A misoginia é um problema fora do controle no mercado de TI

Duas mulheres encaram telas de computador.

A história mais popular envolvendo tecnologia fora da linha de frente na II Guerra Mundial explica como um matemático britânico chamado Alan Turing criou uma metodologia capaz de decifrar os códigos alemães e como a Inglaterra conseguiu reverter um quadro ruim nos campos de batalha a partir dos códigos interceptados.

A chamada “Bletchley bombe”, a máquina construída por Turing e sua equipe no Bletchley Park, automatizava e acelerava a quebra das mensagens codificadas pelo sistema Enigma dos nazistas. A bombe é a mais conhecida máquina de guerra, mas não é a única. Do outro lado do oceano Atlântico, os Estados Unidos também estavam correndo para desenvolver uma máquina capaz de calcular rapidamente trajetórias balísticas — os arcos descritos por projéteis e balas do momento em que eles saem da arma ao impacto. Humanos demoravam, em média, 30 horas para completar uma trajetória balística. Como os exércitos precisavam de dezenas por dia, o jeito era procurar alguma forma de automatizar.

Em 1942, o professor John Mauchly, da Moore School of Engineering, na Filadélfia, propôs a construção do que chamou de “calculadora eletrônica”: um hardware que usasse tubos a vácuo, a tecnologia mais moderna da época, para calcular. No ano seguinte, o governo aprovou o projeto e financiou o chamado Project PX. Só em novembro de 1945, quando a guerra já tinha terminado, o projeto foi concluído e ganhou o nome de Electronic Numerical Integrator and Computer, o Eniac.

O Eniac não era o primeiro computador (Charles Babbage no século 19 com ajuda de Ada Lovelace) nem o primeiro computador digital programável (aqui há uma polêmica: muitos consideram o Atanasoff-Berry Computer de 1941). Na época, porém, o Eniac virou o líder incontestável em potência, com mais de 17 mil tubos a vácuo (cinco vezes mais que qualquer outro), 10 mil capacitores e 6 mil switches manuais espalhados em seus 140 metros quadrados e 30 toneladas. Era o que a gente chamaria hoje de supercomputador, numa época em que computador ainda era sinônimo de engenheiros(as) que passavam dias fazendo cálculos de cabeça.

A construção do hardware era vista como o filé mignon do projeto. Já o software era encarado como uma atividade secundária. Para programar esse monstro, a equipe masculina do Eniac selecionou seis matemáticas da equipe de mais de 100 usadas como “computadores humanos”, deu o projeto na mão delas e mandou o famoso “te vira”.

O abacaxi caiu no colo de Jean Jennings (a líder), Betty Snyder, Marlyn Wescoff, Ruth Lichterman, Frances Bilas e Kay McNulty. “Não existiam linguagens de programação, sistema operacional, nada. As mulheres tinham que descobrir o que era o computador, como inserir informações e quebrar um problema matemático complicado em passos bem pequenos que o Eniac pudesse computar”, segundo a pesquisadora de Harvard e fundadora do ENIAC Programmers Project, Kathy Kleiman.

A tarefa era ainda mais desafiadora porque a programação era física: o grupo tinha que conectar e desconectar cabos em centenas de entradas e acionar switches manuais até que o Eniac rodasse. Para conseguir usar toda a potência do Eniac, a equipe liderada por Jennings criou alguns conceitos de programação que todas as linguagens usam até hoje, como subrotinas ou loops. Quando a equipe desvendou o Eniac, o tempo necessário para calcular as trajetórias balísticas caiu de 30 horas para segundos.

Jean Jennings e Fran Bilas trabalhando no Eniac.
Jean Jennings (esquerda) e Fran Bilas trabalhando no Eniac. Foto: Exército dos Estados Unidos.

Quem viu o filme Hidden Figures, chamado no Brasil de Estrelas Além do Tempo (segundo Tecnocracia seguido que cito esse filme), deve lembrar de como os geniais engenheiros homens deram de ombro para a chegada dos mainframes e como isso virou uma brecha explorada pelas mulheres. O filme retrata bem esse movimento: a partir da década de 1950, programação dentro das empresas era vista como uma tarefa menor, similar ao secretariado. Assim, os homens deixaram isso para as mulheres — não é à toa que a equipe original do Eniac era 100% feminina.

