app, a Listed.

Em qualquer plano, o app é o mesmo e muito bem feito. O do iOS, onde o testei, mostrou-se rápido e confiável, salvando praticamente em tempo real cada caracter digitado. A sincronia funciona bem… e, veja, é como todo app do tipo deve ser: discreto, ágil e confiável.

(No macOS achei o consumo de recursos um pouco além da conta, desconfio que por culpa do sistema de sincronia. Nada que inviabilize o uso, mas que afeta a sensação de fluidez que a versão do iOS esbanja e que costuma ser um dos principais atrativos em apps do tipo.)

Os apps das donas de iOS e Android, Notas e Google Keep, respectivamente, também são boas escolhas. Elas contam com muitos recursos básicos e alguns interessantes, como o compartilhamento de itens com terceiros, formatação avançada e, no caso do Notas, desenho livre e digitalização de documentos.

Há espaço para o Bloco de Notas?

Print do Editor de Texto, equivalente ao Bloco de Notas do macOS.
Editor de Texto: simples e funcional.

Embora use o Apple Notas, no computador acabo passando mais tempo com o Editor de Texto — o equivalente ao Bloco de Notas do macOS — aberto. É nele que escrevo rascunhos de posts, as newsletters, roteiros dos podcasts e entrevistas. A velocidade é um fato de peso e a interface limpa, literalmente uma caixa de texto sem qualquer adorno ou distração, outro que me é relevante. Formato tudo usando Markdown e, na hora de publicar, uso o Pandoc via linha de comando para convertê-lo em HTML.

Esses editores simples de tudo têm outra vantagem: o acesso direto aos arquivos de texto, os .txt. Isso conta muitos pontos no fator longevidade. Não importa quantas versões do Office a Microsoft lance, o aplicativo de anotações do momento ou qual sistema operacional estiver usando, arquivos do tipo são praticamente universais e eternos. Abrem no Windows 3.11 e no Windows 10, no macOS, no Android, no iOS, no Ubuntu e até nas distros Linux mais obscuras.

Para textos que não serão impressos, as razões para privilegiar os .txt são ainda maiores. Caso a formatação seja necessária, basta usar Markdown e, com a ajuda de exportadores como o já citado Pandoc, gerar versões no formato desejado: HTML, PDF, até o Docx do Word.

A gente não sabe o que acontecerá amanhã, se mudaremos de plataforma, se as plataformas mudarão. E por mais que haja resistência à abstração da ideia de “arquivos” clássica com ícones em hierarquias de pastas, ela resiste e segue como uma das lógicas digitais mais democráticas. Ter acesso direto aos seus arquivos é um direito valioso. E como a sincronia com a nuvem está hoje enraizada nos sistemas operacionais, os .txt acabam tendo essa vantagem também, afinal basta salvá-los em uma pasta que sincronize automaticamente com a nuvem e pronto, backup “configurado”. O único entrave, nesse caso, é o acesso em dispositivos móveis, que embora ainda seja possível, é mais desengonçado do que feito via apps dedicados.

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