Review do iPhone 6s.

[Review] iPhone 6s


27/1/16 às 9h43

Poucos produtos são tão icônicos quanto o iPhone. Responsável por desencadear a revolução dos smartphones, desde 2007 ele define os rumos do setor, inspira legiões de adoradores e detratores (ambas igualmente irritantes) e faz boa parte do caixa da empresa mais valiosa da história — atualmente quase 2/3 da Apple é feito de iPhone. Por que se fala tanto nele e, em igual medida, tantos desejam ter um? Usei a última versão do aparelho, o iPhone 6s, para tentar responder a essas questões.

Desde a segunda versão do iPhone, a Apple mantém um cronograma previsível, bianual: num ano lança um modelo totalmente novo e, no seguinte, mantém o visual, mas altera as entranhas do aparelho. O ano de 2015 foi um desses do segundo tipo, com o iPhone 6s aperfeiçoando o iPhone 6, apresentado no anterior. Embora tenha feito algumas mudanças externas, como a troca da liga metálica do corpo e aumentos quase microscópicos em espessura e peso, é virtualmente impossível diferenciar, de soslaio, um iPhone 6 de um iPhone 6s. O que não significa, como veremos, que sejam aparelhos idênticos.

Mais do mesmo, só que maior

O iPhone 6s tem uma tela de 4,7 polegadas.

O anúncio do iPhone 6 marcou a ruptura em um dos dogmas do finado Steve Jobs, o de que smartphones devem ser pequenos. Sem cerimônia ou qualquer explicação, os dois novos modelos, de 4,7 e 5,5 polegadas (iPhone 6/6s Plus), surgiram, suplantando o que talvez fosse o último smartphone feito para ser usado confortavelmente com uma mão só — no caso, o iPhone 5s, com tela de 4 polegadas.

Para quem vinha de um iPhone antigo, essa é a primeira e mais longeva diferença. No meu caso, uma negativa. É legal ter uma tela maior, com mais área visual para os apps. Nesse sentido o aumento é um ganho em praticamente todos os casos de uso imagináveis. Por outro lado, ele dificulta o manuseio, especialmente a digitação com apenas uma mão. Não que seja um negócio tão grande a ponto de prejudicar a usabilidade — como imagino que deva ser o iPhone 6/6s Plus e como são os aparelhos de 6 polegadas que já tive a oportunidade de testar — mas já é um ponto que ultrapassa o que eu considero o tamanho ideal. Talvez se não houvesse aquelas “sobras” frontais em cima e embaixo…

Somado a isso, o acabamento e as escolhas de design da Apple para este modelo criaram um problema ergonômico. As bordas chanfradas dos iPhones 5 e 5s deram lugar a cantos bem arredondados. Além de esteticamente pior, o fato de ser feito de metal deixa o iPhone 6s escorregadio e suscetível a quedas bobas. Partir para uma tela maior exigiu alguns sacrifícios, afinal, e pela primeira vez em muitos anos me vejo usando um celular com (argh) capinha.

Detalhe da tela do iPhone 6s.

Aliás, fora o tamanho, a tela continua estupenda. Ela não tem a maior resolução do mercado, mas porque não precisa. Pixels são indistinguíveis e o equilíbrio de branco e precisão das cores são excelentes. É realmente difícil encontrar pontos fracos aqui.

Mais do mesmo, com melhorias graduais

O grande trunfo do iPhone e, ao mesmo tempo, maior crítica que ele costuma receber (ainda que geralmente de quem não usa um ou não tem interesse nisso) é a familiaridade. Fora o tamanho, voltar à plataforma da Apple, vindo de um iPhone 5, meu antigo aparelho, foi uma experiência confortável. O iPhone 6s é extremamente rápido e, de um ponto de vista menos pragmático, mais subjetivo, essa foi a maior diferença que senti. Talvez a única, porque de resto foi como estar em casa novamente.

Não é como se o iOS, atualmente na nona versão, estivesse estagnado. A Apple mantém o pulso firme no que permite e no que acrescenta ao seu sistema móvel. Novamente: alguns veem nisso sinais de retrocesso, ou uma espécie de cerceamento da “liberdade” de se alterar o software. Para quem quer apenas usar um smartphone confiável, fácil e, ao mesmo tempo, poderoso, não há do que reclamar, porém. Gosto de como as coisas são organizadas e apresentadas, e do cuidado aparente na inserção de novos recursos. Obviamente há espaço para melhorias, mas elas não são urgentes (porque o sistema já é muito bom) e não deveriam, como não acontece de fato, sobrepujar a qualidade do que já se tem à mão.

É tudo sobre velocidade

O iPhone 6s é rápido, e não só em cargas brutas, onde supera, em processamento por núcleo, praticamente todos os outros chips ARM do mercado — provando, mais uma vez, que contagem de núcleos funciona mais com o pessoal do marketing do que na prática. Há atalhos, facilitadores no software e no hardware para agilizar ações triviais, dessas que realizamos várias vezes ao dia.