Isso ajuda a explicar por que tantas mulheres estiveram presentes e foram fundamentais nos primeiros passos da computação moderna. O primeiro algoritmo foi escrito no papel em 1833 por uma jovem matemática britânica chamada Lady Ada Lovelace e o primeiro compilador — o software que permite a criação de linguagens de programação mais parecidas com as línguas que usamos diariamente para nos comunicar — saiu do computador de Grace Hopper nos anos 1950, que também ajudou a criar o Cobol, uma das primeiras linguagens de programação e que até hoje é adorada pelos bancos no Brasil…

O Eniac ainda passou meses em testes até que, em fevereiro de 1946, os criadores convocaram uma coletiva de imprensa para revelar o supercomputador ao mundo. Até hoje, computadores não são bonitos de fotografar. O Eniac era especialmente feio e a única coisa que chamava atenção eram as luzes que indicavam que um cálculo estava sendo feito. Mas as luzes eram fracas demais para atrair a atenção. Para dar um efeito mais dramático, um dos criadores cortou bolinhas de pingue-pongue, escreveu números nas metades e as encaixou sobre as luzes. Quando era hora de fazer uma demonstração à imprensa, as luzes da sala foram apagadas e o Eniac, com suas bolinhas de pingue-pongue piscando, passou uma ideia de um modernidade, reproduzida à exaustão em programas de TV. A demonstração também embasbacou o mundo por outro motivo, mais técnico: o cálculo de uma complexa trajetória balística, que demoraria semanas para ser feita por humanos, demorou 15 minutos pelo Eniac. O teste tinha sido lapidado exaustivamente pela equipe de programadoras. Ao que parece, a coletiva foi um sucesso total. Não para todos.

Líder do grupo de programadoras, Jean Jennings saiu chateada do evento: “Betty e eu fomos ignoradas e esquecidas depois da demonstração. Nós nos sentimos como se fizéssemos parte de um filme fascinante em que, de repente, houve uma mudança radical para pior, no qual trabalhamos duas semanas como cachorros para produzir algo espetacular e acabamos ficando fora do roteiro”. Pior: naquela noite, a equipe toda do Eniac foi convidada para um jantar no Houston Hall, um dos prédios mais populares da UPenn. Nenhuma mulher foi convidada.

A fala da Jennings e a história do jantar estão no livro Os inovadores: Uma biografia da revolução digital, do Walter Isaacon, o sujeito que fez a biografia do Steve Jobs que ninguém do entorno do Jobs gostou. A falta de crédito na coletiva de imprensa não era uma mudança em relação à forma como a equipe operava. Nos meses de testes, quando um cálculo estava correto, eram os homens quem faziam as demonstrações para os oficiais do Exército. O nome das mulheres nunca era citado. O trabalho da equipe não era creditado e reconhecido. E é triste dizer que, até hoje, a política continua a mesma. Se você visita o site da Universidade da Pensilvânia, onde o Eniac foi construído, os arquivos sobre o computador identificam os homens, mas não as mulheres. Toda legenda apresenta um lacônico “women programmers”. Fora os homens, ninguém tem nome. Em muitas das fotos usadas para divulgar o Eniac nos jornais, havia mulheres, mas não a equipe de programação. Quem descobriu isso foi a Kleiman. “Me falaram que existiam modelos — as ‘moças da geladeira’ — posando em frente à máquina para torná-la mais atraente”.

A contratação de modelos é uma estratégia historicamente comum do varejo (diminuiu um monte, mas, se você procurar bem, ainda vai achar hoje) para vender eletrodomésticos: coloque uma mulher em frente ao ventilador que, automaticamente, todos vão querer comprar um. Nem na memória as seis programadoras do Eniac são creditadas direito. É a razão pela qual a Kleiman fez o documentário The Computers sobre o tema, que você pode comprar para assistir online.

O Eniac foi só o primeiro de uma série de exemplos de como o mercado de tecnologia foi moldado por e para homens brancos. Homens de outras raças e mulheres de todas as raças vão enfrentar barreiras extras em relação a um homem branco para atingir uma mesma posição. Que barreiras extras? Basicamente, uma cultura tóxica calcada na misoginia e tecnologias que ignoram particularidades que não as dos criadores. No caso das mulheres, mesmo que atinjam, há a certeza de que seus salários devem ser menores que seus pares para a mesma posição.

