Celulares com telas dobráveis estão chegando. O que eu ganho com eles?

Imagem de divulgação do Galaxy Fold simulando uma borboleta.

A Samsung anunciou nesta quarta-feira (20) a tradicional renovação anual do seu celular topo de linha, o Galaxy S10. Mas, ao contrário dos anos anteriores, desta vez outro modelo se destacou: o Galaxy Fold, primeiro da marca com tela dobrável. De repente, toda a indústria parece estar se movimentando no sentido de tornar realidade celulares com telas que dobram ao meio. Por quê? E quem pediu por isso? Conversei com alguns especialista para entender a nova tendência.

Antes de entrarmos no assunto, um parágrafo sobre o Galaxy Fold. Ele tem duas telas, uma externa de 4,6 polegadas e outra, a dobrável, interna, com 7,3 polegadas. Há otimizações em software para tornar suave a transição entre telas e, na interna, abrigar até três apps ao mesmo tempo. Nos Estados Unidos, o Galaxy Fold começa a ser vendido no dia 26 de abril pelo preço sugerido de US$ 1.980. Veja um vídeo oficial:

Em novembro de 2018, uma até então desconhecida empresa norte-americana chamada Royole ganhou as manchetes de sites especializados em tecnologia do mundo inteiro. Ela havia colocado à venda, na China, o FlexPai, primeiro smartphone com tela dobrável do mundo.

Na CES, em janeiro de 2019, muita gente conseguiu colocar as mãos no FlexPai. A impressão unânime foi a de que, ok, é legal e diferente, mas ainda há muitas arestas a serem aparadas. Por não ser rente, a dobra deixa o produto bastante grosso no modo “portátil”; ele é pesado para um celular do seu tamanho; e o software está bem cru, com vários comportamentos inesperados e falhas esquisitas na transição entre tela dobrada e esticada.

Imagem mostrando a transformação do FlexPai.
FlexPai, o primeiro celular com tela dobrável do mundo. Foto: Royole/Divulgação.

Nenhum produto nasceu perfeito e não seria um celular dobrável, um desafio e tanto de engenharia, que quebraria a regra. Mas com a expertise das empresas que fabricam celulares com telas rígidas há mais de uma década, talvez esse amadurecimento venha rápido. Ajuda o fato de que tem muita gente interessada em emplacar o novo formato devido à pressão que a horizontalização do setor gera — todos os celulares são muito parecidos, o que dificulta a diferenciação técnica como argumento de venda.

Além da Samsung, que poucos dias antes do anúncio do FlexPai havia feito um “teaser” do seu celular dobrável e, nesta quarta, revelou seu Galaxy Fold ao público, outras também estão trabalhando ativamente nisso (curiosamente, todas chinesas):

  • A Xiaomi exibiu, como quem não quer nada, um vídeo em que o CEO da empresa mexe em um aparelho duplamente dobrável — a tela se curva em dois pontos.
  • A TCL avisou que está trabalhando em cinco aparelhos com telas dobráveis, um deles capaz de se converter em um relógio inteligente.
  • Sem dar detalhes, a Huawei também anunciou que trabalha em um celular com tela dobrável e pretende revelá-lo no dia 24 de fevereiro.
  • A Motorola, uma marca da Lenovo, causou algum frisson com uma patente sugerindo o retorno do saudoso Razr V3, popular celular que do tipo “flip” dos anos 2000, desta vez com a tela dobrável.

A julgar pela avalanche de anúncios, patentes e sugestões da indústria, alguém desavisado poderia imaginar que em poucos anos os celulares com telas rígidas serão peças de museu. Essa hipótese não está descartada, mas, caso ela se concretize, deve demorar. Antes disso, é preciso apresentar a solução ao público e demonstrar as suas vantagens.

É o que o povo quer

O protótipo de tela dobrável que a Samsung mostrou em novembro de 2018.
Os dois modos do protótipo que a Samsung mostrou em novembro. Foto: Samsung/Divulgação.

Embora não haja multidões em frente aos escritórios da Apple ou da Samsung clamando por celulares com telas dobráveis, de certa maneira são os consumidores que direcionam as empresas a seguir por esse caminho. O que eles querem, e os celulares com telas dobráveis tentam entregar, são telas maiores sem comprometer o tamanho físico dos aparelhos.

Brinco com Renato Meireles, analista de mercado em mobile phones & devices da consultoria IDC, dizendo que os consumidores querem, basicamente, que as leis da física sejam revogadas. É mais ou menos por aí: “O consumidor busca amplitude de tela para o celular sem deixar de lado o conforto na hora de guardá-lo e da pegada”.

