iPhone 8 de costas sobre uma mesa.

iPhone 8: mais do mesmo, só que melhor


16/1/18 às 16h09

Existe um aspecto no previsível que, com frequência, é negligenciado ou até desvalorizado — especialmente em indústrias movidas a novidades reluzentes, como a de tecnologia de consumo. A crítica bate forte em produtos que não se diferem muito, no visual, dos seus antecessores, mas se esquece de que, às vezes, mudar por mudar causa mais mal do que traz benefícios e que há algo a ser apreciado no mais do mesmo. Caso em tela: o iPhone 8.

Anunciado em setembro de 2017, o iPhone 8 traz o mesmo visual do iPhone 6, de 2014, com mudanças tão sutis que provavelmente passam batidas por aqueles que não acompanham os lançamentos de smartphones. Uns mais maldosos (ou realistas) chegam a dizer que se trata de um “iPhone 6sss”, pois é o quarto modelo com o mesmo design — antes dele, tivemos o iPhone 6, 6s e 7.

A semelhança visual é incontestável. Mesmo as maiores mudanças do modelo, como a traseira, agora de vidro, são incapazes de tirar o iPhone 8 da sombra dos seus antecessores.

E… está tudo bem. Não tem problema, de verdade.

Troquei o iPhone 6s, em uso havia dois anos, por um iPhone 8. Foi uma troca estritamente racional. No geral, estava bastante satisfeito com o iPhone antigo. A compra do novo foi mais por uma questão de oportunidade (estava no lugar e em um momento favorável) somada à perspectiva de que ela me dará fôlego para passar outros dois anos sem pensar em celular — desconsiderando eventualidades como quedas e furtos. E sem margem para erro, afinal, o novo é quase igual ao que eu usava e ao qual estava habituado.

Minha expectativa e desejo eram que a substituição fosse o menos conturbada possível. E, de fato, em grande parte foi quase como trocar seis por meia dúzia: o sistema, o modo de usar e o design são praticamente idênticos. Porém, o que não antecipava era como dois anos de aperfeiçoamentos internos fariam tanta diferença no dia a dia. É essa diferença que pretendo comentar abaixo.

Migração tranquila

Dois iPhones em processo de migração de conteúdo.
Foto: Rodrigo Ghedin.

O que mais me impressionou nesse período não foi algo do iPhone 8 em si, mas o processo para migrar do 6s para ele.

A Apple usa um sistema passo a passo que recorre ao NFC e a um código QR para parear e transferir os dados de um iPhone antigo para um novo. O mais importante é que funciona tão bem, e sem qualquer susto (ainda que demore um pouco, talvez pelo tanto de coisas que tinha no iPhone antigo), que não vejo muito motivo para tentar o método alternativo, de fazer toda configuração manualmente.

Eu sempre preferi essa, ou seja, configurar novos dispositivos do zero, baixando todos os apps, autenticando-me neles e sincronizando os dados, um a um, mas acho que não precisamos mais disso. A comodidade fala mais alto e não há tantos contratempos como, sei lá, na época do Windows 981.

O maior avanço: bateria

Do antigo iPhone 6s, a bateria era a parte mais complicada de lidar. A saúde dela está ok (ele ainda não foi afetado pela degradação de desempenho), mas sentiu o peso das novas versões do iOS, principalmente o iOS 11. Estava conseguindo chegar ao fim do dia com carga sobrando, porém com ela mais próxima de zerada do que dos 100%.

Com o iPhone 8, é comum voltar para casa no fim do dia, após o expediente no jornal, com cerca de 70% da carga. Não poderia ser apenas o estado de novo da bateria, e acredito que não seja. O chip A11 “Bionic” do iPhone 8, o mesmo que equipa o iPhone X, é mais esperto. Ele tem seis núcleos, quatro deles dedicados a tarefas menos intensivas e, por isso mesmo, mais econômicos no consumo de energia. O iPhone 6s tem dois núcleos idênticos.

Atribuo a essa flexibilidade no processamento durante o repouso, estado em que o iPhone 8 passa a maior parte do dia, a duração espantosa da bateria — e, evidentemente, ao meu perfil, de alguém que usa pouco o celular.

A bateria externa (ou “powerbank”), que tirava da bolsa com frequência cada vez maior nos últimos meses de uso do iPhone 6s, está esquecida lá dentro desde que fiz o upgrade e é bem bom sair de casa com a bateria pela metade sem o receio de que ela possa morrer abruptamente após tirara algumas fotos ou usar o GPS.

Desempenho e câmera

Detalhe das câmeras dos iPhones 6s e 8.
Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo.

Quando me perguntam o que achei do iPhone 8, para resumir digo que é igual o iPhone 6s, porém mais rápido e com uma câmera melhor.

Seria estranho, para qualquer smartphone, que esses quesitos piorassem em uma geração mais nova, mas a velocidade do já referido A11 “Bionic” é um caso à parte na indústria: ele chega a ser mais rápido que chips da Intel para notebooks.

No dia a dia, porém, embora a diferença para o A9 do iPhone 6s se faça notar, é bem menos do que os números de benchmarks sintéticos podem levar alguém a crer. Em outras palavras, a sensação é de que o iPhone 8 é marginalmente mais rápido que o 6s, e não quase o dobro como apontam os testes do Geekbench 4.