Em duas partes, este e o próximo Tecnocracia, trataremos deste profundo problema de representatividade do mercado de tecnologia. Cada uma delas vai abordar os dois grupos mais atingidos: as mulheres e os negros. Os grupos não são excludentes: a situação é ruim para uma mulher branca, mas ainda pior para uma mulher negra. E é com as mulheres que a gente começa.

O estado atual das mulheres em TI

Os dados atuais mostram que mulheres são 23% das engenheiras do Facebook, 25,7% do Google, 23% da Apple e 19,9% na Microsoft; a Amazon não faz essa distinção entre carreiras técnicas, embora a relação de gerentes (73% homens, 27% mulheres) dê uma boa pista. No mercado de capital de risco, não é muito diferente: em 2019, menos de 10% de quem decide onde investir o dinheiro em tecnologia são mulheres. Quase dobrou em relação aos 5,7% de 2016, mas ainda está longe do ideal.

Esses números têm crescido devagar nos últimos cinco anos, principalmente pela maior discussão pública sobre o papel da diversidade no Vale do Silício. Em 2015, escrevi uma reportagem longa sobre esse assunto para a Época Negócios, na qual eu ouvi mulheres do mercado de tecnologia da informação (TI) sobre os desafios enfrentados. Entre programadoras e executivas, mandei quase 30 emails (12 executivas e o resto de perfis técnicos). Menos da metade respondeu e quase todas só toparam falar sob anonimato, dado o medo de que discutir publicamente uma questão que todas assumiam como urgente pudesse estragar a própria carreira.

Há um sofrimento e, pior, um sofrimento calado. Para fazer este Tecnocracia, resolvi revisitar alguns dos tópicos e reenviei alguns dos e-mails. Das que responderam, também sob anonimato, o discurso médio é que o mercado tem progredido — devagar, mas andando. Já existem comitês de diversidade em grandes empresas, alguns com metas de contratar uma porcentagem de engenheiras, e há uma quantidade cada vez maior de eventos em que mulheres debatem o papel feminino na tecnologia. Iniciativas assim são bem-vindas, mas soam como uma aspirina contra um fêmur partido. O mercado de tecnologia está mergulhado numa mentalidade fortemente misógina há décadas. Para entender o tamanho do problema, dois passos para trás.

Pintura de Ada Lovelace.
Ada Lovelace (1815–1852) é considerada por muitos a primeira programadora — incluindo homens e mulheres — da história. Pintura: Alfred Edward Chalon.

Vamos voltar de novo para a década de 1970, quando o Instituto de Matemática e Estatística (IME) da Universidade de São Paulo (USP) abriu sua primeira turma do bacharelado em ciência da computação. Nada menos que 70% da turma era formada por mulheres, já que o curso de computação era uma costela do curso de matemática. Em 2018, o Jornal da USP criou um gráfico com os alunos que se formaram em computação no IME, separados por gênero desde o começo do curso. Pelos primeiros dez anos, as mulheres são maioria. Na metade dos anos 80, a onda vira e não para de crescer. Em 2000, para cada programadora formada, há 5 programadores. O que aconteceu na metade dos anos 1980?

Aconteceu que a computação deixou de ser uma novidade. Quando era novo para todos, homens e mulheres entravam em números pareados nas maiores universidades do mundo. Quando já era um mercado razoável e crescente como foguete, o computador virou um presente. O problema é que o presente era dado só para os meninos, não para as meninas.

“Muito cedo na vida, computação é reinvindicada como um território masculino. A cada passo, da infância à faculdade, computação é tanto ativamente assumido como ‘coisa de homem’ pelos meninos e homens como passivamente cedido por meninas e mulheres. Essa alegação é amplamente resultado de uma cultura e uma sociedade que conectam interesse e sucesso com computadores a meninos e homens.”

Entre 1995 e 1999, os pesquisadores Jane Margolis e Allan Fischer, da Carnegie Mellon University, entrevistaram e acompanharam cerca de 100 estudantes de programação da universidade, homens e mulheres, para entender o que os levou à área. O estudo foi publicado no livro Unlocking the clubhouse: Women in computing, publicado em 2002, de onde foi tirado o trecho acima. “Clubhouse” é um termo interessante para ser usado neste contexto — em português, seria algo como “Clube do Bolinha”, um grupo destinado só para homens e onde mulheres não são bem-vindas. Foi exatamente esta dinâmica infantil que Margolis e Fisher descobriram orquestrar o mercado de tecnologia, a começar pela infância. Meninos tinha chances duas vezes maiores de ganhar um computador de presente que meninas e, quando isso acontecia, era muito provável que a máquina acabasse no seu quarto, o que limitava o uso pelas outras pessoas da casa. As meninas entendiam essa maior proximidade do filho com o computador como um sinal de que qualquer entusiasmo deveria ser, se não abandonado, diminuído.