Meireles cita dados da IDC para demostrar que o tamanho da tela na palma da mão tem crescido em proporção similar à dos anseios do consumidor. Em 2015, celulares com telas entre 4,5 e 5 polegadas eram 30% do mercado e os com telas entre 5 e 5,5 polegadas, 40%. No terceiro trimestre de 2018, a maioria dos aparelhos vendidos tinha telas entre 5,5 e 6 polegadas e 10% deles de 6 a 6,5 polegadas — essa última faixa sequer aparecia nos relatórios no início do ano.

O consumidor, argumenta Meireles, quer telas maiores porque tem usado o celular cada vez mais como substituto da TV. Diz o analista que, em pesquisas da IDC junto a consumidores finais, o uso do celular para assistir a vídeos por streaming tem crescido muito. “Você anda no metrô e vê muita gente assistindo ao YouTube, Netflix. Telas maiores, com bordas mínimas e arredondadas, estão muito ligadas a essa tendência do consumidor de usar o celular mais como TV”, explica.

É aí que a física começa a atrapalhar. Afinal, mesmo com o crescimento do uso do celular como tela de TV, ele ainda precisa caber no bolso e não ser muito grande a ponto de inviabilizar o manuseio com uma mão só.

As telas dobráveis, finalmente viáveis após anos aparecendo em feiras do setor na forma de protótipos e em vídeos institucionais que tentam imaginar o futuro, se apresentam como a possível solução para esse dilema. Pergunto a Meireles se se trata apenas de mais uma tentativa da indústria de empurrar uma tendência para vender mais celulares, afinal, o setor está maduro e, em 2018, as vendas estagnaram pela primeira vez na história. “Tem esse caráter sim”, ele diz, mas “tem muitos estudos por trás, de todas os fabricantes, que eles usam. Não é uma mera aposta”.

Em nota, a Samsung confirmou que essa ideia não surgiu do nada, nem é de agora. “Depois do lançamento dos protótipos de tela flexível na CES, em 2011, foram necessários outros sete anos para aperfeiçoar a tecnologia e proporcionar uma experiência verdadeiramente significativa aos usuários”, disse a empresa. “Desde o desenvolvimento de novos materiais até a superação de desafios mecânicos, a tela dobrável exigiu total reconfiguração do smartphone, de dentro para fora”.

Renders dos celulares com telas dobráveis da TCL.
Renderizações dos cinco protótipos em que a TCL trabalha. Imagem: TCL/Divulgação.

A tecnologia é tão incipiente que ainda não se sabe qual será o formato vencedor do celular com tela dobrável. Existem, pelo menos, cinco propostas (as da TCL). O FlexPai, por exemplo, usa apenas uma grande tela que se divide ao meio quando o aparelho está em modo “portátil”. Já o Galaxy Fold da Samsung tem duas telas: uma grande, que ocupa os dois lados do aparelho, e outra menor, nas costas de apenas um dos lados, para ser usada quando ele estiver dobrado. Há uma série de consequências, de custos de fabricação à usabilidade, que serão determinantes do modelo vencedor — se houver um.

O Manual do Usuário tentou falar com a Samsung e a LG para entender como as empresas veem o futuro da tecnologia de telas dobráveis. A Samsung declinou o pedido afirmando que não tinha informações a compartilhar além do release citado na matéria. Já a LG Electronics afirmou que a empresa que responde pela área de telas é a LG Display, que não tem representação no Brasil.

O que esperar do futuro

Os dois modos de uso do Nokia Morph, produto-conceito da Nokia.
Nokia Morph, o produto-conceito que a antiga Nokia via como o futuro. Imagem: Nokia/Reprodução.

A LG mostrou, no início do ano em Las Vegas, a versão comercial da sua TV que esconde a tela na base. É uma tecnologia que a fabricante sul-coreana apresenta há anos em feiras do setor e que, enfim, chegará ao mercado ainda em 2019. E, embora esteja em um produto “imóvel”, ela impressiona talvez mais que os smartphones dobráveis, pois trata-se de uma tela enrolável.

Se a utilidade de um celular grosso que dobra em uma parte específica pede uma justificativa muito bem elaborada da indústria, um celular que enrola como se fosse papel tem um apelo mais óbvio e abrangente. Um famoso vídeo da Nokia do tempo em que os finlandeses eram os líderes absolutos do mercado de telefonia móvel, passa uma boa ideia do potencial. Vem aí uma revolução digna do Nokia Morph?

