Mulher mexe em um iPhone Xs debaixo de chuva.

O iPhone deixou de ser um smartphone caro para ser coisa de gente rica


13/9/18 às 16h39

Na apresentação dos novos iPhone Xs, Xs Max e Xr, Phil Schiller, o chefão do marketing da Apple, disse que a empresa quer “alcançar o maior número possível de pessoas com essa incrível tecnologia”. Brinca-se na indústria que a Apple tem o “campo de distorção da realidade”, um poder de retórica capaz de subverter a razão e convencer mesmo os mais céticos a engolirem esse papo marqueteiro. Nesta quarta (12), o encanto foi quebrado. O iPhone ficou caro demais.

O trio de novos iPhones nasceu à imagem e semelhança do iPhone X, o experimento de US$ 1 mil (ou R$ 7 mil no Brasil) que a Apple lançou em 2017. Após molhar o pé nas águas inexploradas dos quatro dígitos em dólares, estabelecendo um novo patamar para se cobrar por smartphones, e descobrir que ali a água é quentinha e convidativa — o iPhone X foi o modelo mais vendido em todos os trimestre desde que foi lançado —, a Apple dobrou a aposta neste ano.

Desde 2016, o iPhone “de entrada” — desconsiderando modelos antigos que têm cortes de preços — subiu 15,4% nos Estados Unidos, o principal mercado da Apple, onde os preços do setor se mantêm estáveis por anos a fio. O de 2018, batizado de iPhone Xr, começa em US$ 750 por lá. O mais caro, o iPhone Xs Max de 512 GB, chega perto dos US$ 1.500. O iPhone Xs custa os mesmos US$ 1 mil do iPhone X e esse, em vez de continuar à venda com desconto, seguindo a tendência de anos anteriores, foi simplesmente descontinuado.

A Apple ainda não anunciou os preços para o mercado brasileiro. Todos os prognósticos apontam que eles serão muito caros. Com o câmbio turbulento por causa das eleições aqui dentro e das instabilidades comerciais no resto do mundo, o preço brasileiro dos agora antigos modelos de iPhone não acompanhou o corte norte-americano. Lá fora, o iPhone 8 caiu 14,3% (de US$ 700 para US$ 600); aqui, ele segue custando os mesmos R$ 4 mil de um ano atrás.

Fazendo uma regra de três simples (ou seja, considere os próximos números como chutes), não será surpresa se o iPhone Xr chegar ao Brasil custando mais de R$ 5 mil. O iPhone Xs Max de R$ 512 GB? Deve estabelecer um novo marco, o de smartphone na casa dos cinco dígitos, para além dos R$ 10 mil.

Mesmo com o campo de distorção da realidade em potência máxima, é difícil convencer uma pessoa razoável que um gasto tão expressivo em um smartphone é justificável.

Não me entenda mal, eu sei que o iPhone é caro. Ele sempre esteve no topo da cadeia e absolutamente ninguém que entende o mínimo de mercado espera um iPhone barato. Mas, em uma década de smartphones, o setor estabeleceu uma janela de preços previsível, que tornava o iPhone viável a uma parcela significativa dos consumidores, ainda que pequena, mesmo doendo no bolso e/ou a duras penas (parcelando ou esperando novas versões baratearem as antigas). Esse ciclo acabou.

Sinalizar o status social não é o único motivo que leva a alguém a comprar um iPhone. Há motivos bastante racionais nessa escolha. No básico, são produtos de primeira linha. A Apple desenvolve seus próprios chips, que estão anos à frente da concorrência; usa materiais de altíssima qualidade; e incorpora tecnologias ainda exclusivas, como o Face ID. Mais que isso: o iPhone é o único smartphone orientado à privacidade em um mercado dominado por apenas duas empresas. Neste duopólio, não importa se você escolhe Samsung, Motorola, Sony ou Huawei; qualquer coisa não-Apple no Ocidente significa Google, sua vigilância draconiana e as falhas de segurança do Android que jamais são corrigidas na maioria dos aparelhos.

A pesquisadora e colunista do New York Times, Zeynep Tufekci, escreveu no Twitter: “Perdi as contas dos dissidentes, jornalistas investigativos e outros ao redor do mundo sob grande risco de serem hackeados ou sujeitos a terríveis consequências que *sabem* que deveriam ter um iPhone por questões de segurança, mas não podem bancar um”. Entre aqueles que, mesmo em situação menos dramática, valorizam também a privacidade que apenas o iPhone oferece, a decepção é similar.

Mas nada disso importa para o que realmente importa ao mercado. Com as vendas de smartphones estagnadas, a saída da Apple para manter seu crescimento foi aumentar o preço médio de venda (ASP, na sigla em inglês). O da Apple sempre foi fora da curva; com o iPhone X, atingiu recordes históricos (US$ 724 no terceiro trimestre do ano fiscal de 2018). Agora, com todos os novos modelos sendo vendidos acima desse recorde (que, reforçando, é uma média), o ASP do iPhone tende a subir ainda mais. E, o que é mais surpreendente, em um ano em que as mudanças dos novos modelos para os anteriores e entre eles mesmos são ínfimas. Como colocou o analista Ben Thompson: “Ouso dizer que a estratégia [da Apple] beira o excesso de confiança”.

E é aqui que uma distinção importante aparece. Perfis que preferem o iPhone por funcionalidades ou privacidade, para quem o preço é um fator sensível, mas que asseguram uma margem do orçamento ao gasto com smartphone por valorizar as características únicas do iPhone, ficam desassistidos. Na prática, o que acontece é que iPhone finalmente assume a fama que, por muitos anos, lhe acompanhou injustificadamente. Ele deixa de ser um smartphone caro para ser um sinal de gente rica.

Foto do topo: Apple/Divulgação.

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