As poucas mulheres que mantinham seu interesse e entravam na faculdade eram obrigadas a enfrentar um outro problema, consequência deste primeiro: as horas passadas mexendo no computador durante a infância significavam que a maioria dos homens chegava à faculdade com um nível altíssimo, além do mínimo exigido. Mulheres que não compartilhavam o mesmo nível eram ignoradas ou humilhadas ao fazerem questionamentos que os colegas achavam básicos demais. Sem a ajuda ou, ao menos, a simpatia dos colegas e tendo que enfrentar um ambiente agressivo, a maioria das poucas que entravam desistia no desenrolar do curso. Poucas entravam, ainda menos concluíam o curso, o que alimentava o círculo vicioso da cultura calcada no “Clube do Bolinha”.

“Uma das alunas nota que o assédio às mulheres nas classes de Ciência da Computação 2 se destacou em comparação a todas as outras aulas que ela atendeu. Alunas eram perpetuamente provocadas por seus corpos, suas aparências e suas competências. O professor, um homem, não intervinha para resguardá-las. Uma das alunas perguntou por que o professor sempre usava exemplos de futebol americano; ele respondeu que ela poderia fazer os deveres de casa de programação com o que quisesse. Neste momento, um aluno se voltou a ela e disse, em tom jocoso: ‘faça sobre costura’, o que provocou risos de todos os outros estudantes. Outra aluna usou estatísticas de futebol americano em seu programa (idêntico ao programa de todos os outros), mas foi ridicularizada por ter usado o nome de um time de beisebol. Dois alunos estavam tentando modificar um jogo chamado Concentration como parte de uma gincana. Um dos prêmios para quem conseguisse eram os serviços de uma prostituta que cobrava US$ 200. Nenhum professor respondia a esses incidentes. Nenhuma das alunas que frequentaram Ciência da Computação 2 voltou para Ciência da Computação 3.”

Honestamente, quem voltaria? Não à toa, muitas das alunas entrevistadas para o livro se questionavam se computação era para elas.

As histórias do tipo são incontáveis e não acontecem só nos Estados Unidos. No Brasil, projetos que ensinam programação só para mulheres, como o Programaria, registram histórias de programadoras brasileiras.

O Clube do Bolinha continua

A cultura de vestiário criada na faculdade continua a dificultar a vida das programadoras que saem da faculdade e entram no mercado de trabalho. Não chega a ser uma surpresa, afinal as faculdades abastecem o mercado.

“Quando os programas de ciência da computação começaram a se expandir de novo no meio dos anos 1990, a cultura de codificação estava posta. A maioria dos novos estudantes era homem. O interesse entre as mulheres nunca se recuperou aos níveis atingidos no final dos anos 1970 ou começo dos anos 1980. E as mulheres que tentam são frequentemente isoladas.”

A cultura do Clube do Bolinha continua a mesma, com uma agravante: a dos salários. Mulheres ganham de 3% a 11,8% menos que homens para a mesma posição, segundo pesquisas da Hired e do Glassdor, respectivamente. No Brasil, é ainda pior. Segundo estudo feita pela pesquisadora Bárbara Castro, da Unicamp, a partir dos dados da PNAD do IBGE, as profissionais de TI no Brasil ganham 30% menos que seus pares. Pior: a estrutura pulverizada do mercado de software no Brasil significa que as mulheres, mesmo sendo geniais ao codificar, são empurradas para outras funções que não técnicas.

Da reportagem que escrevi há quatro anos (e que não mudou): “Das 81 mil empresas do setor, 93% são pequenas e médias, que vendem projetos com software e hardware para bancos e varejistas. Para vencer a concorrência, profissionais dessas empresas trabalham longas horas, sem fins de semana ou feriados. Essa dinâmica, segundo Bárbara, tende a beneficiar homens, principalmente os solteiros e mais novos, e excluir mulheres, sobretudo as que têm filhos. A mulher que é mãe não está sempre à disposição do empregador. Isso faz com que muitas, diz Bárbara, aceitem um cargo em vendas, justamente para trabalhar em casa. A renda cai, já que o home office paga um terço a menos”.