Jaime Vegas, mestre e professor do curso de Design de Produtos da Belas Artes, em São Paulo, acredita que sim. Ele aposta que telas do tipo estarão nos produtos mais mundanos em breve e dá alguns exemplos de aplicações que elas viabilização ou melhorarão: “Até agora, vimos uma tela [rígida] que é colocada na porta da geladeira. Com essas novas telas flexíveis, você poderá fazer com que toda a frente da geladeira seja a tela, sensível a toques e colorida”. A maleabilidade permitirá a aplicação de telas em superfícies curvadas e com formatos hoje impossíveis: “Você poderá colocar [telas flexíveis] em cartões de visita ou mesmo no de crédito, que mostra o seu crédito no próprio cartão. Imagine uma mesa, um espelho curvo. Brinquedos e roupas que mudam de cor. Como a tela é flexível, você poderá enrolá-la e levar ela como se fosse um tubo e abri-la no metrô”.

A Samsung concorda: “Esperamos ver uma mudança radical no design do smartphone já nos próximos anos. Dispositivos que podem ser enrolados, esticados e que podem até se dobrar de várias maneiras, não estão mais fora da realidade”.

Alguns fatores podem agir e emperrar esse cenário digno de filme de ficção científica. Um dos principais é o custo, pelo menos nos primeiros anos. O FlexPai, o primeiro celular do mundo com tela dobrável, foi lançado por preços acima dos US$ 1,2 mil. Tudo bem que os últimos iPhone e Galaxy Note já haviam ultrapassado esse teto, mas todo o restante dos celulares à venda, não por acaso os mais populares, custam muito menos. O tíquete médio do celular vendido no Brasil no terceiro trimestre de 2018 era de R$ 1.340, segundo o IDC, longe dos R$ 10 mil que a Apple pede pelo seu iPhone topo de linha ou de sabe-se lá quanto o Galaxy Fold custará quando (e se) chegar ao país (provavelmente bem caro).

Vegas aposta que a popularização puxará os preços para baixo, tornando as telas rígidas um nicho. “Acredito que o futuro do mercado serão essas telas flexíveis”, diz.

O escorrimento de características dos celulares mais modernos (e caros) para o resto da pirâmide é muito comum no segmento. Meireles, da IDC, lembra de uma recente: as “telas infinitas”, ou seja, com bordas mínimas e/ou laterais levemente curvadas. Fabricantes de modelos populares, como a brasileira Multilaser com o MS80X (R$ 999), já conseguem produzir e vender celulares com esse tipo de tela, coisa que há quatro anos, na época dos primeiros Galaxy S da Samsung com “tela infinita”, só estava ao alcance do consumidor disposto a gastar mais de R$ 3 mil em um aparelho. A própria Samsung expandiu o recurso às suas linhas intermediárias, como o Galaxy J4 Core (R$ 899).

Esse cenário de massificação, porém, depende do sucesso dos primeiros aparelhos que, sem qualquer dúvida, serão vendidos a peso de ouro. Por ora, vender um celular com tela flexível é uma aposta a todos os envolvidos. À indústria, pela dúvida se o consumidor vai comprar a ideia. Para o consumidor, se as vantagens alardeadas pelo marketing dessas empresas realmente justificam o alto gasto e os possíveis problemas que as primeiras gerações da tecnologia terão.

Homem observa tela flexível da LG em uma mesa com dois níveis.
Tela flexível da LG em demonstração. Foto: LG/Divulgação.

Tanto é uma aposta que nem todos se jogaram na corrida pelo celular com tela dobrável. A ausência mais notável no grupo é a da sul-coreana LG. A empresa provavelmente já domina a técnica, afinal, consegue fazer uma TV com tela enrolável, tecnologia mais avançada que a das dobráveis. Em entrevista ao Korea Times, o chefe da divisão de dispositivos móveis e TVs da LG, Brian Kwon, disse que “ainda é cedo para a LG lançar um celular com tela dobrável”, mas que está “totalmente preparado” para responder [à demanda] dependendo da reação dos consumidores.

A história tem, aqui e ali, diversos casos de tecnologias fascinantes que não emplacaram. Algumas acabaram como espécies de paradoxos do tempo, tecnologias que, no passado, eram imaginadas como sendo do futuro, mas que não se realizaram por motivos outros que não técnicos. Ainda é cedo para dizer qual será o destino das telas flexíveis.

Atualizado às 17h40 com informações do Galaxy Fold.

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2 comentários

  1. Eu imagino telas flexíveis, finas, com bateria de grafeno de alta duração, mas só para 2030. Por enquanto teremos aparelhos à parte dos smartphones principais, algo para comer o mercado de tablets e uma parte razoável dos notebooks. São caros e a melhor demonstração até agora foi do modelo da Xiaomi, quero ver hoje o da Samsung, pq o da apresentação foi bem feio, se for igual o do vídeo, cuja imagem é a da capa da matéria, aí sim teremos algo no mínimo bonito

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