A tecnologia prometia diminuir a desigualdade entre brancos e negros, mas periga aumentá-la ainda mais

por Guilherme Felitti

Este Tecnocracia começa com uma explicação básica para quem não viveu a era da fotografia analógica: nas câmeras do tipo, a foto era “impressa” pela luz em um filme fotográfico, que ia se enrolando a cada pose tirada num tubinho. Os filmes não eram praticamente infinitos como os cartões de memória de hoje; cada um tinha entre 12 e 36 fotografias. Acabadas, o fotógrafo tinha que tirá-lo da câmera e deixá-lo em um estúdio fotográfico, que usaria máquinas caras na época para “transformar” aquele filme em imagens de papel.

Basicamente, as máquinas liam a imagem no filme, imprimiam ela no tamanho que você queria e um sujeito, por fim, colocava as fotos em um pequeno álbum. Procure na casa dos seus pais ou avós e você deverá achar um monte desses álbuns com capas medonhas (a Fototica, uma época, colocava uns peixes lisérgicos na capa) e uns adesivos constrangedores para colar nas fotos.

Esse foi o modelo que durou mais de 50 anos. A partir da década de 1940, quem quisesse montar um estúdio fotográfico precisava comprar os equipamentos e o papel fotográfico onde o filme seria impresso. Junto com o filme fotográfico, a Kodak, maior empresa do setor e case da líder que foi destruída pela própria petulância, mandava também um cartão colorido chamado Shirley Card. O Shirley Card estampava uma mulher sorridente e maquiada, olhando para a câmera, cercada de quadrados com mais de dez cores, dos tons de cinza às cores primárias. Era com ele que os donos de estúdios calibravam as máquinas que faziam a revelação — era preciso fazer pequenas alterações para garantir que o amarelo que saía nas fotos era o amarelo mais vivo possível.

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A misoginia é um problema fora do controle no mercado de TI

por Guilherme Felitti

A história mais popular envolvendo tecnologia fora da linha de frente na II Guerra Mundial explica como um matemático britânico chamado Alan Turing criou uma metodologia capaz de decifrar os códigos alemães e como a Inglaterra conseguiu reverter um quadro ruim nos campos de batalha a partir dos códigos interceptados.

A chamada “Bletchley bombe”, a máquina construída por Turing e sua equipe no Bletchley Park, automatizava e acelerava a quebra das mensagens codificadas pelo sistema Enigma dos nazistas. A bombe é a mais conhecida máquina de guerra, mas não é a única. Do outro lado do oceano Atlântico, os Estados Unidos também estavam correndo para desenvolver uma máquina capaz de calcular rapidamente trajetórias balísticas — os arcos descritos por projéteis e balas do momento em que eles saem da arma ao impacto. Humanos demoravam, em média, 30 horas para completar uma trajetória balística. Como os exércitos precisavam de dezenas por dia, o jeito era procurar alguma forma de automatizar.

Em 1942, o professor John Mauchly, da Moore School of Engineering, na Filadélfia, propôs a construção do que chamou de “calculadora eletrônica”: um hardware que usasse tubos a vácuo, a tecnologia mais moderna da época, para calcular. No ano seguinte, o governo aprovou o projeto e financiou o chamado Project PX. Só em novembro de 1945, quando a guerra já tinha terminado, o projeto foi concluído e ganhou o nome de Electronic Numerical Integrator and Computer, o Eniac.

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Como o governo pode ajudar no fomento à inovação em tecnologia

por Guilherme Felitti

Na década de 1940, um pediatra chamado Sidney Farber teve uma ideia quando estava tentando encontrar uma forma de tratar crianças com leucemia linfoide aguda (LLA), uma das formas mais agressivas de câncer no sangue. Farber deu aos pequenos pacientes ácido fólico, o que desengatilhou o contrário da sua meta: a doença avançou ainda mais rápido. A partir desta informação, Farber teorizou que, se ministrasse uma substância “contrária” ao ácido fólico, talvez a doença pudesse ser freada ou curada.

A lógica de Farber estava correta. Em um teste, 16 crianças com leucemia receberam doses de uma substância chamada aminopterina. Dessas 16, 10 entraram em remissão, ou seja, o câncer não só parou de evoluir, como retrocedeu. Farber não sabia ainda, mas tinha criado a forma mais eficiente de combater à maioria dos tumores humanos: a quimioterapia.