Um dos traços mais pujantes desta cultura “Clube do Bolinha” é a misoginia difundida no mercado de tecnologia. São inúmeros os casos em que empresas ou executivos homens tomam e defendem atitudes, produtos e serviços contrários aos interesses femininos.

Em março, um game chamado Rape Day entrou em pré-venda na loja de jogos digitais Steam. O game permitiria “agredir verbalmente, matar gente e estuprar mulheres” em meio a um apocalipse zumbi. Com a polêmica, o Steam bloqueou o jogo. Também em março, o Google se recusou a tirar da Play Store um aplicativo desenvolvido pela Arábia Saudita que permitia aos maridos rastrearem e limitarem a área onde mulheres podem viajar pelo celular. Em abril, o caso mais chocante: veio a público detalhes de como o CEO da Datacamp, plataforma de e-learning focada em data science, apalpou uma funcionária seguidas vezes em uma viagem corporativa há dois anos. O CEO, Jonathan Cornelissen, só se afastou do cargo após dias de pressão online e campanhas online de alunos para cancelar as assinaturas e professores retirando do site seus cursos. No seu blog oficial, o DataCamp divulgou um comunicado com uma tag para impedir que buscadores indexassem o conteúdo, uma estratégia para diminuir a visitação ao site. Ganha um Chicabon quem adivinhar quem foi afastado com direito a coach e quem denunciou o caso, se demitiu, não foi compensada e vem enfrentando crises de ansiedade. Pois é. E olha que a gente só falou de casos de grande projeção no primeiro semestre de 2019.

No que diz respeito às consequências para assediador e assediada, o caso do DataCamp não é isolado. Em 2018, o #MeToo, movimento em que milhares de mulheres e alguns homens denunciaram assédios sofridos, atingiu em cheio o mercado de tecnologia. Depois que a poeira abaixou, o BuzzFeed News foi atrás para descobrir o que tinha acontecido com os homens acusados (com provas e testemunhas) de assédio sexual. A horrenda conclusão é que a maioria já tinha um emprego novo.

Em 2015, o gerente do Uber Eyal Gutentag encoxou e apalpou uma funcionária em uma festa corporativa. Quatro meses depois de ser afastado pela empresa, ele já tinha arrumado um novo emprego em uma empresa de corridas por aplicativo para crianças. Após o criador do Android, Andy Rubin, ser acusado de ter forçado uma funcionária a lhe fazer atos sexuais, o Google o indenizou em US$ 90 milhões para que ele se afastasse da empresa, o que desengatilhou protestos e uma rápida greve dos funcionários da empresa ao redor do mundo.

Ninguém espera que Rubin ou Gutentag sejam excluídos da sociedade. Todo mundo merece uma segunda chance. Mas é chocante ver como quem abusou acaba em um cenário mais fácil adiante do que quem foi abusado. Neste aspecto, o mercado de tecnologia claramente pune as mulheres que denunciam. Em outras palavras: o mercado de tecnologia já deu prova atrás de prova que odeia mulheres. Não é uma surpresa que são poucas as que querem falar sobre o assunto, mesmo “off the record”.

A cultura fixada

E agora a gente volta para o começo, para a mudança lenta do setor. A cultura que se criou lá na década de 1980 continua rendendo frutos podres até hoje e está tão bem cimentada que não é uma ou outra palestra ou debate só com mulheres que vai alterá-la. Existe uma cultura inteira a ser alterada, que vai das meninas brincando com computadores, linguagens de programação e itens de ciência na infância e passa por faculdades com ambientes mais receptivos — o que significa mais professores que intercedam a favor das aulas em casos de assédio moral — e também por empresas com políticas claras e firmes para não apenas contratar mulheres, mas dar espaço para que elas cresçam num ambiente em que o assédio sexual seja punido severamente. Isso implica também em ter mais mulheres em cargos de relevância, seja na faculdade ou nas empresas, não só para garantir um ambiente mais convidativo a elas, mas também para que sirvam de exemplo para quem está começando a carreira. Isso é muito importante: ter um farol, alguém em quem se espelhar.