Talvez sejam as animações do iOS, ou o A9 ainda seja rápido o suficiente para os apps que uso, mas são pontuais os momentos onde o A11 é visivelmente muito mais rápido que o A9. Tanto que, como disse ali em cima, estava satisfeito com o iPhone 6s — mesmo há dois anos no mercado, ele segue apresentando um bom desempenho.

Claro, o poder do A11 ajuda em momentos mais críticos. Alguns apps mal programados ou jogos meio pesados abrem mais rápido e nenhuma animação engasga, nunca. Mas esse poder meio que sobra. Alguém que esteja com um iPhone 7, por exemplo, não tem motivo algum para trocá-lo pelo mais recente.

No caso da câmera, a Apple fez alguns ajustes na calibração das cores (estão mais quentes) e conseguiu melhorar levemente a definição das fotos. Até aqui, nada muito dramático. O que se destaca pra valer é a estabilização ótica de imagem, que foi implementada no iPhone 7 e faz uma boa diferença na hora de fotografar objetos em movimento ou em ambientes pouco iluminados/noturnos.

Mudanças de design dúbias

iPhone 8 ligado segurado por uma mão.
Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo.

O principal motivo de a Apple ter aposentado o design unibody em metal usado desde o iPhone 5 e ter trazido de volta o “sanduíche” de vidro do antigo iPhone 4 para a última versão do smartphone não foi nostálgico ou sequer estético. Foi um funcional: para permitir a recarga por indução, ou seja, sem fios.

Não aproveito essa vantagem porque o carregador do tipo é vendido à parte, custa caro e é mais lento que por fio, com o cabo Lightning que vem na caixa. E, convenhamos, plugar um cabo no celular antes de dormir não é o tipo de problema que me tira o sono ou causa transtorno.

Com isso, senti-me dividido em relação à mudança. Mesmo esteticamente é difícil definir se ela foi um progresso ou se o contrário. Conta pontos a favor a “limpeza” do novo design. Na parte de trás da cor “cinza espacial”, o iPhone é de fato cinza escuro, quase preto. Ali, só sobraram o logo da Apple e o nome “iPhone”, sem qualquer outra inscrição ou entalhe (o logo da Apple fica sob o vidro).

Mas, pessoalmente, eu gosto muito do visual industrial do metal puro, sem tinta, dos antigos iPhone 6 e 6s. Ele passa a impressão de que se trata de um negócio mais honesto, menos kitsch.

Em termos práticos, outra vez as sensações são conflitantes. O vidro tem mais aderência na mão que o metal, o que faz o iPhone 8 menos suscetível a quedas. Mas, em superfícies, o vidro desliza e qualquer inclinação, por mínima que seja, pode levar a tombos fatais. O meu já caiu de uma mesa de uns 80 cm, com a tela virada para o chão. Por sorte, não ficaram sequelas (sequer um arranhão), apenas a lição para não fazer mais isso.

Em suma, estava bom, ficou melhor em uma parte, pior em outra, nada que inviabilize o uso, tampouco algo que mereça elogios efusivos.

Novidades para mim, mas não na linha (elas foram introduzidas no iPhone 7), são o Taptic Engine (motor de vibração) e o “botão” de início que na realidade não é mais um botão.

O Taptic Engine não funciona apenas em ligações e notificações. Ele em ação na rolagem de listas, ao fazer seleções e em outras ações que acontecem no sistema. E no uso do tal “botão” de início. Embora pareça um detalhe bobo, é algo que aproxima ainda mais o hardware do software e torna o uso do dispositivo mais agradável. As interfaces parecem mais vivas quando somam o tato à visão e audição.

Já o novo “botão” de início confere mais confiança ao usá-lo no dia a dia — embora as quebras desse botão sejam algo do passado, muita gente ainda se sente receosa de usá-lo2. O feedback tátil é menor e, sobre mesas, apertá-lo ficou um pouco mais difícil, porém nada muito relevante.

Vale a pena?

iPhone 8 e 6s dispostos em uma mesa.
Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo.

O iPhone 8 é o iPhone 6 — ou o 6s — atualizado. Parece estranho, no segmento frenético dos smartphones, com lançamentos anuais e até semestrais e evoluções drásticas entre gerações, manter o mesmo design por quatro longos anos. Mas, se olharmos para as outras linhas de produtos da Apple, é o iPhone a exceção — MacBook, iMac, iPad e até o Apple Watch mantêm o mesmo visual por anos, apenas com melhorias no desempenho e outros aperfeiçoamentos internos.

O iPhone 8 não é um smartphone que chama a atenção como o iPhone X ou o Galaxy S8, mas é um bastante confiável, com um design testado e comprovado, e que cumpre todas as exigências para ser um smartphone competente em 2018. (“Tela infinita” é muito bonita, mas não é, em absoluto, essencial.)

O iPhone 8 é a consolidação do smartphone utilitário, da tecnologia enquanto meio e não fim. Da tecnologia como ela deve ser.

Foto do topo: Jonathan Campos/Gazeta do Povo.


  1. Talvez já tenhamos atingido esse estágio antes e eu o tenha ignorado até hoje por receio, quase um reflexo, dos velhos tempos (e antigos traumas) de atualizações catastróficas entre versões do Windows 9x.
  2. Passei dois anos usando diariamente o botão de início no iPhone 6s e nem sinal de desgaste ou quebra.

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