Botão home do iPhone.

Talvez o maior exemplo dessa velocidade indireta do aparelho seja a nova versão do Touch ID, o sensor de digitais que serve para desbloquear o iPhone e autenticar em alguns apps. Quem tem por hábito desbloquear o iPhone diretamente pelo botão home corre o risco de nunca mais ver a tela de bloqueio do iOS. É rápido assim e com uma taxa de erros na identificação das digitais irrisória.

Outra característica que, indiretamente, torna o aparelho mais esperto é a quantidade de RAM, a memória volátil usada pelo sistema e pelos apps. Este é o primeiro iPhone com 2 GB, o dobro das gerações passadas. Ela se faz sentir no tanto de apps e páginas web que consegue “segurar” antes de colocá-los num estado de congelamento. Na prática, isso se traduz em alternâncias mais rápidas entre um app e outro, uns poucos milissegundos que podem até passar batidos na hora, mas ajudam a economizar tempo no acumulado.

Não costumo jogar, então ficarei devendo uma análise desse departamento. Apesar disso, não há por que duvidar da capacidade gráfica do iPhone 6s. Para quaisquer perfis, ele não decepciona quando o assunto é desempenho.

E, não que importe muito à maioria pelos próximos anos, mas as tecnologias de conectividade (Wi-Fi, LTE) foram atualizadas para aumentar a velocidade máxima e a compatibilidade com redes móveis.

Bateria menor, só que na mesma

iPhone 6s de costas, na mesa.

Se você se der ao trabalho de olhar a tabela de especificações do iPhone 6s lado a lado com a do modelo anterior, notará que um item regrediu. A bateria, que no iPhone 6 tinha capacidade de 1810 mAh, nessa atualização diminuiu para 1715 mAh.

É uma diminuição de 5,2% na capacidade. Com as otimizações no gerenciamento de energia, a perda acaba anulada e fica elas por elas. (Não usei o iPhone 6, mas quem sim diz que a autonomia continua na mesma.)

iPhone nunca foi sinônimo de baterias de longa duração, tanto que a Apple lançou, recentemente, uma capa oficial com bateria interna na tentativa de satisfazer a parcela de heavy users. Isso parece o caso porque, embora restrita, a bateria do iPhone sempre teve uma meta: chegar ao fim do dia. E, a menos que você seja um ~influenciador que publica no Snapchat cada passo da sua vida, ela consegue. Comigo ela quase sempre chega ao final do expediente próximo do vermelho (~20%). E com o iOS 9, a Apple implementou um sistema de economia que promete estender mais esses últimos momentos de vida antes do desfalecimento por falta de energia.

A bateria do iPhone passa bem longe das melhores do mercado. Moto X Play e Moto Maxx, por exemplo, sobram nesse quesito. Mas eles falham em outros, como ergonomia e espessura. São comprometimentos que devem ser feitos e, como a Samsung nos mostrou com o (ótimo) Galaxy S6, valem para todos.

3D Touch, a novidade do iPhone 6s

Abrindo opções do Instagram via 3D Touch.

Sendo uma versão “s”, as mudanças são, em sua maioria, invisíveis ao usuário — elas se concentram dentro do aparelho. Mesmo assim, todo iPhone Xs trouxe algo peculiar: velocidade no iPhone 3GS (“S”, nesse caso, vinha de “speed”), a Siri no 4S e o Touch ID no 5s. O destaque do iPhone 6s é o 3D Touch.

O 3D Touch acrescenta profundidade aos toques na tela. Seu mecanismo faz com que o iPhone 6s identifique não só o toque, mas a pressão exercida por ele. Aperte com mais força e coisas diferentes acontecerão. E, sim, pode apertar com força mesmo, sem medo de quebrar.

Tem gente apelidando o 3D Touch de “botão direito do iPhone”. É uma analogia que faz sentido, pelo que foi apresentado até agora. O iOS traz alguns truques bacanas, como as ações rápidas nos ícones da tela inicial e o acesso à tela de multitarefa com um toque mais forte na lateral esquerda da tela — o que é bem legal e, espero, ajudará a acabar com aquele botão virtual de acessibilidade que um povo usa para não “gastar” o botão home. Outra aplicação utilíssima é a que transforma o teclado virtual numa espécie de touchpad, com um apertar mais forte, a fim de mover o cursor pelo campo de texto selecionado.

Quanto aos apps, os desenvolvedores precisam dar suporte ao 3D Touch. Alguns, além da própria Apple, já se movimentaram a fim de tornar isso possível. Dos que eu uso, vejo-me apertando a tela com mais força no Instagram (pré-visualização de miniaturas) e no Mail (pré-visualização das mensagens com ações em ambas as laterais). WhatsApp, Tinder, Spotify, Feedly, Tweetbot, Nubank, Dropbox… todos esses já contam com um ou outro recurso liberado pelo 3D Touch.