Uma das principais âncoras desta cultura é a misoginia travestida de livre mercado. É o que faz aparecer o mesmo argumento batido quando começa essa discussão: “ah, Guilherme, na minha empresa tem mulher que trabalha. É só se esforçar mais que você chega lá. No mercado livre, se não chegou lá é por que não é boa o suficiente”. Essa é a resposta mais comum nas discussões que já acompanhei sobre o assunto. Curiosamente, todos esses argumentos saíram da boca de homens brancos. Não é a maioria. Foram em todas as vezes. De partida, eu considero esse argumento de “não devemos olhar para o gênero ou a cor, mas para competência” de uma canalhice enorme. Canalha porque sugere que não existem mais mulheres e negros em cargos de comando por incompetência. Como se só o homem branco fosse competente. É o argumento que, para se defender, ataca ainda mais grupos que já estão numa situação desfavorável.

Muitas vezes, o argumento canalha se apoia na ideia de que homem nasceu para a computação, assim como a mulher nasceu para a enfermagem, por exemplo. Trata-se de uma ideia absolutamente estapafúrdia. “Se a biologia é a razão para termos poucas mulheres codificando, seria impossível explicar por que elas eram tão proeminentes nos primeiros anos do setor, quando o trabalho era muito mais difícil do que programar hoje. Era um novo campo ainda não desbravado, no qual você tinha que fazer as contas nos formatos binário e hexadecimal, e não existiam fóruns online ou o Google para ajudar com os bugs. Era só seu cérebro, resolvendo problemas infernais. Se a biologia limita a habilidade feminina para codificar, então a relação entre mulheres e homens seria similiar em todos os países do mundo. Não é. Na Índia, quase 40% dos estudantes de ciência da computação e áreas correlatas são mulheres”. Essa chinelada vem de uma matéria excepcional que o Clive Thompson, um jornalista de tecnologia das antigas, publicou em fevereiro no New York Times. Leitura recomendadíssima.

Não acredita no Clive Thompson? não tem problema. Escute, então, um sujeito que entende um pouco de contratar programadores do mundo todo: Berthier Ribeiro-Neto, o diretor do centro de engenharia do Google para América Latina, onde trabalham programadores de mais de dez países. “Definitivamente, não [existe diferença técnica entre homens e mulheres]. Existem, sim, preconceitos [por parte dos executivos]. Isso vários estudos mostram. E é gozado por que, quando você pergunta aos executivos, eles têm um discurso politicamente correto. Mas aí quando você vai ver a prática, ela não reflete o discurso. Aí não adianta”.

É essa mesma misoginia que faz, por exemplo, investidores de risco perguntarem à fundadora de uma startup durante um “pitch” se ela namora, se planeja se casar ou se tem relação com seu sócio homem. Essa história foi contada por Anderson Sumarli, cofundador da startup de investimento Ajaib, ao detalhar como ele e sua sócia, Yada Piyajomkwan, eram recebidos por investidores quando tentavam levantar uma nova rodada de investimento. “Em mais de 50 ‘pitches’ nas principais firmas de venture capital e investimento anjo, do Vale do Silício a Singapura, Yada recebeu muito mais questões de cunho pessoal que eu. Sozinhas, essas perguntas podem parecer inofensivas. Mas, em dezenas de vezes, estas eram as únicas questões para Yada; todas as dúvidas relacionadas ao negócio vinham para mim. Nós quase nos acostumamos — sexismo é a norma”.

O relato acima, publicado em maio no Los Angeles Times, é fundamental para entender como a misoginia se esconde. Começar um negócio já é difícil. Ter que desviar elegantemente da escrotice alheia torna a tarefa ainda mais difícil. E para quê? Nenhum dos investidores de risco assediadores podem dizer que o fizeram para melhorar o negócio apresentado. É o simples exercício de poder. É a personificação daquele famoso fenômeno corporativo chamado de “escroto que entrega”, o sujeito que assedia e maltrata seus funcionários e colegas e ganha vista grossa do RH por que dá resultado no fim do mês.

As histórias são chocantes, mas o que mais me surpreende nesta discussão é que a inclusão de mulheres na tecnologia é o tipo de cenário em que todo mundo sai ganhando. Não existe uma desvantagem óbvia que justifique esse problema de representatividade, essa resistência. Grupos mais diversos são mais produtivos.