Pelas décadas seguintes, o uso de substâncias e a combinação entre elas evoluiu muito, mas a ideia permanece a mesma: introduza uma substância tão potente na corrente sanguínea capaz de matar as células cancerígenas. A solução de Farber funcionava, mas não estava completa. Muitas das crianças tratadas no teste inicial melhoraram no começo, mas voltaram a passar mal. Novos exames mostraram que o câncer tinha voltado e todas, eventualmente, morreram. Faltava uma peça.

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Com o mercado retraído, Positivo aumenta as vendas de celulares em quase 50%

Nunca foi tão difícil vender celulares. Após praticamente uma década de crescimento acelerado puxado pelos smartphones, a consultoria IDC registrou em 2018 uma queda de 4,1% no mercado global de celulares. No Brasil, o mergulho foi mais profundo, de 6,8%. Se de longe este cenário parece uniformemente ruim a todas as empresas, visto de perto algumas exceções se revelam.

No mundo, as chinesas estão conseguindo replicar o sucesso fácil conquistado dentro de casa em praticamente todos os demais países com exceção dos Estados Unidos. Aqui no Brasil, a Positivo registrou um crescimento vertiginoso nas vendas de celulares neste início de ano: 48,7% em relação ao mesmo período de 2018, desempenho equiparável ao da Huawei1. Como isto foi possível?

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O r/Piracy, o streaming e o “projeto do instante”

por Andressa Soilo

A “pirataria” digital está em nossas vidas há 20 anos graças, especialmente, a Shawn Fanning e seu aplicativo de compartilhamento de arquivos pioneiro, o Napster. Nesse período, suas formas de se expressar com os usuários e com a lei têm se mostrado dinâmicas. Assim, habitar a distribuição do entretenimento passa a ser um jogo de xadrez. É sobre essa habitação que este texto trata. Sobre uma habitação negociada, especialmente, a partir do tempo.

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A promessa impossível da economia circular

por Kris De Decker

A economia circular — a mais nova palavra mágica no vocabulário do desenvolvimento sustentável — promete crescimento econômico sem destruição ou desperdício. No entanto, o conceito se concentra apenas em uma pequena parte do uso total de recursos e não leva em conta as leis da termodinâmica.

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Com a fragmentação do streaming, pirataria volta a ganhar força

por Andressa Soilo

Nota do editor: A Andressa, que já participou de um Guia Prático, pesquisou em seu doutorado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) a relação entre a fragmentação das plataformas de streaming de vídeo e a volta da pirataria desse tipo de conteúdo. O texto abaixo é um excerto da sua tese, com uma leve edição para tornar a leitura mais fluída no formato blog. A tese ainda não foi publicada; quando estiver disponível, atualizarei esta nota com o link para download.


Ao final da primeira década dos anos 2000, especialmente entre os anos de 2007 e 2008, o mercado dos serviços de streaming audiovisual (com a proposta principal de vender conteúdo ao público), assim como os demais atores interessados em suas dinâmicas e impactos (principalmente nas dimensões tecnológica, legal e comercial), produziam (e experienciavam) uma certa atmosfera marcada pela esperança de um combate eficaz ao universo da “pirataria”1 digital.

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5 pontos para entender a operação da Uber a partir do seu pedido de IPO

Uma startup bem sucedida tem dois destinos possíveis (“exits” ou saídas, no jargão dos startupeiros): ser comprada por uma empresa maior ou abrir seu capital na bolsa. Em ambos os casos, investidores de risco, fundadores e funcionários com equity enriquecem, justificando, no caso dos últimos, as noites viradas trabalhando no escritório e outros abusos quase medievais, mas tão comuns nesses tempos anacrônicos em que vivemos. A Uber, uma das maiores startups da história, deu nesta quinta-feira (11) o primeiro passo para abrir seu capital na Bolsa de Nova York (NYSE): enviou um documento detalhado da sua operação, o S1, à Security and Exchange Comission (SEC), equivalente à CVM dos Estados Unidos.

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A internet brasileira é feita de ciclos — e estamos saindo de um

por Guilherme Felitti

Sístole, diástole. Se você faltou na aula de biologia, esses são os dois movimentos mecânicos do seu coração, repetidos milhões de vezes de quando ele começa a bater, entre a terceira e sexta semanas de gestação, a quando seu corpo é acomodado nem tão confortavelmente na sepultura. É um processo extremamente repetitivo e é ótimo que assim seja. Quando ele perde essa repetitividade, meu amigo… eu tenho más notícias.

Sístole é quando os músculos cardíacos se apertam para mandar o sangue pelo corpo.

Diástole, quando eles relaxam para que as cavidades se encham de sangue.