O 3D Touch fica na interseção entre o útil e o dispensável. Tê-lo ali faz com que você o utilize em diversos contextos, mas não é algo que muda a vida, ao menos por ora. Sendo um recurso novo e inovador, é preciso dar tempo ao tempo para que novas aplicações, aquelas realmente exclusivas e imperdíveis, apareçam. O potencial está ali, só não foi desenvolvido ainda.

Como sempre, uma ótima câmera

Protuberância da câmera do iPhone 6s.

Sim, ainda há uma protuberância na câmera principal no iPhone 6s. Não chega a ser algo feio, mas dá um aperto no peito o perigo de, colocado numa mesa qualquer, esse saltado ocasionar risco na lente ou qualquer coisa do tipo.

Pelas críticas e comparativos já vistos, o salto de qualidade geracional entre as câmeras do iPhone 6 e 6s foi um dos menores até o momento. É verdade que a do 6s tem resolução maior, 12 contra 8 megapixels, mas, fora tirar fotos maiores e permitir vídeos em 4K, em termos qualitativos não houve grandes melhorias.

O que, dado o histórico, não é exatamente um problema. Se tem uma área onde o iPhone sempre se consagrou e que por muito tempo deixou a concorrência no chinelo, essa é câmera. Ano passado, a Samsung e a LG conseguiram equilibrar o jogo — e, tenho comigo, a Samsung conseguiu superar a Apple. Se em qualidade pura nas condições ideais o iPhone 6s já não é hegemônico, ele ainda mantém uma cabeça de vantagem no procedimento de fotografar. O app simples e confiável, o foco extremamente rápido e, novamente, confiável, estimula o usuário a tentar fotografias mais rebuscadas e, não raro, conseguir na prática o que se pretende, mesmo quando as condições são bastante adversas.

Veja algumas das fotos que fiz com o iPhone 6s.

Câmera do iPhone 6s vista de outro ângulo.

Ah, e tem as Live Photos, que pela forma como são capturadas (automaticamente, sem qualquer diferença de uma foto comum), acabam tendo algum apelo. É diferente da implementação da Samsung, que reservava ao recurso um modo específico, gerando complexidade e, em último grau, descaso. Já salvei foto por causa dos sons e das imagens “antes e depois”, mesmo a foto em si não tendo ficado tão boa.

Na frente, ou seja, na câmera para selfies, o upgrade foi significativo. A fraca câmera de 1,2 megapixel do iPhone 6 deu lugar a uma de resolução e qualidade maiores. E na falta de um flash frontal, a Apple recorreu a uma tela branca super brilhante para iluminar os rostos na balada. É um quebra-galho que ora funciona, ora não.

Por quê?

iPhone 6s, visto de baixo.

Ainda existem outras pequenas novidades aqui e ali, como a Siri acessível por voz (mesmo com o iPhone bloqueado) e o novo motor motor de vibração que, a exemplo do 3D Touch, veio importado do Apple Watch. São outros pequenos detalhes que acrescentam à experiência. Mas, no geral, até que ponto essa vale o que a Apple cobra?

No último guia de compras de smartphones, publicado aqui no Manual do Usuário, recomendei o iPhone no último grupo, o do “dinheiro infinito”. Claro, foi uma brincadeira; como muitas delas, uma com um fundinho de verdade.

Ter um iPhone não implica em ter “dinheiro infinito”, mas sim em ter uns bons trocados sobrando. O iPhone 6s tem preço sugerido de R$ 3.999 na versão de 16 GB, que é insuficiente para um smartphone desse calibre — só de fotos e apps, lá se vai quase todo o espaço disponível. Em promoções, já chegou a ter 25% de desconto no Brasil, o que levou seu preço a um patamar mais aceitável, mas ainda assim acima da barreira dos R$ 3.000 e, portanto, fora do alcance da maioria.

Então, por quê? Para mim, o iPhone se justifica em sua consistência. Nenhum outro smartphone do mercado é tão equilibrado, em todos os aspectos que fazem um, quanto o da Apple. Em vários, ele se supera e dita o ritmo da indústria — câmera, acabamento, software. Não há do que se queixar num nível que faça alguma diferença real ou, posto de outra forma, nenhuma falha tão grave a ponto de desabonar o aparelho como um todo.

É caríssimo e reconheço que a justificativa que apresento aqui é insuficiente. Ainda mais quando se tem alternativas tão boas quanto, caso do Galaxy S6, por quase metade do preço. Se nos EUA a Apple compete com as outras fabricantes pelo mesmo consumidor, devido ao modelo de fortes subsídios das operadoras que vigora lá, aqui, com preço cheio como regra, ela joga sozinha na ponta de cima da tabela. No Brasil, quem tem mais de R$ 3 mil para gastar num smartphone não tem motivo para comprar outro aparelho que não o iPhone — exceto se rola alguma birra ou incompatibilidade com o iOS ou a Apple.

Ninguém, nem a pessoa mais exigente, precisa de qualquer coisa acima de um Moto X Play. Mas quem prefere o melhor, tem no iPhone 6s, hoje, essa opção.

Revisão por Guilherme Teixeira.

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