Uma pesquisa de Letian Zhang, professor da Harvard Business School, com 1.069 empresas de 24 indústrias espalhadas por 35 países descobriu que “diversidade de gênero tem relação com empresas mais produtivas, medido pelo valor de mercado e a receita, mas apenas em contextos em que a diversidade é vista como aceita normativamente. Por aceitação normativa, queremos dizer uma crença cultural difundida que diversidade é importante”. Ou seja, não adianta colocar três ou quatro executivas ou programadoras enclausuradas num setor e esperar o lucro aumentar.

Uma análise do Credit Suisse com 2,4 mil empresas encontrou resultados parecidos: quem tinha pelo menos uma mulher no conselho registrou aumentos maiores nos lucros. Ou seja, mais mulheres, mais lucro. Desvantagens? Alguns dos desmiolados alegam custos extras com maternidade. E você nasceu do que, seu imbecil? De um repolho? De chocadeira?

A questão não é dar preferências às mulheres, mas criar um ambiente de igualdade que torne o mercado de tecnologia confortável para elas como é para eles. Fazer mesas de debate é um passinho, mas não é suficiente, já que, provavelmente, muita empresa que promove esses fóruns de diversidade e liderança feminina tenta, sem alarde, abafar casos de assédio moral e sexual. Mais que debates, é preciso incentivar as mulheres a entrarem no setor pelo começo, da infância, passando à faculdade. Colocar mulheres desde o começo do processo. Não adianta querer contratar mais mulher se as faculdade formam três delas por turma. O problema, mais que contratar, é formar. É um processo lento, difícil, que envolve várias partes móveis, várias profissões, vários cargos, mas pelo qual a gente precisa passar e pelo qual os homens dentro do mercado também têm responsabilidade.

Foto do topo: Startup Stock Photos/Pexels.

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8 comentários

  1. Vim aqui procurar o novo Fred após ouvir que o antigo será descontinuado, mas não achei nenhum novo Fred.

    Como eu faço para ouvir no meu aplicativo de podcast, o PocketCast? Não dá mais? Agora só pelo Spotify e pelo iTunes?

    1. Oi Rogério! Dá sim, o novo feed fica em https://manualdousuario.net/feed/podcast/tecnocracia

      O plugin não tem um jeito fácil de mostrar o feed tal qual os endereços do Apple Podcasts e Spotify, porém creio que se você colocar a URL desta página no campo de busca, o aplicativo consiga localizar o feed — ele é invocado no cabeçalho da página.

      Se não conseguir cadastrar o novo feed, por favor, mande um e-mail para podcast@manualdousuario.net.

      Valeu!

        1. O Google Podcasts não me deixa atualizar o feed. Entrei em contato com o suporte e disseram que, como o serviço só está disponível nos EUA e Canadá, não podem fazer nada. Típico.

          Sei que é pedir demais, mas sugiro que use outro aplicativo.

  2. Guilherme é impressão minha ou está cada vez melhor o Tecnocracia? :)

    Achei muito interessante o começo em que conta a histórias dessas mulheres programadoras. O mais triste é sobre os assédios que elas veem sofrendo por tentar entrar em um ramo dominado pelos homens.

    Atualmente, ou sempre aconteceu, estou vendo muitas notícias em países como a Coreia do Sul em que mulheres denunciam os homens e eles estão sendo punidos, só não sei se severamente.

    No caso Guilherme não tem aquelas histórias do “inicio do mundo” em que as mulheres desenvolveram melhor a habilidade de fazer múltiplas coisas ao mesmo tempo e o homem, como só tinha que se preocupar em caçar, conseguia focar apenas em uma coisa?

    Não sei se é verdade isso, mas no caso da tecnologia é possível, homem ou mulher, ter aptidão, intimidade com o tema na infância/adolescência? É preciso de estimulo na criação e educação, ou realmente a pessoa nasce com um “dom”?

    Preciso começar a ouvir mais vezes o mesmo Episódio. Essa é a desvantagem de ser anafalbeto funcional ansioso e ter que reler/ouvir porquê do nada começo a pensar/viajar em outra coisa. Esse eu ouvi duas vezes rsrs

    Abraço!

    1. Rafael,
      como não sou antropólogo, não me sentiria confortável em arriscar uma explicação sobre habilidades masculinas ou femininas.

      Baseado na experiência de quem já contratou centenas de profissionais técnicos (programadore/as, por exemplo), não existe nenhuma diferença nas habilidades entre homens e mulheres.

      Abs,

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