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Como o lobby pode ser uma arma para suprimir inovação

por Guilherme Felitti

Organizar um grupo grande é difícil. Você já deve ter percebido isso quando tentou brindar em uma mesa cheia. Quando estão só você e dois amigos numa mesa de bar, é fácil. Grupos maiores são mais difíceis de gerir. Um brinde entre todas as possibilidades numa mesa com 16 pessoas demora um certo tempo. O papo aqui não é etílico, mas organizacional. Conforme um grupo vai crescendo em tamanho — e a complexidade vai crescendo junto —, é preciso uma forma de organizar as pessoas para que todas elas consigam executar o que devem sem que a complexidade atrapalhe. Foi por isso que nasceram as organizações.

“Nós usamos a palavra ‘organização’ para explicar tanto o estado de estar organizado como os grupos que fazem a organização — ‘nossa organização organiza a conferência anual’. Usamos uma das palavras porque, a partir de uma determinada escala, nós não conseguimos nos organizar sem organizações; o primeiro implica no segundo”. Parece um trava-língua, um exercício de um programa infantil da TV Cultura, mas a explicação do Clay Shirky prepara o terreno para entendermos um conceito tão familiar a todos nós que nem paramos para pensar direito. O Tecnocracia desta semana vai falar sobre empresas, especificamente sobre a sobrevivência de empresas. Mais à frente você vai entender.

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Os melhores celulares deixaram de ser os mais caros

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As apresentações públicas de novos produtos de tecnologia seguem um roteiro manjado. Os apresentadores, geralmente executivos da empresa, começam exibindo números positivos e/ou falando de alguma iniciativa que supostamente faz bem ao planeta. Depois, lançam um problema que, sem surpresa, o produto que será revelado dali a pouco consegue sanar. No clímax, entra um vídeo pomposo e, tcharam!, eis que aparece o melhor produto de todos os tempos — até a sua atualização ser anunciada no ano seguinte.

Essas apresentações acontecem em grandes centros de convenções ou em teatros imponentes, com uma importância insuflada que talvez a revelação do Santo Graal teria se descoberto. Alguém desavisado pode achar, pela circunstância e roteiro, que de fato o mítico cálice usado por Jesus Cristo na Última Ceia está ali, só que na forma de um pedaço de metal, vidro e placas de circuito que promete resolver todos os seus problemas.

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Celulares com telas dobráveis estão chegando. O que eu ganho com eles?

A Samsung anunciou nesta quarta-feira (20) a tradicional renovação anual do seu celular topo de linha, o Galaxy S10. Mas, ao contrário dos anos anteriores, desta vez outro modelo se destacou: o Galaxy Fold, primeiro da marca com tela dobrável. De repente, toda a indústria parece estar se movimentando no sentido de tornar realidade celulares com telas que dobram ao meio. Por quê? E quem pediu por isso? Conversei com alguns especialista para entender a nova tendência.

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O próximo Facebook não sairá do Brasil

por Guilherme Felitti

Há uma lenda folclórica no jornalismo de tecnologia brasileiro que já dura anos: a fábrica nacional de processadores. Sempre que executivos de Intel ou AMD visitam o Brasil, uma hora ou outra a pergunta aparece . (Não tem nada de errado, já que o trabalho do jornalista é perguntar.) A resposta segue sempre uma mesma linha, a de que o Brasil é um país interessante, um mercado potencialmente enorme, estamos analisando, existe um planejamento. Isso já dura mais de 15 anos e, até agora, nada de fábrica. É uma relação no estilo Vampeta: os executivos fingem que têm planos concretos, o mercado finge que acredita nos executivos e assim a vida segue.

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A ameaça do Spotify aos podcasts

Foi com apreensão que soubemos, nessa semana, que o Spotify adquiriu duas startups de podcasts. A empresa, que abriu capital em 2018 e, no último trimestre, apresentou lucro operacional pela primeira vez em seus quase 11 anos de existência, pretende se tornar o centro gravitacional de um setor que, até agora, se comporta como uma extensa galáxia: descentralizada, em expansão e com infinitos arranjos e pontos que merecem a nossa atenção.

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A Comissão Europeia na linha de frente

por Guilherme Felitti

Existe um site que congrega todas as principais manchetes do mercado de tecnologia. Chama Techmeme. De hora em hora, uma curadoria humana mostra quais são os assuntos mais comentados na imprensa, agrupando manchetes. É um segredo (ou nem tanto) de jornalistas de tecnologia. Quando precisam saber o que está rolando de mais importante, é para lá que eles vão — pelo menos os mais espertos. O hábito de visitar o Techmeme todo dia, mantido até hoje, quando não me identifico mais como jornalista, me permitiu ver a transformação na cobertura generalizada.

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